Engrandecidos pela humildade


A subida para Deus acontece precisamente na descida ao serviço humilde, a descida ao amor, que é a essência de Deus e, portanto, a verdadeira força purificadora, que capacita o homem para conhecer Deus e vê-lo”
(Bento XVI, Livro Jesus de Nazaré, p. 95).

Poderia aqui abordar dois aspectos que caracterizam, por assim dizer, a figura de Deus que tornou-se concreta em Jesus Cristo. A Primeira é a humildade; a segunda o amor.
Deus Caritas est – Deus é amor – escreve São João. E por ser o amor sua essência Ele não quis permanecer inacessível no mais alto dos céus. Não. Seu amor é um amor que se manifestou antes de tudo na pessoa de Jesus. É um amor que se doa sem reservas em favor de todos nós, mesmo àqueles que o hostilizam ou querem isentá-lo da sociedade hodierna.
O Papa recorda que os homens só poderão chegar até Deus passando pelo serviço da humildade, do amor. O amor caracteriza-se, sobretudo, pela humildade. O próprio Jesus quis passar pela experiência da humildade. A que se imaginava a figura do Messias? Como ele viria?
Muitos atribuiam sua vinda à vinda de um Rei – em conceito terreno: Revestido de ouro e poder, com grande opulência, nascido em berço de ouro. No entanto o próprio Cristo faz questão de se tornar um “paradoxo” para aquelas mentes. Ele não veio para sustentar um reinado terreno, efêmero; veio, porém, para indicar aos homens o verdadeiro caminho, o caminho da verdade que todos deveriam seguir. E por não se adaptar às ideologias daquelas mentes Ele foi rejeitado e morto.
Antes, porém, na Última Ceia Jesus faz algo inovador, surpeendente e que nenhum outro rei ousaria fazer. Diz-nos o Evangelista: “Sabendo que o Pai tudo colocara em suas mãos e que ele viera de Deus e para Deus voltava, levantando-se da mesa, depõe o manto e, tomando uma toalha, cinge-se com ela. Depois coloca água numa bacia e começa a lavar os pés dos discípulos e a enxugá-los com a toalha com que estava cingido” (Jo 13,3-5).
Esta ação de Jesus os deixa estupefatos. Como o Mestre poderia agir de tal forma? Humilhar-se à condição de servo. E ele os adverte: “Dei-vos o exemplo para que, como eu fiz, também vós o façais” (v 15).
Jesus em toda a sua vida, como nos é sabido, quis manifestar o seu amor por meio de sua humildade e dos seus ensinamentos. A sua vinda já é uma prova de humildade: “Ele era igual a Deus, mas não reivindicou o direito de ser equiparado a Deus, mas despojou-se de si mesmo, tomando a condição de servo, tornando-se semelhante ao homem… Humilhou-se a si mesmo e foi obediente até a morte, até a morte na cruz. Por isso Deus o exaltou acima de todas as coisas…” (Fl 2,6-9).
Pode se manifestar novamente aqui um paradoxo. Jesus é exaltado depois de ter sido humilhado e morto na cruz. Mais na verdade esta é a condição para que possamos fazer parte do discipulado do Senhor. E notemos que Jesus revela sua divindade, seu poder, justamente na cruz. Na humilhação ele é glorificado.
Ora, assim também é conosco. Aqueles que são humilhados, que são postos em último lugar, que são pisados pelo mundo; aqueles que sofrem humilhações por parte de outros, nestes é que a glória de Deus se manifestará. Não nos poderosos desta terra, mas nos injustiçados. E para isto é que as Bem-aventuranças nos dirige (cf. Mt 5,1-12). Os bem-aventurados são os excluídos, os marginalizados, os que são perseguidos pelo Reino de Deus, os que hoje choram.
“Eu vim para servir e não para ser servido”, disse Jesus aos seus. E só aquele que serve com Jesus pode experimentar o verdadeiro amor, que antes de tudo passa pelo serviço.
Se Deus é amor Ele serve. Se nós amamos a Deus, devemos servir também. O cerne de tudo é o amor. Ele nos dirige para Deus. Ele nos convida a estarmos atentos às urgentes necessidades da Igreja que clama para o mundo a boa nova do Evangelho. O amor que não carrega em si a humildade torna-se prepotência e induz o homem à arrogância.
De maneira nenhuma quero me colocar como defensor da Teologia da Libertação. Apenas quero manifestar aquilo que é reconhecido por toda a Igreja: Jesus fez-se humilde para que os homens também tornem-se humildes e possam contemplar a face de Deus.
Olhando o exemplo dos Santos vejamos o espelho da humildade, sem engrandecimento. Como ouvi certa vez uma frase: “Os santos concordam que são pecadores; só os pecadores acham que santos” (Peter Kreeft). 
Não deixe que sua vida se torne um abismo, um poço de autossuficiência sem Deus. Reconheça que  só podemos amar quando Deus faz-se presente em nós. Caso contrário apenas criamos ilusões, que mais tarde serão decepções.
Que possamos ser cristãos comprometidos verdadeiramente com o Evangelho. E que a Virgem mãe, que hoje invocamos com o título de Nossa Senhora de Lourdes nos ajude nesta tarefa. Ela que foi a serva obediente, que pôs-se a serviço do projeto salvífico de Deus, e que soube assumi-lo, mesmo diante de tão grande honra.