A raiz do mal

Não há nenhuma cura para a assembléia dos soberbos, pois, sem que o saibam, o caule do pecado se enraíza neles.

– Eclesiástico 3,30

Chamou minha atenção este versículo da primeira leitura de hoje. O orgulho é o vício dos vícios, maior dos pecados capitais, cabeça deles. É o pecado satânico por excelência, é o começo e cume de toda perversão na criação. Já no Antigo Testamento os sábios de Israel como o autor do Sirácida, já o sabiam. Até mesmo os antigos pagãos conheciam o veneno do orgulho, a Hubrys cantada em suas tragédias e lendas como Níobe e Mársias. Emprestando uma metáfora dos gregos (o ouro dos egípcios, já dizia Agostinho), se o pecado é uma Hidra de Lerna, o orgulho é sua cabeça principal.

Nosso Senhor Jesus Cristo, rei do universo, transido de dores em sua Paixão, ensine-nos pelo exemplo, e auxilie-nos pela sua divina graça a combatermos a raiz do mal.

Escolher o último lugar

As leituras deste domingo mais uma vez exortam-nos a uma virtude da humildade, indispensável na vida do cristão. É preciso que nossa vida esteja integralmente submetida a Deus, sem “porém”.

Na primeira leitura somos colocados imediatamente em relação profunda com a humildade. “Na medida em que fores grande, deverás praticar a humildade, e assim encontrarás graça diante do Senhor. Muitos são altaneiros e ilustres, mas é aos humildes que ele revela seus mistérios. Pois grande é o poder do Senhor, mas ele é glorificado pelos humildes” (Eclo 3, 20-21). Diversas vezes os textos dominicais nos colocaram a questão da humildade, e hoje, mais uma vez, vemo-la como uma riqueza e uma essencialidade na vida do cristão. Quem poderá ser mais rico do que aquele que é mais humilde? E Jesus foi o primeiro a dar-nos o exemplo da servidão, da humilhação. Esta teve sua plena consumação na cruz, com sua morte. Ali, quando parecia vencido, abatido pelo fardo que foi obrigado a carregar, o Senhor manifesta gloriosamente o seu poder. Pela morte de Cristo nos-é dada a redenção. E que grande vitória parte da humilhação!

Deparamo-nos na hodierna sociedade, principalmente no âmbito social, mas também no religioso, com pessoas que buscam famas, prazeres, e querem reconhecimento já neste mundo, feito de efemeridades. A estes servem as palavras da primeira leitura; mas também a nós, para que não incorramos neste erro.

Há! Os Santos! Que grandes pessoas foram! Doutores, místicos, eremitas, abades, Papas, Bispos, reis, rainhas… e nunca se envaideceram de tais honras. Nunca buscaram gloriar-se, senão gloriar unicamente a Cristo, como bem recorda-nos o apóstolo: “Quanto a mim, não pretendo, jamais, gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo” (Gl 6, 14).

No Evangelho Jesus não dá uma aula de comportamento, mas ensina a submetermo-nos aos desígnios de Deus, e aceitá-los humildemente. O evangelista diz-nos que “Jesus foi comer na casa de um dos chefes dos fariseus. E eles o observavam. Jesus notou como os convidados escolhiam os primeiros lugares” (Lc 14, 1.7). Aqui se encaixa exatamente o perfil da sociedade atual: a sede de prazer, de estar sempre à frente, de ocupar os primeiros lugares. Em outras palavras: uma busca desenfreada pela autossuficiência, onde Deus já não é o objetivo central, mas é subjugado pelo homem. Desta forma deixa-se de transcender para o bem e acaba por lançar-se à própria sorte, caindo no mesmo erro de Satanás, a soberba, e esvaziando-se do verdadeiro sentido de humildade.

Se se é humilde apenas na aparência, mas o espírito está repleto de ganância, em vão será esta aparente humildade.

E Jesus diz mais: “Quando tu fores convidado para uma festa de casamento, não ocupes o primeiro lugar. Pode ser que tenha sido convidado alguém mais importante do que tu, e o dono da casa, que convidou os dois, venha te dizer: ‘Dá o lugar a ele’. Então tu ficarás envergonhado e irás ocupar o último lugar.

Mas, quando tu fores convidado, vai sentar-te no último lugar. Assim, quando chegar quem te convidou, te dirá: ‘Amigo, vem mais para cima’. E isto vai ser uma honra para ti diante de todos os convidados. Porque quem se eleva, será humilhado e quem se humilha, será elevado” (Lc 14, 8-11).

Jesus se utiliza da comparação de um casamento. Sobre esta simbologia o Pe. Tuya escreve: “O banquete de casamento ao qual Jesus faz menção é o Reino Messiânico […]. Ali, os primeiros lugares estão reservados para os que forem mais humildes” (Bíblia comentada. Evangelios. Madrid: BAC, 1964, v.II, p.864). Não busquemos ocupar os primeiros lugares, pois poderemos ser mandados para os últimos. São condições que Jesus apresenta-nos para entrarmos no Reino do Céu. É necessário escolhermos o último lugar, e só assim poderemos chegar ao primeiro. E ocupemo-los com amor e espírito de serviço, para assim agradarmos ao Senhor.

São Beda, o Venerável, assim afirmou: “Todo aquele que, convidado, venha às bodas de Jesus Cristo e da Igreja, unido pela fé aos membros da Igreja, não se exalte como se fosse superior aos outros, nem se glorie por seus méritos; mas ceda seu lugar àquele que, convidado depois, é mais digno e progrediu mais no fervor dos que seguem a Jesus Cristo, e ocupe com modéstia o último lugar, reconhecendo que os demais são melhores do que ele em tudo quanto se julgava superior” (via Arautos).

“Pelo contrário, quando deres uma festa, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos. Então tu serás feliz! Porque eles não te podem retribuir. Tu receberás a recompensa na ressurreição dos justos” (Lc 14, 13-14).

Há! Estas palavras de Jesus! Como fazem uma diferença tremenda em nosso meio. Como elas foram tão duras aos ímpetos orgulhosos, materialistas e egocêntricos homens, que circundavam aquela mesa. Vivemos em um mundo que sempre busca retribuições e ações interesseiras. Jesus, porém, ensina-nos a nada pedirmos em troca, para que tudo possamos ganhar no dia da ressurreição.

Assim, São João Crisóstomo, Doutor da Igreja, bem escreveu: “Não nos perturbemos, pois, quando não recebermos recompensa pelos nossos benefícios, mas sim quando a recebermos; porque se a recebermos aqui, nada receberemos depois; mas se os homens não nos pagarem, Deus nos pagará” (via Arautos).

Que a Virgem Maria, nos proteja, e nos ensine a sermos humildes, assim como Ela foi. Celebrando a Festa do Martírio de São João Batista, queremos também nós, pedirmos o dom do serviço e do verdadeiro anúncio da verdade.

Ut in omnibus glorificetur Deus!

Chamados ao amor

“Constituiu-nos em situação de produzirmos fruto, isto é, de nos amarmos mutuamente. Nunca poderíamos produzir este fruto sem a sua cooperação, assim como os ramos nada podem produzir sem a videira. A caridade, portanto, tal como a definiu o Apóstolo: ‘nascida de um coração puro, da boa consciência e da fé não fingida’ [1Tm 1,5] é o nosso fruto. É com ela que nos amamos uns aos outros e que amamos a Deus.

Nunca poderíamos amar-nos mutuamente com verdadeiro amor se não amássemos a Deus. Ama o próximo como a si mesmo aquele que ama a Deus. Se não ama a Deus não se ama a si mesmo”.

(Santo Agostinho, Comentário ao Evangelho de São João)

Celebramos hoje a Festa de Santo Agostinho, Bispo, escritor, filósofo, teólogo, Padre e Doutor da Igreja. É o Padre da Igreja que mais deixou escritos. Para este dia resolvi fazer um comentário às suas sábias palavras, que perpassaram estes séculos que dele nos separam e permanecessem audíveis a todos os homens da nossa sociedade.

Santo Agostinho não hesitava em defender a verdade que Jesus Cristo defendeu, e por ela fez a maior doação que foi sua própria vida. Dizia ele: “Não se imponha a verdade sem caridade, mas não se sacrifique a verdade em nome da caridade”. Ora, transcorridos dois mil anos, a Igreja toma para si estas palavras e, em toda a sua história, nunca se omitiu, nem se omitirá da verdade, ainda que muitos não concordem com ela. Para os que a criticam bastar-lhes-ia dizer que Nosso Senhor foi perseguido e morto por causa da verdade; os mártires derramaram seu sangue pela verdade; e a Igreja é perseguida por transmitir ao mundo a Verdade. Só o amor pode conter a Verdade, e só quem possui a verdade pode conter o verdadeiro Amor.

Esta é uma característica do amor: doar-se. Após sua conversão, ou mesmo antes dela, Agostinho incansavelmente sempre esteve em busca da verdade; julgava ele que esta poderia ser encontrada nos prazeres do mundo ou nos ensinamentos maniqueístas. No entanto, lá, nada encontrou que o preenchesse plenamente.

Mas, em sua conversão, fruto das intensas orações de sua Santa mãe, Mônica, ele depara-se com o verdadeiro sentido existencial. Ele fora criado para amar, para servir a Deus, para doar-se completamente. Eis o objetivo magno de sua vida! Sentira ele que se não amasse a Deus, também não poderia amar o próximo, pois Deus é a causa do amor. E aqui precisamente nos defrontamos com o horizonte que despontou-se ante nossos olhos: a falta de amor, que gera individualismo; um mundo velho, que precisa renascer. Santo Agostinho rejuvenesceu em seu encontro com Cristo, “caminho universal da liberdade e da salvação” (Papa João Paulo II, Augustinum Hipponensem, 21). Ao mesmo tempo ele convida o mundo para que possa rejuvenescer, mergulhar em águas novas. Quem está com Cristo é eternamente jovem, ainda que o corpo possa parecer velho, o espírito sempre estará em estado jovial. “Não rejeitar rejuvenescer unido a Cristo, também no mundo velho. Ele diz-te: Não temas, a tua juventude renovar-se-á como a da águia” (cf. Serm. 81, 8).

O amor a Deus é a “porta de acesso” para que também possamos amar o próximo. Só passando pela cruz os homens poderão abraçar-se em espírito de fraternidade. E por que pela cruz? Porque lá está a maior prova de amor da humanidade. “Mas eis aqui uma prova brilhante de amor de Deus por nós: quando éramos ainda pecadores, Cristo morreu por nós” (Rm 5, 8). O amor torna-se humanamente visível na pessoa de Jesus Cristo. E tão-somente fosse visível, não chegaria a ter sentindo salvífico. Este só pode alcançar tal característica no Messias que, mesmo em estado padecente, não condenou-nos, senão orou para que fossem perdoados seus algozes. O efeito desta oração atingir-nos-á em cada instante, ainda quando esquecemos do seu infinito e benevolente amor.

Em primeiro lugar consiste o amor a Deus, como bem nos ensina os mandamentos. E este amor a Deus significa que devemos renunciar às nossas próprias vontades. Já disse aqui outras vezes sobre a sede de transcendência do homem, que realizar-se-á unicamente quando ele souber submeter-se à vontade de Deus. É preciso que encontremo-nos, antes de encontrar Deus. “Quem não se encontra as si mesmo, não encontra a Deus, porque Deus está no interior de cada um de nós” (Papa João Paulo II, Carta Apostólica Agustinum Hipponensem, II, 2).

Para quantos Deus parece estar distante? Mas, na verdade, não é Deus que se distancia, porém o homem distancia-se dele. E cada atitude de autossuficiência, de arrogância, faz com que criemos uma barreira com este Deus que é totalmente acessível e que em sua essência é amor.

Agostinho “foi um homem de oração; e mais, poderíamos dizer: um homem feito de oração” (Idem, II, 5). A oração sempre foi o núcleo da vida dos santos. A total entrega a Deus deve ser modelo em uma sociedade que tende a desmoralizar os valores cristãos. O amor fortalece esta doação; com ele não sentimos a solidão, pois melhor acompanhado está quem está com Deus.

Omnia vincit amor — o amor tudo vence”, afirma Virgílio nas Bucólicas e acrescenta: “et nos cedamus amori — rendamo-nos também nós ao amor” (X, 69). Com este convite a que somos impelidos, procuremos, a exemplo dos santos, de modo particular Santo Agostinho, vivermos, em concomitância com os ensinamentos evangélicos, o amor cristão-caritativo, invólucro nos mandamentos da lei de Deus, e que é o próprio Deus.

Ut in omnibus glorificetur Deus!

És tu Maria…

[Resolvi escrevê-lo após a oração do Terço]

És tu Maria, que me mostra a face maternal e misericordiosa de um Deus que fez-se homem, e rebaixou-se à nossa condição humana, para poder elevá-la.

És tu que, ao receber o chamado de Deus, não te engrandecestes, mas te fizeste serva do Senhor, ensinando-nos que só pode ser feliz quem se põe sob a proteção de Deus, tornando-se seu eterno servo.

És tu quem mostra ao mundo que, quem está com Deus, ainda que sejam grandes as dificuldades, maior ainda deve ser a nossa fé, e tanto maior será a ação de Deus.

És tu que ao ser o primeiro Sacrário da humanidade, ensina-nos que hoje somos chamados a sermos sacrários, ainda que indignamente mereçamos receber nosso Senhor.

És tu, Maria, mãe agraciada e Imaculada, que ensina-nos que o mais

importante não é o que este mundo tem-nos a dar passageiramente, mas o que Deus [e só Deus!] pode dar-nos eternamente.

És tu que nos ensina que nós fomos criados para o céu. Não somos para a perdição e o vazio existencial! Somos peregrinos! E como peregrinos temos uma Meta que se chama Deus.

Qual magnânimo é teu nome! Ao ser pronunciado abala os infernos e põe abaixo a horda satânica.

Ó Mãe! Quão infelizes aqueles que te rejeitam! Que negam que o teu amor maternal por cada um de nós é maior que o amor de todas as mães do mundo pelos seus filhos.

Em ti, Mãe, eu me refugio! Tenho certeza de que nunca nos desamparas, e sem poderás fazê-lo, pois sois puramente misericórdia.

Interceda sempre por mim junto a Jesus! Que o teu manto protetor afaste as tentações de Satanás e todos os males que insurgem contra nós. E que, se sobre mim vier o sofrimento, que esteja eu confiando no teu Filho e em Ti; será-me mais confortador sofrer toda a vida e vencer na eternidade, não somente com teu amado Jesus, mas nEle. Ensina-me a estar aos pés da cruz, e como fostes, torne-me também paciente em cada tribulação.

A última, talvez

O venerável Tomás de Kempis, na sua Imitação de Cristo, recomenda que participemos de cada missa como se fosse a última de nossas vidas. Um dia realmente assistiremos nossa última missa. Não saberemos, evidentemente. Mesmo se estivermos gravemente enfermos, sempre acharemos que haverá mais uma.

Hoje quando saia da missa dominical pelo corredor central da nave este pensamento me assaltou. A última missa, talvez. A última vez que verei este altar… como já não vejo outros altares dos lugares dos que me mudei. A consciência percorreu num segundo a vida espiritual e tive um calafrio, arrependido de ter ficado tão distraído na celebração. Olhei para trás, para o altar do qual me afastava. “Ah, Deus queria que não seja a última“. E dei mais uns passos com o povo que saia. Mas olhei de novo para altar: “Não, não será a última missa, como aquela olhada para o altar não foi a última“. E antes de sair, virei-me novamente “Não, queira Deus que não seja a última, como poderei pagar a multidão de meus pecados?“. Tenha paciência comigo e tudo te pagarei! (Mt 18, 26)

Sai da Igreja e fui fazer as compras no supermercado. Na volta, meio sem pensar, mudei meu caminho e desnecessariamente passei de novo pela Igreja. Ao ver a torre, lembrei-me do salmo 121. A porta da frente ainda estava aberta. Reduzi a velocidade o suficiente para ver de novo o altar de dentro do carro: “Não, não será a última“. Não, não mesmo.

Mas no fundo da minha alma sei que sempre pode ter sido a última. Estarei preparado quando o Dia do Senhor chegar como um ladrão, sem que o dono da casa saiba a hora?

O mártir da caridade

A Igreja nos convida hoje a celebrarmos a memória litúrgica de São Maximiliano Maria Kolbe, sacerdote e mártir. Como bem definiu o Papa Paulo VI, de venerável memória, este grande homem é um “mártir do amor”. Seu martírio e sua vida são provas concretas de que, mesmo no século XX (durante o regime nazista), ou até nos dias hodiernos, com uma sociedade egocêntrica, que busca dividir as pessoas e as tornarem menos fraternas, as palavras de Jesus incidem vivamente entre nós: “Não há maior amor do que dá a vida pelos próprios amigos” (Jo 15, 13). Verdadeiramente São Maximiliano viveu estas palavras na radicalidade do Evangelho. Elas não lhe serviram apenas de modelo, mas estão íntrinsecamente ligadas a sua vida, são partes de sua biografia.

Certa vez, ainda jovem, e confuso com o seu futuro, interroga aos pés de uma imagem de Nossa Senhora. Então a Virgem Maria lhe aparece trazendo nas mãos duas coroas: uma vermelha (representando o martírio) e a outra branca (representando a castidade). Pois bem, a Virgem lhe pede que escolha, e ele, com divina sabedoria, escolhe as duas. Quando é enviado para Roma, para lá concluir seus estudos (pois divina era a sua sabedoria), pediu para não ir, pois sabia como era difícil manter a castidade. Mas, devido o voto de obediência, ele foi. E lá fez sua profissão solene em 1º de novembro de 1914.

Mas o que mais o chocou em Roma é o fato de que os inimigos da Igreja atacavam-na e os católicos não tinham uma devida reação. Por isso ele fundou a Milícia da Imaculada. Aqui cabe-nos uma pequena reflexão de como muitos dos nossos católicos hoje reagem [ou não reagem!] mediante os ataques contínuos a Igreja. Bem verdade que a Igreja sempre esteve neste incessável combate, isto já não é novidade. Mas o que mas admira-me é ver que muitos católicos dão razão ao mundo, às suas perspectivas, e fecham-se a mensagem salvadora de Cristo, transmitida por meio de Sua Igreja. Os ensinamentos cristãos não são apenas “conselhos”, e muito menos é uma estória, mas são meios de fazer com que os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2,4). Bem escreveu São Maximiliano no último número de “Cavaleiro da Imaculada”: “Ninguém no mundo pode mudar a verdade. O que podemos fazer é procurá-la e servi-la quando a tenhamos encontrado. O conflito real de hoje é um conflito interno. Mais além dos exércitos de ocupação e das hecatombes dos campos de extermínio, há dois inimigos irreconciliáveis no mais profundo de cada alma: o bem e o mal, o pecado e o amor. De que nos adiantam vitórias nos campos de batalha, se somos derrotados no mais profundo de nossas almas?”

Olhemos para São Maximiliano. Será que o seu martírio [amados irmãos que se dizem “católicos”, mas na verdade não agem de tal forma] foi em vão? Será que o martírio dos vários santos venerados pela Igreja foi em vão? Que vida hipócrita tem um católico que só o-é por nome, mas não assume tal identidade.

Hoje São Maximiliano oferece, com Cristo e em Cristo, um único cálice pela salvação dos homens. Hoje a Igreja invoca-o para que os homens reconheçam que somente em Cristo o homem encontra plena felicidade, e que neste mundo, mesmo com todo o conforto e com toda a diposição de bens materiais, o verdadeiro Bem do cristão sempre será Jesus Cristo.

Há meus irmãos! Como é belo o testemunho dos santos que florecem na Igreja. Mesmo com o pecado de seus filhos, a Igreja, Mãe e Mestra, nos mostra que há pessoas que venceram as batalhas espirituais neste mundo. E se elas venceram por que eu não poderia também vencer?

Os santos não eram infalíveis. Quantos foram tentados a uma vida cômoda, abastada das suas riquezas? Quantos foram tentados para abandonarem a castidade? Se você busca uma santidade sem tentações então você não busca a santidade, mas uma vida vazia. Só entra para o Reino de Deus quem aqui na terra já o vive santamente.

Não tenham medo de amar demasiado a Imaculada; jamais poderemos igualar o amor que teve por Ela o próprio Jesus: e imitar Jesus é nossa santificação. Quanto mais pertençamos à Imaculada, tanto melhor compreenderemos e amaremos o Coração de Jesus, Deus Pai, a Santíssima Trindade”, dizia São Maximiliano.

O amor ardoroso por Maria e por Jesus ardia no coração deste santo. Maria, medianeira de todas as graças, sempre fez-se presente na sua vida. Contemplemos São Maximiliano, vejamos a sua entrega ao próximo e o seu amor por Jesus e Maria. Peçamos que, imitando Jesus, cheguemos a santificação. Pois quem não ama Maria oculta-se dos mistérios do Coração de Jesus. E enquanto a nossa sociedade, geradora de ideologias anti-evangélicas, dissimular-se de Cristo, não encontrará resposta às suas indagações.

Morrendo no lugar de um pai de família, no campo de Auschwitz, com uma injeção de ácido carbólico, ele quis mostrar-nos que para ser um servo de Deus devemos enfrentar tudo, mesmo a morte. E que não pode ser servo de Deus, quem só busca servir a este mundo. Pois quem poupa-se nesta vida não será poupado na outra. Caindo, morto, São Maximiliano ensina-nos que devem cair também os nossos pecados, para que resurja uma nova criatura.

São Maximiliano Maria Kolbe,
rogai por nós!

São Lourenço – Diácono e mártir

São Lourenço sofreu o martírio durante a perseguição de Valeriano, em 258. Era o primeiro dos sete diáconos da Igreja romana. A sua função era muito importante o que fazia com que, depois do papa, fosse o primeiro responsável pelas coisas da Igreja. Como diácono, São Lourenço tinha o encargo de assistir o papa nas celebrações; administrava os bens da Igreja, dirigia a construção dos cemitérios, olhava pelos necessitados, pelos órfãos e viúvas. Foi executado quatro dias depois da morte de Sisto II e de seus companheiros. O seu culto remonta ao século IV. Preso, foi intimado a comparecer diante do prefeito de Cornelius Saecularis, a fim de prestar contas dos bens e das riquezas que a Igreja possuía.

Pediu, então, um prazo para fazê-lo, dizendo que tudo entregaria. Confessou que a Igreja era muito rica e que a sua riqueza ultrapassava a do imperador. Foram-lhe concedidos três dias. São Lourenço reuniu os cegos, os coxos, os aleijados, toda sorte de enfermos, crianças e velhos. Anotou-lhes os nomes … Indignado, o governador concedeu-o a um suplício especialmente cruel: Amarrado sobre uma grelha, foi assado vivo e lentamente. Em meio dos tormentos mais atrozes, ele conservou o seu “bom humor cristão”. Dizia ao carrasco: Vira-me, que deste lado já está bem assado … Agora está bom, está bem assado. Podes comer!…

Roma cristã venera o hispano Lourenço com a mesmo veneração e respeito com que honra os primeiros apóstolos. Depois de São Pedro e São Paulo, a festa de São Lourenço foi a maior da antiga liturgia romana. O que foi Santo Estêvão em Jerusalém, isso mesmo foi São Lourenço em Roma.

* * *

Dos Sermões de Santo Agostinho, bispo.
(Sermão 304, 1-4: PL 38, 1-395-1397) (Séc. V).

https://i1.wp.com/heritage.villanova.edu/vu/heritage/history/saints/augustine1.jpgA Igreja Romana convida-nos hoje a celebrar o triunfo glorioso de São Lourenço, que, desprezando as ameaças e as seduções do mundo, venceu a perseguição do demônio. Exercia nessa Igreja de Roma, como sabeis, as funções de diácono. Aí administrou o sagrado Sangue de Cristo; aí derramou o seu sangue pelo nome de Cristo.

O bem-aventurado apóstolo São João expôs claramente o mistério da Ceia do Senhor, dizendo: Como Cristo entregou a sua vida por nós, também nós devemos entregar as nossas vidas pelos nossos irmãos (1Jo 3,16). Assim compreendeu São Lourenço; assim o compreendeu e realizou: o que tinha recebido naquela mesa, isso mesmo ofereceu. Amou a Cristo na sua vida, imitou-O na sua morte.

Portanto, também nós, irmãos, se realmente O amamos, imitemo-O. A melhor prova que podemos dar do nosso amor é imitar o seu exemplo. Na verdade, Cristo sofreu por nós, deixando-nos o exemplo, para que sigamos os seus passos (Cf. 1Pd 2,21). Estas palavras do apóstolo São Pedro parecem dar a entender que Cristo só sofreu por aqueles que seguem os seus passos e que a paixão de Cristo de nada aproveita senão àqueles que O seguem. Seguiram-nO os santos mártires até ao derramamento de sangue, à semelhança da sua paixão. Seguiram-nO os mártires, mas não só eles. Não foi cortada a ponte; depois que beberam a fonte não secou.

Aquele jardim do Senhor, meus irmãos, não só tem as rosas dos mártires, mas também os lírios das virgens, as heras dos esposos e as violetas das viúvas. Nenhuma classe de pessoas, irmãos caríssimos, deve menosprezar a sua vocação. Cristo sofreu por todos. Com toda a verdade está escrito a este propósito: Ele quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade (Cf. 1Tm 2,4).

Entendamos, portanto, como deve o cristão seguir a Cristo, mesmo sem ter de derramar o seu sangue, sem ter de suportar o martírio. Diz o Apóstolo, referindo se a Cristo nosso Senhor: Ele, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus. Oh sublime majestade! Mas aniquilou Se a Si próprio, assumindo a condição de servo, tornando-Se semelhante aos homens e aparecendo como homem (Cf. Fl 2,7-8). Oh profunda humildade!

Cristo humilhou-se: aqui tens, cristão, o que deves imitar. Cristo obedeceu: como podes orgulhar-te? E depois de ter passado semelhante humilhação e de ter vencido a morte, Cristo subiu ao Céu: sigamo-lo. Ouçamos o que diz o Apóstolo: Se ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus (Cl 3,1).

Celibato: amor sem limites

Foi-me dada para leitura uma reportagem da revista Aventuras na História, Edição 85, deste mês de agosto, o tema proposto era: A Igreja e o Sexo. Em primeiro momento pensei que seria sobre a questão da defesa da Igreja nos valores morais e as propostas inaceitáveis que a sociedade hodierna apresenta-nos, mesmo que, como sabemos, o seguimento a Cristo, para muitos é inaceitável e radical; no entanto, o que se deu foi um verdadeiro “bombardeio” contra a nossa Santa Mãe Igreja e contra os Papas. Não escrevo para cobrir erros dos Papas. Sabemos que alguns levaram uma vida devassa, entregue às paixões deste mundo. Mas alguns! Porque a grande maioria deu testemunho de vida santa, radicada unicamente em Jesus Cristo e nos seus ensinamentos. A mídia não recorda Papas como Pedro, Pio X, Pio V, João XXIII, João I, Cornélio, e mesmo em nossos tempos atuais João Paulo II, João Paulo I, Pio XII, que salvou de 700.000 a 850.000 judeus da morte certa, no regime nazista. E tantos outros que se doaram totalmente à concretização do Reino de Deus, prefigurado já neste mundo pela Igreja.

Porém o objetivo não é “fazer justiça” e mostrar à humanidade os erros de alguns filhos da Igreja; o objetivo verdadeiro, que se esconde nesta farsa, é atacar a invencível Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, que Ele resgatou com seu sangue (cf. At 20, 28) para que nela os homens encontrassem o verdadeiro caminho da salvação. Mas estes, que o fazem, não sabem (ou ignoram) a promessa do Seu Fundador: “Et porta inferi non prevalebunt – E nem as portas do inferno prevalecerão contra ela” (Mt. 16,18).

Mas retornando ao tema do celibato, vemos que esta preciosidade, à qual são chamados os sacerdotes, muitas vezes é interpretado de maneira precipitada. Quantos acham que o celibato é uma renúncia ao amor? Quantos vêem os padres como criaturas que não amam? Que são chamados a uma vida afastada, por assim dizer, do mundo e das pessoas. Tal interpretação é totalmente errônea, e tentarei provar o por quê.

Em primeiro lugar muitos, se perguntam: o por que de os padres não podem casar-se? “São Pedro foi Papa e se casou”, afirmam muitos categoricamente. Para começar desejo valer-me da diferença entre celibato e castidade. Poderíamos conjecturar que a castidade é o mesmo que celibato mas, na verdade, são diferenciais. Alguém que guarda o celibato, já pode ter sido casado. Outro que vive a castidade, deveras, nunca pode ter sido casado, exceto se, como a Virgem Maria, vivesse a castidade dentro do casamento.

São Pedro poderia ser viúvo. Não basta apenas afirmarmos que ele tinha uma sogra; isso seria argumento sem fundamento. De qualquer forma, estando viva ou não a sua esposa,  ele deixou tudo para seguir o Mestre. Prova disto é sua afirmação: “Eis que deixamos tudo para te seguir. Que haverá então para nós?” Ao que Jesus respondeu-lhe: “Todo aquele que por minha causa deixar irmãos, irmãs, pai, mãe, mulher, filhos, terras ou casa receberá o cêntuplo e possuirá a vida eterna” (Mt 19, 27.29).

O Papa Paulo VI afirmou: “O celibato sacerdotal, que a Igreja guarda desde há séculos como brilhante pedra preciosa, conserva todo o seu valor mesmo nos nossos tempos, caracterizados por transformação profunda na mentalidade e nas estruturas” (Carta Encíclica Sacerdotalis Caelibatus, nº 01).

Bem nos recorda este Servo de Deus que hoje em dia, em todo o âmbito social, somos confrontados com uma mudança de mentalidade que deseja apoderar-se também da Igreja, e aos poucos essas ideologias anti-evangélicas atingem membros, mesmo do clero, que desejam aplicar esses pensamentos também na Igreja. Essa invasão foi muito bem esclarecida pelo mesmo Papa, ao dizer que: “Por alguma brecha a fumaça de Satanás entrou no templo de Deus: existe a dúvida, a incerteza, a problemática, a inquietação, o confronto. Não se tem mais confiança na Igreja; põe-se confiança no primeiro profeta profano que nos vem falar em algum jornal ou em algum movimento social, para recorrer a ele pedindo-lhe se ele tem a fórmula da verdadeira vida. E não advertimos, em vez disso, sermos nós os donos e os mestres. Entrou a dúvida nas nossas consciências, e entrou pelas janelas que deviam em vez disso, serem abertas à luz…” (Discurso em 29 de Junho de 1972)

Reconheçamos que, de alguma forma, se a Igreja hoje está infestada de pensamentos nefastos, isto se dá porque alguns de seus membros foram contaminados com os pensamentos de um mundo moderno, que apresenta uma forma de vida fácil; um mundo onde o consumismo, a ditadura do relativismo e a autossuficiência caminham lado a lado.

O Catecismo da Igreja Católica assim nos diz:

“Todos os ministros ordenados da Igreja latina, com exceção dos diáconos permanentes, normalmente são escolhidos entre os homens fiéis que vivem como celibatários e querem guardar o celibato ‘por causa do Reino dos Céus’ (Mt 19,12). Chamados a consagrar-se com indiviso coração ao Senhor e a ‘cuidar das coisas do Senhor’, entregam-se inteiramente a Deus e aos homens. O celibato é um sinal desta nova vida a serviço da qual o ministro da Igreja é consagrado; aceito com coração alegre, ele anuncia de modo radiante o Reino de Deus” (§1579).

Os padres não são menos felizes ou amam menos por guardarem o celibato. Aí é que está a grande beleza disto: Quem mais ama são os padres. Quem mais doa-se e  vive radicalmente esta doação, são os sacerdotes. De uma grande multidão eles são pais. Por uma grande multidão eles se desgastam. Não pensam mais em si, mas apenas no próximo.

“A verdadeira e profunda razão do celibato é, como já dissemos, a escolha duma relação pessoal mais íntima e completa com o mistério de Cristo e da Igreja, em prol da humanidade inteira. Nesta escolha há lugar, sem dúvida, para a expressão dos valores supremos e humanos no grau mais elevado” (Carta Encíclica Sacerdotalis Caelibatus, nº 54).

A vocação para o sacerdócio exige também que haja vocação para o celibato. Deus, em sua divina sabedoria, quis que assim se fizesse. Por ventura nosso bondoso Pai daria uma vocação ao sacerdócio sem que a dê também para o celibato? O verdadeiro chamado de Deus para o sacerdócio requer que renunciemos a uma família, para que possamos abraçar uma multidão. Que grande dom! De Deus provém e para Deus se destina. Quem não tem vocação para o celibato, logo também não tem vocação para o sacerdócio; tê-la-á para o matrimônio, ou para a castidade, pois há outros meios [e muitos!] de servir santamente a Deus. Por exemplo: Não posso ser professor se tenho vergonha de falar em público. Posso conhecer tudo, mas a minha vergonha me impede de dirigir-me aos meus alunos.

O verdadeiro vínculo nupcial do sacerdote é com a Igreja. Feliz dos sacerdotes, pois deixam de contrair vínculo matrimonial com alguma mulher para se tornarem o próprio Cristo em cada Missa, em cada confissão, em cada celebração onde se faz presente.

Bem dizia São João Maria Vianney: “Quando um cristão avista um padre deve pensar em Nosso Senhor Jesus Cristo”. E ainda: “Se a Igreja não tivesse o sacramento da ordem, não teríamos entre nós Jesus Cristo”.

É interessante que em uma sociedade onde se clama por leis de divórcio e de projetos que se erguem contra os direitos da família, muitos estejam a gritar por casamento dos sacerdotes. É um visível paradoxo, uma verdadeira hipocrisia.

Quanto aos casos de pedofilia vale recordar as palavras do Cardeal Tarcísio Bertone, secretário de estado do Vaticano:Não há uma relação direta entre o celibato e a conduta desviada de alguns sacerdotes… Pelo contrário: é justamente a inobservância do celibato o que produz uma progressiva degradação da vida do sacerdote, que deixa de ser um exemplo, um dom, um guia espiritual para os demais… Está mais que demonstrado que o celibato, observado fielmente, é um grande valor para a missão sacerdotal e para a ajuda do Povo de Deus”.

Apenas 0,44% do clero estão envolvidos com possíveis casos de pedofilia. Philips Jenkins, em sua obra Pedophiles and Priests: Anatomy of a Contemporany Crisis (Pedófilos e Padres: Anatômia de uma crise contemporânea), atesta que: “Comparando-se a Igreja Católica dos EUA com as principais denominações protestantes, descobre-se que a presença de pedófilos é de duas a dez vezes mais alta entre pastores protestantes do que entre padres católicos. O problema não é o celibato, no caso, a maior parte dos pastores protestantes é casada”.

As atitudes louváveis do Papa Bento XVI mediante as descobertas destes infelizes sacerdotes que trairam seu ministérios, têm mostrado que a Igreja não silencia mediante as injustiças, mas age, pois também ela impõe a espada da justiça. E não queiramos genaralizar. Como provei: a maioria dos sacerdotes tem uma vida santa e honram seu ministério!

Peçamos que, por intercessão de São João Maria Vianney e da Santíssima Virgem Maria, possamos compreender o inestimável valor do celibato.

Ut in omnibus glorificetur Deus!

Vigilantes sempre!

Neste domingo o Santo Evangelho exorta-nos a guardamos a vigilância e a prudência. E quão grandes são esses valorosos conselhos no contexto da atual sociedade com que nos deparamos. Em um mundo relativista, que mostra resistência em ceder aos conselhos da Palavra de Deus, Jesus nos exorta veementemente a buscarmos um tesouro no céu: “Vendei vossos bens e dai esmola. Fazei bolsas que não se estraguem, um tesouro no céu que não se acabe; ali o ladrão não chega nem a traça corrói. Porque, onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” (Lc 12, 33-34).

Como as palavras de Jesus caracterizam profundamente o horizonte do mundo que temos à nossa frente. Uma sede de poder, uma ganância demasiada, um desejo exacerbado de possuir mais e mais, um consumismo desenfreado. Com isso, deixam-se cativar pelos “consolos” que esta vida pode oferecer, abandonado a Deus, buscam uma autoconfiança que os fazem transcender não para Deus, mas para este mundo, e esta transcendência logo perderá fôlego e vigor se o homem voltar-se para Cristo e nEle ver o único essencial e o único centro da vida humana.

Onde está o nosso tesouro? Indagam-se muitos no mundo hodierno. E eu iria mais a fundo: Onde temos feito os nossos tesouros? No mundo secularizado, que tende a sufocar os valores cristãos, éticos e morais; ou no Céu, no coração de Deus, onde os homens sequiosos são convidados para lá nutrirem forças na caminhada?

Não cabe somente a mim dar esta resposta. Só você poderá dá-la. O Senhor interroga a cada um de nós, e espera de nós uma resposta convicta, que verdadeiramente confirme um caráter de compromisso, como o “sim” de Maria.

Há! Como são felizes os mártires, que desapegaram-se de tudo, até mesmo das suas vidas! Como são felizes os sacerdotes, que desapegaram-se de uma feliz realização material para darem-se totalmente a Jesus Cristo! Isto porque a verdadeira felicidade não consiste em bens materiais, mas consiste em alguém: Jesus Cristo. Só Ele pode satisfazer todos os nossos anseios. Só nEle encontramos a verdadeira paz, a verdadeira felicidade.

Mais a diante o Senhor chama-nos a atenção para a vigilância: “Que vossos rins estejam cingidos e as lâmpadas acesas. Sede como homens que estão esperando seu senhor voltar de uma festa de casamento, para lhe abrirem, imediatamente, a porta, logo que ele chegar e bater” (Lc 12, 35-36). Vigiar tornou-se, nos dias de hoje, uma necessidade maior ainda para o cristão. Em uma sociedade que vulgariza os homens e mulheres, e que vive em espírito pecaminoso e de promiscuidade, as palavras de Jesus vêm tirar-nos da inércia espiritual, à qual muitos se rendem por não encontrarem forças para combater.

Estejam preparados! Que ecoe para todo o mundo estas palavras. Que ela possa alcançar todo o vasto campo de missão confiado a Igreja.

São Cipriano expõe muito bem o sentido deste Evangelho:

“Ninguém se preocupa com as coisas que hão de vir, ninguém pensa no dia do Senhor, na ira de Deus, nos futuros suplícios dos incrédulos, nos eternos tormentos destinados aos pérfidos… Quem acredita se acautela, quem se acautela se salva” (Sobre a Unidade da Igreja, XXVI).

A nós se dirigem as sábias e proféticas palavras de São Cipriano, tão incidentes na sociedade hodierna. Há meus irmãos! Se os homens soubessem a importância da vigilância! Eis que muitos não têm coragem de vigiar, assim como Pedro, Tiago e João não suportaram e curvaram-se ao sono.

A estes valem as fortes palavras de São Cipriano:

“Despertemos, irmãos diletíssimos, quebremos o sono da inércia rotineira e, por quanto for possível, sejamos vigilantes em guardar e cumprir os preceitos do Senhor… É necessário que estejamos cingidos, a fim de que, quando vier o dia da partida, não sejamos surpreendidos cheios de impedimentos e de embaraços. Fique sempre viva a nossa luz e brilhe em boas obras, para nos guiar da noite deste mundo aos esplendores da claridade eterna. Sempre solícitos e cautos, fiquemos à espera da chegada repentina do Senhor. Quando ele bater, encontre a nossa fé vigilante de forma que mereça receber o prêmio do Senhor. Se forem observados esses mandamentos, se forem postas em prática essas exortações, não acontecerá que sejamos vencidos – no sono – pela falácia do demônio, mas, como servos bons e vigilantes, reinaremos com Cristo glorioso” (idem).

“A quem muito foi dado, muito será pedido; a quem muito foi confiado, muito mais será exigido!” (Lc 12, 18). Não é porque somos cristãos que seremos poupados. As palavras do Senhor confirmam que árduo é o trabalho, mas será também grande a recompensa. Seremos cobrados por nossas ações e pelo que fizemos em prol do anúncio do Evangelho neste mundo. Àqueles que não querem guardar as palavras de Cristo, confiemos-lhes a misericórdia divina. E peçamos para nós o dom da vigilância, estar em prontidão, para que o Senhor nos convide ao seu eterno banquete.

A Virgem Santíssima nos auxilie nesta caminhada.

Ut in omnibus glorificetur Deus!