Resistência alemã antinazista pediu a Pio XII que não interviesse diretamente contra Hitler


 Fonte: ACI Digital
Roma, 8 de fevereiro de 2010 (ACI). – O L’Osservatore Romano publicou um artigo no que, através de uma série de documentos históricos, comprova-se que a resistência alemã antinazista pediu ao Papa Pio XII não intervir diretamente contra Hitler; em uma clara resposta aos caluniadores do Papa Pacelli que o acusam falsamente de haver mantido-se em “silêncio” ante o holocausto, quando, em realidade ajudou a salvar a vida de mais de 800 mil judeus.
O artigo escrito pelo historiador e catedrático italiano Roberto Pertici, explica que o documento 242 que faz parte de uma relação dedicada ao Vaticano e os Estados Unidos publicada em Milão em 1978, elaborada por Ennio Di Nolfo, dá a conhecer o testemunho do advogado católico alemão Josef Müller, que fazia parte da resistência alemã antinazista e que foi o contato com a Santa Sé entre 1939 e 1940.
“Müller era parte dos serviços secretos alemães (Abwehr)” que constituía “um dos centros ocultos da oposição anti-hitleriana. Foi enviado a Roma com uma desculpa, mas com a missão de tomar contato com o entorno do Papa (no qual havia vários bispos alemães) e informar a Pio XII sobre o projeto da oposição alemã para derrocar Hitler e construir uma Alemanha democrática”, explica o artigo.
As vitórias de Hitler na Noruega e na França fizeram abortar a operação, ainda que a não tenha impedido de gerar um contato claro.
Müller foi detido em 1943 para logo ser conduzido a um campo de concentração. Depois de sua liberação, por parte do exército americano em 5 de maio de 1945, o advogado chegou ao Vaticano em 2 de junho e escutou o Papa Pio XII condenar enérgica e publicamente o nazismo.
“Podem ver – disse o Pontífice naquela ocasião – o que fica atrás de uma concessão e uma atividade do Estado que não tem em conta os sentimentos mais sagrados da humanidade, que pisoteia os invioláveis princípios da fé cristã. O mundo inteiro, estupefato, contempla hoje a ruína” gerada pelos nazistas.
Naquela ocasião o Papa Pacelli também recordou sua contribuição na encíclica Mit brennender Sorge de 1937 que condena o nazismo e sua mensagem radial de Natal de 1942 contra a perseguição nazista.
De tudo isto e outros temas relacionados, Müller conversou em 3 de junho de 1945 com Harold H. Tittmann, o jovem encarregado dos assuntos americanos perante a Santa Sé. Depois do diálogo enviou um completo relatório a seu superior Myron Taylor, o representante pessoal do Presidente dos Estados Unidos ante o Pontífice.
O relatório de Harold Tittmann dizia à letra: “o doutor Müller disse que durante a guerra sua organização antinazista na Alemanha tinha insistido muito que o Papa evitasse qualquer declaração pública especificamente dirigida como condena contra os nazistas, e tinha recomendado que as observações do Papa se mantivessem entre os limites das considerações gerais”, como efetivamente fez Pio XII.
“O doutor Müller – prosseguia Tittmann – afirmou que foi obrigado a dar este conselho porque se o Papa tivesse sido específico, os alemães o teriam acusado de ceder às pressões de potências estrangeiras e isso teria gerado mais suspeita sobre os que não era católicos alemães e haveria restringido grandemente sua liberdade de ação em seu trabalho de resistência ao nazismo”.
Tittmann também disse que “o doutor Müller disse que a política da resistência católica na Alemanha era que o Papa devia manter-se à parte, enquanto a hierarquia alemã (os bispos) levava adiante a luta contra o nazismo ao interior da Alemanha, sem que as influências externas se manifestassem”.
Finalmente, no relato de 3 de junho de 1945, Tittmann explicava que “o Papa seguiu este conselho durante toda a guerra”. Müller pensava que “o Papa tinha decidido falar agora abertamente contra os nazistas porque as implicâncias de suas denúncias são atualmente muito importantes e o faz tomando em conta uma grande quantidade de considerações”.