Festa do Batismo do Senhor


Amados irmãos e irmãs

Celebramos neste domingo, 10, a Festa do Bastimo do Senhor, com isto encerramos o Tempo do Natal e retornamos ao Tempo Comum.

Este dia é marcante não só para a Igreja como também para nós. É um dia de retornarmos ao nosso Batismo, fazermos memória dele. Mas também é dia de tomarmos plena convicção de que aquilo que recebemos não é uma mera simbologia, um significado da nossa entrada à vida cristã. É um testemunho fiel que devemos dar mediante as divergencias dos mandamentos de Deus que o mundo propõe. É um testemunho de que agora, como cristãos, devemos dar, não só com palavras, mas com a própria vida, doando-nos pela causa do Evangelho.

Mas o que representa o Batismo do Senhor? O que ele quer nos dizer hoje?

Em primeiro lugar, antes de entrar no comentário ao Evangelho, avaliemos mais um pouco o que é o Batismo.

Além de introduzir-nos como membros da Igreja e, portanto, membros partícipes do corpo de Cristo, este sacramento indelével é a porta de acesso a outros sacramentos. “Pelo Batismo somos libertados do pecado e regenerados como filhos de Deus, tornamo-nos membros de Cristo, somos incorporados à Igreja e feitos participantes de sua missão: ‘Baptismus est sacramentum regenerationis per aquam in verbo – O Batismo é o sacramento da regeneração pela água na Palavra’ (Catech. R. 2,2,5.)” (Catecismo da Igreja Católica, 1213).

Não se pode querer aderir ao Cristo sem aderir-se à sua Igreja. Ela é a esposa de Cristo que Ele mesmo escolheu irrevogavelmente para Si. Não podemos omitir a Igreja da sua contribuição nos sacramentos.

O Batismo nos dá também a garantia de vida eterna, já que, incorporados com Cristo e assumindo nossa missão cristã, estamos a serviço do Reino de Deus e lutamos contra as tentações do pecado:
Tudo o que tem início na terra cedo ou tarde termina, como a erva do campo, que desponta de manhã e murcha ao anoitecer. Mas no Batismo o pequeno ser humano recebe uma vida nova, a vida da graça, que o torna capaz de entrar em relação pessoal com o Criador, e isto para sempre, para toda a eternidade. Infelizmente o homem é capaz de sufocar esta vida nova com o pecado, reduzindo-se a uma situação a que a Sagrada Escritura chama “segunda morte”. Enquanto nas outras criaturas, que não estão chamadas à eternidade, a morte significa apenas o fim da existência na terra, em nós o pecado gera uma voragem que corre o risco de nos engolir para sempre, se o Pai que está nos céus não nos tende a sua mão. Eis, queridos irmãos, o mistério do Baptismo: Deus quis salvar-nos indo ele mesmo até ao fundo do abismo da morte, porque cada homem, mesmo quem caiu tão em baixo que já não vê o céu, possa encontrar a mão de Deus à qual se agarrar e subir das trevas para ver de novo a luz para a qual ele é feito. Todos sentimos, todos percebemos interiormente que a nossa existência é um desejo de vida que invoca uma plenitude, uma salvação. Esta plenitude de vida é-nos dada no Baptismo.

(Papa Bento XVI, Homiliana Festa do Batismo do Senhor, 2008)
No Evangelho a narrativa do Batismo do Senhor feita por São Lucas inicia falando da pregação que João fazia no Jordão e do Batismo que ele fazia para que, chegando o Messias, encontrasse todo o povo preparado. “Quando todo o povo estava sendo batizado, Jesus também recebeu o batismo. E, enquanto rezava, o céu se abriu e o Espírito Santo desceu sobre Jesus em forma visível, como pomba. E do céu veio uma voz: “Tu és o meu Filho amado, em ti ponho o meu bem-querer” (vv. 21-22).

Podemos notar duas coisas importantes e de maior destaque.

Primeiro é salutar reafirmarmos aqui a frase em destaque que é a voz de Deus. Ela já havia sido prefigurada por Isaias na primeira leitura. Jesus é o servo escolhido por Deus para instaurar no mundo o Reino que Ele havia preparado. Um Reino diferente do que os homens terrenos costumavam presenciar. Não um reino de opressão, de violência, de domínio terreno; mas um Reino de confiança, de amor, de esperança, um Reino surpreendente. O homem atual está sequioso deste Reino. E para que este Reino seja presente no mundo Ele o confia a Seu Filho Jesus.

Outro algo essencial que podemos notar é a manifestação da Trindade. O Pai, representado pela voz; o Filho que é Jesus; o Espírito que é a pomba. Manifestando a comunidade onde recebemos nosso Batismo, a unidade de todos. “Então o Espírito revela a Sua divindade, pois dirige-Se para Aquele que tem a mesma natureza. Uma voz desce do céu para dar testemunho Daquele que do céu vinha; e, sob a aparência de uma pomba, honra o corpo, pois Deus, ao mostrar-Se sob uma aparência corpórea, diviniza igualmente o corpo. Foi assim que, muitos séculos antes, uma pomba veio anunciar a boa nova do fim do Dilúvio (Gn 8,11). […]” (São Gregório de Nazianzo, Homilia 39, para a festa das Luzes)

É certo que Cristo não necessitava do Batismo, ele não teve nenhum pecado, apesar de sofrer suas consequencias. Mas recorda São Paulo que “aquele que não conheceu pecado, ele [Deus] o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus.” (2 Cor 5,21).

Mas por que Cristo quis ser imergido na água? A esta pergunta de primeiro modo parece difícil darmos uma resposta, mas esta seria a melhor forma: Ele foi imergido para emergir. Para tal compreensão ouçamos mais uma vez Gregório: “Cristo é iluminado pelo batismo, resplandeçamos com Ele; Ele é mergulhado na água, desçamos com Ele para emergir
com Ele
. […] João está a batizar e Jesus aproxima-Se: talvez para santificar aquele que O vai baptizar; certamente para sepultar o velho Adão no fundo da água. Mas, antes disso e com vista a isso, Ele santifica o Jordão. E, como Ele é espírito e carne, quer poder iniciar pela água e pelo Espírito. […] Eis Jesus que emerge da água. Com efeito, Ele carrega o mundo; fá-lo subir consigo. «Ele vê os céus rasgarem-se e abrirem-se» (Mc 1,10), ao passo que Adão os tinha fechado, para si e para a sua descendência, quando foi expulso do paraíso que a espada de fogo defendia” (idem).

E poderiamos dizer que Cristo quis nos ensinar, quis nos dar o exemplo da grande importância do Batismo para o homem, para a sua salvação.

Possa esta Festa do Batismo do Senhor fazer-nos cristãos sinceros e testemunhas vivas e autênticas do Evangelho. “Sede inteiramente purificados e purificai-vos sempre. Pois nada dá tanta alegria a Deus como a recuperação e a salvação do homem: é para isso que tendem todas estas palavras e todo este mistério. Sede «como fontes de luz no mundo» (Fil 2,15), uma força vital para os outros homens. Como luzes perfeitas secundando a grande Luz, iniciai-vos na vida de luz que está no céu; sede iluminados com mais claridade e brilho pela Santíssima Trindade” (idem).

Salve Maria Santíssima!