O NOSSO TEMPO E O SÁBADO SANTO: MEDITAÇÃO DO PAPA EM TURIM


Fonte: Rádio Vaticano

Turim, 02 mai (RV) – Segue a meditação do Papa Bento XVI após a veneração do Santo Sudário de Turim, com a tradução livre de Rafael D’Aqui.

Caros amigos,

Este é um momento para mim muito esperado. Em outra ocasião estive diante do Santo Sudário, mas desta vez vivo esta peregrinação e esta pausa com particular intensidade: talvez porque o passar dos anos me torna ainda mais sensível à mensagem deste extraordinário Ícone; talvez, e diria sobretudo, porque estou aqui como Sucessor de Pedro, e trago em meu coração toda a Igreja, ou melhor, toda a humanidade. Agradeço a Deus pelo dom desta peregrinação, e também pela oportunidade de partilhar com vocês uma breve meditação, que me foi sugerida pelo subtítulo desta solene Exposição: “O mistério do Sábado Santo”.

Pode-se dizer que o Santo Sudário é o Ícone desse mistério, Ícone do Sábado Santo. De fato, ela é um tecido sepulcral, que envolveu o corpo de um homem crucificado em tudo correspondente a quanto os evangelhos nos dizem de Jesus, o qual, crucificado por volta do meio-dia, expirou por volta das 3 da tarde. Chegando a noite, visto que era um dia de Preparação, isto é a véspera do sábado solene de Páscoa, José de Arimatéia, um rico e importante membro do Sinédrio, pediu corajosamente a Pôncio Pilatos para sepultar Jesus em seu sepulcro novo, que havia feito escavar na rocha a pouca distância do Gólgota. Obtida a permissão, comprou um lenço e, deposto o corpo de Jesus da cruz, o envolveu com aquele lençol e o colocou naquela tumba (cfr Mc 15, 42-56). Assim refere o Evangelho de Marco, e com ele concordam os outros evangelistas. Daquele momento, Jesus permaneceu no sepulcro até a aurora do dia depois do sábado, e o Sudário de Turim nos oferece a imagem de como estava o seu corpo deitado na tumba durante esse tempo, que foi breve cronologicamente (cerca de um dia e meio), mas foi imenso, infinito em seu valor e no seu significado.

O Sábado Santo é o dia do “escondimento” de Deus, como se lê em uma antiga homilia: “O que aconteceu? Hoje sobre a terra há grande silêncio, grande silêncio e solidão. Grande silêncio porque o Rei dorme… Deus morreu na carne e desceu para abalar a mansão dos mortos” (Homilia sobre o Sábado Santo, PG 43, 439). No Credo, nós professamos que Jesus Cristo “padeceu sob Pôncio Pilatos, morreu e foi crucificado, morto e sepultado, desceu à mansão dos mortos, e no ressuscitou ao terceiro dia”.

Caros irmãos, nesse nosso tempo, especialmente depois de ter atraversado o século passado, a humanidade tornou-se particularmente sensível ao mistério do Sábado Santo. O “escondimento” de Deus faz parte da espiritualidade do homem contemporâneo, de maneira existencial, quase inconsciente, como um vazio no coração que foi alargando-se sempre mais. Ao fim do século XIX, Nietzsche escriva: “Deus morreu! E nós o matamos!”. Essa célebre expressão, observando melhor, é tomada quase literalmente da tradição cristã, e frequentemente a repetimos na Via Crucis, talvez sem nos dar conta plenamente do que dizemos. Depois de duas guerras mundiais, os lagers e gulags, Hiroshima e Nagasaki, a nossa época tornou-se sempre mais um Sábado Santo: a escuridão deste dia interpela a todos aqueles que se interrogam sobre a vida, em especial, interpela a nós, os que cremos. Também nós temos relação com esta escuridão.

E todavia a morte do Filho de Deus, de Jesus de Nazaré tem um aspecto oposto, totalmente positivo, fonte de consolação e de esperança. E isto me faz pensar ao fato de que o Santo Sudário se comporta como um documento “fotográfico”, dotado de um “positivo” e de um “negativo”. E com efeito é assim mesmo: o mistério mais obscuro da fé é ao mesmo tempo o sinal mais luminoso de uma esperança que não tem fronteiras. O Sábado Santo é uma “terra de ninguém” entre a morte e a ressurreição, mas nesta “terra de ninguém” entrou Alguém, o Único, que a atravessou com os sinais de sua Paixão pelo homem: “Passio Christi. Passio hominis”. E o Sudário nos fala exatamente deste momento, testemunha precisamente este intervalo único e irrepetível da história da humanidade e do universo, no qual Deus, em Jesus Cristo, partilhou não só o nosso morrer, mas também o nosso permanecer na morte. A solidariedade mais radical.

Neste “tempo além do tempo” Jesus Cristo desceu à mansão dos mortos. O que significa esta expressão? Quer dizer que Deus, feito homem, chegou até o ponto de entrar na solidão extrema e absoluta do homem, onde não chega nenhum raio de amor, onde reina o abandono total sem nenhuma palavra de conforto: “a mansão dos mortos”. Jesus Cristo, permanecendo na morte, ultrapassou a porta desta solidão última para guiar também a nós e ultrapassá-la com Ele. Todos sentimos alguma vez uma sensação assustadora de abandono, e o que da morte nos dá mais medo é exatamente isso, como quando criança tínhamos medo de estar sozinhos no escuro e somente a presença de uma pessoa que nos ama nos podia dar confiança. Assim, exatamente isso aconteceu no Sábado Santo: no reino da morte resoou a voz de Deus. Aconteceu o impensável: que o Amor penetrou “na mansão dos mortos”: também nas trevas extremas da solidão humana mais absoluta nós podemos ouvir uma voz que nos chama a encontrar uma mão que nos tomar e nos leva para fora. O ser humano vive pelo fato que é amado e pode amar; e se também no espaço da morte for penetrado pelo amor, então também lá chegou a vida. Na hora da extrema solidão não estaremos nunca sozinhos: “Passio Christi. Passio hominis”.

Esse é o mistério do Sábado Santo! Exatamente de lá, das trevas da morte do Filho de Deus, despontou a luz de uma esperança nova: a luz da Ressurreição. E assim, me parece que olhando este sagrado tecido com os olhos da fé se possa perceber algo dessa luz. De fato, o Sudário foi imergido naquela escuridão profunda, mas ao mesmo tempo luminosa; e eu creio que se milhares e milhares de pessoas vêm venerá-lo – sem contar aqueles que a contemplam através de imagens – é porque nessa não vêem somente as trevas, mas também a luz; não tanto o fracasso da vida e do amor, mas sobretuto a vitória, a vitória da vida sobre a morte, do amor sobre o ódio; vêem sim a morte de Jesus, mas vislumbram a sua Ressurreição; no seio da morte pulsa agora a vida, já que ali fez morada o amor. Este é o poder do Sudário: do rosto desse “homem das dores”, que traz sobre si a paixão do homem de todos os tempos e lugares, também as nossas paixões, os nossos sofrimentos, as nossas dificuldades, os nossos pecados – “Passio Christi, Passio hominis” – emana uma solene majestade, um senhorio paradoxal. Este rosto, estas mãos e estes pés, este lado aberto, todo este corpo fala, é ele mesmo uma palvra que podemos escutar no silêncio. Como fala o Sudário? Fala com o sangue, e o sangue é a vida! O Sudário é um ícone escrito com sangue; sangue de um homem flagelado, coroado de espinhos, crucificado e ferido no lado direito. A imagem impressa sobre o Sudário é aquela de um morto, mas o sangue fala de sua vida. Cada traço de sangue fala de amor e de vida. Especialmente aquela mancha abundante próxima ao lado aberto, feita de sangue e água que saíram copiosamente de uma grande ferida realizada por um golpe de lança romana, aquele sangue e aquela água falam de vida. É como uma fonte que murmura no silêncio, e nós possamos ouvi-la, possamos escutá-la, no silêncio do Sábado Santo.

Caros amigos, louvemos sempre o Senhor por seu amor fiel e misericordioso. Partindo deste lugar santo, levemos nos olhos a imagem do Sudário, levemos no coração esta palavra de amor, e louvemos a Deus com uma vida plena de fé, de esperança e de caridade. Obrigado.