A necessidade de voltarmos ao Pai misericordioso – 4º Domingo da Quaresma


 

No evangelho deste domingo, Jesus conta-nos uma parábola que se insere em uma grande analogia muito atrativa conosco e em nossos dias. A conhecida parábola do filho pródigo, tende a falar-nos, também a nós hoje, que Deus é um Pai misericordioso e sempre disposto a acolher os seus filhos arrependidos.

Mas, por que Jesus contou esta parábola? Qual seria o seu verdadeiro significado? “Os fariseus, porém, e os mestres da Lei criticavam Jesus: “Este homem acolhe os pecadores e faz refeição com eles” (Lc 15, 2). Aqui está o real motivo! Jesus é um Deus vindo principalmente, e sobretudo, para os pecadores. Como ele mesmo pode dizer “Quem precisa de médico são os doentes, não os sãos”. Sim, amado leitor, eis a maravilhosa missão de Jesus: Trazer a misericórdia, o perdão dos pecados, para todos nós que fomos obscurecidos pelos erros do mal.
Na parábola Jesus nos diz: “Um homem tinha dois filhos. O filho mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me cabe’. E o pai dividiu os bens entre eles.
Poucos dias depois, o filho mais novo juntou o que era seu e partiu para um lugar distante. E ali esbanjou tudo numa vida desenfreada. Quando tinha gasto tudo o que possuía, houve uma grande fome naquela região, e ele começou a passar necessidade.
Então foi pedir trabalho a um homem do lugar, que o mandou para seu campo cuidar dos porcos. O rapaz queria matar a fome com a comida que os porcos comiam, mas nem isto lhe davam” (vv. 11-16).
Assim caracteriza-se a vida daqueles que se afastam de Deus. Ela é comparada a este filho mais novo que gastou toda a sua herança de forma desenfreada, e depois começou a sentir necessidade. Aqui gostaria de centrar-me especificamente na palavra “necessidade”. Quantas pessoas hoje tem necessidade de Deus? Quantas pessoas, que por mais dinheiro que tenham, são as que passam mais necessidade? Não me refiro ao sentido estrito da palavra, no âmbito material. Mais uma necessidade que percorre todo um sentido da vida espiritual. Sim, existem pessoas que estão sequiosas do Deus vivo porque, ao buscarem sua satisfação fora dEle também passaram por fortes necessidades, às quais servem de exemplo para todos nós, homens e mulheres do mundo hodierno que fomenta a autossuficiência e o caminhar por si só, sem a ajuda de Deus.
Mais retornemos ao evangelho. “Não há dúvidas de que, naquela simples e penetrante analogia – escreve o Papa João Paulo II –, a figura do pai nos revela Deus como Pai… O pai do filho pródigo é fiel à sua paternidade, fiel àquele amor que desde sempre liberalizara ao próprio filho” (Car. Enc. Dives in Misericordia, cap. IV, 6).
Voltemo-nos ao Deus que é misericórdia. Não obstante os nossos erros ele está sempre disposto a acolher-nos. Confiemos nele. Assim como o pai misericordioso ele quer convidar-nos a sentar em sua mesa e quer dar um grande banquete para comemorar a nossa volta ao seio paterno.
Encerro com um trecho do Sermão do Perdão, de São Pedro Crisólogo: 

Se a conduta deste jovem nos desagrada, aquilo que nos causa horror é a sua partida: no nosso caso, não nos afastemos nunca de um pai destes! A simples visão do pai faz fugir os pecados, expulsa o erro, exclui qualquer má conduta e qualquer tentação. Mas, no caso de termos partido, de termos esbanjado toda a herança do pai numa vida desregrada, de nos ter acontecido cometer qualquer erro ou má acção, de termos caído no abismo da blasfémia, levantemo-nos e regressemos para junto de um pai tão bom, convidados por exemplo tão belo.
«O pai viu-o e, enchendo-se de compaixão, correu a lançar-se-lhe ao pescoço e cobriu-o de beijos.» Pergunto-vos: haverá lugar para o desespero? Haverá pretexto para desculpas? Falsas razões para receios? A menos que se receie o encontro com o pai, que se receiem os seus beijos e os seus abraços; a menos que se julgue que o pai quer tomar para recuperar, em lugar de receber para perdoar, quando pega no filho pela mão, o toma nos abraços e o aperta contra o coração. Mas este pensamento, que esmaga a vida, que se opõe à nossa salvação, é amplamente vencido, amplamente aniquilado pelo seguinte: «O pai disse aos seus servos: «Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha; dai-lhe um anel para o dedo e sandálias para os pés. Trazei o vitelo gordo e matai-o; vamos fazer um banquete e alegrar-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi encontrado.»» Após termos ouvido isto, poderemos ainda demorar-nos? Que esperamos para regressar para junto do pai?