Lectio Divina de Bento XVI com os seminaristas da Diocese de Roma


[Publico aqui a lectio divina de Bento XVI com os seminaristas da Diocese de Roma, no último dia 12. O tema escolhido pelo Papa foi o capítulo 15º do Evangelho de São João, sobre a Parábola da Videira].

Fonte: Canção Nova

Eminências,
Excelências,
queridos amigos,

todos os anos é, para mim, motivo de grande alegria estar com os seminaristas da Diocese de Roma, com os jovens que se preparam para responder ao chamado do Senhor para serem trabalhadores em sua vinha, sacerdotes do seu mistério. É a alegria de ver que a Igreja vive, que o futuro da Igreja está presente também em nossa terra, e também em Roma.

Neste Ano Sacerdotal, queremos estar particularmente atento às palavras do Senhor sobre o nosso serviço. A passagem do Evangelho lido há 

pouco fala indiretamente, mas profundamente, de nosso sacramento, de nosso chamado a estar na vinha do Senhor, a sermos servidores do seu mistério.

Nesta breve passagem, podemos encontrar algumas palavras-chave que oferecem uma indicação do anúncio que o Senhor quer fazer com este texto. “Permanecei”: nesta breve passagem, encontramos dez vezes a palavra “permanecer”; o novo mandamento: “Amai-vos uns aos outros, como eu vos amo”, “Não mais servos, mas amigos”, “Produzais fruto”; e, finalmente: “Peçais, orai e vos será dado, vos será dada a alegria”. Rezemos ao Senhor para que nos ajude a entrar no significado de Suas palavras, para que essas palavras possam penetrar em nossos corações e, assim, possam ser caminho e vida em nós, com nós e através de nós.

A primeira palavra é: “Permanecei em mim, no meu amor”. Permanecer no Senhor é fundamental como o primeiro tema deste trecho. Permanecer: onde? No amor, no amor de Cristo, no ser amado e no amar o Senhor. Todo o Capítulo 15 concretiza o local da nossa permanência, porque os primeiros oito versículos expõem e apresentam a parábola da videira: “Eu sou a videira; vós, os ramos”. A videira é uma imagem que encontramos, no Antigo Testamento, seja nos Profetas, seja nos Salmos e tem um dúplice significado: é uma parábola para o povo de Deus, que é a sua vinha. Ele plantou uma vinha no mundo, cultivou esta vinha, cultivou a sua videira, protegeu a sua vinha, e com que intenção? Naturalmente, com a intenção de encontrar fruto, de encontrar o dom precioso da uva, do bom vinho.

E assim aparece o segundo significado: o vinho é um símbolo, é uma expressão da alegria do amor. O Senhor criou o seu povo para encontrar a resposta de seu amor e, por isso, esta imagem da videira tem um significado esponsal, é uma expressão do fato de que Deus procura o amor da sua criatura, Ele quer entrar em uma relação de amor, em uma relação esponsal com o mundo através de seu povo eleito.

Mas eis que a história concreta é uma história de infidelidade: ao invés de uvas preciosas, são produzidas apenas pequenas “coisas não comestíveis”, não oferecem uma resposta a esse grande amor, não nasce aquela unidade, aquela união incondicional entre homem e Deus, na comunhão do amor. O homem se retira em si mesmo, quer ter-se apenas para si próprio, quer ser o seu próprio Deus, quer ter o mundo para si mesmo. E, assim, a videira fica devastada, o javali e todos os inimigos vêm e ela se torna um deserto.

Mas Deus não desiste: Deus encontra uma nova maneira para chegar até um amor gratuito, irrevogável, ao fruto desse amor, à uva verdadeira: Deus se faz homem, e assim Ele próprio se torna a raiz da videira, Ele torna-se a própria videira e, assim, a videira se torna indestrutível. Este povo de Deus não pode ser destruído, porque o próprio Deus entrou, se plantou nesta terra. O novo Povo de Deus é realmente fundado no próprio Deus, que se faz homem e, assim, chama-nos a encontrar n’Ele uma nova vida e nos convida a estar, a permanecer n’Ele.

Devemos lembrar também que, no capítulo 6 do Evangelho de João, encontramos o discurso sobre o pão, que se torna o grande discurso sobre o mistério eucarístico. Neste capítulo 15, temos o discurso sobre o vinho: o Senhor não fala explicitamente da Eucaristia, mas, naturalmente, dentro do mistério de vinho está a realidade de que Ele se faz fruto e vinho para nós, que seu sangue é o fruto do amor que nasce da terra para sempre e, na Eucaristia, o seu sangue se torna nosso sangue. Assim, somos colocados em relação com Deus no Filho e, na Eucaristia, torna-se concreta aquela grande realidade da vida em que nós somos os ramos unidos com o Filho e, assim, unidos com o amor eterno.

“Permanecei”: permanecer neste grande mistério, permanecer neste novo dom do Senhor, que nos fez povo em Si mesmo, em Seu Corpo e em Seu Sangue. Parece-me que é preciso meditar muito este mistério, o de que Deus se fez corpo, um conosco; Sangue, um conosco; que podemos permanecer – permanecendo neste mistério – em comunhão com Deus, nesta grande história de amor, que é a história da verdadeira felicidade. Meditando sobre este dom – Deus tornou-se um com todos nós e, ao mesmo tempo, faz-nos todos um só, uma videira – também temos de começar a rezar para que esse mistério penetre mais e mais em nossas mentes, nossos corações e cada vez mais sejamos capazes de ver e experimentar a grandeza do mistério e, assim, começar a realizar este imperativo: “Permanecei”.

Se continuarmos a ler esta passagem do Evangelho de João, encontramos também um segundo imperativo: “Permanecei” e “Observai os meus mandamentos”. “Observai” é apenas o segundo nível; o primeiro é aquele de “permanecer”, o nível ontológico, de que estejamos unidos com Ele, que se deu, por antecipação, a si próprio, deu-nos o seu amor, o fruto. Não somos nós que temos de produzir o grande fruto; o Cristianismo não é um moralismo, não somos nós que devemos fazer o que Deus espera do mundo, mas devemos, antes de tudo, entrar neste mistério ontológico: Deus se dá a Si mesmo. Seu ser, seu amar precede as nossas ações e, no contexto de seu Corpo, no contexto de estar n’Ele, identificarmo-nos com Ele, sermos cobertos por seu Sangue, possamos também nós agir com Cristo.

A ética é consequência do ser: primeiro o Senhor nos dá um novo ser, esse é o grande dom; o ser precede o agir e deste ser segue o agir, como uma realidade orgânica, para que aquilo que somos, possamos sê-lo também em nossa atividade. Assim, agradeçamos ao Senhor porque nos tirou do puro moralismo; não podemos obedecer a uma lei que está diante de nós, mas devemos agir de acordo com a nossa nova identidade. Assim, já não é mais uma obediência, uma coisa externa, mas uma realização do dom do novo ser.

Digo mais uma vez: agradeçamos ao Senhor porque Ele nos precede, dá o que precisamos para que possamos nos dar e ser, na verdade e na força de nosso novo ser, atores de sua realidade. Permenecer e observar: o observar é o sinal da permanência e o permanecer é o dom que Ele nos dá, mas que deve ser renovado todos os dias em nossas vidas.

Segue, pois, este novo mandamento: “Amai-vos uns aos outros, como eu vos amo”. Nenhum amor é mai
or do que este: “dar a vida por seus amigos”. O que significa dizer isso? Aqui também não se trata de um moralismo. Se poderia dizer: “Não é um novo mandamento; o mandamento de amar o próximo como a si mesmo já existe no Antigo Testamento”. Alguns dizem: “Tal amor é agora mais radicalizado; este amar o outro deve imitar a Cristo, que deu a si mesmo por nós; deve ser um amor heroico, até o dom de si mesmo”. Neste caso, porém, o cristianismo seria um moralismo heroico. É verdade que devemos chegar até esta radicalidade do amor, que Cristo nos mostrou e doou, mas também aqui a verdadeira novidade não é o que nós fazemos, a verdadeira novidade é o que Ele fez: o Senhor deu a si próprio, o Senhor nos deu a verdadeira novidade de sermos membros seus no seu próprio corpo, de sermos ramos da videira que é Ele. Então, a novidade é o dom, o grande dom, e do dom, da novidade do dom, segue então, como eu disse, a nova lei.

São Tomás de Aquino o diz de uma forma muito precisa quando escreve: “A nova lei é a graça do Espírito Santo” (Summa theologiae, i-iiae, q. 106, a. 1). A nova lei não é um outro comando mais difícil que os outros: a nova lei é um dom, a nova lei é a presença do Espírito Santo que nos foi dado no Sacramento do Batismo, na Confirmação, e nos é dado todos os dias na Santíssima Eucaristia. Os Padres aqui distinguiram “Sacramentum” e “exemplum”. “Sacramentum” é o dom do novo ser, e este dom também se torna um exemplo para o nosso agir, mas o “sacramentum” precede, e nós vivemos do sacramento. Aqui vemos a centralidade do sacramento, que é a centralidade do dom.

Prossigamos em nossa reflexão. O Senhor diz: “Eu não vos chamo mais servos, o servo não sabe aquilo que faz o seu patrão. Vos chamo de amigos, porque tudo o que eu ouvi de meu Pai vos dei a conhecer”. Não mais servos, que obedecem ao comando, mas amigos que se conhecem, que estão unidos na mesma vontade, no mesmo amor. A novidade então é que Deus se fez conhecer, que Deus se mostrou, que Deus não é mais o Deus desconhecido, procurado, mas não encontrado ou apenas adivinhado à distância. Deus se deixou ver: no rosto de Cristo, vemos Deus, Deus faz-se “conhecido” e, assim, se fez amigo. Pensemos em como, na história da humanidade, em todas as religiões arcaicas, sabe-se que há um Deus. Este é um conhecimento imerso no coração do homem, que Deus é um, os deuses não são “o” Deus. Mas este Deus permanece muito longe, parece que não se deixa conhecer, não se deixa amar, não é amigo, mas está longe. Por isso, as religiões se ocupam pouco deste Deus, a vida concreta se encarrega dos espíritos, da realidade concreta que enfrentamos todos os dias e com a qual temos de fazer as contas cotidianamente. Deus continua distante.

Então nós vemos o grande movimento da filosofia: pensamos em Platão, Aristóteles, que começam a intuir como este Deus é o agathòn, a Bondade em si, é o eros que move o mundo, mas isto continua a ser um pensamento humano, é uma ideia de Deus que se aproxima da verdade, mas é uma ideia nossa e Deus continua a ser o Deus escondido.

Não muito tempo atrás, me escreveu um professor de Regensburg, um professor de Física, que tinha lido com grande atraso o meu discurso à Universidade de Regensburg, para dizer que ele não poderia concordar com a minha lógica ou só poderia fazê-lo em parte. Ele disse: “Claro, me convence a idéia de que a estrutura racional do mundo exija uma razão criadora, a qual fez essa racionalidade que não pode ser explicada por si mesma”. E continuou: “Mas se pôde existir um demiurgo – assim ele se exprime -, um demiurgo me parece seguro do que Ele diz, não vejo que haja um Deus amoroso, bom, justo e misericordioso. Eu posso ver que há uma razão que precede a racionalidade do cosmo, mas o resto não”. E assim Deus lhe permanece oculto. É uma razão que precede as nossas razões, nossa racionalidade, a racionalidade do ser, mas não é um amor eterno, não é a grande misericórdia que nos dá a vida.

E aqui, em Cristo, Deus se manifestou na sua verdade plena, mostrou que é razão e amor, que a razão eterna é amor e por isso cria. Infelizmente, ainda hoje muitos vivem longe de Cristo, não conhecem o seu rosto e, assim, a eterna tentação do dualismo, que se esconde também na carta deste professor, é sempre renovada, o qual defende que não haja apenas um princípio bom, mas também um princípio cativo, um princípio do mal; que o mundo está dividido e são duas realidades igualmente fortes: e que o Deus bom é apenas uma parte da realidade. Mesmo na teologia, incluindo aquela católica, se difunde atualmente esta tese: Deus não é onipotente. Deste modo, se oferece uma apologia de Deus, que, assim, não seria responsável pelo mal que existe amplamente no mundo. Mas que apologia pobre! Um Deus não onipotente! O mal não está em suas mãos! E como podemos nós confiar neste Deus? Como poderíamos estar seguros no seu amor se esse amor termina onde começa o poder do mal?

Mas Deus não é mais desconhecido: no rosto de Cristo crucificado vemos Deus e vemos a verdadeira onipotência, não o mito da onipotência. Para nós, homens de poder, o poder é sempre idêntico à capacidade de destruir, de fazer o mal. Mas o verdadeiro conceito de onipotência que aparece em Cristo é exatamente o contrário: n’Ele, a verdadeira onipotência é amar até o ponto em que Deus possa sofrer: aqui ele mostra sua verdadeira onipotência, que pode chegar ao ponto de um amor que sofre nós. Assim, vemos que Ele é o verdadeiro Deus e o verdadeiro Deus, que é amor, é poder: o poder do amor. E nós podemos confiar-nos ao seu amor onipotente e viver nele, com este amor onipotente.

Penso que devemos sempre meditar de novo sobre essa realidade, agradecer a Deus porque se mostrou a nós, porque conhecemos o seu rosto, face a face; não é mais como Moisés, que podia ver apenas o dorso do Senhor. Essa é também uma bela ideia, da qual São Gregório de Nissa diz: “Ver apenas o dorso significa que devemos sempre voltar a Cristo”. Mas, ao mesmo tempo, Deus mostrou com Cristo a sua face, o seu rosto. O véu do templo é rasgado, é aberto, o mistério de Deus se torna visível. O primeiro mandamento, que exclui as imagens de Deus, porque essas só poderiam diminuir a realidade, mudou, é renovado, adquire outra forma. Podemos agora, no homem Cristo, ver o rosto de Deus, podemos ter ícones de Cristo e, assim, ver quem é Deus.

Eu penso que quem compreendeu isso, quem se deixou tocar por esse mistério, o de que Deus se revelou, rasgou o véu do templo, mostrou o seu rosto, encontra uma fonte de alegria permanente. Nós podemos dizer apenas: “Obrigado. Sim, agora sabemos quem Tu és, quem é Deus e como responder a Ti”. E penso que esta alegria de conhecer a Deus, que se revelou, mostrou o mais íntimo de seu ser, implica também na alegria de comunicá-Lo: quem compreendeu isso, vive tocado por esta realidade, deve fazer como fizeram os primeiros discípulos, que vão a seus amigos e irmãos dizendo: “Achamos aquele de quem os profetas falam. Ele está aqui”. A missionariedade não é algo externo acrescentado à fé, mas é o dinamismo da própria fé. Quem o viu, quem encontrou Jesus, deve andar ao encontro dos amigos e dizer a eles: “O encontramos, é Jesus, o Crucificado por nós”.

A seguir, o texto do Evangelho diz: “Eu vos escolhi e vos constituí para que vades e produzais fruto, e o vosso fruto permaneça”. Com isto, retornamos ao início, à imagem, à parábola da videira: ela existe para dar frutos. E qual é o fruto? Como dissemos, o fruto é o amor. No Antigo Testamento, com a Torá como a primeira etapa da autorrevelação de Deus, o fruto era compreendido como a justiça, aquele que vive segundo a Palavra de Deus, vive na vontade de Deus, e assim vive bem.

Isso permanece, mas ao mesmo tempo é tr
anscendido: a verdadeira justiça não consiste em uma obediência a certas regras, mas é o amor, o amor criativo, em que se encontra a riqueza, a abundância do bem. A abundância é uma das palavras-chave do Novo Testamento, Deus sempre dá a si mesmo em abundância. Para criar o homem, cria esta abundância de um cosmo imenso; para redimir o homem dá a si mesmo, na Eucaristia dá a si mesmo. E quem está unido com Cristo, que é ramo na videira, vive por essa lei, não pergunta: “Posso agora fazer isso ou não?”, “Devo fazer isso ou não?”, mas vive no entusiasmo do amor, que não pergunta: “isto é ainda necessário, ou proibido”, mas, simplesmente, na criatividade do amor, deseja viver com Cristo e por Cristo e dar tudo de si para Ele e, assim, entrar na alegria de produzir frutos. Tenhamos também em mente o que o Senhor diz: “Eu vos escolhi e vos constituí para que vades”: é o dinamismo que vive no amor de Cristo; ir, isto é, não permanecer sozinho para mim, ver a minha perfeição, garantir para mim a felicidade eterna, mas esquecer de mim mesmo, ir como Cristo andou, andar como Deus andou, de Sua Majestade imensa até a nossa pobreza, para encontrar frutos, para ajudar-nos, para nos dar a oportunidade de portar o fruto do amor verdadeiro. Quanto mais nós somos preenchidos com essa alegria de ter descoberto a face de Deus, tanto mais o entusiasmo do amor será real em nós e produzirá frutos.

E, finalmente, chegamos à última palavra desta passagem: “Eu assim vos constituí, a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, ele vos conceda”. Uma breve reflexão sobre a oração, que sempre nos surpreende de novo. Por duas vezes, neste capítulo 15, o Senhor diz: “O que pedirdes, vos dou”, e mais uma vez também no capítulo 16. E nós desejaríamos dizer: “Mas não, senhor, não é verdade.” Tantas orações boas e profundas das mães que rezam para o filho que está morrendo e não são atendidas, tantas orações para que aconteça uma coisa boa e o Senhor não responde. O que dizer dessa promessa? No capítulo 16, o Senhor nos oferece a chave para compreender: ele nos diz o quanto nos dá, o que é este tudo: a alegria – se alguém encontrou a alegria, encontrou tudo e vê tudo à luz do amor divino. Como São Francisco, que compôs o grande poema sobre a criação em uma situação desoladora, mas exatamente ali, ao lado do Senhor sofredor, redescobriu a beleza do ser, a bondade de Deus, e escreveu este grande poema.

Vale lembrar, ao mesmo tempo, também alguns versículos do Evangelho de Lucas, onde o Senhor, em uma parábola, fala de oração, dizendo: “Se vós, que sois mal, dais coisas boas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai do Céu dará aos seus filhos o Espírito Santo”. O Espírito Santo – no Evangelho de Lucas – é a alegria, no Evangelho de João é a mesma realidade: a alegria é o Espírito Santo e o Espírito Santo é a alegria, ou, em outras palavras, de Deus não invocamos qualquer coisa, pequena ou grande, de Deus invocamos o dom divino, o próprio Deus; esse é o grande dom que Deus nos dá: o próprio Deus. Neste sentido, temos de aprender a rezar, rezar para a grande realidade, a realidade divina, porque Ele nos dá a Si próprio, dá-nos o Seu Espírito para que possamos responder às exigências da vida e ajudar os outros no seu sofrimento. Evidentemente, o Pai Nosso nos ensina isso. Podemos orar por muitas coisas, em todas as nossas necessidades podemos rezar: “Ajude-me”. Isso é muito humano e Deus é humano, como vimos; por isso. é justo rezar a Deus para as pequenas coisas na nossa vida quotidiana.

Mas, ao mesmo tempo, a oração é um caminho, eu diria que uma escada: devemos aprender mais e mais para que coisas podemos rezar e para que coisas não podemos, porque são expressões do nosso egoísmo. Eu não posso orar por coisas que são nocivas aos outros, eu não posso orar por coisas que ajudam o meu egoísmo, minha soberba. Assim, o orar, diante dos olhos de Deus, torna-se um processo de purificação de nossos pensamentos, nossos desejos. Como disse o Senhor na parábola da videira: devemos ser podados, purificados, a cada dia; viver com Cristo, em Cristo, permanecer em Cristo, é um processo de purificação, e somente neste processo de lenta purificação, de libertação de nós mesmos e da vontade de ter somente para si, está o caminho verdadeiro da vida, se abre o caminho da alegria.

Como já mencionei, todas estas palavras do Senhor têm um pano de fundo sacramental. O pano de fundo fundamental para a parábola da videira é o Batismo: somos implantados em Cristo; e a Eucaristia: somos um pão, um corpo, um sangue, uma vida com Cristo. E também este processo de purificação tem um pano de fundo sacramental: o sacramento da Penitência, da Reconciliação, em que aceitamos esta pedagogia divina, que dia a dia, ao longo de uma vida, nos purifica e nos torna mais e mais verdadeiros membros de seu corpo. Deste modo, podemos aprender que Deus responde às nossas orações, muitas vezes responde com a sua bondade também às pequenas orações, mas muitas vezes também as corrige, as transforma e as guia para que sejamos finalmente e verdadeiramente ramos de seu Filho, da videira verdadeira, membros de seu Corpo.

Agradeçamos a Deus pela grandeza de seu amor, rezemos para que Ele nos ajude a crescer em seu amor, para que permaneçamos realmente em seu amor.