Jesus transfigura a humanidade – 2º Domingo da Quaresma


Neste segundo domingo da Quaresma as leituras traçam a Aliança feita por Deus com os homens. Em primeiro lugar avaliaremos a Aliança de Deus feita com Abraão. Depois veremos a carta de São Paulo e suas exortantes recomendações. E, por fim avaliaremos o Evangelho proposto para o dia.
Na primeira leitura Deus firma uma Aliança com Abraão (que ainda se chamava Abrão). E como Ele o faz? Assim nos narra o autor dos Gênesis: “Naquele dia o Senhor fez aliança com Abrão, dizendo: ‘Aos teus descendentes darei esta terra, desde o rio Egito até o grande rio, o Eufrates’” (v.18).
Esta aliança foi consumada única e verdadeiramente em Jesus Cristo, na sua última ceia. E em todas as missas revivemos este precioso fato. Não o repetimos, mas o renovamos, o fazemos presente também hoje. Antes de ser entregue Ele toma o cálice em suas mãos dá graças ao Pai e diz aos seus: “Isto é o meu sangue, o sangue da aliança, que é derramado em favor de muitos” (Mc 24).
Poderíamos dizer que esta aliança foi completamente selada na morte de Cristo, e por Ele todos podem, hoje, unir-se a Deus.
Na segunda leitura Paulo nos exorta: “Há muitos que se comportam como inimigos da cruz de Cristo. O fim deles é a perdição, o deus deles é o estômago, a glória deles está no que é vergonhoso e só pensam nas coisas terrenas” (Fl 3,18-19).
O mundo hoje está cheio dos “inimigos da cruz de Cristo”. Paulo os caracteriza de diversos modos e nós podemos conhecê-los. Além dos prazeres efêmeros dos bens terrenos, aos quais não quero me aprofundar aqui (já que dediquei dois artigos passados a este âmbito).
Precisamente o que Paulo designava com este termo “inimigos da cruz de Cristo”? O que ele queria dizer-nos ao falar dos pretensos inimigos.
Antes de tudo convém ressaltar que o apóstolo valoriza de modo substancial a cruz como símbolo do próprio Cristo. Ela representa o Cristo e ao mesmo tempo representa a Igreja. Ele não diz “há muitos que se comportam como inimigos de Cristo”, mas sim da “cruz de Cristo”. Quem se opõe a Igreja se opõe a Cristo, quem desvaloriza a cruz desvaloriza o próprio Cristo ou vice-versa. Eles estão unidos intrinsecamente entre si. Ninguém poderá separá-los, pois fazem parte um do outro.
Na sexta-feira Santa a Igreja eleva aos céus uma oração muito comum à este dia, quando, na Celebração da Paixão do Senhor, o Sacerdote faz a comum aclamação: “Ecce lignum crucis, in quo salus mundi pependit – Eis o lenho da cruz, do qual pendeu a Salvação do mundo”, ao que todos respondem: “Venite adoremus – Vinde e adoremos”. Sim, ali manifesta-se o sinal salvífico à humanidade. Não obstante os sofrimentos que expressam o Senhor morto, antes de tudo contemplamos a salvação que ali se realiza.
Os inimigos da cruz de Cristo são todos aqueles que não fazem a vontade de Deus, que tentam obstruir sua missão de cristãos, e, portanto, anunciadores da Boa Nova de Jesus e da sua salvação, são pessoas que fazem da barriga o seu deus. Que põe sua glória nas coisas do mundo e nas futilidade e superficialidades deste mundo. Que buscam limitar-se ao que é meramente finito. Pessoas que não querem escutar a voz da Igreja, apesar de saber de sua importância.
Por fim devemos debruçar-nos agora sobre o Evangelho de São Lucas que nos relata a Transfiguração do Senhor. Avaliemos não apenas o sentido teológico em si, mas mais ainda aprofundemo-nos em uma analogia sobre o que ela quer nos transmitir hoje.
Jesus leva consigo Pedro, Tiago e João ao Monte Tabor, e lá, segundo o evangelista narra-nos, “enquanto orava, seu rosto mudou de aparência e sua roupa ficou branca e brilhante. Dois homens conversavam com ele: Moisés e Elias. Apareceram revestidos de glória e conversavam sobre a saída deste mundo que Jesus iria consumar em Jerusalém… E da nuvem saiu uma voz: ‘Este é o meu Filho, o Eleito. Escutai-o!’” (Lc 9,29-31).
O Salmo 103 apresenta-nos um profundo paralelo com o Evangelho. Em outras palavras o evangelista faz uma analogia ao salmo, a apologia de Jesus na sua transfiguração ele nos diz: “Senhor, meu Deus, vós sois imensamente grande! De majestade e esplendor vos revestis, envolvido de luz como de um manto”.
São Marcos nos diz que “Suas vestes tornaram-se resplandecentes e de uma brancura tal, que nenhum lavadeiro sobre a terra as pode fazer assim tão brancas. (Mc 9,3)“. São Mateus associa esta brancura ao relâmpago: “Resplandecia como relâmpago e suas vestes eram brancas como a neve. (Mt 28,3)”. Daquela sua manifestante irradiação emanavam a divindade de Jesus e sua natureza divina. Sim, naquele momento paradoxal ao Getsemâni Jesus quis mostrar ao discípulo que sua glória se manifestaria na cruz, e de lá Ele iria conceder a verdadeira redenção à humanidade.
A voz do Pai mais uma vez faz-se presente e é ouvida pelos discípulos, que estavam envolvidos naquele mistério que ante seus olhos havia se manifestado. Depois do Batismo, também no Tabor, quer Deus que sua voz seja escutada, por meio do Filho que falava
-lhes, e Ele alerta aos discípulos: “Escutai-o!”. O Papa Bento XVI já nos recordava em seu livro Jesus de Nazaré: “A transfiguração é um acontecimento da oração; torna-se claro o que acontece no diálogo de Jesus com o Pai: a mais íntima penetração do seu ser com Deus, que se torna pura luz” (pag. 264).
“Por meio do batismo somos revestidos com Jesus na luz e tornamo-nos nós mesmo luz” (ibidem pag. 265). Infelizmente nem todos deixam-se revestir por esta luz; nem todos querem assumir o autêntico compromisso de serem “sal da terra e luz do mundo”, e por isso preferem esconder a luz debaixo da cama.
Peçamos que a luz de Cristo, que irradiou os apóstolos, irradie também o mundo que vive obscurecido nas trevas da ignorância. Ilumine, sobretudo, aqueles que não querem escutar os ensinamentos de Cristo para cada um de nós por meio da Igreja. Para que sejam iluminados aqueles que ignoram a Deus por se acharem autossuficientes; que sejam iluminados os que fazem dos bens terrenos o seu deus; que sejam iluminados os que deixam-se levar por ideologias contrárias ao verdadeiro ensinamento de Cristo.
Perguntemo-nos hoje: será que nós escutamos verdadeiramente a voz de Deus? Será que colocamo-la no centro da nossa existência? Ou será que escutamos mais a voz do mundo.
A cada um de nós cabe a resposta. Como eu tenho me colocado mediante o Cristo que fala hoje por meio de sua Igreja?