O verdadeiro sentido de hierarquia

[Aqui está na íntegra o texto da Audiência Geral do Papa Bento XVI, realizada na quarta-feira (26/05). Desculpem pelo atraso na tradução.]

Munus regendi

Queridos irmãos e irmãs,

O Ano Sacerdotal chega ao fim, por isso comecei a falar na última catequese sobre as tarefas fundamentais do sacerdote, isto é: ensinar, santificar e governar. Já fiz duas catequeses, uma sobre o ministério da santificação, os Sacramentos sobretudo, e uma sobre o ensinamento. Portanto, hoje gostaria de falar sobre a missão do sacerdote de governar, de guiar, com a autoridade de Cristo, não com a própria, a porção do Povo que Deus os confiou.

Como compreender na cultura contemporânea uma tal dimensão que implica o conceito de autoridade e se origina do mandato mesmo do Senhor de apascentar as suas ovelhas? O que é realmente, para nós cristãos, a autoridade? A experiência cultural, política e histórica do recente passado, especialmente as ditaduras na Europa Oriental e Ocidental no século XX, fizeram o homem contemporâneo suspeito nos confrontos desse conceito. Suspeita-se que, frequentemente, se traduz como necessário o abandono de toda a autoridade, que não vem exclusivamente dos homens e seja imposta por eles, por eles controlada. Mas o olhar sobre os regimes que, no século passado, semearam terror e morte, fortemente recorda que a autoridade, em todos os âmbitos, quando é exercida sem referência ao Transcendente, se ele ignora a autoridade suprema, que é Deus, termina inevitavelmente por voltar-se contra o homem. É importante reconhecer que a autoridade humana nunca é um fim, mas sempre e apenas um meio e que, necessariamente em todas as épocas, o fim é sempre a pessoa, criada por Deus e com sua dignidade inviolável e chamada a relacionar-se com o próprio Criador, no caminho terreno da existência e na vida eterna; é uma autoridade exercitada em responsabilidade diante de Deus, o Criador.  Uma autoridade intensa, que tem o único propósito de servir o verdadeiro bem da pessoa e ser transparência do único Sumo Bem que é Deus, não só não é estranha aos homens, mas, ao contrário, é uma preciosa ajuda no caminho para a plena realização em Cristo, para a salvação.

A Igreja é chamada e se empenha a exercitar este tipo de autoridade que é serviço, e a exercita não em nome próprio, mas no nome de Jesus Cristo, que do Pai recebeu todo poder no Céu e sobre a terra (cf. Mt 28, 18). Através dos Pastores da Igreja, de fato, Cristo apascenta seu rebanho: é Ele que os guia, os protege, os corrigi, porque os ama profundamente. Mas o Senhor Jesus, Pastor supremo da nossa alma, quis que o Colégio Apostólico, hoje os Bispos, em comunhão com o Sucessor de Pedro, e os sacerdotes, seus mais preciosos colaboradores, participassem desta sua missão de cuidar do Povo de Deus, de serem educadores na fé, orientando, animando e sustentando a comunidade cristã, ou, como disse o Concílio, “cuidando, especialmente que os fiéis sejam guiados no Espírito Santo para viver o Evangelho à sua própria vocação, a praticar a caridade sincera e ativa e para o exercício dessa liberdade com que Cristo nos libertou” (Presbiterorum Ordinis, 6). Cada pastor, então, é o meio pelo qual Cristo ama os homens: é através do nosso ministério – queridos sacerdotes – é através de nós que Deus alcança almas, as instrue, as guarda e as guia. Santo Agostinho, em seu Comentário ao Evangelho de São João diz: “Seja, portanto, compromisso de amor apascentar o rebanho de Cristo” (123,5); esta é a norma suprema de conduta para os ministros de Deus, um amor incondicional, como aquele do Bom Pastor, pleno de alegria, aberto a todos, atencioso, atento aos fechados e atencioso para com os distantes (cf. Santo Agostinho, Sermão 340, 1; Discurso 46, 15), sensível aos mais fracos, os pequenos, os simples, os pecadores, para manifestar a infinita misericórdia de Deus com as palavras tranquilizadoras da esperança (cf. Idem, Carta 95, 1).

Se esta tarefa é fundada sobre o Sacramento, todavia sua eficácia não é independente da existência pessoal do presbítero. Para ser um pastor segundo o coração de Deus (cf. Jr 3,15) deve ocorrer um profundo radicamento na viva amizade com Cristo, não só da inteligência, mas também da liberdade e da vontade, uma consciência clara da identidade recebida na Ordenação Sacerdotal, uma disponibilidade incondicional para conduzir o rebanho confiado onde o Senhor quer e não na direção que, aparentemente, parece mais fácil ou conveniente. Isso requer, em primeiro lugar, a contínua e progressiva disponibilidade para deixar que Cristo mesmo governe a existência sacerdotal dos presbíteros. De fato, ninguém é realmente capaz de apascentar o rebanho de Cristo se não vive em profunda e verdadeira obediência a Cristo e à Igreja, e a própria docilidade do povo para com os seus sacerdotes depende da obediência dos sacerdotes a Cristo; por isso, na base do ministério pastoral está sempre o encontro pessoal e constante com o Senhor, o conhecimento profundo Dele, o conformar a própria vontade à vontade de Cristo.

Nas últimas décadas, utilizou-se frequentemente o adjetivo “pastoral” quase em oposição ao conceito de “hierárquico”, assim como foi interpretada na mesma oposição a idéia de “comunhão”. É talvez o ponto onde ele pode ser útil para um breve comentário sobre a palavra “hierarquia”, que é a denominação tradicional de estrutura sacramental da Igreja de autoridade, ordenada pelos três níveis do sacramento da Ordem: episcopato, presbiterato, diaconato. Prevalece na opinião pública, para a realidade “hierarquia”, o elemento de subordinação e o elemento jurídico; por isso, para muitos a idéia de hierarquia parece estar em contraste à flexibilidade e à vitalidade do senso pastoral e também contraria à humildade do Evangelho. Mas este é um mal-entendido sobre a hierarquia, também causado historicamente pelo abuso de autoridade e pelo carreirismo, que são exatamente abusos e não derivam do próprio ser da realidade “hierarquia”. A opinião comum é que “hierarquia” seja sempre relacionada ao domínio e portanto não corresponde ao verdadeiro sentido da Igreja, da unidade no amor de Cristo. Mas como eu disse, esta é uma interpretação errada, que se originou no abuso da história, mas não responde ao verdadeiro significado daquilo que é a hierarquia. Começamos com a palavra. Geralmente, é dito que o significado da palavra hierarquia seria ” sagrado domínio “, mas o verdadeiro significado não  é este, é ” sagrada origem “, ou seja: esta autoridade não vem do homem, mas tem suas origens no sagrado, no Sacramento; então a pessoa submete-se a vocação, ao mistério de Cristo; faz de si um servo de Cristo e só enquanto servo de Cristo este pode governar, guiar por Cristo e com Cristo. Portanto, aqueles que entram na sagrada Ordem do Sacramento, a “hierarquia”, não é um autocrata, mas entra em um novo laço de obediência a Cristo: está ligada a Ele em comunhão com os outros membros da Sagrada Ordem, do Sacerdócio. E também o Papa – ponto de referência para todos os outros pastores e da comunhão da Igreja – não pode fazer o que quer; pelo contrário, o Papa é o guardião de obediência a Cristo, sua palavra resume-se na “regula fidei“, no Credo da Igreja, e deve preceder na obediência a Cristo e a sua Igreja. Hierarquia implica uma tríplice ligação: aquela, antes de tudo, com Cristo e a ordem dada pelo Senhor à sua Igreja; depois a ligação com outros Pastores, na única comunhão da Igreja; e, finalmente, a relação com os fiéis confiados ao indivíduo, na ordem da Igreja.

Assim, entendemos que a comunhão e a hierarquia não são contrários uns aos outros, mas são condicionais. São em si uma coisa só (comunhão hierárquica). O Pastor está apenas guiando e protegendo o rebanho, e às vezes impedindo que ele se disperse. Fora de uma visão clara e explicitamente sobrenatural, não é compreensível a tarefa governar, própria dos sacerdotes. Esse, no entanto, sustentado pelo verdadeiro amor para a salvação de cada fiel, é particularmente precioso e necessário em nosso tempo. Se o objetivo é levar a mensagem de Cristo e conduzir os homens ao encontro com Ele para que tenham vida, a tarefa de guiar se configura como um serviço vivo em uma doação total para a edificação do rebanho na verdade e na santidade, muitas vezes indo contra a corrente e recordando que quem é o maior deve fazer-se menor, e aquele que governa, como aquele que serve (cf. Lumen Gentium, 27).

Onde pode achar hoje um sacerdote a força para o exercício do seu ministério, em plena fidelidade a Cristo e à Igreja, com uma dedicação total ao rebanho? A resposta é uma só: em Cristo Senhor. O reino de Jesus governar não é aquele do domínio, mas o humilde e amoroso serviço da lavagem dos pés, e a realeza de Cristo sobre o universo não é um triunfo terreno, mas encontra seu ponto culminante no lenho da cruz, que torna-se juízo para o mundo e ponto de referência para o exercício da autoridade que seja verdadeira expressão da caridade pastoral. Os santos, entre eles São João Maria Vianney, praticaram com amor e dedicação a tarefa de tratar a porção do Povo de Deus confiada a ele, mostrando-se também homem forte e determinado, com o único objetivo de promover o verdadeiro bem da almas, capaz de pagar, em pessoa, até o martírio, para permanecer fiéis à verdade e à justiça do Evangelho.

Caríssimos sacerdotes, “apascentai o rebanho de Deus que vos é confiado, não por constrangimento, mas de boa vontade […], fazendo-vos modelos para o rebanho” (1 Pedro 5,2). Portanto, não tenham medo de conduzir a Cristo cada um dos irmãos que Ele vos confiou, seguros que cada palavra e cada atitude, se decorrentes da obediência à vontade de Deus darão frutos; saibam viver apreciando os méritos e reconhecendo os limites da cultura em que estamos inseridos, com a garantia firme de que o anúncio do Evangelho é o maior serviço que se pode fazer aos homens. Não há, de fato, bem maior nesta vida terrena, que conduzir os homens a Deus, despertando a fé, levantando o homem da inércia e do desespero, dar a esperança de que Deus está próximo e guia a história pessoal e do mundo: este, em definitivo, é o profundo senso de responsabilidade e a última tarefa de governar que o Senhor vos confiou. Se trata de formar Cristo nos crentes, através do processo de santificação que é conversão dos critérios, da escala de valores, das atitudes, para deixar que Cristo viva em cada fiel. São Paulo assim reassume a sua ação pastoral: “Meus filhinhos, eu estou novamente em trabalho de parto até que Cristo seja formado em vós” (Gl 4, 19).

Queridos irmãos e irmãs, convido-vos a rezar por mim, o Sucessor de Pedro, eu tenho uma função específica no governo da Igreja de Cristo, bem como todos os vossos Bispos e sacerdotes. Ore para que nós cuidemos de todas as ovelhas, mesmo aquelas que perderam-se do rebanho que nos foi confiado. Para vós, queridos sacerdotes, dirijo um cordial convite para as comemorações de encerramento do Ano Sacerdotal, nos dias 9, 10 e 11 de Junho, aqui em Roma: meditaremos sobre a conversão e sobre a missão, o dom do Espírito Santo e sua relação com Maria, e renovaremos as nossas promessas sacerdotais, apoiado por todo o Povo de Deus! Obrigado!