Catequese de Bento XVI sobre obra de São Boaventura – 10/03/2010

  Fonte: Canção Nova
 Queridos irmãos e irmãs,

na semana passada, falei sobre a vida e a personalidade de São Boaventura. Nesta manhã, desejo prosseguir a apresentação enfocando parte de sua obra literária e seu ensino.

Como já disse, São Boaventura, entre os vários méritos, teve o de interpretar autêntica e fielmente a figura de São Francisco de Assis, a quem ele venerou e estudou com grande amor. De modo particular, no tempo de São Boaventura, uma corrente dos Frades Menores, chamada de “espiritual”, sustentava que São Francisco havia inaugurado uma fase totalmente nova da história, algo como o “Evangelho eterno”, de que fala o Apocalipse, que substituiria o Novo Testamento. Este grupo afirmava que a Igreja já tinha esgotado o seu papel histórico e, dessa forma, deveria ser substituída por uma comunidade carismática de homens livres guiados interiormente pelo Espírito, ou seja, os “franciscanos espirituais”. Com base nas ideias desse grupo foram escritos os textos de um abade cisterciense, Joaquim da Fiore, que morreu em 1202. Em suas obras, ele afirmava um ritmo trinitário da história. Ele considerava o Antigo Testamento como a era do Pai, seguida pelo tempo do Filho, o tempo da Igreja. Havia ainda que se esperar pela terceira era, aquela do Espírito Santo. Essa história foi interpretada como uma história de progresso: da severidade do Antigo Testamento para a relativa liberdade do tempo do Filho na Igreja, até a plena liberdade dos Filhos de Deus no período do Espírito Santo, que também seria, finalmente, o período de paz entre os homens, de reconciliação entre os povos e religiões. Joaquim da Fiore havia suscitado a esperança de que o início do novo tempo viria através de um novo monaquismo. É compreensível, portanto, que um grupo de Franciscanos reconhecesse São Francisco de Assis como o iniciador desse novo tempo e que sua Ordem fosse a comunidade desse novo período – a comunidade do tempo do Espírito Santo, que deixava para trás a hierarquia da Igreja para iniciar a nova Igreja do Espírito, não mais vinculada às antigas estruturas.

Houve, portanto, o risco de um gravíssimo mal-entendido da mensagem de São Francisco, de sua humilde fidelidade ao Evangelho e à Igreja, e este mal-entendido comportava uma visão errônea do cristianismo como um todo.

São Boaventura, que tornou-se Ministro Geral da Ordem Franciscana em 1257, encontrou-se frente a uma grave tensão dentro de sua própria Ordem, precisamente por aqueles que apoiaram a mencionada correbte dos “Franciscanos espirituais”, que fora fortemente influenciada por Joaquim da Fiore. Exatamente para responder a esse grupo e restaurar a unidade da Ordem, Boaventura estudou cuidadosamente os escritos autênticos de Joaquim da Fiore e os que lhe eram atribuídos e, tendo em conta a necessidade de apresentar corretamente a figura e a mensagem de seu amado São Francisco, desejou apresentar uma justa visão da teologia da história. São Boaventura afrontou o problema exatamente em seu último trabalho, um conjunto de conferências para os monges do studio parisiense, que permaneceu inacabado e foi reunido através de transcrições dos ouvintes, intitulado Hexaëmeron, ou seja, uma explicação alegórica dos seis dias da criação. Os Padres da Igreja consideravam os sete dias da história da criação como uma profecia da história do mundo, da humanidade. Os sete dias representavam, para eles, sete períodos da história, mais tarde interpretados também como sete milênios. Com Cristo, se entraria no final no último período, isto é, o sexto período da história, a que se seguiria o grande sábado de Deus. São Boaventura assumiu esta interpretação histórica da relação com os dia da criação, mas de uma forma muito livre e inovadora. Para ele, dois fenômenos de seu tempo exigiam uma nova interpretação do curso da história:

1. A figura de São Francisco, o homem totalmente unidos a Cristo até a comunhão dos estigmas, quase um alter Christus, e, com São Francisco, a nova comunidade criada por ele, diversa do monaquismo até então conhecido;
2. A posição de Joaquim da Fiore, que anunciava um novo monaquismo e um período totalmente novo da história, indo além da revelação do Novo Testamento, e que exigia uma resposta.

Enquanto Ministro Geral dos Franciscanos, São Boaventura havia sofrido com tal concepção espiritualista, inspirada em Joaquim da Fiore. A Ordem não era governável, e andava logicamente rumo à anarquia. Para ele, duas eram as consequências:

1. A necessidade prática de estruturas e de inclusão na realidade da Igreja hierárquica, da Igreja é real, havia a necessidade de um fundamento teológico;
2. Tendo em conta o realismo necessário, não necessitava perder a novidade da figura de São Francisco.

Da resposta de São Boaventura, elaborada de modo muito sutil, posso oferecer aqui apenas um esboço esquemático e incompleto nos seguintes pontos:

1. São Boaventura rejeita a idéia do ritmo trinitário da história. Deus é um só para toda a história e não pode ser dividido em três divindades. A história é una, mesmo que seja um caminho, e – segundo São Boaventura – um caminho de progresso, como veremos.
2. Jesus Cristo é a última palavra de Deus – n’Ele, Deus disse tudo, dizendo e dando a si mesmo. Mais que ele próprio, Deus não pode dizer, nem dar. O Espírito Santo é o Espírito do Pai e do Filho. O Senhor diz do Espírito Santo: “… vos recordará tudo o que eu vos disse” (Jo 14, 26); “colherá do que é meu e vos anunciará” (Jo 16, 15). Portanto, não há um outro Evangelho superior, não há uma outra Igreja a se esperar. Por isso, também a Ordem de São Francisco deve inserir-se nesta Igreja, na sua fé, no seu ordenamento hierárquico.
3. Isso não significa que a Igreja seja imóvel, fixa no passado, e não possa exercer novidade alguma. “Opera Christi non deficiunt, sed proficiunt” [“As obras de Cristo não retrocedem, não são enfraquecidas, mas progridem”], disse o Santo na carta De tribus quaestionibus. Assim, São Boaventura formula explicitamente a ideia de progresso, e essa é uma novidade em comparação aos Padres da Igreja e a grande parte de seus contemporâneos.

Até então, a ideia central que dominava os Padres era apresenta como cume absoluto da teologia: todas as gerações posteriores somente poderiam ser suas discípulas. Também São Boaventura reconhece os Padres como professores para sempre, mas o fenômeno de São Francisco lhe dá a certeza de que a riqueza das palavras de Cristo é inesgotável, e que também entre as novas gerações podem parecer novas luzes. A unicidade de Cristo também nos garante novidade e renovação em todos os períodos.

Claro, a Ordem Franciscana pertence à Igreja de Jesus Cristo, à Igreja apostólica e não pode ser construída como um espiritualismo utópico. Mas, ao mesmo tempo, é válida a novidade de tal Ordem no confronto com o monaquismo tradicional, e São Boaventura – como disse na catequese anterior – defendeu tal novidade dos ataques do clero secular de Paris: os Franciscanos não tinham um monastério fixo,
podiam estar presentes em todos os lugares para anunciar o Evangelho. Apenas a ruptura com a estabilidade, característica do monaquismo, em favor de uma nova flexibilidade, restitui à Igreja o dinamismo missionário.

Nesse ponto, talvez seja útil dizer que também hoje existem visões segundo as quais toda a história da Igreja no segundo milênio teria sido um declínio permanente; alguns veem o declínio subitamente após o Novo Testamento. Na verdade, Opera Christi non deficiunt, sed proficiunt” [“As obras de Cristo não retrocedem, não são enfraquecidas, mas progridem”]. O que seria a Igreja sem a nova espiritualidade dos Cistercienses, dos Franciscanos e Dominicanos, da espiritualidade de Santa Teresa de Ávila e de São João da Cruz, e assim por diante? Também hoje vale afirmar: “Opera Christi non deficiunt, sed proficiunt“, ide avante. São Boaventura nos ensina, pelo exemplo, o discernimento necessário, também severo, do realismo sóbrio e da abertura a novos carismas doados por Cristo, no Espírito Santo, à sua Igreja. E, enquanto se repete essa ideia de declínio, há também uma outra, esta utopismo espiritualístico que se repete. Nós sabemos como, depois do Concílio Vaticano II, alguns estavam convencidos de que tudo é novo, que há uma outra Igreja, que a Igreja pré-conciliar é finita e teríamos outra, totalmente diferente. Um utopismo anárquico e, graças a Deus, os sábios timoneiros da barca de Pedro – Papa Paulo VI, Papa João Paulo II – defenderam, por um lado, a novidade do Concílio e, ao mesmo tempo, a unicidade e continuidade da Igreja, que é sempre Igreja de pecadores e sempre um lugar de graça.

4. Neste sentido, São Boaventura, como Ministro Geral dos Franciscanos, tomou uma linha de governo na qual ficou clara que a nova Ordem não podia, como comunidade, viver a mesma “altura escatológica” de São Francisco, em que ele vê antecipadamente o mundo futuro, mas – guiada, ao mesmo tempo, de um são realismo e de coragem espiritual – devia aproximar-se o mais possível da realização máxima do Sermão da Montanha, que, para São Francisco, foi a regra, tendo em conta as limitações do homem, marcado pelo pecado original.

A obra de São Boaventura, o Itinerarium mentis in Deum, é um “manual” de contemplação mística. Ele foi concebido em um cenário de profunda espiritualidade: o monte Alverne, onde São Francisco recebeu os estigmas. Na introdução, o autor explica as circunstâncias que deram origem a este escrito: “Enquanto meditava sobre a possibilidade de a alma ascender a Deus, me foi apresentado, pormenorizadamente, aquele evento maravilhoso que aconteceu com o beato Francisco, isto é, a visão do Serafim alado sob a forma de um Crucifixo. E, meditando sobre isso, imediatamente percebi que tal visão me oferecia a êxtase contemplativa do mesmo Pai Francisco e também o caminho que conduz a ela” (Itinerario della mente in Dio, Prologo, 2, em Opere di San Bonaventura. Opuscoli Teologici /1, Roma 1993, p. 499).

As seis asas do Serafim tornam-se, assim, o símbolo das seis etapas que conduzem progressivamente o homem ao conhecimento de Deus através da observação do mundo e suas criaturas, e através da exploração da própria alma com as suas capacidades, até chegar à união compensadora com a Santíssima Trindade, através de Cristo, à imitação de Francisco de Assis. As últimas palavras do Itinerarium de São Boaventura, que respondem à pergunta sobre como atingir essa comunhão mística com Deus, deveriam ser colocadas nas profundezas do coração: “Se agora deseja saber como isso acontece, [a comunhão mística com Deus] solicita a graça, não a doutrina; o desejo, não o intelecto; os gemidos da oração, e não o estudo da carta; o esposo, não o mestre; Deus, não o homem; a escuridão, não a clareza; não a luz, mas o fogo que tudo inflama e transporta em Deus com a forte unção e ardentíssimo afeto […] Entremos, pois, na névoa, acalmemos as preocupações, paixões e fantasias; passemos, com Cristo Crucificado, desse mundo ao Pai, a fim de que, após tê-lo visto, digamos com Felipe: isso me basta” (Ibid., VII, 6).

Caros amigos, acolhamos o convite feito por São Boaventura, o Doutor Seráfico, e entremos na escola do Divino Mestre: escutemos a sua Palavra de vida e de verdade, que ressoa nas profundezas da nossa alma. Purifiquemos os nossos pensamentos e as nossas ações, para que Ele possa habitar em nós, e nós possamos compreender a sua voz divina, que nos atrai para a verdadeira felicidade.

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A força da moral católica

A moral católica é a base do comportamento do cristão, segundo a fé que ele professa recebida de Cristo e dos Apóstolos. No Sermão da Montanha Jesus estabeleceu a “Constituição” do Reino de Deus, e em todo o Evangelho nos ensina a viver conforme a vontade de Deus. 
Para quem vive pela fé, a moral cristã não é uma cadeia; é antes um caminho de vida plena e de felicidade. Deus não nos teria deixado um Código de Moral se isso não fosse imprescindível para sermos felizes. As leis morais podem ser comparadas às setas de trânsito que guiam os motoristas, especialmente em estradas perigosas, de muitas curvas, neblinas e lombadas. Se o motorista as desrespeitar, poderá pagar com a própria vida e com as dos outros. 
Mas para crer nisso e viver, com alegria, a Moral é preciso ter fé; acreditar em Deus e no Seu amor por nós; e acreditar na Igreja Católica como porta-voz de Jesus Cristo. É preciso ser guiado pelo Espírito Santo. 
Cristo nos fala pelo Evangelho e pela Igreja. Ele a instituiu sobre Pedro e os Apóstolos para ser a nossa Mãe, guia e mestra. Jesus disse aos Apóstolos: “Quem vos ouve, a Mim ouve; quem vos rejeita, a Mim rejeita; e quem me rejeita, rejeita Aquele que me enviou” (Lc 10,16). 
Cristo concedeu à Igreja parte de Sua infalibilidade em matéria de doutrina: fé e moral, porque isso é necessário para a nossa salvação e instituiu a Igreja para nos levar à salvação. Por isso, o Senhor não pode deixar que a Igreja erre em coisas essenciais à nossa salvação. O Concílio Vaticano II disse que “a Igreja é o sacramento universal da salvação” (LG,4)
É por ela que Jesus continua a salvar os homens de todos os tempos e lugares através dos Sacramentos e da Verdade que ensina. São Paulo disse a São Timóteo que “a Igreja é a coluna e o fundamento (alicerce) da verdade” (cf. 1Tm 3,15) e que Deus quer que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da Verdade” (cf. 1Tm2, 4). Essa “verdade que salva” Deus confiou à Igreja para guardar cuidadosamente, e ela faz isso há vinte séculos. Enfrentou muitas heresias e cismas, muitas críticas dos homens e mulheres sem fé, especialmente em nossos dias, mas a Igreja não trai a Jesus Cristo. 
Cristo está permanentemente na Igreja – “Eis que estou convosco todos os dias até o fim do mundo” (Mt 28,20) – e ela sabe que embora os seus filhos sejam pecadores, ela não pode errar o caminho da salvação e da verdade. 
Na Última Ceia o Senhor prometeu à Igreja (Cristo e os Apóstolos) no Cenáculo que ela conheceria a verdade plena. “Ainda tenho muitas coisas para lhes dizer, mas vocês não estão preparados para ouvir agora; mas quando vier o Espírito Santo, ensinar-vos-á toda a verdade” (Jo 16,12-13). 
Ao longo dos vinte séculos o Espírito Santo foi ensinando à Igreja esta verdade, através dos santos, dos Papas, dos Santos Padres… 
Se Cristo não concedesse à Igreja a infalibilidade em termos de doutrina (fé e moral) de nada valeria ter-lhe confiado o Evangelho, pois os homens o interpretam de muitas maneiras diferentes e criaram muitas outras “igrejas”, sem o Seu consentimento, para aplicarem a verdade conforme o “seu” entendimento e não conforme o entendimento da Igreja deixada por Ele. A multiplicação das milhares de igrejas cristãs e de seitas é a consequência do esfacelamento da única Verdade que Jesus confiou ao Sagrado Magistério da Igreja (Papa e Bispos em comunhão com ele) para guardar e ensinar a todos os povos. 
Além de confiar à Igreja a Verdade eterna, Cristo lhe garantiu a Vitória contra todos os seus inimigos. Disse a Pedro: “As portas do inferno jamais a vencerão” (Mt 16,17). 
Já se passaram vinte séculos, inúmeras perseguições (império romano, nazismo, comunismo, fascismo, ateísmo,… ) e a Igreja continua mais firme e forte do que nunca. Quanto mais é perseguida, tanto mais corajosa se torna; quanto mais apanha, tanto mais se fortalece; quanto mais é caluniada, tanto mais sábia se torna. 
Tertuliano de Cartago (†220), um dos apologetas da Igreja, escreveu ao imperador romano da época, Antonino Pio, o qual perseguia os cristãos, dizendo-lhe que não adiantava persegui-los e matá-los, porque “o sangue dos mártires é semente de novos cristãos”. O império romano desabou, o comunismo sucumbiu, o nazismo acabou… mas a Igreja continua mais firme do que nunca. Nenhum chefe de Estado tem tantos embaixadores (Nún
cios Apostólicos) em outros países como o Vaticano; são cerca de 180. 
O mundo chama hoje a Igreja Católica de obscurantista, retrógrada, etc., por ela ser fiel a Jesus; mas ela não se curva diante do pecado do mundo moderno, da mesma forma que não se curvou diante dos carrascos dos seus mártires. 
A Igreja não busca a glória dos homens, mas somente a glória de Deus, por isso não se intimida e não desanima diante das ameaças dos infiéis. Ainda que ela fique sozinha, não negará a verdade do seu Senhor. 
A moral católica não muda ao sabor da vontade dos homens, nem com o passar do tempo, porque a Verdade não muda, seja ela qual for. O teorema de Pitágoras e o princípio do empuxo, de Arquimedes, são os mesmos que esses gregos descobriram vários séculos antes de Cristo. A verdade que foi revogada, nunca foi verdade; pois a verdade, de fato, não pode mudar. Cristo não nos deixou uma moral transitória, passageira, provisória; não, Ele nos deixou uma Verdade eterna. Ele mesmo é a Verdade.
As questões morais não dependem da “opinião da maioria”, nem se alteram com os “avanços” científicos. A moral é que deve dizer quais descobertas da Ciência são válidas para o progresso do homem, e não o contrário. Uma lei moral não se torna lícita só porque é aprovada pelo Governo ou pelo Parlamento. 
Muitas vezes, a confusão moral e os erros são cometidos por causa de uma incompreensão insuficiente dessas questões. A Igreja, de sua parte, examina com profundidade as questões morais, olhando não apenas o conforto do homem, mas, principalmente a sua dignidade humana. 
Diante das leis que não estão de acordo com a Moral católica, os fiéis precisam se manifestar com viva voz; porque se ficarmos calados e submissos, em breve, poderemos ter em nosso país muitas leis imorais. Já aprovaram o divórcio, a manipulação e a morte de embriões (vidas humanas!), e em breve poderão aprovar o aborto, a eutanásia, o casamento de pessoas do mesmo sexo… O Papa Leão XIII disse que “a audácia dos maus se alimenta da covardia e omissão dos bons.” Não podemos mais viver um catolicismo de sacristia; a maioria do povo brasileiro é católica (cerca de 73%) e tem direito de viver em um país com leis católicas; mas isso só acontecerá se fizermos isso acontecer. Jesus já tinha avisado que “os filhos das trevas são mais espertos que os filhos da luz”. 
Prof. Felipe Aquino

Ignorância ou má fé? Por que não se reconhece o valor da Igreja na História da nossa Civilização?

Nos últimos dias tenho me debatido, por vezes, com pessoas que, por uma grande influência dos meios de comunicação hoje, não reconhecem o valor que a Igreja tem nestes seus dois mil anos como “construtora da civilização ocidental”. E sobre isto resolvi escrever este artigo.
É muito difícil vermos a imprensa (que não esteja ligada a um âmbito religioso) mostrar aquilo que a Igreja faz e fez por seus filhos. A minha indignação é que esta imprensa (obviamente que mão me refiro a imprensa religiosa) imunda e tomada por ideologias anti-vida e comunistas e com suas notícias manipuladas e mal interpretadas mostram a sociedade uma Igreja que é tirana, opressora, maldosa. Uma Igreja que só pensa em si e esquece-se dos seus “filhos”. Uma Igreja repleta de pecados. Obviamente que a Igreja é formada de homens, por isso é pecadora, mas é antes de tudo Santa, e é santa porque Cristo a santificou e tornou-a sua esposa, e com elas somos chamados também a santificarmo-nos e entrarmos neste mistério de amor e de santidade.
Costuma-se por no centro os pecados dos filhos da Igreja, como se ela fosse um “poço de perdição”. Querem culpá-la pelos erros de seus filhos. Assim eu digo: culpem também a ciência pelos erros dos cientistas; a educação pelos erros dos professores; a medicina pelos erros dos médicos.
Jesus edificou a Igreja como “coluna e sustentáculo da verdade” (1 Tm 3, 15), Ele a fundou sobre a “Pedra”, que é Pedro, e ao qual quis Ele que fosse este o primeiro pastor da Igreja (cf. Mt 16, 18-19) e quis torná-la parte do seu corpo (cf. Ef 1, 22-23).
Mas por que a imprensa não mostra os benefícios que a Igreja trouxe ao mundo? Por que os professores e as Universidades não mostram os benefícios que a Igreja trouxe para a educação? Por que os médicos não agradecem a Igreja pelos benefícios que trouxe no âmbito da medicina? E os cientistas por que não reconhecem o grande progresso da Igreja na área científica? E tantos outros bens que, por meio da obra da Igreja chegaram até nós. Talvez porque desejam reter para si todos os agradecimentos e todo o louvável progresso que é “roubado” da Igreja.
Seria esta uma questão de má-fé ou de ignorância? Creio que um pouco dos dois. A ignorância até um certo aspecto que não abrange-se tanto como a má-fé.
A Igreja gerou em seu bojo a nossa Civilização ingrata. E sobre esta questão é de se recomendar o livro do Prof. Felipe Aquino “Uma História que não é contada”. Não é uma simples “estória”, mas é uma “História” que é ocultada das nossas salas de aula e da nossa sociedade por se achar sempre que a Igreja esteja em uma situação “deformada”.
Ó ignorância que atinge e deforma a verdadeira verdade, mas cria uma verdade falsa. Até quando insistireis em permanecer de pé? Até o dia em que Cristo cortar-te ao meio e lançar-te junto com todos os teus propagadores no fogo.
Nunca ouvi a imprensa noticiar que a Igreja, com sua organização caritativa “Cáritas”, doou 230 milhões de dólares para ajudar o povo assolado pelo terremoto no Haiti.
Não se reconhece que a Igreja, na pessoa do Papa São Leão Magno, impediu que Roma fosse devastada pelo feroz Átila, rei dos hunos.
Não se reconhece que a Igreja foi por muito tempo o auxílio dos pobres e sofredores. E daí surgiram grandes santos, que dedicaram sua vida a cuidar dos menos favorecidos e esquecidos pelos reis da época e pelos grandes senhores. Por exemplo: São Luiz IX, rei de França, Santa Isabel da Hungria, Santa Hedviges, São Roque, São Camilo de Lelis, São Vicente de Paulo, São João Bosco e tantos outros.
Santos que dedicaram-se a cuidar de prostitutas tão marginalizadas. “Inocêncio III numa bula de 1198 prometeu remissão total dos pecados aos homens piedosos que desposassem essas mulheres reconduzindo-as ao bom caminho” (Uma História que não é contada, pag. 239).
Ela foi a única a lutar contra o regime de escravidão desde o começo no século IV e V. Depois outros se juntaram ao seu ideal. E sempre via e vê no ser humano a “imagem e semelhança de Deus”. E reconhecia em todos esta dignidade.
A Igreja foi a primeira a fundar universidades. Estas provieram do seio das catedrais e mosteiros. E aqui gostaria de fazer uma nova citação: “Até 1440 foram erigidas na Europa 55 Universidades e 12 Institutos de ensino superior, onde se ministravam cursos de Direito, Medicina, Línguas, Artes, Ciências, Filosofia e Teologia. Todos fundados pela Igreja. Em 1200 Bolonha tinha dez mil estudantes (italianos, lombardos, francos, normandos, provençais, espanhóis, catalães, ingleses germanos, etc.). O Papa Clemente V no Concílio universal de Viena em 1311, mandou que se instaurassem nas escolas superiores cursos de línguas orientais (hebreu, caldeu, árabe, armênio, etc.), o que em breve foi feito também em Paris, Bolonha, Oxford, Salamanca e Roma.
Universidades como La Sapienza, Oxford, Salamanca, Bolonha e etc., sempre foram referências para todo o mundo. E estas foram constituídas pela Igreja. Será que isto deve ser esqueci
do.
A Igreja foi e é a instituição com mais ajuda a necessitados e sempre fomentou a caridade. Hospitais, sanatórios, asilos, etc. Tudo isto é sustentado por ela hoje. Não é a toa que em 14 países da América Latina, em Portugal e na Espanha, em uma pesquisa feita apontou que 71% das pessoas têm confiança na Igreja Católica.
Esta é a nossa Igreja! Esta é a Igreja de Cristo. Uma Igreja na qual seus filhos erram, sim. Afinal são homens. Mas por meio dos sacramentos buscam uma vida reta e perpétua com Deus. Uma Igreja na qual homens e mulheres derramaram seu sangue, foram queimados vivos por causa do anúncio do nome de Jesus e do Seu Evangelho. A Igreja dos Santos doutores, dos Santos Papas, dos Profetas, Confessores, Mártires, Apóstolos, Virgens… Uma Igreja rica de dons e que verdadeiramente ama seus filhos, guiada constantemente pelo dom que Cristo a concede da infalibilidade papal.
A Igreja que ficou de pé quando o Império Romano caía. A Igreja que sustentou estes dois mil anos de caminhada do povo cristão. A Igreja que acolhe o deficiente, quando Lutero manda afogá-los e matá-los. Por que não dizem isto? Medo? Que sentimento norteia a nossa imprensa hoje? Será justo aquilo que a Igreja sofre?
Independente de tudo ela sempre manterá consigo as palavras de Jesus: et portæ inferi non prævalebunt adversum eame as portas do Inferno prevalecerão contra ela” (Mt 16, 18).