Encontro de Bento XVI com os jovens no 25º aniversário das JMJ


Fonte: Canção Nova

Giulia: “Santo Padre, o jovem do Evangelho perguntou a Jesus: Bom Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna? Eu não sei exatamente o que é a vida eterna. Eu não consigo imaginá-la, mas uma coisa eu sei: não quero desperdiçar a minha vida, quero vivê-la até o fim e não isoladamente. Tenho medo de que isso não aconteça, tenho medo de pensar apenas em mim mesmo, de errar tudo e encontrar-me sem uma meta a ser alcançada, vivendo apenas por viver. É possível fazer de minha vida algo de belo e grande?”

Bento XVI: Queridos jovens, antes de responder à pergunta, desejo dizer obrigado a todos por vossa presença, por este maravilhoso testemunho de fé, de querer viver em comunhão com Jesus, por vosso entusiasmo em seguir Jesus e viver bem. Obrigado!

E, agora, a pergunta. Vós nos dissestes que não sabe o que seja a vida eterna e que não consegue imaginá-la. Nenhum de nós está capacitado para imaginar a vida eterna, porque está fora da nossa experiência. No entanto, podemos começar a compreender o que seja a vida eterna, e penso que vós, com vossa pergunta, nos deu uma descrição do essencial da vida eterna, isto é, da verdadeira vida: não desperdiçar a vida, vivê-la em profundidade, não viver para si mesmo, não viver apenas por viver, mas viver realmente a vida na sua riqueza e na sua totalidade. E como fazer isso? Essa é a grande questão, com a qual também o rico do Evangelho se dirige ao Senhor (cf. Mc 10, 17). À primeira vista, a resposta do Senhor parece muito seca. Tudo somado, afirma: observa os mandamentos (cf. Mc 10, 19). Mas, se refletimos bem, se ouvimos atentamente o Senhor, na totalidade do Evangelho, encontramos a grande Sabedoria da Palavra de Deus, de Jesus. Os mandamentos, segundo uma outra Palavra de Jesus, são resumidos neste único: amar a Deus de todo o coração, com toda a razão, com toda a existência e amar o próximo como a si mesmo. Amar a Deus supõe conhecer a Deus, reconhecer Deus. E esse é o primeiro passo que devemos fazer: procurar conhecer a Deus. E, assim, sabemos que nossa vida não existe por acaso, não é um acaso. Minha vida é desejada por Deus desde a eternidade. Eu sou amado, sou necessário. Deus tem um projeto para mim na totalidade da história; tem um projeto somente para mim. Minha vida é importante e também necessária. O amor eterno criou-me em profundidade e me aguarda. Então, esse é o primeiro ponto: conhecer, procurar conhecer a Deus e, assim, compreender que a vida é um dom, que é bem viver. Então, o essencial é o amor. Amar este Deus que me criou, que criou este mundo, que governa entre todas as dificuldades do homem e da história, e que me acompanha. E amar o próximo.

Os dez mandamentos, aos quais Jesus se refere na sua resposta, são apenas uma explicitação do mandamento do amor. São, por assim dizer, regras do amor, indicam o caminho do amor com estes pontos essenciais: a família, como base da sociedade; a vida, a ser respeitada como dom de Deus; a ordem da sexualidade, da relação entre homem e mulher; a ordem social e, finalmente, a verdade. Esses elementos essenciais explicitam a estrada do amor, explicitam como realmente amar e encontrar o caminho certo. Portanto, existe uma vontade fundamental de Deus para nós todos, que é idêntica para todos. Mas a sua aplicação é diferente em cada vida, porque Deus tem um projeto preciso para todo o homem. São Francisco de Sales disse uma vez: a perfeição, isto é, o ser bom, o viver a fé e o amor, é substancialmente uma, mas sob formas muito diferentes. Muito diversa é a santidade de um monge cartuxo e de um homem político, de um cientista ou de um agricultor, e assim por diante. Assim, para cada pessoa, Deus tem seu projeto e eu devo encontrar, nas minhas circunstâncias, o meu modo de viver essa única e comum vontade de Deus, cujas regras são indicadas nesta explicação do amor. E buscar, então, cumprir o que é a essência do amor, isto é, não ter vida para mim, mas dar a vida; não “ter” a vida, mas fazer da vida um dom, não procurar a si mesmo, mas dar aos outros. Isto é essencial, e implica renúncia, isto é, esquecer de mim mesmo e não buscar a mim mesmo. E exatamente não procurando a mim mesmo, mas dando-me para as grandes e verdadeiras coisas, encontro a verdadeira vida. Assim, todos podem encontrar, em sua vida, as diferentes possibilidades: empenhar-se no voluntariado, em uma comunidade de oração, em um movimento, na ação da paróquia, na própria profissão. Encontrar a minha vocação e vivê-la em todo lugar é importante e fundamental, seja eu um grande cientista ou um fazendeiro. Tudo é importante aos olhos de Deus: é belo se é vivido até o fim com aquele amor que realmente redime o mundo.

Finalmente, gostaria de contar uma pequena história de Santa Josefina Bakhita, esta pequena santa africana que, na Itália, encontrou Deus e Cristo, e que sempre me deu uma grande impressão. Era freira em um convento italiano; um dia, o Bispo local fez uma visita àquele mosteiro, viu esta pequena freira negra, sobre a qual parece que não sabia nada e diz: “Irmã, o que faz aqui?”, e Bakhita responde: “A mesma coisa que fazeis vós, Excelência”. O bispo, visivelmente irritado, disse: “Mas como, irmã, faz a mesma coisa que eu?”, “Sim, – disse a freira – ambos queremos fazer a vontade de Deus, não é?”. Enfim, este é o ponto essencial: conhecer, com a ajuda da Igreja, da Palavra de Deus e dos amigos, a vontade de Deus, seja em linhas gerais, comuns a todos, seja na realidade concreta da minha vida pessoal. Assim, a vida torna-se, talvez, não muito fácil, mas bonita e feliz. Rezemos ao Senhor para que nos ajude sempre a encontrar sua vontade e a segui-la com alegria.

Luca: “O Evangelho nos diz que Jesus olhou para o jovem e o amou. Santo Padre, que significa dizer ser olhado com amor por Jesus; como podemos fazer também nós, hoje, esta experiência? Mas é realmente possível viver essa experiência também nesta vida de hoje?

Bento XVI: Naturalmente direi que sim, porque o Senhor está sempre presente e olha cada um de nós com amor. Só que nós devemos localizar esse olhar e encontrar-nos com ele. Como fazer isso? Direi que o primeiro ponto para se encontrar com Jesus, para fazer a experiência de Seu amor é conhecê-lo. Conhecer Jesus implica diversas vias. Uma primeira condição é conhecer a figura de Jesus como nos aparece nos Evangelhos, que nos dão um retrato muito rico da figura de Jesus, nas grandes parábolas, pensamos na do filho pródigo, do samaritano, Lázaro e assim por diante. Em todas as parábolas, em todas as suas palavras, no Sermão da Montanha, encontramos realmente o rosto de Jesus, o rosto de Deus até a Cruz onde, por amor de nós, se doa totalmente até a morte e pode, ao final, dizer Nas tuas mãos, Pai, dou a minha vida, a minha alma (cf. Lc 23, 46).

Então: conhecer, meditar sobre Jesus com os amigos, com a Igreja e conhecer Jesus não somente de modo acadêmico, teórico, mas com o coração, isto é, falar com Jesus na oração. A uma pessoa não se pode conhecer da mesma maneira que se pode estudar a matemática. Para a Matemática é necessária e suficiente a razão, mas para conhecer um
a pessoa, acima de tudo a grande pessoa de Jesus, Deus e homem, nos ajuda também a razão, mas, ao mesmo tempo, também o coração. Somente com a abertura do coração a Ele, somente com a consciência do conjunto de quanto disse e fez, com o nosso amor, nosso andar rumo a Ele, podemos conhecê-lo sempre mais e, assim, também fazer a experiência de ser amado. Então: escutar a Palavra de Jesus, escutá-la na comunhão da Igreja, na sua grande experiência e responder com a nossa oração, com a nossa conversa pessoal com Jesus, onde lhe dizemos tudo que não conseguimos compreender, as nossas necessidades, as nossas perguntas. Em um verdadeiro diálogo, podemos encontrar sempre mais essa estrada da consciência, que se torna amor. Naturalmente, não somente pensar, não somente rezar, mas também fazer é uma parte do caminho rumo a Jesus: fazer as coisas boas, empenhar-se pelo próximo. Existem diversas estradas; cada um conhece as próprias possibilidades, na paróquia e na comunidade onde vive, para empenhar-se também com Cristo e pelos outros, pela vitalidade da Igreja, para que a fé seja verdadeiramente força formadora do nosso ambiente e, assim, do nosso tempo. Então, direi estes elementos: escutar, responder, entrar na comunidade dos fiéis, comunhão com Cristo nos sacramentos, onde se dá a nós, seja na Eucaristia, seja na Confissão, etc, e, finalmente, fazer, realizar as palavras da fé, que se tornam força da minha vida, e eis que aparece verdadeiramente, também a mim, o olhar de Jesus e Seu amor me ajuda, me transforma.

Enrico: “Jesus convidou o jovem rico a largar tudo e segui-lo, mas ele retirou-se triste. Também eu, como ele, acho difícil segui-Lo, porque tenho medo de deixar as minhas coisas e, por vezes, a Igreja me pede renúncias difíceis. Santo Padre, como posso encontrar a força para tomar decisões corajosas, e o que pode me ajudar?”

Bento XVI: Eis que começamos com esta palavra dura para nós: renúncia. As renúncias são possíveis e, ao final, tornam-se também belas se têm um porquê e se esse porquê justifica, pois, também a dificuldade da renúncia. São Paulo utilizou, neste contexto, a imagem das olimpíadas e dos atletas comprometidos com as olimpíadas (cf. 1 Cor 9, 24-25). Disse: Aqueles, para chegar finalmente à medalha – naquele tempo, à coroa – devem viver uma disciplina muito dura, devem renunciar a tanta coisa, devem exercitar-se no esporte que praticam e fazem grandes sacrifícios e renúncias porque têm uma motivação, lhes vale a pena. Também se ao final, talvez, não fiquem entre os vencedores, todavia é uma coisa bonita ter disciplinado a si mesmo e ter sido capaz de fazer essas coisas com uma certa perfeição. A mesma coisa que se aplica, com essa imagem de São Paulo, para as olimpíadas, para todo o esporte, vale também para todas as outras coisas da vida. Uma boa vida profissional não pode ser alcançada sem renúncias, sem uma preparação adequada, que sempre exige uma disciplina, exige que se deva renunciar a alguma coisa, e assim por diante, também na arte e em todos os elementos da vida. Todos nós compreendemos que, para atingir uma meta, tanto esportiva quanto profissional, seja artística ou cultural, devemos renunciar, aprender a ir adiante. Também a arte de viver, de ser “si mesmo”, a arte de ser homem exige renúncias, e as renúncias verdadeiras, que nos ajudam a encontrar a estrada da vida, a arte da vida, nos são indicadas na Palavra de Deus e nos ajudam a não cair – digamos – no abismo das drogas, do álcool, da escravidão da sexualidade, da escravidão do dinheiro, da preguiça. Todas essas coisas, em um primeiro momento, aparecem como ações de liberdade. Na realidade, não são ações de liberdade, mas o começo de uma escravidão que se torna sempre mais insuperável. Ser capaz de renunciar à tentação do momento, andar adiante rumo ao bem cria a verdadeira liberdade e faz preciosa a vida. Nesse sentido, me parece, devemos ver que sem um “não” a certas coisas não cresce o grande “sim” à verdadeira vida, como a vemos nas figuras dos santos. Pensamos em São Francisco, pensamos nos santos de nossa tempo, Madre Teresa, padre Gnocchi e tantos outros, que renunciaram, venceram e se tornaram não apenas livres para si mesmos, mas também uma riqueza para o mundo e nos mostram como se pode viver. Assim, à pergunta “o que me ajuda”, direi que nos ajudam as grandes figuras da história da Igreja, nos ajuda a Palavra de Deus, nos ajuda a comunidade paroquial, o movimento, o voluntariado, e assim por diante. E nos ajudam as amizades de homens que “vão adiante”, que já fizeram progressos no caminho da vida e que podem me convencer que andar assim é a estrada certa. Rezemos ao Senhor para que nos dê sempre amigos e comunidade que nos ajude a ver o caminho do bem e a encontrar, assim, a vida bela e alegre.