Chorar aos pés de Cristo


As leituras deste domingo convidam-nos a contemplarmos o perdão de Deus, manifestado constantemente na humanidade. Se observarmos as leituras poderemos ver quão ricos são os ensinamentos que a Sagrada Escritura dirige a nós, especialmente em dias tão conturbados, que tendem a fazer desaparecer a beleza e a necessidade do perdão.

Na primeira leitura vemos manifestado o perdão de Deus a Davi. Depois que ele trai a Urias, quando deita-se com sua mulher, e esta dele engravida, ele manda que Urias seja posto na frente de guerra para que seja morto logo. Sabendo do que tinha feito, Deus envia Natã para avisar a Davi do grave pecado em que se encontrava, e este exorta a Davi para que ponha-se em atitude de perdão diante de Deus. Davi disse a Natã: “Pequei contra o Senhor”.
Natã respondeu-lhe: “De sua parte, o Senhor perdoou o teu pecado, de modo que não morrerás! Entretanto, por teres ultrajado o Senhor com teu procedimento, o filho que te nasceu morrerá” (2 Sam 12, 13-14).

O Senhor, como fonte de misericórdia e sendo Ele mesmo a misericórdia, concede-nos o perdão, apesar de nossas dificuldades. Por sermos pecadores temos a graça de encontrar a misericórdia de Cristo, e de mergulhar nesta fonte viva de amor.

Na segunda leitura São Paulo afirma categoricamente: “Eu não desprezo a graça de Deus. Ora, se a justiça vem pela Lei, então Cristo morreu inutilmente” (Gl 2, 21). É notória tal afirmação do apóstolo. Estaria, pois, Paulo a desprezar a Lei? Será que ela seria desnecessária? Debruçarmo-nos-emos, sobretudo, no contexto das palavras paulinas, que constituem para mim uma grande verdade da graça redentora no mundo. Paulo nos diz que a misericórdia, o amor de Deus, é maior que toda a Lei. Isto porque na Lei não se encontra o ápice da nossa salvação; na Lei não está a centralidade da Fé cristã; na Lei se encontra como bem viver a fé cristã, mas todo este fundamento se encontra unicamente no amor. Amor este que é o próprio Deus, que, por meio de Jesus Cristo, salvou a humanidade, não com Lei, com regras e juízos, mas com amor.

Mas perguntar-me-ão, e isto é necessário, por que a Igreja nos apresenta leis e mandamentos para como bem viver a fé cristã, e que são setas que apontam para a salvação? Ora, aquilo que a Igreja ensina é unicamente o que o próprio Cristo ordena aos apóstolos, e São Paulo santamente ordena a Timóteo, seu fiel colaborador: “Guarda o precioso depósito, pela virtude do Espírito Santo que habita em nós” (II Tim 2, 14). Este depósito da fé, os ensinamentos nele contidos, guiam nossa vida cristã para que, superando as dificuldades e vencendo tudo o que se põe contra a fé, possamos caminhar santamente nos ensinamentos de Jesus. Mas o que salva não são os ensinamentos, eles são meios. A Verdadeira salvação consiste unicamente em Jesus Cristo. E só quem tem coragem de dizer “não” ao mundo poderá dar um “sim” comprometido e irrenunciável ao seu projeto salvífico. E um dia podermos, Paulo, afirmar: “Eu vivo, mas não eu, é Cristo que vive em mim” (Gl 2, 20).

Mas se Paulo não despreza a graça de Deus, que operou maravilhosamente nele, muitos hoje em dia a desprezam constantemente. Acham que sua autossuficiência poderá fazer-los dignos do Reino do Céu, quando, na verdade, a maior virtude para chegar-se ao céu é inclinar-se, reconhecer-se pecador, levantar-se e caminhar confiando na misericórdia de Deus.

E eis que chegamos ao Evangelho. E que belo é o Evangelho! É capaz de contrastar a humilhação de uma pecadora, e um fariseu, que achava que devia manter-se afastado de “pecadores”, pois leva uma vida “santa”. Jesus, no entanto, acolhe-a e manifesta o amor de Deus por ela.

Ela, levando uma vida desregrada, encontra em Jesus o verdadeiro amor; alguém que podia fortalecê-la e ajudá-la a não mais retornar àquela vida de pecados. Ela aproxima-se de Jesus e chora. Chorar! Eis algo ao qual muitos se retém. Chorar não é apenas uma manifestação corpórea de se mostrar comovido ou triste com algo, deve ser também uma manifestação de arrependimento dos nossos pecados. Se chorar ajuda a desabafar, chorar aos pés de Jesus também não é diferente. Jesus acolhedor, manso e humilde de coração, está sempre disposto a nos acolher. Ainda que parecesse certa a atitude de Simão, em si interrogar por que o mestre acolheria aquela pecadora, Jesus não a exclui e não a marginaliza; acolhe-a e oferece a ela um novo sentido existencial.

Ninguém é destinado ao inferno. Ninguém é criado para levar uma vida afastada de Deus. Hoje convido a você para sentir o amor misericordioso de Deus. Seja amado pelo Amor. Chore aos pés de Cristo, pois Ele é o único que pode escutar o nosso clamor. Sinta a presença de Cristo lhe acompanhando sempre.

Pecar todos pecamos. Mas erguer a cabeça e caminhar confiantes na misericórdia, isso só os fortes podem fazer. E só é verdadeiramente forte quem está ao lado de Cristo. Como nos diz o livro do Eclesiástico: “Vós, que temeis o Senhor, esperai em sua misericórdia, não vos afasteis dele, para que não caiais” (2, 7).

Que Santo Antonio, martelo do hereges e insigne pregador do Evangelho, interceda sempre por nós, indignos servos de Cristo. Que possamos chorar nossos pecados aos pés de Jesus, e que eu seja o primeiro a fazê-lo

Fraternalmente em Cristo Jesus e Maria Santíssima!

* * *

Leia também: Mas esta mulher é pecadora!, do blog Jornadas Espirituais.

2 pensamentos sobre “Chorar aos pés de Cristo

  1. Sempre pensei que todo cristão tinha por dever pregar e difundir o evangelho por todo o mundo. Qual não foi minha surpresa ao ler essas palavras no blog de um [suposto] cristão:

    Eu não vou e “prego o evangelho” e defendo que isso não seja feito. A meu ver, o conhecimento deve ser compartilhado com pessoas REALMENTE interessadas.

    Na opinião de Luciano Henrique, todos os missionários, a começar por Paulo de Tarso, estiveram/estão errados ao pregar o evangelho.

    Fonte: http://lucianoayan.wordpress.com/2010/06/11/como-um-teista-pode-fazer-uma-goleada-so-com-gols-contra-ao-debater-com-hitchens/#comment-4365

Os comentários estão desativados.