Trindade: Fonte e origem da Igreja

Neste domingo, celebrando a Solenidade da Santíssima Trindade, a Igreja quer mais uma vez reafirmar seu compromisso constante de anunciadora da Verdade que é subsistente nestas três Pessoas. Estamos no centro do mistério da fé cristã. Mas o que precisamente vem à nossa mente quando falamos neste profundo e jamais totalmente entendido mistério da Trindade? Em que precisamente esta consiste?

Em primeiro lugar devo dizer que este artigo não irá apresentar nenhuma solução para se entender o mistério trinitário, se nem mesmo Santo Agostinho e os grandes Santos conseguiram, não serei eu que conseguirei. Apenas desejo exemplificar e dar uma melhor compreensão sobre algo que, superior à mente humana, é incompreensível à nossa natureza.

É na Trindade que a Igreja se reúne. A primeira e a última saudação da Missa, os prefácios, etc. “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós” (II Cor 13, 13). Comumente esta saudação é usada na celebração eucarística. A Igreja quer seguir os passos da Comunidade Perfeita. Quer estar constantemente unida ao mistério que desvela-se nas Santas Missas.

Na primeira leitura nos-é possível notar que é feita uma profunda analogia com a Trindade, família perfeita e modelo ideal para nossas famílias nos dias hodiernos. “Desde a eternidade fui constituída, desde o princípio, antes das origens da terra” (Pr 8, 23). Sabemos que Deus (Trindade) é um ser infinito. Desde as origens do mundo vemos Deus dialogar com as outras duas pessoas: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Gn 1, 26). Ora, se Ele disse “façamos”, logo não estava sozinho. Mas Deus, Sabedoria suprema, manifesta a sua essência. Já professamos no Credo que Jesus é “consubstancial”, ou seja, da mesma substância do Pai e do Espírito. São Eles três Pessoas em um só Deus. Nenhum age sem plena adesão do outro; pelo contrário, agem juntos e em comum.

Na segunda leitura São Paulo escreve algo que me admira, e ao qual poucos tendem a fazê-lo: “Nos gloriemos também de nossas tribulações, sabendo que a tribulação gera a constância, a constância leva a uma virtude provada, a virtude provada desabrocha em esperança; e a esperança não decepciona” (Rm 5, 3-4). Difícil já é suportar uma tribulação, quanto mais gloriar-se nela. Mas é isso que nos exorta o apóstolo. O melhor meio para superar uma tribulação é ter a certeza de que Cristo está conosco, de que, apesar de nossa fraqueza, o Senhor não nos abandona, e mais que isso: Ele prova a nossa fé.

No momento que passo por constantes dúvidas e provações, essa palavra toca profundamente o meu coração. E posso dizer: Sim! Teremos provações. E nelas o Senhor testa a nossa fé, para saber se realmente somos dignos de um dia contemplarmos a sua face. Para ser padre, por exemplo, não basta apenas que você tome isso como meta, achando que superará fácil todas as provações. Posso dizer seguro que isso não acontecerá. Quem quer servir o Senhor sempre passará por provações e dificuldades, ainda mais quando não apenas servimos, mas quando tomamos em nós a pessoa do próprio Cristo. Satanás tentará impor barreiras que nós devemos, não saltá-las, pois elas ficarão para trás, mas um dia poderão voltar. Devemos quebrar, derrubar, todas as barreiras que impedem o nosso caminho e o nosso encontro pessoal com Cristo.

Àquele que se confia a Deus e se entrega a oração o Senhor os ajudará a vencer as dificuldades e a darem um sentido novo à suas vidas.

Precisamos passar pelo processo descrito por São Paulo: Tribulação, constância, virtude provada e esperança. Esperança que se fundamenta em Cristo Jesus e na Sua Igreja. E quem mais tem demonstrado esta esperança é a Igreja.

É engraçado como, às vezes, escuto alguém dizer: “Se o Papa voltar a Missa em latim vai acabar com a Igreja”. Ou então: “Se não por um ponto final ao celibato, vai acabar com a Igreja”. Eu digo a estes: ainda que ficasse somente o Papa na Igreja, ela não acabaria. Pois ainda seria uma comunidade unida a Trindade. Que maior comunidade pode haver, senão aquela unida com o Pai, o Filho e o Espírito Santo? Jesus quando disse que as portas do inferno não prevaleceriam, Ele não diz com quantas pessoas. Pois só o Papa, guiado pelo Espírito Santo que “sonda tudo, mesmo as profundezas de Deus” (I Cor 2, 10), é capaz de por abaixo toda a horda demoníaca.

No Evangelho Jesus, no seu discurso de despedida, promete o envio do Paráclito sobre os apóstolos. “Quando, porém, vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena verdade… Ele me glorificará, porque receberá do que é meu e vo-lo anunciará. Tudo o que o Pai possui é meu. Por isso, disse que o que ele receberá e vos anunciará, é meu” (Jo 16, 13-15).

Recordo-me de Santo Hilário de Poitiers que dizia: “Já que a nossa fraqueza não nos permite compreender nem o Pai nem o Filho, o Dom, que é o Espírito Santo, estabelece um certo contato entre nós e Deus, para iluminar a nossa fé nas dificuldades à encarnação de Deus” (Tratado sobre a Trindade).

Este Espírito, recordo o artigo por ocasião da Solenidade de Pentecostes, tem guiado a Igreja, ainda que mediantes as tribulações. A Igreja é imperecível, e o-é mais ainda depois do dia de Pentecostes, naquela gloriosa efusão. Ela anuncia o que lhe foi entregue pelos apóstolos, e a estes entregue por Cristo.

Peçamos a Maria Santíssima que nos oriente para a estrada trinitária. Que nos fortaleça nas tribulações e nos torne perseverantes em nossa fé cristã.

Fraternalmente em Cristo Jesus!

O verdadeiro sentido de hierarquia

[Aqui está na íntegra o texto da Audiência Geral do Papa Bento XVI, realizada na quarta-feira (26/05). Desculpem pelo atraso na tradução.]

Munus regendi

Queridos irmãos e irmãs,

O Ano Sacerdotal chega ao fim, por isso comecei a falar na última catequese sobre as tarefas fundamentais do sacerdote, isto é: ensinar, santificar e governar. Já fiz duas catequeses, uma sobre o ministério da santificação, os Sacramentos sobretudo, e uma sobre o ensinamento. Portanto, hoje gostaria de falar sobre a missão do sacerdote de governar, de guiar, com a autoridade de Cristo, não com a própria, a porção do Povo que Deus os confiou.

Como compreender na cultura contemporânea uma tal dimensão que implica o conceito de autoridade e se origina do mandato mesmo do Senhor de apascentar as suas ovelhas? O que é realmente, para nós cristãos, a autoridade? A experiência cultural, política e histórica do recente passado, especialmente as ditaduras na Europa Oriental e Ocidental no século XX, fizeram o homem contemporâneo suspeito nos confrontos desse conceito. Suspeita-se que, frequentemente, se traduz como necessário o abandono de toda a autoridade, que não vem exclusivamente dos homens e seja imposta por eles, por eles controlada. Mas o olhar sobre os regimes que, no século passado, semearam terror e morte, fortemente recorda que a autoridade, em todos os âmbitos, quando é exercida sem referência ao Transcendente, se ele ignora a autoridade suprema, que é Deus, termina inevitavelmente por voltar-se contra o homem. É importante reconhecer que a autoridade humana nunca é um fim, mas sempre e apenas um meio e que, necessariamente em todas as épocas, o fim é sempre a pessoa, criada por Deus e com sua dignidade inviolável e chamada a relacionar-se com o próprio Criador, no caminho terreno da existência e na vida eterna; é uma autoridade exercitada em responsabilidade diante de Deus, o Criador.  Uma autoridade intensa, que tem o único propósito de servir o verdadeiro bem da pessoa e ser transparência do único Sumo Bem que é Deus, não só não é estranha aos homens, mas, ao contrário, é uma preciosa ajuda no caminho para a plena realização em Cristo, para a salvação.

A Igreja é chamada e se empenha a exercitar este tipo de autoridade que é serviço, e a exercita não em nome próprio, mas no nome de Jesus Cristo, que do Pai recebeu todo poder no Céu e sobre a terra (cf. Mt 28, 18). Através dos Pastores da Igreja, de fato, Cristo apascenta seu rebanho: é Ele que os guia, os protege, os corrigi, porque os ama profundamente. Mas o Senhor Jesus, Pastor supremo da nossa alma, quis que o Colégio Apostólico, hoje os Bispos, em comunhão com o Sucessor de Pedro, e os sacerdotes, seus mais preciosos colaboradores, participassem desta sua missão de cuidar do Povo de Deus, de serem educadores na fé, orientando, animando e sustentando a comunidade cristã, ou, como disse o Concílio, “cuidando, especialmente que os fiéis sejam guiados no Espírito Santo para viver o Evangelho à sua própria vocação, a praticar a caridade sincera e ativa e para o exercício dessa liberdade com que Cristo nos libertou” (Presbiterorum Ordinis, 6). Cada pastor, então, é o meio pelo qual Cristo ama os homens: é através do nosso ministério – queridos sacerdotes – é através de nós que Deus alcança almas, as instrue, as guarda e as guia. Santo Agostinho, em seu Comentário ao Evangelho de São João diz: “Seja, portanto, compromisso de amor apascentar o rebanho de Cristo” (123,5); esta é a norma suprema de conduta para os ministros de Deus, um amor incondicional, como aquele do Bom Pastor, pleno de alegria, aberto a todos, atencioso, atento aos fechados e atencioso para com os distantes (cf. Santo Agostinho, Sermão 340, 1; Discurso 46, 15), sensível aos mais fracos, os pequenos, os simples, os pecadores, para manifestar a infinita misericórdia de Deus com as palavras tranquilizadoras da esperança (cf. Idem, Carta 95, 1).

Se esta tarefa é fundada sobre o Sacramento, todavia sua eficácia não é independente da existência pessoal do presbítero. Para ser um pastor segundo o coração de Deus (cf. Jr 3,15) deve ocorrer um profundo radicamento na viva amizade com Cristo, não só da inteligência, mas também da liberdade e da vontade, uma consciência clara da identidade recebida na Ordenação Sacerdotal, uma disponibilidade incondicional para conduzir o rebanho confiado onde o Senhor quer e não na direção que, aparentemente, parece mais fácil ou conveniente. Isso requer, em primeiro lugar, a contínua e progressiva disponibilidade para deixar que Cristo mesmo governe a existência sacerdotal dos presbíteros. De fato, ninguém é realmente capaz de apascentar o rebanho de Cristo se não vive em profunda e verdadeira obediência a Cristo e à Igreja, e a própria docilidade do povo para com os seus sacerdotes depende da obediência dos sacerdotes a Cristo; por isso, na base do ministério pastoral está sempre o encontro pessoal e constante com o Senhor, o conhecimento profundo Dele, o conformar a própria vontade à vontade de Cristo.

Nas últimas décadas, utilizou-se frequentemente o adjetivo “pastoral” quase em oposição ao conceito de “hierárquico”, assim como foi interpretada na mesma oposição a idéia de “comunhão”. É talvez o ponto onde ele pode ser útil para um breve comentário sobre a palavra “hierarquia”, que é a denominação tradicional de estrutura sacramental da Igreja de autoridade, ordenada pelos três níveis do sacramento da Ordem: episcopato, presbiterato, diaconato. Prevalece na opinião pública, para a realidade “hierarquia”, o elemento de subordinação e o elemento jurídico; por isso, para muitos a idéia de hierarquia parece estar em contraste à flexibilidade e à vitalidade do senso pastoral e também contraria à humildade do Evangelho. Mas este é um mal-entendido sobre a hierarquia, também causado historicamente pelo abuso de autoridade e pelo carreirismo, que são exatamente abusos e não derivam do próprio ser da realidade “hierarquia”. A opinião comum é que “hierarquia” seja sempre relacionada ao domínio e portanto não corresponde ao verdadeiro sentido da Igreja, da unidade no amor de Cristo. Mas como eu disse, esta é uma interpretação errada, que se originou no abuso da história, mas não responde ao verdadeiro significado daquilo que é a hierarquia. Começamos com a palavra. Geralmente, é dito que o significado da palavra hierarquia seria ” sagrado domínio “, mas o verdadeiro significado não  é este, é ” sagrada origem “, ou seja: esta autoridade não vem do homem, mas tem suas origens no sagrado, no Sacramento; então a pessoa submete-se a vocação, ao mistério de Cristo; faz de si um servo de Cristo e só enquanto servo de Cristo este pode governar, guiar por Cristo e com Cristo. Portanto, aqueles que entram na sagrada Ordem do Sacramento, a “hierarquia”, não é um autocrata, mas entra em um novo laço de obediência a Cristo: está ligada a Ele em comunhão com os outros membros da Sagrada Ordem, do Sacerdócio. E também o Papa – ponto de referência para todos os outros pastores e da comunhão da Igreja – não pode fazer o que quer; pelo contrário, o Papa é o guardião de obediência a Cristo, sua palavra resume-se na “regula fidei“, no Credo da Igreja, e deve preceder na obediência a Cristo e a sua Igreja. Hierarquia implica uma tríplice ligação: aquela, antes de tudo, com Cristo e a ordem dada pelo Senhor à sua Igreja; depois a ligação com outros Pastores, na única comunhão da Igreja; e, finalmente, a relação com os fiéis confiados ao indivíduo, na ordem da Igreja.

Assim, entendemos que a comunhão e a hierarquia não são contrários uns aos outros, mas são condicionais. São em si uma coisa só (comunhão hierárquica). O Pastor está apenas guiando e protegendo o rebanho, e às vezes impedindo que ele se disperse. Fora de uma visão clara e explicitamente sobrenatural, não é compreensível a tarefa governar, própria dos sacerdotes. Esse, no entanto, sustentado pelo verdadeiro amor para a salvação de cada fiel, é particularmente precioso e necessário em nosso tempo. Se o objetivo é levar a mensagem de Cristo e conduzir os homens ao encontro com Ele para que tenham vida, a tarefa de guiar se configura como um serviço vivo em uma doação total para a edificação do rebanho na verdade e na santidade, muitas vezes indo contra a corrente e recordando que quem é o maior deve fazer-se menor, e aquele que governa, como aquele que serve (cf. Lumen Gentium, 27).

Onde pode achar hoje um sacerdote a força para o exercício do seu ministério, em plena fidelidade a Cristo e à Igreja, com uma dedicação total ao rebanho? A resposta é uma só: em Cristo Senhor. O reino de Jesus governar não é aquele do domínio, mas o humilde e amoroso serviço da lavagem dos pés, e a realeza de Cristo sobre o universo não é um triunfo terreno, mas encontra seu ponto culminante no lenho da cruz, que torna-se juízo para o mundo e ponto de referência para o exercício da autoridade que seja verdadeira expressão da caridade pastoral. Os santos, entre eles São João Maria Vianney, praticaram com amor e dedicação a tarefa de tratar a porção do Povo de Deus confiada a ele, mostrando-se também homem forte e determinado, com o único objetivo de promover o verdadeiro bem da almas, capaz de pagar, em pessoa, até o martírio, para permanecer fiéis à verdade e à justiça do Evangelho.

Caríssimos sacerdotes, “apascentai o rebanho de Deus que vos é confiado, não por constrangimento, mas de boa vontade […], fazendo-vos modelos para o rebanho” (1 Pedro 5,2). Portanto, não tenham medo de conduzir a Cristo cada um dos irmãos que Ele vos confiou, seguros que cada palavra e cada atitude, se decorrentes da obediência à vontade de Deus darão frutos; saibam viver apreciando os méritos e reconhecendo os limites da cultura em que estamos inseridos, com a garantia firme de que o anúncio do Evangelho é o maior serviço que se pode fazer aos homens. Não há, de fato, bem maior nesta vida terrena, que conduzir os homens a Deus, despertando a fé, levantando o homem da inércia e do desespero, dar a esperança de que Deus está próximo e guia a história pessoal e do mundo: este, em definitivo, é o profundo senso de responsabilidade e a última tarefa de governar que o Senhor vos confiou. Se trata de formar Cristo nos crentes, através do processo de santificação que é conversão dos critérios, da escala de valores, das atitudes, para deixar que Cristo viva em cada fiel. São Paulo assim reassume a sua ação pastoral: “Meus filhinhos, eu estou novamente em trabalho de parto até que Cristo seja formado em vós” (Gl 4, 19).

Queridos irmãos e irmãs, convido-vos a rezar por mim, o Sucessor de Pedro, eu tenho uma função específica no governo da Igreja de Cristo, bem como todos os vossos Bispos e sacerdotes. Ore para que nós cuidemos de todas as ovelhas, mesmo aquelas que perderam-se do rebanho que nos foi confiado. Para vós, queridos sacerdotes, dirijo um cordial convite para as comemorações de encerramento do Ano Sacerdotal, nos dias 9, 10 e 11 de Junho, aqui em Roma: meditaremos sobre a conversão e sobre a missão, o dom do Espírito Santo e sua relação com Maria, e renovaremos as nossas promessas sacerdotais, apoiado por todo o Povo de Deus! Obrigado!

25 de maio: São Gregório VII

Fonte: Cléofas

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Sua vocação era a vida monástica. Mesmo no sólio pontifício usava o capuz beneditino. Hildebrando de Soana, toscano, nascido em 1028, parece ter iniciado sua vida monástica em Cluny. Após ter colaborado com os papas são Leão IX, que o nomeou abade de são Paulo, e Alexandre II, foi proclamado papa pelo povo. Era o dia 22 de abril de 1073. Oito dias depois os cardeais confirmaram a eleição, que ele aceitou com “muita dor, gemido e pranto.” Feito papa com o nome de Gregório VII, realizou com muita coragem o programa de reformas, que ele mesmo já havia planejado como colaborador de seus predecessores: luta contra a simonia e contra a intromissão do poder civil na nomeação dos bispos, dos abades e dos próprios pontífices, restauração de uma severa disciplina para o celibato. Encontrou violentas resistências também da parte do clero.

No concílio de Mogúncia os clérigos gritaram: “Se ao papa não bastam os homens para governar as Igrejas locais, que dê um jeito de procurar anjos.” O papa confiava seus sofrimentos aos amigos com cartas que revelavam toda a sua sensibilidade, sujeita a profundos desconfortos, mas sempre pronta à voz do dever: “Estou cercado de uma grande dor e de uma tristeza universal – escrevia em janeiro de 1075 ao amigo S. Hugo, abade de Cluny – porque a Igreja Oriental deserta da fé; e se olho das partes do Ocidente, ou meridional, ou setentrional, com muito custo encontro bispos legítimos pela eleição e pela vida, que dirijam o povo cristão por amor de Cristo, e não por ambição secular.”

No ano seguinte teve de enfrentar o duro desentendimento com o imperador Henrique IV, que se humilhou em Canossa mas, logo depois, retomou as rédeas do império, vingou-se com a eleição de um antipapa e marchou contra Roma. Gregório VII, abandonado pelos próprios cardeais, refugiou-se no Castelo Santo Ângelo, de onde foi libertado pelo duque normando Roberto de Guiscardo. O papa foi depois, em exílio voluntário, para Salermo, e aí morreu, um ano depois, pronunciando a célebre sentença: “Amei a justiça e odiei a iniquidade, por isso morro no exílio.”

Seu corpo foi sepultado na catedral de Salermo. Foi canonizado em 1606. Acostumados a ver neste papa um lutador empenhado com um braço de ferro contra o irrequieto imperador, não devemos esquecer o humilde servo da Esposa de Cristo, a Igreja, por cujo decorro trabalhou e sofreu a fim de que “permanecesse livre, casta e católica.” São as últimas palavras que ele escreveu na carta do exílio de Salermo, para convidar os fiéis a “socorrer a mãe”, a Igreja.

Santos espíritos com o Espírito Santo

Para este dia de Pentecostes gostaria de ter feito um podcast. Mas infelizmente ouve um problema com a internet que uso. No entanto, pus-me a escrever o tradicional artigo dominical, que neste domingo é carregado de um forte tema: o Espírito Santo.

Verdadeiramente o que pensamos ao falarmos sobre o Espírito Santo, sobre Pentecostes? Seria apenas o dia em que são consolidadas as bases da Igreja, ou o dia em que a Igreja nasce? Não! Em Pentecostes não se realiza apenas a efusão do Espírito e a sua eficácia duradoura, por todo o tempo, na Igreja. Em Pentecostes realiza-se muito mais: realiza-se a unidade perdida pelos homens quando, deixando-se levar pela inveja e por uma demasiada curiosidade, são confundidos por Deus no conhecido episódio da Torre de Babel (cf. Gn 11, 1 – 11).

O Espírito não vem para manifestar confusões. Ele é o Espírito de diversidade, de vários povos, de vários ministérios, de vários dons, no entanto todos nEle são unidos (cf. 1 Cor 12, 3b – 7). Com benigna solicitude, Deus, após ter enviado Seu filho ao mundo para dar a conhecer a única Verdade, nEle subsistente, e após sua gloriosa Ascensão ao Céu, envia o Espírito: “espírito de sabedoria e discernimento, espírito de conselho e fortaleza, espírito de ciência e temor de Deus” (Is 11, 2). Este mesmo Espírito que guiou Jesus a sua vida toda guia hoje a Igreja, de modo não menos importante. Dificuldades e impropérios não a farão sucumbir. Quem poderá ser vencido se caminha, e mais que isso, se possui em si mesmo o Espírito Santo?

Foi justamente isto que norteou a vida dos apóstolos e de Maria Santíssima. Mesmo sabendo que haviam muitas pessoas que estavam em oposição ao que eles pregavam, não temeram; foram guiados pelo Paráclito, e, assim, dispuseram toda a sua vida a serviço do Reino de Deus e do amor a Cristo e a Igreja.

Vem-me à mente o texto em que o salmista diz: “O que é o homem, para que te recordes dele, o ser humano, para que com ele te ocupes?” (Sl 8, 5). Hoje poderíamos dizer ao salmista: o homem a que perguntavas sobre por que o Senhor dele si recordara, é aquele que foi agraciado com o Espírito, que em profusão desceu sobre os apóstolos e hoje arde no seio da Igreja, Ele que nos dá o conhecimento da fé. Os homens, do qual o Senhor se lembrou, têm o dom de falar com Cristo, de possuí-lo e de encontrar, mesmo em meio às constantes dificuldades, a Paz que tanto necessitam. “O espírito vem em auxílio de nossa fraqueza” (Rm 8, 26).

Quando se tende a colocar a sabedoria em primeiro plano e vangloriar-se de algo que é dom e que devemos ser gratos a Deus, pois sabemos que não fazemos jus, acabamos por atirar-nos no precipício do egocentrismo. Deste modo caímos num existencialismo vazio. São Paulo nos alerta, e alerta de modo particular a nossa sociedade hodierna, que “a letra mata, mas o Espírito dá a vida” (2Cor 3, 6).

Mas esta intrínseca união deveras traz responsabilidades. Paulo nos diz que os cristãos, que são moradas do Espírito Santo (cf. Rm 8, 9-10), são chamados a estarem em constante combate contra as ciladas do demônio e as “obras da carne: fornicação, libertinagem, devassidão, idolatria, feitiçaria, inimizades, contendas, ciúmes, iras, intrigas, discórdias, facções, invejas, bebedeiras, orgias, e coisas semelhantes a essas” (Gl 5, 19-21).

É triste vermos que a humanidade deixa-se, cada dia mais, dominar por tais obras. Elas constituem uma degradação, um retrocesso, na caminhada cristã. E assim São Paulo apresenta os frutos do Espírito: “caridade, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, lealdade, mansidão, continência” (v. 22-23).

Ser cristão não é apenas anunciar a existência de Cristo, não é apenas ir à Missa, sentar-se e escutar o que diz o sacerdote. O verdadeiro cristão tem coragem de renunciar ao que o mundo propõe e sabe viver com dignidade o que o Evangelho apresenta. De certo, muitos deixar-se-ão conduzir pelo que lhes faz feliz já nesta vida, renunciando a perspectiva de uma vida futura com Cristo. Para muitos o fardo é pesado, é cansativo e é de grande exigência. Para o cristão o fardo não deixa de ser pesado e angustiante; no entanto ele o carrega mais aliviado, pois pode olhar para o fardo maior que foi a paixão de Cristo, carregando a cruz por nossos pecados. Não obstante tudo isso Ele calou-se, permanecendo manso como um cordeiro.

O apóstolo mais uma vez alerta: “Se viverdes segundo a carne, morrereis, mas se, pelo Espírito, matardes o procedimento carnal, então vivereis” (Rm 8, 13). Que poderia dizer? São palavras duras, mas que dão grande sentido sobre a via que queremos seguir. Os prazeres e más condutas têm se tornado “normais” na sociedade. Edifica-se em muitos lugares a ideologia de que o que deve guiar o destino dos homens não é uma lei moral e natural, instituída por Deus, mas sim os seus desejos e vontades, que muitas vezes são desleais e estão totalmente opostos ao verdadeiro sentido da existência humana.

Adaptar o Evangelho a si, e não adaptar-se ao Evangelho: eis a má conduta que muitos levam nos nossos dias.

Mas o Espírito manifesta-se na Igreja e lhe dá sabedoria e força para superar todas as dificuldades, heresias e tudo aquilo que se levanta contra Nosso Senhor Jesus Cristo e a Sagrada Fé Católica.

“Por Ele, os corações são elevados ao alto, os fracos são conduzidos pela mão, os que progridem na virtude chegam à perfeição. Ele ilumina os que foram purificados de toda a mancha e torna-os espirituais pela comunhão consigo” (S. Basílio Magno, Do Livro sobre o Espírito Santo).

Enfim, é necessário que peçamos constantemente que o Espírito Santo possa fazer de nós “santos espíritos”. Que nossas almas sejam santas e possam ser vivificadas pelo “sopro” que dá força e ilumina. Que possamo-nos deixar alcançar pelo Espírito da vida.

Que a Virgem Maria torne-nos sempre mais repletos do Espírito Santo. Que sejamos verdadeiras testemunhas deste acontecimento que, mesmo perpassados estes dois mil anos, não perdeu seu vigor e continua a impulsionar-nos ao permanente estado de missão em que a Igreja deve achar-se.

Feliz e Santo Pentecostes!

Fraternalmente em Cristo Jesus!

Veni Sancte Spiritus

Catequese de Bento XVI – resumo da Viagem apostólica a Portugal

Fonte: Canção Nova

Queridos irmãos e irmãs,

hoje desejo compartilhar convosco as várias etapas da Viagem apostólica que realizei nos dias passados a Portugal, movido especialmente por um sentimento de reconhecimento a Virgem Maria, que em Fátima transmitiu aos seus videntes e aos peregrinos um intenso amor pelo Sucessor de Pedro. Agradeço a Deus que me deu a possibilidade de render homenagem àquele povo, à sua longa e gloriosa história de fé e de testemunho cristão. Portanto, da mesma forma como havia vos chamado a acompanhar esta minha viagem pastoral com a oração, agora vos convido a unir-vos a mim em ação de graças ao Senhor pelo seu feliz desenvolvimento e conclusão. Confio a Ele os frutos que surgiram e surgirão na comunidade eclesial portuguesa e em toda a população. Renovo as expressões do meu vivo reconhecimento ao Presidente da República, Anibal Cavaco Silva e às outras Autoridades do Estado, que me acolheram com tanta cortesia e predispuseram todo o necessário para que tudo pudesse desenvolver-se da melhor forma. Com grande afeto, lembro-me dos Colegas Bispos das dioceses portuguesas, que tive a alegria de abraçar em sua própria terra e agradeço-lhes fraternalmente por tudo que fizeram para a preparação espiritual e organizativa de minha visita, bem como pelo notável empenho dedicado à sua realização. Dirijo um pensamento especial ao Patriarca de Lisboa, Cardeal José da Cruz Policarpo, aos bispos de Leiria-Fátima, Dom Antônio Augusto dos Santos Marto, e do Porto, Dom Manuel Macario do Nascimento Clemente, e aos respectivos colaboradores, bem como aos diversos organismos da Conferência Episcopal liderada pelo bispo Dom Jorge Ortiga.

Durante toda a viagem, acontecida por ocasião do décimo aniversário da beatificação dos pastorinhos Jacinta e Francisco, senti-me espiritualmente sustentado pelo meu amado predecessor, o Venerável João Paulo II, que visitou Fátima três vezes, agradecendo aquela “mão invisível” que o libertou da morte no atentado de 13 de maio, nesta Praça de São Pedro. Na tarde de minha chegada, celebrei a Santa Missa em Lisboa, na encantadora paisagem do Terreiro do Paço, com vista para o rio Tejo. Foi uma assembleia litúrgica de festa e de esperança, animada pela participação alegre de numerosos fiéis. Na capital, de onde partiram, ao longo dos séculos, tantos missionários para levar o Evangelho a tantos continentes, encorajei os vários componentes da Igreja local a uma vigorosa ação evangelizadora nos diversos setores da sociedade, para serem semeadores de esperança em um mundo muitas vezes marcado pela desconfiança. Em particular, exortei os crentes a fazerem-se anunciadores da morte e ressurreição de Cristo, coração do cristianismo, fulcro e sustento de nossa fé e razão da nossa alegria. Eu pude manifestar esses sentimentos também durante o encontro com representantes do mundo da cultura, realizado no Centro Cultural de Belém. Nessa circunstância, coloquei em evidência o patrimônio de valores com que o cristianismo enriqueceu a cultura, a arte e a tradição do Povo português. Nesta nobre terra, como em todo o outro país assinalado profundamente pelo Cristianismo, é possível construir um futuro de fraterna compreensão e de colaboração com as outras instâncias culturais, abrindo-se reciprocamente a um diálogo sincero e respeitoso.

Após, eu fui a Fátima, cidade caracterizada por uma atmosfera de genuíno misticismo, na qual se percebe de maneira quase palpável a presença de Nossa Senhora. Tornei-me um peregrino com os peregrinos naquele admirável Santuário, coração espiritual de Portugal e destino de uma multidão de pessoas provenientes de diferentes lugares da terra. Após uma pausa de oração e comovido recolhimento na Capela das Aparições, na Cova da Iria, apresentando ao Coração da Virgem as alegrias e as expectativas, bem como os problemas e sofrimentos do mundo inteiro, na Igreja da Santíssima Trindade tive a alegria de presidir a celebração das Vésperas da Beata Virgem Maria. No interior deste grande e moderno templo, manifestei a minha viva gratidão aos sacerdotes, religiosos, religiosas, diáconos e seminaristas vindos de todas as partes de Portugal, agradecendo-lhes por seu testemunho, muitas vezes silencioso e nem sempre fácil, e por sua fidelidade ao Evangelho e à Igreja. Neste Ano Sacerdotal, que se aproxima do fim, encorajei os sacerdotes a darem prioridade à religiosa escuta da Palavra de Deus, ao conhecimento íntimo de Cristo, à intensa celebração da Eucaristia, olhando para o luminoso exemplo do Santo Cura d’Ars. Não deixei de confiar e consagrar ao Imaculado Coração de Maria, verdadeiro modelo de discípula do Senhor, os sacerdotes espalhados por todo o mundo.

À noite, com milhares de pessoas que se reuniram na esplanada em frente ao Santuário, participei da sugestiva procissão das velas. Foi uma demonstração maravilhosa de fé em Deus e devoção à sua e nossa Mãe, expressa com a recitação do Santo Rosário. Essa oração tão cara ao povo cristão encontrou em Fátima um centro propulsor para toda a Igreja e o mundo. A “Branca Senhora”, na aparição de 13 de junho, disse aos três Pastorinhos: “Desejo que reciteis o Rosário todos os dias”. Poderíamos dizer que Fátima e o Rosário são quase um sinônimo.

Minha visita naquele lugar tão especial teve o seu ponto culminante na celebração eucarística do 13 de maio, aniversário da primeira aparição de Nossa Senhora a Francisco, Jacinta e Lúcia. Ecoando as palavras do profeta Isaías, convidei aquela imensa assembleia reunida, com grande amor e devoção, aos pés da Virgem Maria, a se alegrar plenamente no Senhor (cf. Is 61, 10), pois o seu amor misericordioso, que acompanha a nossa peregrinação nesta terra, é a fonte de nossa grande esperança. E exatamente de esperança está carregada a mensagem desafiadora e ao mesmo tempo consoladora que Nossa Senhora deixou em Fátima. É uma mensagem centrada na oração, na penitência e na conversão, que se projeta para além das ameaças, perigos e horrores da história, para convidar o homem a ter confiança na ação de Deus, a cultivar a grande Esperança, a fazer a experiência da graça do Senhor para enamorar-se por Ele, fonte do amor e da paz.

Nesta perspectiva, foi significativo o envolvente encontro com as organizações das pastorais sociais, às quais indiquei o estilo do Bom Samaritano para ir ao encontro das necessidades dos irmãos mais necessitados e para servir a Cristo, promovendo o bem comum. Muitos jovens aprendem a importância da gratuidade justamente em Fátima, que é uma escola de fé e esperança, porque é também escola de caridade e de serviço aos irmãos. Nesse contexto de fé e oração, aconteceu o importante e fraterno encontro com o Episcopado português, na conclusão de minha visita a Fátima: foi um momento de intensa comunhão espiritual, em que agradecemos juntos ao Senhor pela fidelidade da Igreja que está em Portugal e confiamos à Virgem as comuns expectativas e preocupações pastorais. De tais esperanças e perspectivas pastorais fiz menção exatamente durante a missa celebrada na histórica e simbólica cidade do Porto, a “Cidade da Virgem”, última etapa de minha peregrinação em terra lusitana. À grande multidão de fiéis reunida na Avenida dos Aliados, recordei o compromisso de testemunhar o Evangelho em todos os ambientes, oferecendo ao mundo Cristo ressuscitado, a fim de que toda a situação de dificuldade, sofrimento, medo seja transformada, mediante o Espírito Santo, em ocasião de crescimento e vida.

Queridos irmãos e irmãs, a peregrinação a Portugal foi, para mim, uma experiência emocionante e cheia de muitos dons espirituais. Enquanto permanecem fixas na mente e no coração as imagens desta viagem inesquecível, o acolhimento caloroso e espontâneo, o entusiasmo do povo, louvo ao Senhor porque Maria, aparecendo aos três Pastorinhos, abriu no mundo um espaço privilegiado para se encontrar a misericórdia divina, que cura e salva. Em Fátima, a Virgem Santa convida todos a considerarem a terra como lugar de peregrinação rumo à pátria definitiva, que é o Céu. Na realidade, todos somos peregrinos, temos necessidade da Mãe que nos guia. “Contigo caminhamos na esperança. Sabedoria e Missão”, foi o lema da minha Viagem Apostólica a Portugal, e em Fátima a Beata Virgem Maria nos convida a caminhar com grande esperança, deixando-nos guiar pela “sabedoria do alto”, que se manifestou em Jesus, a sabedoria do amor, para levar ao mundo a luz e alegria de Cristo. Convido-vos, então, a vos unir à minha oração, pedindo ao Senhor que abençoe os esforços de todos que, naquela amada nação, dedicam-se ao serviço do Evangelho e à procura do verdadeiro bem do homem, de todo o homem. Rezemos também para que, pela intercessão de Maria Santíssima, o Espírito Santo torne fecunda esta Viagem apostólica, e anime no mundo inteiro a missão da Igreja, instituída por Cristo para anunciar a todos os povos o Evangelho da verdade, da paz e do amor.

Jesus diviniza a humanidade

Celebramos neste domingo a Solenidade da Ascensão do Senhor Jesus aos Céus. Ascensão significa que Jesus, como Filho de Deus e eterno Sacerdote, por excelência, elevou-se a Si mesmo para junto do Pai. Diferente da Assunção de Maria, onde ela é elevada pelo poder de Cristo e não por si só.

Mas o que tem de tão importante e peculiar nesta Festa. Como ela fala também aos nossos tempos?

Jesus é elevado à Glória do Pai e senta-se à direita de Deus. Como já disse aqui o “direito” na Bíblia carrega em si um grande significado. Creio que por isto o evangelista diz que Jesus está sentado à direita do Pai, e de fato está.

Da primeira leitura poderíamos tirar algo que incita os cristãos à uma verdadeira caminhada missionária. Depois que Jesus ascendeu aos céus os discípulos ficaram estupefatos com aquela cena, mesmo já contemplando muitos outros sinais, e continuavam a olhar para o céu. Neste momento dois anjos aparecem e lhes dizem: “Homens da Galiléia, por que ficais aqui, parados, olhando para o céu? Esse Jesus, que vos foi levado para o céu, virá do mesmo modo como o vistes partir para o céu” (At 1, 11). Esta afirmação dos anjos dirige-se também a nós. Não podemos ficar todo o tempo parados, olhando para o céu e esperando uma solução, um milagre. O cristão deve inserir-se na missão. O Batismo consiste precisamente em tornar-nos cristãos, e como cristãos faz de nós discípulos (para ouvirmos e seguirmos o Mestre) e missionários (para que possamos anunciar a outros o que nós podemos ouvir).

É importante termos presente que a Ascensão de Jesus não é um afastamento da nossa humanidade. Ele não é retirado, de certa forma, do nosso meio. Jesus sempre está presente conosco, guiando-nos e acompanhando a nossa vivência cristã, protegendo-nos e fortalecendo-nos no combate contra o mal.

Na segunda leitura Paulo nos diz que Deus, com sua “força em Cristo”, fez com que Ele sentasse “à sua direita nos céus” (Ef 1, 20). Já fiz uma rápida alusão no início do artigo sobre o porquê da “direita”. Cristo está acima de qualquer poder, autoridade, soberania, potência… Também está acima dos poderes deste mundo. Ele os vence e dá-nos a certeza de que, com Ele, também venceremos.

“Sim, ele pôs tudo sob os seus pés e fez dele, que está acima de tudo, a Cabeça da Igreja, que é o seu corpo, a plenitude daquele que possui a plenitude universal” (v. 22-23). Paulo usa uma metáfora comum de seu tempo: Sujeitou sob seus pés. Aquele que é vencido e estava prostrado no chão, derrotado, o que tinha saído vitorioso colocava o pé sobre o derrotado. Cristo é aquele que, por sua morte, derrotou a Satanás e os espíritos malignos e, como vemos em algumas imagens, Nossa Senhora também, vencendo a serpente maligna, pisa em sua cabeça.

Outra característica que aplicar-se-á também nos dias hodiernos é o Cristo como Cabeça do corpo, a Igreja. O membro principal do corpo é a cabeça. Assim, Paulo dirigindo-se aos Efésios e a nós manifesta que Cristo é aquele que guia a Igreja e não a abandona nunca. Ele, Sumo e eterno Sacerdote, Altar e Vítima, se oferece por nós todos e, como fundador da Igreja, guia-a pelo caminho da Verdade, ajudando-a a superar os vales tenebrosos. Nós “membros do seu Corpo, somos chamados a participar da sua glória” (Oração da Coleta, Missa da Ascensão do Senhor).

No Evangelho, Jesus envia os apóstolos a anunciarem a Methanoia e o Kerigma. Sobre a primeira poder-se-á definir como uma mudança de mentalidade. Postos em termo cristão poderíamos dizer que é a “conversão” (Lc 24, 47). Todos são chamados a uma mudança de vida radical e ao encontro pessoal com Jesus. A vida cristã deve ser, toda ela, inteiramente possuída pelo desejo de Cristo e esta deve movê-la a um encontro pessoal com Ele. Sobre a segunda poderíamos dizer que é o anúncio da Palavra. Os discípulos são enviados a anunciarem as maravilhas que os seus olhos puderam contemplar e os seus corações puderam sentir.

Com efeito, na sua Ascensão Jesus abre para nós as portas do Céu. Podemos agora ingressar alegres na eterna Jerusalém, e podemos desfrutar de todo o bem que dela provém. Ao mesmo tempo esta subida gloriosa é um constante convite a fazer com que a nossa humanidade ponha-se em constante contato com Deus, especialmente e sobretudo pela oração. Na sua Encarnação Jesus, neste feliz intercâmbio, humaniza a divindade. Na sua Ascensão ele diviniza a humanidade. Porém, aos poucos, a humanidade deixa perder este seu lado divino e reveste-se de uma “capa” ilusória que será toda descoberta quando tiver que apresentar-se a Deus no fim dos tempos.

Por fim gostaria de fazer rápida menção a dois aspectos mui importantes que hoje celebramos. O Primeiro é o dia de manifestação em apoio ao Papa Bento XVI, com mobilização de várias (Arqui) Dioceses e Comunidades Paroquiais. Que este dia possa ser para todos nós um verdadeiro momento de reafirmarmos nossa união eterna com a Cátedra de Pedro e com o Sumo Pontífice, a quem tanto me agrada recordar. Sobre este momento de tribulação que a Igreja passa, recordo as palavras de Santo Agostinho: “Cristo já foi elevado ao mais alto dos céus; contudo continua sofrendo na terra por meio das tribulações que nós experimentamos como seus membros. Deu testemunho desta verdade quando se fez ouvir lá do céu: Saulo, Saulo, por que me persegues? (At 9, 4)” (Sermão de Santo Agostinho, Livro: Alimento Sólido, pag. 95).

Em segundo gostaria de deixar uma menção ao Dia Mundial das Comunicações Sociais. Este ano o Santo Padre propõe como tema: “O sacerdote e a pastoral no mundo digital: os novos media a serviço da Palavra”. Gostaria de citar um parágrafo da Mensagem do Papa em que ele recorda a necessidade dos sacerdotes estarem inseridos nos meios de comunicação.

Contudo, a divulgação dos «multimédia» e o diversificado «espectro de funções» da própria comunicação podem comportar o risco de uma utilização determinada principalmente pela mera exigência de marcar presença e de considerar erroneamente a internet apenas como um espaço a ser ocupado. Ora, aos presbíteros é pedida a capacidade de estarem presentes no mundo digital em constante fidelidade à mensagem evangélica, para desempenharem o próprio papel de animadores de comunidades, que hoje se exprimem cada vez mais frequentemente através das muitas «vozes» que surgem do mundo digital, e anunciar o Evangelho recorrendo não só aos media tradicionais, mas também ao contributo da nova geração de audiovisuais (fotografia, vídeo, animações, blogs, páginas internet) que representam ocasiões inéditas de diálogo e meios úteis inclusive para a evangelização e a catequese.

Que neste dia da Ascensão do Senhor possamos elevar nosso espírito e colocá-lo sempre em contato com Cristo, buscando as alegrias celestiais.

Estejamos sempre na escola de Maria, ela nos guia ao encontro com a única Verdade que deve guiar o mundo.

Fraternalmente em Cristo Jesus!



Homilia do Papa Bento XVI Praça da Avenida dos Aliados, Porto

Fonte: Santa Sé

Papa saúda multidão de fiéis no Porto

Papa saúda multidão de fiéis no Porto

Amados Irmãos e Irmãs,

«Está escrito no Livro dos Salmos: […] receba outro o seu cargo. É necessário, portanto, que […] um se torne connosco testemunha da ressurreição» (Act 1, 20-22). Assim falou Pedro, lendo e interpretando a palavra de Deus no meio de seus irmãos, reunidos no Cenáculo depois da Ascensão de Jesus ao Céu. O escolhido foi Matias, que tinha sido testemunha da vida pública de Jesus e do seu triunfo sobre a morte, permanecendo-Lhe fiel até ao fim, não obstante a debandada de muitos. A «desproporção» de forças em campo, que hoje nos espanta, já há dois mil anos admirava os que viam e ouviam a Cristo. Era Ele apenas, das margens do Lago da Galileia às praças de Jerusalém, só ou quase só nos momentos decisivos: Ele em união com o Pai, Ele na força do Espírito. E todavia aconteceu que por fim, pelo mesmo amor que criou o mundo, a novidade do Reino surgiu como pequena semente que germina na terra, como centelha de luz que irrompe nas trevas, como aurora de um dia sem ocaso: É Cristo ressuscitado. E apareceu aos seus amigos, mostrando-lhes a necessidade da cruz para chegar à ressurreição.

Uma testemunha de tudo isto, procurava Pedro naquele dia. Apresentadas duas, o Céu designou «Matias, que foi agregado aos onze Apóstolos» (Act 1, 26). Hoje celebramos a sua memória gloriosa nesta «Cidade Invicta», que se vestiu de festa para acolher o Sucessor de Pedro. Dou graças a Deus por me trazer até ao vosso meio, encontrando-vos à volta do altar. A minha cordial saudação para vós, irmãos e amigos da cidade e diocese do Porto, vindos da província eclesiástica do norte de Portugal e mesmo da vizinha Espanha, e quantos mais estão em comunhão física ou espiritual com esta nossa assembleia litúrgica. Saúdo o Senhor Bispo do Porto, Dom Manuel Clemente, que desejou com grande solicitude a minha visita, me acolheu com grande afecto e se fez intérprete dos vossos sentimentos no início desta Eucaristia. Saúdo seus Predecessores e demais Irmãos no episcopado, os sacerdotes, os consagrados e consagradas, e os fiéis leigos, com um pensamento particular para quantos estão envolvidos na dinamização da Missão Diocesana e, mais concretamente, na preparação desta minha Visita. Sei que a mesma pôde contar com a real colaboração do Presidente da Câmara do Porto e de outras Autoridades públicas, muitas das quais me honram com a sua presença, aproveitando este momento para as saudar e lhes desejar, a elas e a quantos representam e servem, os melhores sucessos a bem de todos.

«É necessário que um se torne connosco testemunha da ressurreição»: dizia Pedro. E o seu Sucessor actual repete a cada um de vós: Meus irmãos e irmãs, é necessário que vos torneis comigo testemunhas da ressurreição de Jesus. Na realidade, se não fordes vós as suas testemunhas no próprio ambiente, quem o será em vosso lugar? O cristão é, na Igreja e com a Igreja, um missionário de Cristo enviado ao mundo. Esta é a missão inadiável de cada comunidade eclesial: receber de Deus e oferecer ao mundo Cristo ressuscitado, para que todas as situações de definhamento e morte se transformem, pelo Espírito, em ocasiões de crescimento e vida. Para isso, em cada celebração eucarística, ouviremos mais atentamente a Palavra de Cristo e saborearemos assiduamente o Pão da sua presença. Isto fará de nós testemunhas e, mais ainda, portadores de Jesus ressuscitado no mundo, levando-O para os diversos sectores da sociedade e quantos neles vivem e trabalham, irradiando aquela «vida em abundância» (Jo, 10, 10) que Ele nos ganhou com a sua cruz e ressurreição e que sacia os mais legítimos anseios do coração humano.

Nada impomos, mas sempre propomos, como Pedro nos recomenda numa das suas cartas: «Venerai Cristo Senhor em vossos corações, prontos sempre a responder a quem quer que seja sobre a razão da esperança que há em vós» (1 Ped 3, 15). E todos afinal no-la pedem, mesmo quem pareça que não. Por experiência própria e comum, bem sabemos que é por Jesus que todos esperam. De facto, as expectativas mais profundas do mundo e as grandes certezas do Evangelho cruzam-se na irrecusável missão que nos compete, pois «sem Deus, o ser humano não sabe para onde ir e não consegue sequer compreender quem seja. Perante os enormes problemas do desenvolvimento dos povos, que quase nos levam ao desânimo e à rendição, vem em nosso auxílio a palavra do Senhor Jesus Cristo que nos torna cientes deste dado fundamental: “Sem Mim, nada podeis fazer” (Jo 15, 5), e encoraja: “Eu estarei sempre convosco até ao fim do mundo” (Mt 28, 20)» (Bento XVI, Enc. Caritas in veritate, 78).

Mas, se esta certeza nos consola e tranquiliza, não nos dispensa de ir ao encontro dos outros. Temos de vencer a tentação de nos limitarmos ao que ainda temos, ou julgamos ter, de nosso e seguro: seria morrer a prazo, enquanto presença de Igreja no mundo, que aliás só pode ser missionária, no movimento expansivo do Espírito. Desde as suas origens, o povo cristão advertiu com clareza a importância de comunicar a Boa Nova de Jesus a quantos ainda não a conheciam. Nestes últimos anos, alterou-se o quadro antropológico, cultural, social e religioso da humanidade; hoje a Igreja é chamada a enfrentar desafios novos e está pronta a dialogar com culturas e religiões diversas, procurando construir juntamente com cada pessoa de boa vontade a pacífica convivência dos povos. O campo da missão ad gentes apresenta-se hoje notavelmente alargado e não definível apenas segundo considerações geográficas; realmente aguardam por nós não apenas os povos não-cristãos e as terras distantes, mas também os âmbitos sócio-culturais e sobretudo os corações que são os verdadeiros destinatários da actividade missionária do povo de Deus.

Trata-se de um mandato cuja fiel realização «deve seguir o mesmo caminho de Cristo: o caminho da pobreza, da obediência, do serviço e da imolação própria até à morte, de que Ele saiu vencedor pela sua ressurreição» (Conc. Ecum. Vaticano II, Decr. Ad gentes, 5). Sim! Somos chamados a servir a humanidade do nosso tempo, confiando unicamente em Jesus, deixando-nos iluminar pela sua Palavra: «Não fostes vós que Me escolhestes; fui Eu que vos escolhi e destinei, para que vades e deis fruto e o vosso fruto permaneça» (Jo 15, 16). Quanto tempo perdido, quanto trabalho adiado, por inadvertência deste ponto! Tudo se define a partir de Cristo, quanto à origem e à eficácia da missão: a missão recebemo-la sempre de Cristo, que nos deu a conhecer o que ouviu a seu Pai, e somos nela investidos por meio do Espírito na Igreja. Como a própria Igreja, obra de Cristo e do seu Espírito, trata-se de renovar a face da terra a partir de Deus, sempre e só de Deus!

Queridos irmãos e amigos do Porto, levantai os olhos para Aquela que escolhestes como padroeira da cidade, Nossa Senhora da Conceição. O Anjo da anunciação saudou Maria como «cheia de graça», significando com esta expressão que o seu coração e a sua vida estavam totalmente abertos a Deus e, por isso, completamente invadidos pela sua graça. Que Ela vos ajude a fazer de vós mesmos um «sim» livre e pleno à graça de Deus, para poderdes ser renovados e renovar a humanidade pela luz e a alegria do Espírito Santo.

Discurso do Santo Padre aos Bispos de Portugal

Fonte: Santa Sé

Portugal, 13 de maio de 2010

Venerados e queridos Irmãos no Episcopado,

Dou graças a Deus pela oportunidade de vos encontrar a todos aqui no coração espiritual de Portugal, que é o Santuário de Fátima, onde multidões de peregrinos, vindos dos mais variados lugares da terra, procuram reaver ou reforçar em si mesmos as certezas do Céu. Entre eles veio de Roma o Sucessor de Pedro, acedendo aos repetidos convites recebidos e movido por uma dívida de gratidão à Virgem Maria, que aqui comunicara aos seus videntes e peregrinos um intenso amor pelo Santo Padre que frutifica numa vigorosa retaguarda de oração com Jesus à cabeça: Pedro, «Eu roguei por ti, a fim de que a tua fé não desfaleça. E tu, uma vez convertido, fortalece os teus irmãos» (Lc 22, 32).

Como vedes, o Papa precisa de abrir-se cada vez mais ao mistério da Cruz, abraçando-a como única esperança e derradeiro caminho para ganhar e reunir no Crucificado todos os seus irmãos e irmãs em humanidade. Obedecendo à Palavra de Deus, é chamado a viver não para si mesmo mas para a presença de Deus no mundo. Serve-me de conforto a determinação com que seguis no meu encalço, sem nada mais temer que a perda da salvação eterna do vosso povo, como bem o demonstram as palavras com que Dom Jorge Ortiga quis saudar a minha chegada ao vosso meio e testemunhar a fidelidade incondicional dos Bispos de Portugal ao Sucessor de Pedro. De coração vo-lo agradeço. Obrigado ainda por todo o desvelo que pusestes na organização desta minha Visita. Que Deus vos pague, derramando em abundância o Espírito Santo sobre vós e vossas dioceses a fim de que, num só coração e numa só alma, possais levar a cabo o empenho pastoral que vos propusestes: oferecer a todos os fiéis uma iniciação cristã exigente e atractiva, comunicadora da integridade da fé e da espiritualidade radicada no Evangelho, formadora de agentes livres no meio da vida pública.

Na verdade, os tempos que vivemos exigem um novo vigor missionário dos cristãos chamados a formar um laicado maduro, identificado com a Igreja, solidário com a complexa transformação do mundo. Há necessidade de verdadeiras testemunhas de Jesus Cristo, sobretudo nos meios humanos onde o silêncio da fé é mais amplo e profundo: políticos, intelectuais, profissionais da comunicação que professam e promovem uma proposta mono-cultural com menosprezo pela dimensão religiosa e contemplativa da vida. Em tais âmbitos, não faltam crentes envergonhados que dão as mãos ao secularismo, construtor de barreiras à inspiração cristã. Entretanto, amados Irmãos, aqueles que lá defendem com coragem um pensamento católico vigoroso e fiel ao Magistério continuem a receber o vosso estímulo e palavra esclarecedora para, como leigos, viverem a liberdade cristã.

Mantende viva a dimensão profética sem mordaças no cenário do mundo actual, porque «a palavra de Deus não pode ser acorrentada» (2 Tm 2, 9). As pessoas clamam pela Boa Nova de Jesus Cristo, que dá sentido às suas vidas e salvaguarda a sua dignidade. Como primeiros evangelizadores, ser-vos-á útil conhecer e compreender os diversos factores sociais e culturais, avaliar as carências espirituais e programar eficazmente os recursos pastorais; decisivo, porém, é conseguir inculcar em todos os agentes evangelizadores um verdadeiro ardor de santidade, cientes de que o resultado provém sobretudo da união com Cristo e da acção do seu Espírito.

Ora, quando no sentir de muitos a fé católica deixa de ser património comum da sociedade e, frequentemente, se vê como uma semente insidiada e ofuscada por «divindades» e senhores deste mundo, muito dificilmente aquela poderá tocar os corações graças a simples discursos ou apelos morais e menos ainda a genéricos apelos aos valores cristãos. O apelo corajoso e integral aos princípios é essencial e indispensável; todavia a mera enunciação da mensagem não chega ao mais fundo do coração da pessoa, não toca a sua liberdade, não muda a vida. Aquilo que fascina é sobretudo o encontro com pessoas crentes que, pela sua fé, atraem para a graça de Cristo dando testemunho d’Ele. Vêm-me à mente estas palavras do Papa João Paulo II: «A Igreja tem necessidade sobretudo de grandes correntes, movimentos e testemunhos de santidade entre os fiéis, porque é da santidade que nasce toda a autêntica renovação da Igreja, todo o enriquecimento da fé e do seguimento cristão, uma re-actualização vital e fecunda do cristianismo com as necessidades dos homens, uma renovada forma de presença no coração da existência humana e da cultura das nações» (Discurso no XX aniversário da promulgação do Decreto conciliar «Apostolicam actuositatem», 18/XI/1985). Poderia alguém dizer: «É certo que a Igreja tem necessidade de grandes correntes, movimentos e testemunhos de santidade…, mas não os há»!

A propósito, confesso-vos a agradável surpresa que tive ao contactar com os movimentos e novas comunidades eclesiais. Observando-os, tive a alegria e a graça de ver como, num momento de fadiga da Igreja, num momento em que se falava de «inverno da Igreja», o Espírito Santo criava uma nova primavera, fazendo despertar nos jovens e adultos a alegria de serem cristãos, de viverem na Igreja que é o Corpo vivo de Cristo. Graças aos carismas, a radicalidade do Evangelho, o conteúdo objectivo da fé, o fluxo vivo da sua tradição comunicam-se persuasivamente e são acolhidos como experiência pessoal, como adesão da liberdade ao evento presente de Cristo.

Condição necessária, naturalmente, é que estas novas realidades queiram viver na Igreja comum, embora com espaços de algum modo reservados para a sua vida, de maneira que esta se torne depois fecunda para todos os outros. Os portadores de um carisma particular devem sentir-se fundamentalmente responsáveis pela comunhão, pela fé comum da Igreja e devem submeter-se à guia dos Pastores. São estes que devem garantir a eclesialidade dos movimentos. Os Pastores não são apenas pessoas que ocupam um cargo, mas eles próprios são carismáticos, são responsáveis pela abertura da Igreja à acção do Espírito Santo. Nós, Bispos, no sacramento, somos ungidos pelo Espírito Santo e, por conseguinte, o sacramento garante-nos também a abertura aos seus dons. Assim, por um lado, devemos sentir a responsabilidade de aceitar estes impulsos que são dons para a Igreja e lhe dão nova vitalidade, mas, por outro, devemos também ajudar os movimentos a encontrarem a estrada justa, com correcções feitas com compreensão – aquela compreensão espiritual e humana que sabe unir guia, gratidão e uma certa abertura e disponibilidade para aceitar aprender.

Iniciai ou confirmai nisto mesmo os presbíteros. Neste Ano Sacerdotal que está para concluir, redescobri, amados Irmãos, a paternidade episcopal sobretudo para com o vosso clero. Durante demasiado tempo se relegou para segundo plano a responsabilidade da autoridade como serviço ao crescimento dos outros, e antes de mais ninguém dos sacerdotes. Estes são chamados a servir, no seu ministério pastoral, integrados numa acção pastoral de comunhão ou de conjunto, como nos recorda o decreto conciliar Presbyterorum ordinis: «Nenhum sacerdote pode realizar sozinho suficientemente a sua missão, mas só num esforço conjunto com o dos demais sacerdotes, sob a orientação dos que estão à frente da Igreja» (n. 7). Não se trata de voltar ao passado nem de um mero regresso às origens, mas de uma recuperação do fervor das origens, da alegria do início da experiência cristã, fazendo-se acompanhar por Cristo como os «discípulos de Emaús» no dia de Páscoa, deixando que a sua palavra aqueça o coração, que o «pão partido» abra os nossos olhos à contemplação do seu rosto. Só assim é que o fogo da sua caridade será bastante ardente para impelir cada fiel cristão a tornar-se dispensador de luz e vida na Igreja e entre os homens.

Antes de terminar, queria pedir-vos, na vossa qualidade de presidentes e ministros da caridade na Igreja, para revigorardes em vós e ao vosso redor os sentimentos de misericórdia e compaixão capazes de corresponder às situações de graves carências sociais. Criem-se e aperfeiçoem-se as organizações existentes, com criatividade para corresponder a todas as pobrezas, mesmo a de falta de sentido da vida e de ausência de esperança. É muito louvável o esforço que fazeis por ajudar dioceses mais necessitadas, sobretudo dos países lusófonos. As dificuldades, agora mais sentidas, não vos deixem esmorecer na lógica do dom. Continue bem vivo no país o vosso testemunho de profetas de justiça e da paz, defensores dos direitos inalienáveis da pessoa, juntando a vossa voz à dos mais débeis a quem tendes sabiamente motivado para ter voz própria, sem temer nunca levantar a voz em favor dos oprimidos, humilhados e molestados.

Enquanto vos confio a Nossa Senhora de Fátima, pedindo-Lhe que vos sustente maternalmente nos desafios em que estais empenhados, para serdes promotores de uma cultura e de uma espiritualidade de caridade e de paz, de esperança e de justiça, de fé e de serviço, de coração vos concedo, extensiva aos vossos familiares e comunidades diocesanas, a minha Bênção Apostólica.

Discurso de Bento XVI às organizações da Pastoral Social

Fonte: Canção Nova

Queridos irmãos e amigos,

Ouvistes Jesus dizer: “Vai e faz o mesmo” (Lc 10, 37). Recomenda-nos que façamos nosso o estilo do bom samaritano, cujo exemplo acaba de ser proclamado, ao aproximar-nos das situações carentes de ajuda fraterna. E qual é esse estilo? “É “um coração que vê”. Este coração vê onde há necessidade de amor e actua em consequência” (Bento XVI, Enc. Deus caritas est, 31). Assim fez o bom samaritano. Jesus não se limita a recomendar; como ensinam os Santos Padres, o Bom Samaritano é Ele, que Se faz próximo de todos os homens e «derrama sobre as suas feridas o óleo da consolação e o vinho da esperança» (Missal Romano, Prefácio Comum VIII) e os conduz à estalagem, que é a Igreja, onde os faz tratar, confiando-os aos seus ministros e pagando pessoalmente de antemão pela cura. “Vai e faz o mesmo”! O amor incondicionado de Jesus que nos curou há-de converter-se em amor entregue gratuita e generosamente, através da justiça e da caridade, para vivermos com um coração de bom samaritano.

É com grande alegria que me encontro convosco neste lugar bendito que Deus escolheu para recordar à humanidade, através de Nossa Senhora, os seus desígnios de amor misericordioso. Saúdo com grande amizade cada pessoa aqui presente e as entidades a que pertencem, na diversidade de rostos unidos na reflexão das questões sociais e sobretudo na prática da compaixão, voltada para os pobres, os doentes, os presos, os sós e desamparados, as pessoas com deficiência, as crianças e os idosos, os migrantes, os desempregados e os sujeitos a carências que lhes perturbam a dignidade de pessoas livres. Obrigado, Dom Carlos Azevedo, pelo preito de união e fidelidade à Igreja e ao Papa que prestou tanto da parte desta assembleia da caridade como da Comissão Episcopal de Pastoral Social a que preside e que não cessa de estimular esta imensa sementeira de bem-fazer em Portugal inteiro. Cientes, como Igreja, de não poderdes dar soluções práticas a todos os problemas concretos, mas despojados de qualquer tipo de poder, determinados ao serviço do bem comum, estais prontos a ajudar e a oferecer os meios de salvação a todos.

Queridos irmãos e irmãs que operais no vasto mundo da caridade, “Cristo ensina-nos que ‘Deus é amor’ (1 Jo 4, 8) e simultaneamente ensina-nos que a lei fundamental da perfeição humana e, consequentemente, também da transformação do mundo é o novo mandamento do amor. Portanto aqueles que crêem na caridade divina têm a certeza d’Ele que a estrada da caridade está aberta a todos os homens» (Conc. Ecum. Vaticano II, Const. Gaudium et spes, 38). O cenário actual da história é de crise sócio-económica, cultural e espiritual, pondo em evidência a oportunidade de um discernimento orientado pela proposta criativa da mensagem social da Igreja. O estudo da sua doutrina social, que assume como principal força e princípio a caridade, permitirá marcar um processo de desenvolvimento humano integral que adquira profundidade de coração e alcance maior humanização da sociedade (cf. Bento XVI, Enc. Caritas in veritate, 20). Não se trata de puro conhecimento intelectual, mas de uma sabedoria que dê sabor e tempero, ofereça criatividade às vias cognoscitivas e operativas para enfrentar tão ampla e complexa crise. Que as instituições da Igreja, unidas a todas as organizações não eclesiais, melhorem as suas capacidades de conhecimento e orientações para uma nova e grandiosa dinâmica que conduza para «aquela civilização do amor, cuja semente Deus colocou em todo o povo e cultura” (Ibid., 33).

Na sua dimensão social e política, esta diaconia da caridade é própria dos leigos, chamados a promover organicamente o bem comum, a justiça e a configurar rectamente a vida social (cf. Bento XVI, Enc. Deus caritas est, 29). Consta das vossas conclusões pastorais, resultantes de reflexões recentes, formar uma nova geração de líderes servidores. A atracção de novos agentes leigos para este campo pastoral merecerá certamente especial cuidado dos pastores, atentos ao futuro. Quem aprende de Deus Amor será inevitavelmente pessoa para os outros. Realmente, “o amor de Deus revela-se na responsabilidade pelo outro” (Bento XVI, Enc. Spe salvi, 28). Unidos a Cristo na sua consagração ao Pai, somos tomados pela sua compaixão pelas multidões que pedem justiça e solidariedade e, como o bom samaritano da parábola, esforçamo-nos por dar respostas concretas e generosas.

Muitas vezes, porém, não é fácil conseguir uma síntese satisfatória da vida espiritual com a acção apostólica. A pressão exercida pela cultura dominante, que apresenta com insistência um estilo de vida fundado sobre a lei do mais forte, sobre o lucro fácil e fascinante, acaba por influir sobre o nosso modo de pensar, os nossos projectos e as perspectivas do nosso serviço, com o risco de esvaziá-los da motivação da fé e da esperança cristã que os tinha suscitado. Os pedidos numerosos e prementes de ajuda e amparo que nos dirigem os pobres e marginalizados da sociedade impelem-nos a buscar soluções que estejam na lógica da eficácia, do efeito visível e da publicidade. E todavia a referida síntese é absolutamente necessária para poderdes, amados irmãos, servir Cristo na humanidade que vos espera. Neste mundo dividido, impõe-se a todos uma profunda e autêntica unidade de coração, de espírito e de acção.

No meio de tantas instituições sociais que servem o bem comum, próximas de populações carenciadas, contam-se as da Igreja Católica.
Importa que seja clara a sua orientação de modo a assumirem uma identidade bem patente: na inspiração dos seus objectivos, na escolha dos seus recursos humanos, nos métodos de actuação, na qualidade dos seus serviços, na gestão séria e eficaz dos meios. A firmeza da identidade das instituições é um serviço real, com grandes vantagens para os que dele beneficiam. Passo fundamental, além da identidade e unido a ela, é conceder à actividade caritativa cristã autonomia e independência da política e das ideologias (cf. Bento XVI, Enc. Deus caritas est, 31 b), ainda que em cooperação com organismos do Estado para atingir fins comuns.

As vossas actividades assistenciais, educativas ou caritativas sejam completadas com projectos de liberdade que promovam o ser humano, na busca da fraternidade universal. Aqui se situa o urgente empenhamento dos cristãos na defesa dos direitos humanos, preocupados com a totalidade da pessoa humana nas suas diversas dimensões. Exprimo profundo apreço a todas aquelas iniciativas sociais e pastorais que procuram lutar contra os mecanismos sócio-económicos e culturais que levam ao aborto e que têm em vista a defesa da vida e a reconciliação e cura das pessoas feridas pelo drama do aborto. As iniciativas que visam tutelar os valores essenciais e primários da vida, desde a sua concepção, e da família, fundada sobre o matrimónio indissolúvel de um homem com uma mulher, ajudam a responder a alguns dos mais insidiosos e perigosos desafios que hoje se colocam ao bem comum. Tais iniciativas constituem, juntamente com muitas outras formas de compromisso, elementos essenciais para a construção da civilização do amor.

Tudo isto bem se enquadra na mensagem de Nossa Senhora que ressoa neste lugar: a penitência, a oração, o perdão que visa a conversão dos corações. Esta é a estrada para se construir a referida civilização do amor, cujas sementes Deus lançou no coração de todo o homem e que a fé em Cristo Salvador faz germinar.

Homilia do Papa Bento XVI na Missa em Fátima

Queridos peregrinos,

«A linhagem do povo de Deus será conhecida […] como linhagem que o Senhor abençoou» (Is 61, 9). Assim começava a primeira leitura desta Eucaristia, cujas palavras encontram uma realização admirável nesta devota assembleia aos pés de Nossa Senhora de Fátima. Irmãs e irmãos muito amados, também eu vim como peregrino a Fátima, a esta «casa» que Maria escolheu para nos falar nos tempos modernos. Vim a Fátima para rejubilar com a presença de Maria e sua materna protecção. Vim a Fátima, porque hoje converge para aqui a Igreja peregrina, querida pelo seu Filho como instrumento de evangelização e sacramento de salvação. Vim a Fátima para rezar, com Maria e tantos peregrinos, pela nossa humanidade acabrunhada por misérias e sofrimentos. Enfim, com os mesmos sentimentos dos Beatos Francisco e Jacinta e da Serva de Deus Lúcia, vim a Fátima para confiar a Nossa Senhora a confissão íntima de que «amo», de que a Igreja, de que os sacerdotes «amam» Jesus e n’Ele desejam manter fixos os olhos ao terminar este Ano Sacerdotal, e para confiar à protecção materna de Maria os sacerdotes, os consagrados e consagradas, os missionários e todos os obreiros do bem que tornam acolhedora e benfazeja a Casa de Deus.

São a linhagem que o Senhor abençoou… Linhagem que o Senhor abençoou és tu, amada diocese de Leiria-Fátima, com o teu Pastor Dom António Marto, a quem agradeço a saudação inicial e todas as atenções com que me cumulou nomeadamente através de seus colaboradores neste santuário. Saúdo o Senhor Presidente da República e demais autoridades ao serviço desta Nação gloriosa. Idealmente abraço todas as dioceses de Portugal, aqui representadas pelos seus Bispos, e confio ao Céu todos os povos e nações da terra. Em Deus, estreito ao coração todos os seus filhos e filhas, especialmente quantos vivem atribulados ou abandonados, no desejo de comunicar-lhes aquela esperança grande que arde no meu coração e que, em Fátima, se faz encontrar mais sensivelmente. A nossa grande esperança lance raízes na vida de cada um de vós, amados peregrinos aqui presentes, e de quantos estão em comunhão connosco através dos meios de comunicação social.

Sim! O Senhor, a nossa grande esperança, está conosco; no seu amor misericordioso, oferece um futuro ao seu povo: um futuro de comunhão consigo. Tendo experimentado a misericórdia e consolação de Deus que não o abandonara no fatigante caminho do regresso do exílio de Babilónia, o povo de Deus exclama: «Exulto de alegria no Senhor, a minha alma rejubila no meu Deus» (Is 61, 10). Filha excelsa deste povo é a Virgem Mãe de Nazaré, a qual, revestida de graça e docemente surpreendida com a gestação de Deus que se estava operando no seu seio, faz igualmente sua esta alegria e esta esperança no cântico do Magnificat: «O meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador». Entretanto não se vê como privilegiada no meio de um povo estéril, antes profetiza-lhe as doces alegrias duma prodigiosa maternidade de Deus, porque «a sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que O temem» (Lc 1, 47.50).

Prova disto mesmo é este lugar bendito. Mais sete anos e voltareis aqui para celebrar o centenário da primeira visita feita pela Senhora «vinda do Céu», como Mestra que introduz os pequenos videntes no conhecimento íntimo do Amor Trinitário e os leva a saborear o próprio Deus como o mais belo da existência humana. Uma experiência de graça que os tornou enamorados de Deus em Jesus, a ponto da Jacinta exclamar: «Gosto tanto de dizer a Jesus que O amo. Quando Lho digo muitas vezes, parece que tenho um lume no peito, mas não me queimo». E o Francisco dizia: «Do que gostei mais foi de ver a Nosso Senhor, naquela luz que Nossa Senhora nos meteu no peito. Gosto tanto de Deus!» (Memórias da Irmã Lúcia, I, 40 e 127).

Irmãos, ao ouvir estes inocentes e profundos desabafos místicos dos Pastorinhos, poderia alguém olhar para eles com um pouco de inveja por terem visto ou com a desiludida resignação de quem não teve essa sorte mas insiste em ver. A tais pessoas, o Papa diz como Jesus: «Não andareis vós enganadas, ignorando as Escrituras e o poder de Deus?» (Mc 12, 24). As Escrituras convidam-nos a crer: «Felizes os que acreditam sem terem visto» (Jo 20, 29), mas Deus – mais íntimo a mim mesmo de quanto o seja eu próprio (cf. Santo Agostinho, Confissões, III, 6, 11) – tem o poder de chegar até nós nomeadamente através dos sentidos interiores, de modo que a alma recebe o toque suave de algo real que está para além do sensível, tornando-a capaz de alcançar o não-sensível, o não-visível aos sentidos. Para isso exige-se uma vigilância interior do coração que, na maior parte do tempo, não possuímos por causa da forte pressão das realidades externas e das imagens e preocupações que enchem a alma (cf. Card. Joseph Ratzinger, Comentário teológico da Mensagem de Fátima, ano 2000). Sim! Deus pode alcançar-nos, oferecendo-Se à nossa visão interior.

Mais ainda, aquela Luz no íntimo dos Pastorinhos, que provém do futuro de Deus, é a mesma que se manifestou na plenitude dos tempos e veio para todos: o Filho de Deus feito homem. Que Ele tem poder para incendiar os corações mais frios e tristes, vemo-lo nos discípulos de Emaús (cf. Lc 24, 32). Por isso a nossa esperança tem fundamento real, apoia-se num acontecimento que se coloca na história e ao mesmo tempo excede-a: é Jesus de Nazaré. E o entusiasmo que a sua sabedoria e poder salvífico suscitavam nas pessoas de então era tal que uma mulher do meio da multidão – como ouvimos no Evangelho – exclama: «Feliz Aquela que Te trouxe no seu ventre e Te amamentou ao seu peito». Contudo Jesus observou: «Mais felizes são os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática» (Lc 11, 27. 28). Mas quem tem tempo para escutar a sua palavra e deixar-se fascinar pelo seu amor? Quem vela, na noite da dúvida e da incerteza, com o coração acordado em oração? Quem espera a aurora do dia novo, tendo acesa a chama da fé? A fé em Deus abre ao homem o horizonte de uma esperança certa que não desilude; indica um sólido fundamento sobre o qual apoiar, sem medo, a própria vida; pede o abandono, cheio de confiança, nas mãos do Amor que sustenta o mundo.

«A linhagem do povo de Deus será conhecida […] como linhagem que o Senhor abençoou» (Is 61, 9) com uma esperança inabalável e que frutifica num amor que se sacrifica pelos outros, mas não sacrifica os outros; antes – como ouvimos na segunda leitura – «tudo desculpa, tudo acredita, tudo espera, tudo suporta» (1 Cor 13, 7). Exemplo e estímulo são os Pastorinhos, que fizeram da sua vida uma doação a Deus e uma partilha com os outros por amor de Deus. Nossa Senhora ajudou-os a abrir o coração à universalidade do amor. De modo particular, a beata Jacinta mostrava-se incansável na partilha com os pobres e no sacrifício pela conversão dos pecadores. Só com este amor de fraternidade e partilha construiremos a civilização do Amor e da Paz.

Iludir-se-ia quem pensasse que a missão profética de Fátima esteja concluída. Aqui revive aquele desígnio de Deus que interpela a humanidade desde os seus primórdios: «Onde está Abel, teu irmão? […] A voz do sangue do teu irmão clama da terra até Mim» (Gn 4, 9). O homem pôde despoletar um ciclo de morte e terror, mas não consegue interrompê-lo… Na Sagrada Escritura, é frequente aparecer Deus à procura de justos para salvar a cidade humana e o mesmo faz aqui, em Fátima, quando Nossa Senhora pergunta: «Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em acto de reparação pelos pecados com que Ele mesmo é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?» (Memórias da Irmã Lúcia, I, 162).

Com a família humana pronta a sacrificar os seus laços mais sagrados no altar de mesquinhos egoísmos de nação, raça, ideologia, grupo, indivíduo, veio do Céu a nossa bendita Mãe oferecendo-Se para transplantar no coração de quantos se Lhe entregam o Amor de Deus que arde no seu. Então eram só três, cujo exemplo de vida irradiou e se multiplicou em grupos sem conta por toda a superfície da terra, nomeadamente à passagem da Virgem Peregrina, que se votaram à causa da solidariedade fraterna. Possam os sete anos que nos separam do centenário das Aparições apressar o anunciado triunfo do Coração Imaculado de Maria para glória da Santíssima


Saudação aos doentes (no final da celebração)

Queridos Irmãos e Irmãs doentes,

Antes de me aproximar de vós aqui presentes, levando nas mãos a custódia com Jesus Eucaristia, queria dirigir-vos uma palavra de ânimo e de esperança, que estendo a todos os doentes que nos acompanham através da rádio e da televisão e a quantos não têm sequer esta possibilidade mas estão unidos conosco pelos vínculos mais profundos do espírito, ou seja, na fé e na oração:

Meu irmão e minha irmã, tens para Deus «um valor tão grande que Ele mesmo Se fez homem para poder padecer com o homem, de modo muito real, na carne e no sangue, como nos é demonstrado na narração da Paixão de Jesus. A partir de então entrou, em todo o sofrimento humano, Alguém que partilha o sofrimento e a sua suportação; a partir de então propaga-se em todo o sofrimento a consolação do amor solidário de Deus, surgindo assim a estrela da esperança» (Bento XVI, Enc. Spe salvi, 39). Com esta esperança no coração, poderás sair das areias movediças da doença e da morte e pôr-te de pé sobre a rocha firme do amor divino. Por outras palavras: poderás superar a sensação de inutilidade do sofrimento que desgasta a pessoa dentro de si mesma e a faz sentir-se um peso para os outros, quando na verdade o sofrimento, vivido com Jesus, serve para a salvação dos irmãos.

Como é possível? As fontes da força divina jorram precisamente no meio da fragilidade humana. É o paradoxo do Evangelho. Por isso o divino Mestre, mais do que demorar-Se a explicar as razões do sofrimento, preferiu chamar cada um a segui-Lo, dizendo: «Toma a tua cruz e segue-Me» (cf. Mc 8, 34). Vem comigo. Toma parte com o teu sofrimento nesta obra de salvação do mundo, que se realiza por meio do meu sofrimento, por meio da minha Cruz. À medida que abraçares a tua cruz, unindo-te espiritualmente à minha Cruz, desvendar-se-á a teus olhos o sentido salvífico do sofrimento. Encontrarás no sofrimento a paz interior e até mesmo a alegria espiritual.

Queridos doentes, acolhei este chamamento de Jesus que vai passar junto de vós no Santíssimo Sacramento e confiai-Lhe todas as contrariedades e penas que enfrentais para se tornarem – segundo os seus desígnios – meio de redenção para o mundo inteiro. Sereis redentores no Redentor, como sois filhos no Filho. Junto da cruz… está a Mãe de Jesus, a nossa Mãe.