Andando em bravo mar, perdido o lenho


Feliz aquele homem que não anda conforme os conselhos dos perversos, que não entra no caminho dos malvados (Sl 1) – Assim é aberto o saltério, assim neste mesmo tom Jesus Cristo Nosso Senhor exprimiu as bem-aventuranças: Felizes os pobres de espírito, felizes os puros, felizes os mansos…

A concupiscência da carne é uma tendência constante humana ao mal. No dia a dia esta tendência surge insidiosa, como aquele desalinhamento leve que tira o carro da estrada se soltarmos o volante e andarmos o suficiente. Sem percebermos a mesquinhez, a ganância, a ambição vão avançando passo a passo, progressivamente, Quando nos damos conta, o vício – a predisposição estável ao mal – se fortaleceu, carregando em seu rastro o pecado – o mal. De repente, pouco a pouco, estamos “no caminho dos malvados“, como disse o salmista.

Muitas vezes estamos neste caminho dando muitas razões justificadas, porque o avanço do vício não ocorre sem uma perversão da consciência em conjunto. O mal nos embota para a percepção do mal, satura nossa alma ao ponto de calar a voz da consciência. Para quem vai de mal a pior – palavras de Santo Inácio – o mal espírito traz consolação e suavidade. Como uma bola de neve, desce-se a ladeira do caminho dos malvados cada vez mais velozmente, cada vez mais carregado de pecados, cada vez mais sem consciência dos crimes, até que se precipita-se no Inferno, para sofrer com Satanás e seus anjos caídos por toda eternidade.

Quem me libertará deste corpo de morte? (Rm 7,14) gritava o Apóstolo São Paulo, contemplando o progresso da concupiscência para as paixões desordenadas, para os vícios, para o pecado e para a condenação? Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! responde logo em seguida, tendo encontrado a resposta.

É a Graça de Deus que quebra este ciclo, é o bom pastor que vai buscar as ovelhas perdidas. Como nos versos de Camões, a humanidade está como que “andando em bravo mar, perdido o lenho” se entregue às suas paixões. Sozinho o homem se perde, sem Deus o homem é infeliz e triste. Mas para Deus nada é impossível, seu poder há de dar a força que falta em nós. Como diria Santo Agostinho sobre a castidade – mas vale para todas as virtudes – “tu me darias esta virtude, se molhasse meu leito de lágrimas a pedindo“. Nosso Senhor foi claro que tudo o que pedíssemos receberíamos, especialmente o Espírito Santo, o doador por excelência da Graça.

O que estamos esperando? Até quando deixaremos nossas paixões desordenadas nos afundando, como quem deseja nadar mas tem uma pedra amarrada no pescoço? Até quando fugiremos do remédio? Até quando deixaremos de ser felizes? Até quando seremos infelizes antes de erguermos as mãos a Deus pedindo virtude e Graça? Como o cego Bartimeu, gritemos: “Jesus, Filho de Davi, tem piedade de mim!!!