Escolher o último lugar


As leituras deste domingo mais uma vez exortam-nos a uma virtude da humildade, indispensável na vida do cristão. É preciso que nossa vida esteja integralmente submetida a Deus, sem “porém”.

Na primeira leitura somos colocados imediatamente em relação profunda com a humildade. “Na medida em que fores grande, deverás praticar a humildade, e assim encontrarás graça diante do Senhor. Muitos são altaneiros e ilustres, mas é aos humildes que ele revela seus mistérios. Pois grande é o poder do Senhor, mas ele é glorificado pelos humildes” (Eclo 3, 20-21). Diversas vezes os textos dominicais nos colocaram a questão da humildade, e hoje, mais uma vez, vemo-la como uma riqueza e uma essencialidade na vida do cristão. Quem poderá ser mais rico do que aquele que é mais humilde? E Jesus foi o primeiro a dar-nos o exemplo da servidão, da humilhação. Esta teve sua plena consumação na cruz, com sua morte. Ali, quando parecia vencido, abatido pelo fardo que foi obrigado a carregar, o Senhor manifesta gloriosamente o seu poder. Pela morte de Cristo nos-é dada a redenção. E que grande vitória parte da humilhação!

Deparamo-nos na hodierna sociedade, principalmente no âmbito social, mas também no religioso, com pessoas que buscam famas, prazeres, e querem reconhecimento já neste mundo, feito de efemeridades. A estes servem as palavras da primeira leitura; mas também a nós, para que não incorramos neste erro.

Há! Os Santos! Que grandes pessoas foram! Doutores, místicos, eremitas, abades, Papas, Bispos, reis, rainhas… e nunca se envaideceram de tais honras. Nunca buscaram gloriar-se, senão gloriar unicamente a Cristo, como bem recorda-nos o apóstolo: “Quanto a mim, não pretendo, jamais, gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo” (Gl 6, 14).

No Evangelho Jesus não dá uma aula de comportamento, mas ensina a submetermo-nos aos desígnios de Deus, e aceitá-los humildemente. O evangelista diz-nos que “Jesus foi comer na casa de um dos chefes dos fariseus. E eles o observavam. Jesus notou como os convidados escolhiam os primeiros lugares” (Lc 14, 1.7). Aqui se encaixa exatamente o perfil da sociedade atual: a sede de prazer, de estar sempre à frente, de ocupar os primeiros lugares. Em outras palavras: uma busca desenfreada pela autossuficiência, onde Deus já não é o objetivo central, mas é subjugado pelo homem. Desta forma deixa-se de transcender para o bem e acaba por lançar-se à própria sorte, caindo no mesmo erro de Satanás, a soberba, e esvaziando-se do verdadeiro sentido de humildade.

Se se é humilde apenas na aparência, mas o espírito está repleto de ganância, em vão será esta aparente humildade.

E Jesus diz mais: “Quando tu fores convidado para uma festa de casamento, não ocupes o primeiro lugar. Pode ser que tenha sido convidado alguém mais importante do que tu, e o dono da casa, que convidou os dois, venha te dizer: ‘Dá o lugar a ele’. Então tu ficarás envergonhado e irás ocupar o último lugar.

Mas, quando tu fores convidado, vai sentar-te no último lugar. Assim, quando chegar quem te convidou, te dirá: ‘Amigo, vem mais para cima’. E isto vai ser uma honra para ti diante de todos os convidados. Porque quem se eleva, será humilhado e quem se humilha, será elevado” (Lc 14, 8-11).

Jesus se utiliza da comparação de um casamento. Sobre esta simbologia o Pe. Tuya escreve: “O banquete de casamento ao qual Jesus faz menção é o Reino Messiânico […]. Ali, os primeiros lugares estão reservados para os que forem mais humildes” (Bíblia comentada. Evangelios. Madrid: BAC, 1964, v.II, p.864). Não busquemos ocupar os primeiros lugares, pois poderemos ser mandados para os últimos. São condições que Jesus apresenta-nos para entrarmos no Reino do Céu. É necessário escolhermos o último lugar, e só assim poderemos chegar ao primeiro. E ocupemo-los com amor e espírito de serviço, para assim agradarmos ao Senhor.

São Beda, o Venerável, assim afirmou: “Todo aquele que, convidado, venha às bodas de Jesus Cristo e da Igreja, unido pela fé aos membros da Igreja, não se exalte como se fosse superior aos outros, nem se glorie por seus méritos; mas ceda seu lugar àquele que, convidado depois, é mais digno e progrediu mais no fervor dos que seguem a Jesus Cristo, e ocupe com modéstia o último lugar, reconhecendo que os demais são melhores do que ele em tudo quanto se julgava superior” (via Arautos).

“Pelo contrário, quando deres uma festa, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos. Então tu serás feliz! Porque eles não te podem retribuir. Tu receberás a recompensa na ressurreição dos justos” (Lc 14, 13-14).

Há! Estas palavras de Jesus! Como fazem uma diferença tremenda em nosso meio. Como elas foram tão duras aos ímpetos orgulhosos, materialistas e egocêntricos homens, que circundavam aquela mesa. Vivemos em um mundo que sempre busca retribuições e ações interesseiras. Jesus, porém, ensina-nos a nada pedirmos em troca, para que tudo possamos ganhar no dia da ressurreição.

Assim, São João Crisóstomo, Doutor da Igreja, bem escreveu: “Não nos perturbemos, pois, quando não recebermos recompensa pelos nossos benefícios, mas sim quando a recebermos; porque se a recebermos aqui, nada receberemos depois; mas se os homens não nos pagarem, Deus nos pagará” (via Arautos).

Que a Virgem Maria, nos proteja, e nos ensine a sermos humildes, assim como Ela foi. Celebrando a Festa do Martírio de São João Batista, queremos também nós, pedirmos o dom do serviço e do verdadeiro anúncio da verdade.

Ut in omnibus glorificetur Deus!