“Segue-me”


No convite pressuroso feito nas leituras neste domingo, encontramos com grande vivacidade a importância do seguimento à Palavra de Deus, à qual todos os cristãos são chamados a viver. Já podemos notá-lo desde a primeira leitura, quando Eliseu, chamado pelo Senhor, pôs-se a servir Elias. Tal passagem nos coloca já em um contato com o Evangelho, ao qual Jesus faz muitas propostas, mas que sem elas seria impossível este “sim” autêntico ao projeto do Reino de Deus.

E, precisamente, Paulo nos oferece métodos de como viver este seguimento, que tenha como único centro o Cristo. E isto, renunciando a qualquer ideologia ou mito criado pelos homens e, buscando viver o Evangelho na sua pureza. Parece, em um primeiro momento, que Paulo é muito rígido, mas estas exigências que ele impõe, são necessárias para que os homens saibam que o Evangelho não é um conjunto de libertação ou de idéias de pessoas frustradas. O Evangelho exige renúncia porque exige amor! Só quem ama a Cristo e deixa-se guiar por Ele é capaz de aceitar as renúncias e não levá-las como um “castigo”, mas como um método necessário para um seguimento verdadeiro.

“É para a liberdade que Cristo nos libertou. Ficai, pois, firmes e não vos deixeis amarrar de novo ao jugo da escravidão” (Gl 5, 1). Esta liberdade, provinda da morte e ressurreição do Senhor, manifesta-nos que já somos criaturas renovadas e que o pecado não mais nos acorrenta. Maior que o erro de Adão e Eva, é o Amor de Deus, que doa seu Filho para que, com Ele e n’Ele, pudesse haver o verdadeiro sacrifício da redenção, que a todos os homens chama para uma nova vida.

“Sim, irmãos, fostes chamados para a liberdade. Porém, não façais dessa liberdade um pretexto para servirdes à carne. Pelo contrário, fazei-vos escravos uns dos outros, pela caridade” (Gl 5, 13). Gostaria de centrar-me nesta passagem por alguns instantes. Paulo exorta a não transformar a liberdade em “libertinagem”; a não nos tornarmos escravos do pecado. Somos chamados a anunciar as incontáveis maravilhas que Deus fez e faz na humanidade; para isso, a nossa liberdade é necessária. Somos libertos para mostrarmos que Deus não se prende às cadeias da morte, que a nossa vida cristã não deve ser gasta com situações e prazeres efêmeros. Precisamente, em uma época que tende a banalizar o verdadeiro sentido da sexualidade e vive-se uma promiscuidade constantemente condenada pela Igreja, as palavras de São Paulo ressoam com mais força e ganham mais espaço na sociedade. Muitos, porém, desejam, ardentemente, ocultar esta verdade da sociedade e, entregando-se a paixões e desejos libidinosos, ocultam o verdadeiro sentido do Evangelho em suas vidas. E precisamente aí a missão da Igreja se torna mais clarividente. “A principal reforma da Igreja é a do coração do homem, isto é, a conversão interior!” (Frei Cleiton Robson)

“Com efeito, toda a Lei se resume neste único mandamento: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’” (v. 14). Amar! Se muitos, por um lado, afundam-se em paixões desordenadas, tais paixões não podem receber o atributo de amor. O verdadeiro amor desgasta-se pelo próximo; não tem reservas; está estritamente unido a Deus; caminha segundo os mandamentos divinos; e, sobretudo, o verdadeiro amor é Deus! E este amor incute em nosso coração a necessidade de transmiti-Lo ao próximo, pois tamanha é a alegria que não podemos contê-la. Mas farei uma analogia entre as duas palavras (amor e caridade). No latim, a palavra charitas significa amor ou caridade. Logo, “quem pratica a caridade ama, e quem ama deve praticar a caridade” (Sto. Agostinho). O maior exemplo de serviço foi dado pelo próprio Cristo. Fazendo-se servo, Ele não revogou para si qualquer dignidade ou condição divina.

Eu vos ordeno: Procedei segundo o Espírito. Assim, não satisfareis aos desejos da carne. Pois a carne tem desejos contra o espírito, e o espírito tem desejos contra a carne. Há uma oposição entre carne e espírito, de modo que nem sempre fazeis o que gostaríeis de fazer” (Gl 5, 16-17). Muitos têm a grande necessidade de abrir-se à graça santificadora do Espírito Santo. Ele pode dar um novo sentido existencial para a nossa vida. Nele poderemos encontrar as forças necessárias para vencermos todas as tentações que vêm nos estimular a perpetramos pecados contra Nosso Senhor. Reconheçamos a nossa fraqueza e mergulhemos no Espírito, que “sonda tudo, mesmo as profundezas de Deus” (1 Cor 2, 10).

Procedamos realmente como cristãos! Não nos deixemos desanimar! Fortaleçamos o espírito pela oração, para que o demônio nos encontre sempre atentos e animados, na certeza de que estamos intrinsecamente unidos ao Espírito, de tal modo que já não podemos viver longe dEle.

Enfim, no Evangelho vemos que por não serem acolhidos em Samaria, Tiago e João queriam que Jesus implorasse “fogo do céu”, para que matasse a todos; buscavam uma atitude agressiva. No entanto, Jesus os repreende. Ora, a atitude do cristão nunca deve passar pela força. Deve ser, antes, algo de livre abertura à vontade de Deus, para que se cumpra o que Jesus ensinou.

“Segue-me”, diz Jesus. E nós não devemos impor resistência, como fizeram algumas das personagens do Evangelho de hoje. Se formos escolhidos demos nosso sim disponível! Pois mais vale um sim verdadeiro e disponível aos olhos de Deus, que um sim de má vontade.

Que Maria, humilde serva do Senhor, nos auxilie em nosso caminho missionário. Ela que com o seu sim permitiu que a salvação entrasse no mundo, nos ajude a também darmos um “sim” destemido a Jesus e sua graça santificadora.

Desça sobre vós abundantes bênçãos, em Cristo Jesus e Maria Santíssima!