O cristão olha para o futuro – 5º Domingo da Quaresma


Neste quinto e último domingo da Quaresma a Liturgia põe em relevo que precisamos abandonar a antiga vida e devemos arrependemo-nos para, assim, sermos perdoados e encontrarmos vida nova em Cristo. Jesus nos convida ao perdão e nos mostra o caminho para chegarmos até ele.
Na primeira leitura, o Deus nos diz pelo Profeta Isaías: “Não relembreis coisas passadas, não olheis fatos antigos. Eis que eu farei coisas novas, e que já estão surgindo: acaso não as reconheceis?” (43, 28-19). Qual o contexto hodierno que bem se expressam estas palavras?
Devemos antes de tudo centralizar aqui o perdão, a misericórdia de Deus. Deus sabemo-lo, é um Pai aberto ao arrependimento e a acolher a todos de maneira igual, como filhos e filhas. É necessário que o homem saiba que só encontrará plena felicidade em Cristo. Para tanto, Ele continua a manifestar sua compaixão, mesmo àqueles que não estão abertos à escuta da sua Palavra.  
A segunda leitura põe-se em justaposição a primeira. São Paulo, perto do seu fim e já na prisão, escreve aos filipenses: “Na verdade, considero tudo como perda diante da vantagem suprema que consiste em conhecer a Cristo Jesus, meu Senhor. Por causa dele eu perdi tudo. Considero tudo como lixo, para ganhar Cristo e ser encontrado unido a ele” (3, 8). Note-se que ele diz “unido” e não “junto”. Pois o que está “junto” pode ser separado, mas o que está “unido” no sentido estrito da palavra, nunca poderá ser desassociado, jamais!
O verdadeiro ganho, mesmo que venha a “prejudicar-nos” materialmente, é Cristo. Só Ele pode saciar os profundos anseios dos seres humanos. Devemos passar por este processo de transformação que nos transfere da nossa comodidade para inserir-nos na comunidade dos membros de Cristo Jesus, membros batizados e que agora constituem também o seu Corpo.
Esquecendo o que fica para trás, eu me lanço para o que está na frente. Corro diretamente para a meta, rumo ao prêmio, que, do alto, Deus me chama a receber em Cristo Jesus” (v. 13-14). O apóstolo mais uma vez leva-nos a persuadir-nos de que devemos confiar inteiramente em Cristo. Devemos nos “lançar”. Este verbo indica que devemos nos atirar sem medo. Devemos nos jogar confiantes ao que está à frente; isto é, Cristo. Ele é quem nos guia, e guia a Sua Igreja. Correr para a meta, significa que devemos dar grandes passos em direção a Cristo, e só n’Ele poderemos encontrar o objetivo esperado. Só n’Ele está o prêmio eterno e imperecível, cuja luz não pode ser ofuscada e cuja misericórdia nos-é manifestada por meio de todo o seu sofrimento e de toda a sua vida. Por isso o cristão é chamado a estar em “comunhão com os seus sofrimentos [isto é, os sofrimentos de Cristo]” (v. 10).
Não obstante o nosso imenso pecado, maior é a misericórdia de Deus, ela nos é dada a conhecer por meio de Jesus Cristo. Não é uma pseudo-salvação, do contrário: nela temos a garantia da vida eterna, e da vida em Deus.
O Evangelho, por fim, eu tenho como um dos mais belos e mais ricos desta Quaresma.
Observem o cenário: uma mulher prostituta, marginalizada pela sociedade da época, vários doutores da lei, que como sempre gostavam de julgar e de aplicar a lei sobre os outros, os fariseus hipócritas, que, assim como os doutores da lei, impunham fardos sobre os outros, mas nem eles mesmo aguentariam carregar e Jesus, simples, acolhedor e que não discriminava.
Levam uma mulher surpreendida em adultério até Ele, para que julgasse o que achava e apedrejá-la ou não. Na lei de Moisés a mulher pega em adultério deveria ser apedrejada até a morte. No entanto para testar Jesus eles levam a mulher até Ele e perguntam-lhe: “Mestre, esta mulher foi apanhada a pecar em flagrante adultério.
Moisés, na Lei, mandou-nos matar à pedrada tais mulheres. E Tu que dizes?” (Jo 8, 4-5). Inclinando-se Ele começa a escreve. As Sagradas Escrituras não nos relatam o que Ele escrevia. Vendo que eles persistiam em uma resposta, Jesus lhes diz: “Quem dentre vós não tiver pecado, atire a primeira pedra” (v. 7).
Sim! Jesus surpreende a todos com esta resposta. Todos deixam as pedras e vão embora. Vendo que só estava Ele e a mulher, a interroga: “Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?” E ela ainda cabisbaixa, disse: “Ninguém, Senhor”. “Eu também não te condeno, diz Jesus. Podes ir, e de agora em diante não peques mais” (v. 10-11).
Aqui, caro leitor (a), Jesus dirige-se a cada um de nós, particularmente em dias tão turbulentos, que tem afrontado a legitimidade da nossa fé e a nossa confiança em Deus. Ele diz a cada um de nós que devemos ter coragem. A nossa fé deve superar a nossa tribulação. Jesus convida-nos a abrimo-nos ao arrependimento. Não devemos reter-nos ao passado e rememorar os pecados já perdoados pela misericórdia de Deus. Os cristãos são chamados a olhar para o futuro. No futuro estará nossa meta que é Cristo. No “tempo” do cristão se aprende com os erros do passado, para aplicá-los no presente, para um futuro melhor com Cristo.
Deus não é impassível. Como dirá São Bernardo: “Deus não pode padecer, mas pode compadecer-se”. E ele compadece conosco.
A conversão deriva-se do encontro pessoal com Jesus, e fundamenta-se na permanência com Ele. A partir daí queremos mudar radicalmente, abandonado a vida repleta de pecados. E só perceberemos que estamos verdadeiramente convertidos quando notarmos que longe de Cristo cai-se em um existencialismo irracional, e que só pode
r-se-á vencê-lo quando a Ele retornamos.
Confiemos na misericórdia divina. Só ela é a verdadeira salvação, e só nela encontramos frutos de santidade.
Que a Virgem Maria nos acompanhe nesta caminhada. Ela que é cheia de compaixão pelos seus filhos menos desfavorecidos.