As lições do Dilúvio

[Publico aqui um artigo do  blog do Marcio Antonio – que recentemente esteve no programa Escola da Fé, na Canção Nova – sobre o Dilúvio. No artigo ele apresenta alguns argumentos que inviabilizam o Dilúvio como uma inundação universal. Mas devemos adptá-la ao contexto da época, à realidade em que o livro dos Gênesis foi escrito]. 

Em primeiro lugar, queria agradecer a todos que assistiram ao programa Escola da Fé da quinta-feira passada, na Canção Nova. O programa foi reprisado no fim de semana, mas só lembrei disso depois que já era tarde demais. Aos que descobriram o blog por causa do programa, espero sinceramente que continuem acompanhando as nossas discussões. Infelizmente o blog não tem um feed RSS individualizado, mas o pessoal aqui está trabalhando nisso. Enquanto isso, o melhor a fazer é ou visitar o blog periodicamente para ver se houve atualizações (eu escrevo de duas a três vezes por semana) ou seguir o Tubo no Twitter.
Dito isso, vamos ao que interessa:  em dezembro, já comentamos aqui sobre os argumentos científicos que inviabilizariam um Dilúvio universal como narrado na Bíblia, que teria coberto todo o planeta. Na semana passada, o blog Science and the Sacred, da Fundação BioLogos, publicou o último de uma série de três artigos sobre o Dilúvio bíblico escritos por Paul Seely, especialista em Antigo Testamento, e especialmente nos primeiros 11 capítulos do Gênesis. Ele segue uma sequência para mostrar que o principal objetivo do relato é ser mais “moral” que “científico”.
Na primeira parte, Seely se empenha em demonstrar que a inundação não foi global. Partindo dos próprios textos bíblicos, ele determina a época em que o Dilúvio teria acontecido (usando genealogias e fatos como o início do cultivo de uvas), e verifica as evidências arqueológicas que desmentem uma inundação global: rochas encontradas na Mesopotâmia, camadas de gelo na Groenlândia, árvores milenares na América e na Europa, e sítios arqueológicos no Oriente Médio. Nenhum deles dá sinais de uma enchente gigante.
Mas nós já meio que tínhamos essa intuição de que o Dilúvio não era um evento em escala mundial. Seely avança, na segunda parte, dizendo que talvez não tenha ocorrido nem mesmo um grande evento local, ou seja, na terra habitada pelos hebreus do Antigo Testamento. Os pesquisadores efetivamente acharam evidência de uma grande inundação mesopotâmica mais recente que o intervalo a que se chegaria analisando os textos bíblicos, e Seely conclui que, então, o relato bíblico pode, sim, se basear em um evento real, e não poderia, então ser considerado um simples mito (Seely prefere chamá-lo de “Parabolic Legend”. Como poderíamos traduzir? “Lenda parabólica”?). Mas ainda assim existem várias discrepâncias entre a narrativa bíblica e o fato em si. O autor termina essa parte recordando que o conhecimento científico dos hebreus era bastante limitado: para eles, “o mundo todo” não era propriamente o mundo todo, mas a terra que eles conheciam; eles acreditavam em um oceano no céu, que seria a fonte das águas do Dilúvio. Enfim, era uma história que batia perfeitamtente com a “ciência” israelita da época.
Então, qual a finalidade do relato do Dilúvio na Bíblia? Aí voltamos à categorização que Seely propõe, de “lenda parabólica”, já que, para ele, a história vai além das lendas comuns, e pretende revelar verdades espirituais, como as parábolas do Novo Testamento. É isso que ele explica no terceiro e último texto. Não há dúvida de que o autor sagrado e o israelita a quem o texto se dirigia acreditavam na historicidade do Dilúvio, já que suas noções científicas sobre o mundo eram bem limitadas. Se assumirmos, como os judeus e cristãos, a inspiração divina da Bíblia, Seely diz que Deus, então, se serviu desse tipo de conhecimento para passar sua mensagem, que permaneceria válida com ou sem inundação real. Segundo Seely, essas mensagens são quatro:
1. Só existe um Deus. No relato mesopotâmico da inundação, vários deuses interferem nas ações uns dos outros. O relato bíblico deixa claro que há uma única divindade.
2. Deus é justo: Ele manda a enchente como punição pelos pecados dos homens (o motivo do deus babilônico é bem mais fútil).
3. Deus ama a humanidade: parece contraditório, já que o Dilúvio quase extermina o gênero humano, mas Ele providencia um meio para que os homens continuem a existir no planeta e, após o fim da inundação, faz uma aliança com o homem.
4. Embora justo, Deus também é misericordioso, pois usa de misericórdia para salvar alguns.
Para Seely, essas quatro mensagens são perfeitamente compatíveis com a revelação do Novo Testamento. Ou seja, usando uma ciência bem capenga, que não bate com a realidade, mas podia ser entendida pelo israelita médio
de milênios atrás, o autor sagrado estaria mais preocupado, na verdade, com as lições espirituais do episódio do que com sua exatidão histórica.

Discurso de Bento XVI aos Bispos da Romênia – 12/02/2010

 Fonte: Canção Nova
Veneráveis Irmãos no Episcopado.

É, para mim, motivo de grande alegria encontrar-vos durante sua visita ad limina, escutar-vos e refletir convosco sobre os caminhos do Povo de Deus a vós confiado. Saúdo com afeto a todos vós e agradeço, em particular, a Dom Ioan Robu pelas cordiais palavras que, em nome de todos, dirigiu a mim. Dirijo uma lembrança especial a Sua Beatitude Lucian Muresan, Arcebispo Maior da Igreja Greco-católica Romena. Vós sois pastores de comunidades de ritos diversos, que colocam a riqueza da sua longa tradição a serviço da comunhão, para o bem de todos. Através de vós, saúdo a toda a comunidade cristã da Romênia e da República da Moldávia, tão duramente provada no passado, e presto homenagem aos bispos e inúmeros sacerdotes, religiosos e fiéis que, nos tempos de perseguição, demonstraram uma vinculação indomável a Cristo e sua Igreja e conservaram intacta a sua fé.

A vós, queridos Irmãos no Episcopado, desejo expressar o meu agradecimento pelo vosso generoso compromisso no serviço de renascimento e desenvolvimento da comunidade católica no vosso país e exortar-vos a continuar a ser zelosos Pastores do rebanho de Cristo, integrantes da única Igreja e no respeito das diversas tradições rituais. Conservar e transmitir o patrimônio da fé é uma tarefa de toda a Igreja, mas especialmente dos Bispos (cf. Lumen Gentium, 25). O campo de vosso ministério é extenso e exigente: trata-se, de fato, de propor aos fiéis um itinerário de fé cristã madura e responsável, especialmente através do ensino da religião, da catequese, também os adultos, e da preparação aos Sacramentos.

Nesse âmbito, é necessário promover maior conhecimento da Sagrada Escritura, do Catecismo da Igreja Católica e dos documentos do Magistério, em particular do Concílio Ecumênico Vaticano II e das Encíclicas Papais. É um programa desafiador, que requer a elaboração comum de planos pastorais que visem ao bonum animarum de todos os católicos dos diversos ritos e etnias. Isso requer testemunho de unidade, diálogo sincero e cooperação construtiva, sem esquecer que a unidade é primeiramente fruto do Espírito Santo (cf. Gal 5,22), que guia a Igreja.

Neste Ano Sacerdotal, exorto-vos a ser sempre verdadeiros pais de vossos sacerdotes, primeiros e preciosos colaboradores na vinha do Senhor (cf. Christus Dominus, 16.28); com eles, existe uma ligação acima de tudo sacramental, que os torna participantes privilegiados da missão pastoral confiada aos bispos. Empenhai-vos a cuidar da comunhão entre vós e eles em um ambiente de afeto, atenção e diálogo respeitoso e fraterno; interessai-vos com suas condições espirituais e materiais, suas necessidades de atualização teológica e pastoral. Em vossas dioceses, não faltam Institutos religiosos envolvidos na pastoral. Será vosso especial cuidado dedicar-lhes a devida atenção e fornecer toda a ajuda possível, para que a presença dessas instituições seja cada vez mais significativa e os consagrados possam realizar seu apostolado de acordo com seu carisma particular e em plena comunhão com a Igreja particular.

Deus não deixa de chamar homens e mulheres para o seu serviço: por isso, nós devemos ser gratos ao Senhor, intensificando a oração para que Ele continue a enviar operários para sua messe (cf. Mt 9,37). É missão crucial do bispo promover a pastoral vocacional e a formação humana, espiritual e intelectual dos candidatos ao sacerdócio nos seminários e outros institutos de formação (cf. Optatam Totius, 2.4), garantindo-lhes a oportunidade de adquirir uma profunda espiritualidade e uma rigorosa preparação filosófico-teológica e pastoral, também mediante a escolha cuidadosa de educadores e professores. Cuidados semelhantes devem ser colocados na formação de membros do Institutos de vida consagrada, especialmente os de mulheres.

O florescimento de vocações sacerdotais e religiosas depende, em boa parte, da saúde moral e religiosa das famílias cristãs. Infelizmente, em nosso tempo, não são poucas as armadilhas para a instituição familiar em uma sociedade secularizada e desorientada. As famílias católicas de vossos países, que, durante o tempo de provação, testemunharam, muitas vezes a grande custo, a fidelidade ao Evangelho, não são imunes à praga do aborto, da corrupção, alcoolismo e drogas, bem como do controle de natalidade mediante métodos contrários à dignidade da pessoa humana. Para combater esses desafios, deve-se promover um aconselhamento paroquial que assegure uma adequada preparação para a vida conjugal e familiar, bem como organizar melhor a partoral juvenil. É preciso, sobretudo, um forte compromisso para favorecer a presença de valores cristãos na sociedade, desenvolvendo centros de formação onde os jovens possam conhecer os valores autênticos, embelezados pelo gênio da cultura de vossos países, para que possam testemunhá-los nos ambientes em que vivem. A Igreja deseja dar o seu contributo determinante para a construção de uma sociedade reconciliada e solidária, capaz de lidar de frente com o processo de secularização em curso. A transformação do sistema industrial e a agricultura, a crise econômica, a emigração para o estrangeiro, não favorecem a manutenção dos valores tradicionais, que são, portanto, repropostos e reforçados.

Neste contexto, é particularmente importante o testemunho de fraternidade entre católicos e ortodoxos: que ele prevaleça sobre a discórdia e as divisões e os corações se abram à reconciliação. Estou ciente das dificuldades que devem enfrentar, neste contexto, as comunidades católicas; espero que possamos encontrar as soluções adequadas, naquele espírito de justiça e caridade que deve animar o relacionamento entre irmãos em Cristo.

Em maio de 2009, vós recordais o X aniversário da histórica visita do Venerável Papa João Paulo II à Romênia. Naquela ocasião, a Providência divina ofereceu ao Sucessor de Pedro a oportunidade de fazer uma viagem apostólica a uma nação de maioria ortodoxa, onde há séculos existe uma significativa comunidade católica. O desejo de unidade gerado por aquela visita alimenta a oração e o compromisso com o diálogo na caridade e na verdade, bem como a promover iniciativas comuns.

Uma área de colaboração que, hoje, é particularmente importante entre ortodoxos e católicos é a que diz respeito à defesa das raízes cristãs da Europa e dos valores cristãos, assim como o testemunho comum em questões como a família, bioética, direitos humanos, honestidade na vida pública, ecologia. O empenho unitário sobre tais argumentos oferecerá uma importante contribuição para o crescimento moral e civil da sociedade. um diálogo construtivo entre ortodoxos e católicos não deixará de ser fermento de unidade e concórdia, não apenas para vossos países, mas também para toda a Europa.

Ao final de nosso encontro, meu pensamento se dirige às vossas comunidades. Levai aos sacerdotes, religiosos, religiosas, a todos os fiéis da Ro
mênia e da República da Moldávia as minhas saudações e o meu encorajamento, assegurando o meu afeto e minha oração. Enquanto invoco a intercessão da Mãe de Deus e dos Santos da vossa terra, concedo de coração a minha Bênção a vós e a todos os membros do Povo de Deus confiado aos seus cuidados pastorais.

Carta aos senadores sobre o PNDH – 3

Estimados senadores,
Dirijo-me a vós com uma cordial e afetuosa saudação e ao mesmo tempo com grande pesar sobre a aprovação do Plano Nacional de Direitos Humanos que atualmente tem sucitado um forte debate na sociedade. Como vós bem o sabeis tal plano do governo tem o dever de zelar pelo bem comum dos cidadãos brasileiros e garantir-lhes o direito à vida. Direito este que não pode ser ab-rogado por nenhum governante, nenhuma instituição e nenhum cidadão. Mas no presente debate vemos, com razão, os ataques feitos ao plano. A defesa da vida sede lugar a falsos interesses pelo povo, que na verdade escondem em si interesses desleais, onde prevalece um jogo político de se manipular os costumes éticos e morais, e tem criado inacessíveis barreiras para um verdadeiro desenvolvimento. Com efeito, de modo algum o respeito pela vida pode ser posto à parte das questões do desenvolvimento dos povos: Só há verdadeiro desenvolvimento quando reconhece-se que este traz em seu bojo o respeito pela dignidade de cada ser humano, dignidade esta que é rompida com o desrespeito pela vida, pela indissolubilidade do matrimônio e pela imoralidade de união entre pessoas do mesmo sexo.
Nunca é sucinto o tema da vida e da dignidade de cada homem e mulher; do contrário: este tem norteado discurssões entre povos, religiões e nações. Tornou-se e tonar-se-á cada dia mais necessário debatê-lo. O Papa Bento XVI, na sua mais recente encíclica Caritas in Veritate, sobre o desenvolvimento humano integral na caridade e na verdade, escreve: “A abertura à vida está no centro do verdadeiro desenvolvimento” (nº 28). Pergunto-me então: como pode o Brasil desenvolver-se se alguns dos nossos governantes tramam planos hediondos na calada da noite, às surdinas, para que o povo não se-lhes torne impecílio? O povo torna-se, então, algo secundário, e o que conta a partir daí são os desejos daqueles que na verdade foram escolhidos para representar a sociedade, e portanto são “empregados do povo”.
78,3% da população é contra o aborto. Várias religiões, inclusive a Igreja Católica, tem se colocado veementemente em defesa da vida. Porém parece-me – a mim e a outros – que o governo pretende impor tais leis. Ora, permanecemos durante 25 anos na ditadura e finalmente chegamos a uma democracia. No entanto parece-nos que está esta a ser destruída aos poucos da sociedade. Estamos sendo tomados por pragas como o aborto, eutanásia, inseminação artificial, manipulação de embriões, uso da “camisinha”, da pílula abortiva do dia seguinte, a união entre pessoas do mesmo sexo, a corrupção. E sabemos que “quando uma sociedade começa a negar e a suprimir a vida, acaba por deixar de encontrar as motivações e energias numéricas para trabalhar a serviço do verdadeiro bem do homem” (idem).
No plano podemos notar que se fala de uma “autonomia”, criada pelo governo, da mulher sobre o seu corpo. Que autonomia é esta que permite a pessoa tonar-se assassíno?
Por isso a Igreja não hesita em afirmar que: “Quem defende o aborto nega sua condição de católico”, proclamava bem alto o Papa João Paulo II (Ev.V 62). Mas poderia expandir estas palavras: “Quem aborta nega a sua condição de ser humano”. Nem mesmo poder-se-á comparar aos animais, já que nem estes abortam seus filhotes.
Aquele que tem verdadeira autonomia do nosso corpo é o Espírito Santo. O nosso corpo nos foi emprestado e logo será devolvido: “Acaso ignorais que vosso corpo é templo do Espírito Santo que mora em vós e que recebestes de Deus? Ignorais que não pertenceis a vós mesmos? De fato , fostes comprados, e por preço muito alto” (1Cor 6,19-20). O “preço” foi o sangue de Jesus derramado pela salvação dos homens. “Portanto, se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá, pois o templo de Deus é santo, e esse templo sois vós” (ibid., 3,17).
Deixemos a prepotência, a arrogância de lado e reconheçamos a voz de Deus que clama incessantemente no mundo de hoje, dizendo: “Não matarás” (Ex 20,13). “Aquele que matar será condenado pelo tribunal” (Mt 5,21). Já não vos peço só como católico, mas também como cidadão indignado com tal Plano.
Mais uma vez reafirmo, em nome dos católicos indignados e da Igreja, que deploramos as leis anti-vida e repletas de imoralidade. Que possam estas leis serem revistas e não empregadas abitrariamente ao povo.
Confiando em novas medidas, peço que o Senhor vos proteja e abençoe.
Ian Farias de Carvalho
Dário Meira, 12 de fevereiro de 2010