Santos espíritos com o Espírito Santo

Para este dia de Pentecostes gostaria de ter feito um podcast. Mas infelizmente ouve um problema com a internet que uso. No entanto, pus-me a escrever o tradicional artigo dominical, que neste domingo é carregado de um forte tema: o Espírito Santo.

Verdadeiramente o que pensamos ao falarmos sobre o Espírito Santo, sobre Pentecostes? Seria apenas o dia em que são consolidadas as bases da Igreja, ou o dia em que a Igreja nasce? Não! Em Pentecostes não se realiza apenas a efusão do Espírito e a sua eficácia duradoura, por todo o tempo, na Igreja. Em Pentecostes realiza-se muito mais: realiza-se a unidade perdida pelos homens quando, deixando-se levar pela inveja e por uma demasiada curiosidade, são confundidos por Deus no conhecido episódio da Torre de Babel (cf. Gn 11, 1 – 11).

O Espírito não vem para manifestar confusões. Ele é o Espírito de diversidade, de vários povos, de vários ministérios, de vários dons, no entanto todos nEle são unidos (cf. 1 Cor 12, 3b – 7). Com benigna solicitude, Deus, após ter enviado Seu filho ao mundo para dar a conhecer a única Verdade, nEle subsistente, e após sua gloriosa Ascensão ao Céu, envia o Espírito: “espírito de sabedoria e discernimento, espírito de conselho e fortaleza, espírito de ciência e temor de Deus” (Is 11, 2). Este mesmo Espírito que guiou Jesus a sua vida toda guia hoje a Igreja, de modo não menos importante. Dificuldades e impropérios não a farão sucumbir. Quem poderá ser vencido se caminha, e mais que isso, se possui em si mesmo o Espírito Santo?

Foi justamente isto que norteou a vida dos apóstolos e de Maria Santíssima. Mesmo sabendo que haviam muitas pessoas que estavam em oposição ao que eles pregavam, não temeram; foram guiados pelo Paráclito, e, assim, dispuseram toda a sua vida a serviço do Reino de Deus e do amor a Cristo e a Igreja.

Vem-me à mente o texto em que o salmista diz: “O que é o homem, para que te recordes dele, o ser humano, para que com ele te ocupes?” (Sl 8, 5). Hoje poderíamos dizer ao salmista: o homem a que perguntavas sobre por que o Senhor dele si recordara, é aquele que foi agraciado com o Espírito, que em profusão desceu sobre os apóstolos e hoje arde no seio da Igreja, Ele que nos dá o conhecimento da fé. Os homens, do qual o Senhor se lembrou, têm o dom de falar com Cristo, de possuí-lo e de encontrar, mesmo em meio às constantes dificuldades, a Paz que tanto necessitam. “O espírito vem em auxílio de nossa fraqueza” (Rm 8, 26).

Quando se tende a colocar a sabedoria em primeiro plano e vangloriar-se de algo que é dom e que devemos ser gratos a Deus, pois sabemos que não fazemos jus, acabamos por atirar-nos no precipício do egocentrismo. Deste modo caímos num existencialismo vazio. São Paulo nos alerta, e alerta de modo particular a nossa sociedade hodierna, que “a letra mata, mas o Espírito dá a vida” (2Cor 3, 6).

Mas esta intrínseca união deveras traz responsabilidades. Paulo nos diz que os cristãos, que são moradas do Espírito Santo (cf. Rm 8, 9-10), são chamados a estarem em constante combate contra as ciladas do demônio e as “obras da carne: fornicação, libertinagem, devassidão, idolatria, feitiçaria, inimizades, contendas, ciúmes, iras, intrigas, discórdias, facções, invejas, bebedeiras, orgias, e coisas semelhantes a essas” (Gl 5, 19-21).

É triste vermos que a humanidade deixa-se, cada dia mais, dominar por tais obras. Elas constituem uma degradação, um retrocesso, na caminhada cristã. E assim São Paulo apresenta os frutos do Espírito: “caridade, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, lealdade, mansidão, continência” (v. 22-23).

Ser cristão não é apenas anunciar a existência de Cristo, não é apenas ir à Missa, sentar-se e escutar o que diz o sacerdote. O verdadeiro cristão tem coragem de renunciar ao que o mundo propõe e sabe viver com dignidade o que o Evangelho apresenta. De certo, muitos deixar-se-ão conduzir pelo que lhes faz feliz já nesta vida, renunciando a perspectiva de uma vida futura com Cristo. Para muitos o fardo é pesado, é cansativo e é de grande exigência. Para o cristão o fardo não deixa de ser pesado e angustiante; no entanto ele o carrega mais aliviado, pois pode olhar para o fardo maior que foi a paixão de Cristo, carregando a cruz por nossos pecados. Não obstante tudo isso Ele calou-se, permanecendo manso como um cordeiro.

O apóstolo mais uma vez alerta: “Se viverdes segundo a carne, morrereis, mas se, pelo Espírito, matardes o procedimento carnal, então vivereis” (Rm 8, 13). Que poderia dizer? São palavras duras, mas que dão grande sentido sobre a via que queremos seguir. Os prazeres e más condutas têm se tornado “normais” na sociedade. Edifica-se em muitos lugares a ideologia de que o que deve guiar o destino dos homens não é uma lei moral e natural, instituída por Deus, mas sim os seus desejos e vontades, que muitas vezes são desleais e estão totalmente opostos ao verdadeiro sentido da existência humana.

Adaptar o Evangelho a si, e não adaptar-se ao Evangelho: eis a má conduta que muitos levam nos nossos dias.

Mas o Espírito manifesta-se na Igreja e lhe dá sabedoria e força para superar todas as dificuldades, heresias e tudo aquilo que se levanta contra Nosso Senhor Jesus Cristo e a Sagrada Fé Católica.

“Por Ele, os corações são elevados ao alto, os fracos são conduzidos pela mão, os que progridem na virtude chegam à perfeição. Ele ilumina os que foram purificados de toda a mancha e torna-os espirituais pela comunhão consigo” (S. Basílio Magno, Do Livro sobre o Espírito Santo).

Enfim, é necessário que peçamos constantemente que o Espírito Santo possa fazer de nós “santos espíritos”. Que nossas almas sejam santas e possam ser vivificadas pelo “sopro” que dá força e ilumina. Que possamo-nos deixar alcançar pelo Espírito da vida.

Que a Virgem Maria torne-nos sempre mais repletos do Espírito Santo. Que sejamos verdadeiras testemunhas deste acontecimento que, mesmo perpassados estes dois mil anos, não perdeu seu vigor e continua a impulsionar-nos ao permanente estado de missão em que a Igreja deve achar-se.

Feliz e Santo Pentecostes!

Fraternalmente em Cristo Jesus!

Veni Sancte Spiritus