Chamados ao amor

“Constituiu-nos em situação de produzirmos fruto, isto é, de nos amarmos mutuamente. Nunca poderíamos produzir este fruto sem a sua cooperação, assim como os ramos nada podem produzir sem a videira. A caridade, portanto, tal como a definiu o Apóstolo: ‘nascida de um coração puro, da boa consciência e da fé não fingida’ [1Tm 1,5] é o nosso fruto. É com ela que nos amamos uns aos outros e que amamos a Deus.

Nunca poderíamos amar-nos mutuamente com verdadeiro amor se não amássemos a Deus. Ama o próximo como a si mesmo aquele que ama a Deus. Se não ama a Deus não se ama a si mesmo”.

(Santo Agostinho, Comentário ao Evangelho de São João)

Celebramos hoje a Festa de Santo Agostinho, Bispo, escritor, filósofo, teólogo, Padre e Doutor da Igreja. É o Padre da Igreja que mais deixou escritos. Para este dia resolvi fazer um comentário às suas sábias palavras, que perpassaram estes séculos que dele nos separam e permanecessem audíveis a todos os homens da nossa sociedade.

Santo Agostinho não hesitava em defender a verdade que Jesus Cristo defendeu, e por ela fez a maior doação que foi sua própria vida. Dizia ele: “Não se imponha a verdade sem caridade, mas não se sacrifique a verdade em nome da caridade”. Ora, transcorridos dois mil anos, a Igreja toma para si estas palavras e, em toda a sua história, nunca se omitiu, nem se omitirá da verdade, ainda que muitos não concordem com ela. Para os que a criticam bastar-lhes-ia dizer que Nosso Senhor foi perseguido e morto por causa da verdade; os mártires derramaram seu sangue pela verdade; e a Igreja é perseguida por transmitir ao mundo a Verdade. Só o amor pode conter a Verdade, e só quem possui a verdade pode conter o verdadeiro Amor.

Esta é uma característica do amor: doar-se. Após sua conversão, ou mesmo antes dela, Agostinho incansavelmente sempre esteve em busca da verdade; julgava ele que esta poderia ser encontrada nos prazeres do mundo ou nos ensinamentos maniqueístas. No entanto, lá, nada encontrou que o preenchesse plenamente.

Mas, em sua conversão, fruto das intensas orações de sua Santa mãe, Mônica, ele depara-se com o verdadeiro sentido existencial. Ele fora criado para amar, para servir a Deus, para doar-se completamente. Eis o objetivo magno de sua vida! Sentira ele que se não amasse a Deus, também não poderia amar o próximo, pois Deus é a causa do amor. E aqui precisamente nos defrontamos com o horizonte que despontou-se ante nossos olhos: a falta de amor, que gera individualismo; um mundo velho, que precisa renascer. Santo Agostinho rejuvenesceu em seu encontro com Cristo, “caminho universal da liberdade e da salvação” (Papa João Paulo II, Augustinum Hipponensem, 21). Ao mesmo tempo ele convida o mundo para que possa rejuvenescer, mergulhar em águas novas. Quem está com Cristo é eternamente jovem, ainda que o corpo possa parecer velho, o espírito sempre estará em estado jovial. “Não rejeitar rejuvenescer unido a Cristo, também no mundo velho. Ele diz-te: Não temas, a tua juventude renovar-se-á como a da águia” (cf. Serm. 81, 8).

O amor a Deus é a “porta de acesso” para que também possamos amar o próximo. Só passando pela cruz os homens poderão abraçar-se em espírito de fraternidade. E por que pela cruz? Porque lá está a maior prova de amor da humanidade. “Mas eis aqui uma prova brilhante de amor de Deus por nós: quando éramos ainda pecadores, Cristo morreu por nós” (Rm 5, 8). O amor torna-se humanamente visível na pessoa de Jesus Cristo. E tão-somente fosse visível, não chegaria a ter sentindo salvífico. Este só pode alcançar tal característica no Messias que, mesmo em estado padecente, não condenou-nos, senão orou para que fossem perdoados seus algozes. O efeito desta oração atingir-nos-á em cada instante, ainda quando esquecemos do seu infinito e benevolente amor.

Em primeiro lugar consiste o amor a Deus, como bem nos ensina os mandamentos. E este amor a Deus significa que devemos renunciar às nossas próprias vontades. Já disse aqui outras vezes sobre a sede de transcendência do homem, que realizar-se-á unicamente quando ele souber submeter-se à vontade de Deus. É preciso que encontremo-nos, antes de encontrar Deus. “Quem não se encontra as si mesmo, não encontra a Deus, porque Deus está no interior de cada um de nós” (Papa João Paulo II, Carta Apostólica Agustinum Hipponensem, II, 2).

Para quantos Deus parece estar distante? Mas, na verdade, não é Deus que se distancia, porém o homem distancia-se dele. E cada atitude de autossuficiência, de arrogância, faz com que criemos uma barreira com este Deus que é totalmente acessível e que em sua essência é amor.

Agostinho “foi um homem de oração; e mais, poderíamos dizer: um homem feito de oração” (Idem, II, 5). A oração sempre foi o núcleo da vida dos santos. A total entrega a Deus deve ser modelo em uma sociedade que tende a desmoralizar os valores cristãos. O amor fortalece esta doação; com ele não sentimos a solidão, pois melhor acompanhado está quem está com Deus.

Omnia vincit amor — o amor tudo vence”, afirma Virgílio nas Bucólicas e acrescenta: “et nos cedamus amori — rendamo-nos também nós ao amor” (X, 69). Com este convite a que somos impelidos, procuremos, a exemplo dos santos, de modo particular Santo Agostinho, vivermos, em concomitância com os ensinamentos evangélicos, o amor cristão-caritativo, invólucro nos mandamentos da lei de Deus, e que é o próprio Deus.

Ut in omnibus glorificetur Deus!