O sacerdócio edifica a Igreja

Por: Pe. Demétrio Gomes da Silva*
Ao proclamar o Ano Sacerdotal, com ocasião da comemoração do 150º aniversário do dies natalis de São João Batista Maria Vianney o Santo Padre, Papa Bento XVI, disse que pretendia “contribuir para fomentar o empenho de renovação interior de todos os sacerdotes para um testemunho evangélico mais vigoroso e incisivo”. Este Ano Sacerdotal deve ser um tempo no qual não só os sacerdotes, mas todos os fiéis redescubramos a beleza deste grande dom que o Senhor confiou à Sua Esposa, a Igreja.
Se todo cristão é um «Outro Cristo» – Alter Christus –, com muito mais razão o é o sacerdote. Homem configurado ao Senhor não só em virtude do sacramento batismal, mas também pela ordenação sacerdotal, que realiza nele uma identificação total com Cristo, Cabeça da Igreja. Podemos dizer que tal identificação é tão profunda, que já não existe uma alteridade perfeita entre Cristo e o sacerdote. Ele já não é somente um Alter Christus, mas Ipse Christus, o mesmíssimo Cristo.
Estritamente falando, só existe um Único Sacerdote: Jesus Cristo. Todos aqueles que recebemos o dom do sacerdócio por imposição das mãos dos Apóstolos e seus sucessores somos sacerdotes n’Ele, isto é, participamos do seu único e sempiterno sacerdócio.
O sacerdote perpetua a presença do Senhor na história dos homens de todos os tempos. Ele é chamado a fazer de sua voz, a voz de Seu Senhor; do seu olhar, o mesmo olhar amoroso do Mestre; de suas mãos, mãos que seguem curando e levantando aqueles que sofrem sob o peso de seus pecados. Parafraseando a Bem Aventurada Madre Teresa de Calcutá, podemos dizer, em uma palavra, que o sacerdote permite que Cristo siga amando através dele.
Por mais que quiséssemos, jamais conseguiríamos abarcar por completo este mistério na Igreja de Deus. O Santo Cura d’Ars dizia aos seus, que se entendêssemos o que é um sacerdote, morreríamos, não de susto, mas de amor. Afirmava também que só no Céu, o sacerdote entenderá bem a si mesmo.
A dignidade dos sacerdotes – a qual todos somos chamados a redescobrir neste Ano Sacerdotal – não consiste nas qualidades pessoais daqueles que são chamados a este ministério. Na verdade, parece que essas são inclusive bem escassas naqueles a quem o Senhor chama. Se Ele fosse seguir a lógica humana, certamente escolheria a outros. Há seguramente muito mais pessoas eloqüentes por aí, mais inteligentes, e até mesmo mais santas. Por certo, a criatura mais perfeita e bela que saiu das mãos de Deus, a Virgem Maria, não foi chamada ao sacerdócio. Aqui cai por terra a débil argumentação feminista, segundo a qual as mulheres deveriam ser também ordenadas, pois possuem a mesma dignidade que os homens. Em parte é verdade, mulheres e homens possuem a mesma dignidade diante de Deus, mas a dignidade do sacerdote – ignoram os feministas – não reside em que ele humanamente seja mais ou menos digno, mas no tesouro sobrenatural que ele porta, apesar do pobre vaso que é, na eleição que o próprio Deus fez dele.
O Senhor chama aqueles que Ele quis (Cf. Mc 3,13). Essa é a razão suprema do chamado sacerdotal: o querer libérrimo de Deus, totalmente independente das qualidades pessoais daquele que é chamado. A vocação sacerdotal é, por isso, dom totalmente gratuito. Ninguém tem “direito” a recebê-la.
A presença do sacerdote no mundo é absolutamente necessária para que a redenção alcance a todos os homens. A ação mais sublime que um homem pode realizar na terra – consagrar o Corpo e o Sangue do Senhor, e perdoar os pecados – só pode ser realizada por um sacerdote. “O padre possui a chave dos tesouros celestes: é ele que abre a porta; é o ecônomo do bom Deus; o administrador dos seus bens (…). Deixai uma paróquia durante vinte anos sem padre, e lá adorar-se-ão as bestas” (São João Maria Vianney).
Sem padre, não há Eucaristia, e, sem Eucaristia, não há Igreja. O teólogo francês, Henri de Lubac, afirmava que a “Eucaristia edifica a Igreja”. Podemos aqui acudir também a uma paráfrase e dizer que “o sacerdócio edifica a Igreja”. O caminho inverso, infelizmente, também é verdadeiro. Se alguém quiser desedificar a Igreja, tentará fazê-lo procurando destruir o sacerdócio. O demônio e os seus amigos sabem muito bem disso, e, como não tiram férias, tentam a todo o momento macular a imagem dos sacerdotes entre os homens.
Essa é a única razão pela qual os pecados dos ministros de Cristo são lançados aos quatro ventos, para que todos os contemplem e deixem de perceber o tesouro que escondem por detrás de suas fragilidades humanas. Não sejamos ingênuos: qual outra razão teriam em publicar em diversos meios de comunicação as misérias desses homens?
É verdade, lamentavelmente, que existem – sejamos realistas – sacerdotes que profanam o seu celibato com toda a espécie de corrupção sexual que a criatividade dos filhos de Adão pode imaginar, sacerdotes que se vendem por dinheiro, que desobedecem às normas da Igreja, enfim. Como afirmou o Papa Bento XVI, “nada faz a Igreja, Corpo de Cristo, sofrer mais que os pecados dos seus pastores, sobretudo daqueles que se convertem em “ladrões de ovelhas” (João 10, 1ss)”. É um dano inimaginável o que esses maus pastores podem causar às almas de quem eles deveriam salvar, sobretudo porque um sacerdote nunca se condena sozinho. Porém, devemos estar muito vigilantes para que jamais sejamos tomados de certo espírito pessimista, que nos leve a pensar que todos os sacerdotes estão corrompidos, que nos faça, enfim, deixar de contemplar a beleza do ministério sacerdotal, e maravilhosa ação que Deus prodigaliza por meio desses homens.
Diante de tantas sombras, temos que afirmar – também com realismo –, que a imensa maioria dos sacerdotes temos o desejo de sermos fiéis à nossa vocação. Ainda com toda nossa debilidade, que compartilhamos com os nossos irmãos homens, temos o anseio sincero de conversão,
de santidade, e para isso, nos confessamos, buscamos uma direção espiritual, e aproveitamos todos os meios ascéticos para colaborar com a graça de Deus em nós. Quantos são os sacerdotes que se consomem diariamente, nos altares de distantes igrejas, no silêncio dos confessionários, nos hospitais, e em tantos outros lugares, para conduzir ao Céu aquelas almas que lhe são confiadas, ocultos aos olhos dos meios de comunicação?
Aproveitemos esta inspirada iniciativa do Santo Padre para fazer novamente brilhar o esplendor do sacerdócio na Igreja Católica. Esplendor que, nem sequer, a miséria dos pastores enfermos – não existem maus pastores, mas pastores doentes – poderão roubar da Santa Igreja. Resgatar práticas simples, mas carregadas de fé, como, por exemplo, pedir a bênção aos sacerdotes. Incentivá-los a que se vistam como padres. Rezar muito pela sua conversão. Fazer, de alguma forma, com que nós mesmos redescubramos o tesouro que recebemos em nossa ordenação e recuperemos nossa identidade diante da Igreja e do mundo.
Certa vez ouvi dizer que a sociedade civil é um reflexo da sociedade eclesiástica. Se isso é verdade, pense no que poderíamos fazer no mundo com um punhado de sacerdotes santos?

* Diretor do Instituto Filosófico e Teológico
do Seminário São José da Arquidiocese de Niteroi
Site www.presbiteros.com.br

‘O Papa vai contra o Vaticano II’, afirma Hans Küng

 [Já estava sentindo falta de comentar uma notícia ironicamente. Küng matou minha vontade. Apesar de suas idiotices, que como sempre norteiam seu diálogo].
[Meus comentários]

Fonte: IHU

O teólogo suíço, conhecido opositor da Cúria romana em geral e de Bento XVI em particular, acredita que o papa não esteja sendo fiel ao Concílio Vaticano II [Quanto a isto não há novidade].
Ele tem uma opinião cortante sobre tudo. Sobre os papas Bento XVI, João Paulo II e Pio XII. Mas também sobre a liturgia, o celibato dos sacerdotes, os escândalos sexuais dentro da Igreja. O teólogo Hans Küng, nascido em 1928 e célebre por sua oposição a João Paulo II e ao cardeal Joseph Ratzinger, tornado Bento XVI, acaba de publicar o segundo volume de suas memórias pelas Éditions du Cerf (1968-1980. Uma verdade contestada). Nós o reencontramos por esta ocasião e recolhemos algumas de suas frases chocantes.
A entrevista é de Jean Mercier e está publicada na revista francesa La Vie, 16-02-2010. A tradução é do Cepat.
Decepcionado com Bento XVI
“Eu esperava que Ratzinger se mostrasse diferente como papa do que foi como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Mas não foi assim. Suas nomeações para a Cúria são terríveis. Como secretário de Estado, ele tomou um homem, Tarcisio Bertone, que não estava preparado para esta tarefa [Quem é ele para dizer ou não quem está preparado? Se o Papa escolheu o Cardeal Bertone é porque ele sabia muito bem da competência dele].
Como papa, ele perdeu todos os momentos cruciais. Ele não correspondeu às expectativas dos ortodoxos, quando poderia ter proposto, através do diálogo, que não precisariam aceitar os Concílios de que não tenham participado desde o século XI. Ele limitou-se a eles com abraços e com solenidades. Com os muçulmanos, nós sabemos o que aconteceu com a Declaração de Regensburg. Quanto aos judeus, havia a questão da oração da Sexta-feira Santa, e o escândalo Williamson. Quanto às igrejas protestantes, elas não digeriram que se diga que não fazem parte das Igrejas. [Em primeiro lugar o Papa tem se esforçado cada dia mais na promoção do diálogo com as religiões. E sabemos que tudo o que ele disse não é nenhuma mentira, senão uma verdade que muitos tentam ocultar para um melhor desenvolvimento de um diálogo. Esse teólogo deve buscar conhecer mais sobre estes aspectos do Pontificado do Papa. Ao invés de apenas criticá-lo].
O Papa diz que as outras religiões são deficientes, e que a Igreja católica é perfeita, [O Papa nunca disse isso. Você põe palavras na boca dele. Ele tem total conhecimento de que a Igreja é santa e pecadora, pois é composta de homens]. mas quando vemos os escândalos que nela eclodem! Na Alemanha, as pessoas agora sentem vergonha de que seja alemão.
Mais fundamentalmente, Ratzinger e eu somos diferentes na nossa aproximação a Jesus. Eu estou ligado ao Jesus da História. O Jesus dele é dogmático, como foi definido pelo Concílio de Niceia, em 325”. [O Jesus dele? O nosso Jesus! Esse Jesus que foi “definido”, como ele diz, pelo Concílio de Nicéia é o mesmo Jesus que veio ao mundo. É o mesmo Cristo que se doou por nós. Talvez o seu Jesus histórico é que seja uma invenção].
O Papa vai contra o Vaticano II
“Para o teólogo jesuíta Francisco Suáres (1548-1617), há duas possibilidades de ser cismático: quando se separa do Papa ou quando se separa da Igreja. Bento XVI deveria ser muito prudente na sua visão das coisas, porque ele vai contra o Concílio. [Mentira! O Papa nunca se opos-se ao Concílio. Ele sempre tentou conciliar o antingo com o novo. O pré-conciliar do pós-conciliar. Isto é uma caracterisca dele que nunca será perdida: o seu desejo de unidade]. É um choque para muitas pessoas. Ele restaurou a missa medieval tridentina.[ele apenas fez um reconhecimento daquilo que havia sido perdido]. Ele retomou os ornamentos de Leão X (1513-1522), o Papa que perdeu a ocasião de salvar as coisas com Martinho Lutero. No ano passado, ele nomeou um novo prefeito para a Congregação do Culto Divino, Antonio Cañizares, que passeia com a “cappa magna”. Até parece que estamos na coroação de Napoleão. Nem mesmo a rainha da Inglaterra faz mais uma coisa dessas. O Papa se torna cúmplice de uma corrupção do sagrado, sob a forma de uma aristocracia clerical que esconde suas ações sob adornos barrocos. [Simplesmente esta “aristocracia” não é uma prerrogativa. Senão um reconhecimento dos hábitos de cada autoridade eclesiástica, que por sinal tem sido muito perdido pelos padres hoje].
Em relação ao Concílio, Bento XVI defende sua hermenêutica da continuidade contra uma hermenêutica da ruptura. Mas é uma mentira dizer que nós consideramos o Vaticano II como
uma ruptura. Era uma mudança, uma reforma. Esta “hermenêutica da continuidade” é a única coisa que o Papa encontrou para interpretar o Concílio segundo sua visão de um retorno ao passado. Mas não se pode aceitar isso! Não se pode ir contra o Concílio”.[Como acabei de dizer: O Papa não está contra o Concílio, mas elle tenta conciliar as coisas. Por exemplo seu diálogo com a Fraternidade São Pio X sobre o Concílio].
O celibato sacerdotal
“A lei do celibato obrigatório é explicitamente uma contra-afirmação do que diz o Novo Testamento sobre a liberdade. E, portanto, não pode ser considerado como católico. É o produto de um “monaquismo” medieval – não confundir com o verdadeiro monaquismo.
Esta lei medieval não somente se opõe ao Evangelho, mas também aos direitos humanos. Ela se enraíza no paganismo. Ela é um enorme problema na América Latina e na África onde o celibato é observado de maneira… digamos ‘elegante’ [Sempre criticando o celibato. Leia mais Küng! Talvez o que lhe falte é isto: uma boa leitura].
Sobre a questão dos padres pedófilos
“Há, hoje, esse escândalo dos padres pedófilos entre os jesuítas na Alemanha. Este é apenas um novo episódio de uma crise do catolicismo ocidental que tem um problema com a sexualidade. Eu falei recentemente com um embaixador da Irlanda que me disse que a autoridade da Igreja está totalmente desacreditada por causa desses escândalos. Mas eu nunca quis crer que era apenas um assunto irlandês ou americano.
O problema é universal. Ele está ligado ao celibato obrigatório. Eu sei que o celibato não significa necessariamente que há abusos sexuais, mas não é uma coincidência que houve escândalos em número extraordinário na Igreja Católica em particular. Não basta condenar estes sacerdotes, porque eles são vítimas de um sistema. A Cúria romana contribuiu para que as coisas chegassem a este nível. Todos os casos foram centralizados pela Congregação para a Doutrina da Fé, sob segredo absoluto. Tudo chegou à mesa do cardeal Ratzinger. Ele viu tudo, ele teve conhecimento de todos os relatórios.” [Mais uma vez esta questão do celibato. Ora, todos sabem que para ser padre existem renúncias. E estas renuncias devem ser obrigatórias. Todos os vocacionados tem em mente isto. Se algum deles sabe e vai em frente não é culpa da Igreja, senão uma escolha irracional e teimosa por parte de tal indivíduo. Eum quer ser padre tem que aceitar o celibato. E dezer que Ratzinger esteve em silêncio é mais absurdo ainda. O seu encontro com os Bispos irlandese não significou nada? Ele agora está condenando fortemente estes desvios. Afinal em toda árvore boa existem frutos podres].
Dois pesos, duas medidas
“Com o caso Williamson, eu quero crer que o Papa não sabia que ele era negacionista, mas ele sabia necessariamente que todas aquelas pessoas eram antissemitas e contrárias ao Vaticano II. Como se pode aceitar na Igreja esses bispos cismáticos e ter sido tão duro com os teólogos da Libertação que não eram nem mesmo marxistas? [Não eram marxistas? Ora, vá contar esta pra outro. “Não era” porque “são” marxistas. Claro que o Papa não tinha conhecimento, mais você dizer que estes bispos todos eram antissemitas é muita pretensão. Os próprios colegas de Wiiliamson repudiaram sua atitude. O próprio Papa]. Agiu-se sem piedade com eles. Quando se aceita pessoas que negam o Concílio!”
Pio XII não é um santo
“Quando eu estava no Colégio Germânico, em Roma, durante os meus estudos, o Padre Leibe, secretário particular de Pio XII, veio nos ver. Ele nos falou do cotidiano do Papa. Em seguida lhe perguntamos: o Santo Padre é um santo? E ele respondeu: “Não, ele não é um santo, é um grande homem da Igreja”. Para Pio XII, a instituição era mais importante que todos os judeus do mundo inteiro. Para ele a ameaça comunista pesava mais que a ameaça nazista [Como se explica o fato dele ter salvo vários judeus nas igrejas, mosteiros, conventos de Roma e da Itália? Será que este fato deve ser mesmo excluído? Ele não podia, no entanto, pronunciar-se claramente. Mais condenou sim, e sabemo-lo disto].
E depois ele condenou os padres operários. Eu me lembro do que me confiou o cardeal Gerlier a este respeito. Com outros cardeais, ele tinha ido a Roma para convencê-lo a não fazer condenações. Gerlier me contou que Pio XII lhe havia dito: “Minha consciência de Papa me obriga a agir neste sentido”. Gerlier não sabia o que responder. Na minha opinião, ele poderia ter retorquido que sua consciência de bispo o obrigava a protestar contra a decisão do Papa. Mas os bispos franceses foram atropelados.
No entanto, não é preciso demonizar Pio XII. Ele levou um choque quando os comandos vermelhos saquearam a nunciatura de Berlim, em 1918. Um pouco como Ratzinger ficou traumatizado pelos estudantes revoltados de Tübingen, em 1968. Seu medo do comunismo tornou-se existencial. Podemos compreendê-lo, mas não podemos fazê-lo santo.”
Sobre João Paulo II
Wojtyla não era um santo porque nunca quis falar com pessoas que pensavam diferentemente dele. Ele falou muito “sobre” o diálogo, mas não o praticou. Seu moralismo sexual não serviu a ninguém e a jovem geração ri disso.” [Talvez você não tenha visto o diálogo com mulçumanos, judeus. O encontro dele com diversas outras religiões em Assis e seus incontáveis encontros com representantes de outra religião. E quanto ao “moralismo sexual” não só atraiu como ainda atrai jovens. Não é a toa que as Jornadas Mundiais da Juventude tem 1, 2 e até 3 milhões de jovens, todos correspondendo aos seu apelo].
O futuro da Igreja católica
“A situação atual me conforta infelizmente na minha visão crítica. Eu sou um católico leal [agora conta piada?], eu estou na oposição a esse sistema atual. Por outro lado, como eu, muitos santos não gostaram da Cúria. [Diga-me um!]
Eu não sou um modernista, eu critico, assim como Bento XVI, uma forma de ciência que critica a transcendência. Mas se, como Bento XVI, nos situarmos no extremo, de um rigorismo moral medieval, então perderemos toda a credibilidade [Sem credibilidade está é ele].
Ser católico não está ligado ao paradigma do absolutismo romano. Podemos ser católicos segundo o modelo da Reforma. Eu sou católico segundo o paradigma ecumênico e evangélico. Porque o ideal é ser católico com espírito evangélico e não romano. [Então não é católico!] Porque, para definir o que é católico, o critério é a conformidade com o Evangelho [Isso o Papa e a Igreja tem em demasia].
A Igreja pode sobreviver porque ela não é uma ideologia como o Comunismo. A substância permanecerá, não a hierarquia. Felizmente, ainda há comunidades que funcionam bem, onde o padre é bom. A identificação com o catolicismo não se fará com o Papa, mas com o padre local.” [Se não houver união com o Papa não é verdadeiro católico]

A CÁTEDRA DE PEDRO

Quarta-feira passada iniciamos com toda a Igreja o tempo da Quaresma, que no Brasil também é aprofundada com a Campanha da Fraternidade. Algumas festas, porém, são celebradas neste tempo de conversão a caminho da Páscoa. Uma delas é a Festa da Cátedra de São Pedro, comemorada no dia 22 de fevereiro, segunda-feira.

Qual o sentido de celebrar tal festa? Sem dúvida, trata-se de uma comemoração importante, pois revela que a Igreja, tal como querida por Jesus, é uma comunhão ordenada, tendo Pedro à frente. Na Sagrada Escritura, por diversas vezes, a missão de Pedro dentro da comunhão da Igreja aparece como única. O nome de Pedro encabeça a lista dos Apóstolos. É Pedro quem fala com Jesus em nome dos demais Apóstolos. Jesus promete fundar sobre o Apóstolo a sua Igreja, cuja estabilidade não seria jamais ameaçada, e entrega, particularmente a Pedro, as chaves do Reino dos Céus (cf. Mt 16, 16-19). Jesus também roga pela fé de Pedro, em particular, a fim de que o príncipe dos Apóstolos confirme os irmãos na fé (cf. Lc 22, 31-32) Jesus, depois da Ressurre ição, ainda aparece confirmando a singular missão pastoral de Pedro ao lhe confiar seus cordeiros e ovelhas (cf. Jo 21, 15-17). Pedro também aparece discursando ao povo em nome do colégio dos Apóstolos (cf. At 2, 14ss.).

Ademais, a tradição dos primeiros tempos da Igreja confirma, de diversos modos, o papel único de Pedro no seio da comunhão da Igreja. Vale aqui recordar as belas palavras do grande Arcebispo de Constantinopla, São João Crisóstomo, sobre o texto de Jo 21, 15-17: “O principal bem que resulta deste amor é o de procurar a salvação do próximo. O Senhor, prescindindo dos demais Apóstolos, dirige a Pedro estas promessas, porque Pedro era o primeiro dos Apóstolos, a voz dos discípulos e a cabeça do colégio. Por isso, depois de apagada a negação, o Senhor o investiu como prelado de seus irmãos. Não lhe lança em rosto a negação, mas diz: ‘Se me amas, preside a seus irmãos e dá testemunho agora do amor que sempre demonstraste, sacrificando por minhas ovelhas a vida que disseste que darias por mim’” (In Joannem, hom. 87).

A Cátedra de Pedro é o símbolo da missão magisterial que o Apóstolo recebeu do próprio Cristo. Os ensinamentos de Pedro procuram atualizar os ensinamentos de Jesus. A missão de Pedro é a de fazer com que o mistério do Filho de Deus, – Caminho, Verdade e Vida –, seja conhecido e amado pelos homens. Nesse sentido, estar em comunhão com o magistério autorizado de Pedro é estar em comunhão com a doutrina de Cristo. O antigo ditado latino expressa muito bem este sentimento: “Ubi Petrus, ibi Ecclesia” – Onde está Pedro, está a Igreja.

Em alguns momentos da história muitos se esqueceram do mandato de Jesus de viver a unidade! Somos chamados a ser corajosas pessoas da comunhão, da unidade entre nós e com Pedro e seu sucessor, caminhando como Igreja que anuncia hoje a boa notícia ao mundo com a mesma coragem dos primeiros discípulos.

O Apóstolo Pedro tem nos Papas seus legítimos sucessores. A cidade de Roma foi honrada pela presença e pelo martírio de São Pedro, que assim a consagrou como Sede Apostólica. Nós honramos a Sede de Pedro com o carinhoso e respeitoso título de Santa Sé. A Cátedra de Pedro é hoje ocupada pelo Papa Bento XVI. Ao longo da história, Deus mesmo é quem sustenta a Igreja na terra e o Papa que está à sua frente. A Cátedra de São Pedro foi ocupada por inúmeros nomes ilustres e santos, que se distinguiram seja pelo zelo pelas coisas de Deus, pela preservação e transmissão da sã doutrina, pela missão, pela sabedoria ou pelo serviço da caridade. Sabemos também que a fragilidade humana marcou a história do papado. Entretanto, nada de contrário a o sentido verdadeiro da Palavra de Deus foi oficialmente ensinado por um Papa, por menos digno que ele fosse, o que revela a ação de Deus assistindo à sua Igreja. Na verdade, Deus faz com que o ouro do Evangelho chegue incólume aos fieis!

Nestes últimos tempos assistimos como a ação do Espírito Santo faz com que tenhamos as pessoas necessárias para o nosso tempo e para que a Igreja continue na fidelidade a Cristo e ao Evangelho no caminhar da história. A lista e a diversidade dos últimos Papas nos demonstram isso.

O atual Papa Bento XVI destaca-se, entre outras coisas, pela coragem que tem de propor aos homens de nosso tempo a autêntica mensagem de Jesus, sem atenuações ou diminuições. Sabemos que o mundo atual, a diversos títulos, afasta-se de Deus e do seu Cristo. O consumismo, o hedonismo e o individualismo se apresentam hoje como deuses que reclamam culto de adoração. O secularismo e a indiferença religiosa parecem tomar proporções consideráveis. O desprezo pela verdade e o descaso, em muitos casos, pela dignidade da vida humana, principalmente em sua fase inicial e terminal, são realidades que estão aí. Apesar de tudo, Bento XVI não se intimida e propõe, com frescor sempre renovado, os valores do Evangelho. O Papa tem a consciência de que a Mensagem de Cristo nada tem a tirar de tudo aquilo que faz a vida boa e bela. Cristo não nos tira nada. Ao contrário, Cristo nos dá tudo. Se quisermos correr o belo risco por aquilo que verdadeiramente vale a pena na vida abracemos para valer a doutrina de Cristo, tal como a Igreja, com seu magistério autorizado, no-la transmite. “Tomai meu jugo sobre vós e recebei minha doutrina, porque eu sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para as vossas almas. Porque meu jugo é suave e meu peso é leve” (Mt 11, 29-30).

Na festa da Cátedra de São Pedro façamos a Deus uma prece de louvor e agradecimento. Deus caminha conosco. Jesus é nosso irmão. O Espírito da Verdade guia a Igreja, a fim de que a obra de Cristo sempre produza frutos. Aliás, a promessa de Jesus foi exatamente esta: “Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a verdade […]” (Jo 16,13). Renovemos, pois, a nossa fé e a nossa gratidão. O ministério de Pedro e de seus sucessores, os Papas, é um verdadeiro dom para a comunhão dos irmãos em Cristo. Sabemos que existe na Igreja uma instância auto rizada, guiada pelo Espírito, para ser sinal de nossa unidade e interpretar autenticamente a Mensagem de Jesus. Esta não ficou entregue ao vento, mas foi confiada à Igreja, que tem em sua base a “Pedra” escolhida por Jesus como sólido fundamento.

Neste Ano Sacerdotal, rezemos por todos os sacerdotes e, de modo especial, pelo Papa Bento XVI, que hoje é Pedro para nós!

+ Orani João Tempesta, O. Cist.

Arcebispo Metropolitano de São Sebas
tião do Rio de Janeiro, RJ