Meditações em “Alvorada do Amor” ou O Adão blasfemo


Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo que redime nossas faltas, e que Novo Adão salva a humanidade caída.

https://i1.wp.com/3.bp.blogspot.com/_QAZNVKZxV-c/TIA3FhtmbNI/AAAAAAAAAp4/9d9RPeF4yiY/s1600/Michelangelo_Sistine_Chapel_Ceiling_Genesis_The_Fall_and_Expulsion_from_Paradise_The_Expulsion.jpgLi o poema Alvorada do Amor de Olavo Bilac. Não transcreverei inteiro porque é longo, mas vai uns versos.

Um horror grande e mudo, um silêncio profundo
No dia do Pecado amortalhava o mundo.
E Adão, vendo fechar-se a porta do Éden, vendo
Que Eva olhava o deserto e hesitava tremendo,
Disse: (…)

Vê! tudo nos repele! a toda a criação
Sacode o mesmo horror e a mesma indignação…
A cólera de Deus torce as árvores, cresta
Como um tufão de fogo o seio da floresta,(…)

Que importa? o Amor, botão apenas entreaberto,
Ilumina o degredo e perfuma o deserto!
Amo-te! sou feliz! porque, do Éden perdido,
Levo tudo, levando o teu corpo querido!

Pode, em redor de ti, tudo se aniquilar:
– Tudo renascerá cantando ao teu olhar, (…)
Homem fico, na terra, à luz dos olhos teus,
– Terra, melhor que o céu! homem, maior que Deus!

É uma declaração de Adão a Eva após ser expulso do paraíso. Não é lá muito ortodoxo, não depreende corretamente o sentido da Queda, nem deixa Deus em bela figura. Em resumo, Adão, incendiado de paixão por Eva, dá de ombros para a maldição, os males e mesmo a cólera de Deus se podia ter o amor de Eva a seu lado. Olhando o lado bom, é uma belíssima declaração de amor. Olhando do lado ruim, é um desprezo a Deus. Meus amigos católicos não gostaram do poema. Como disse, Bilac não é um Bocage ironizando maus frades, mas deixa Deus em má figura.

Confesso que me fez pensar… Nunca tinha imaginado um Adão assim meio blasfemo e impenitente saindo do Éden, achando-se injustiçado e desprezando as manifestações da ira divina. Sempre tive na cabeça a imagem daquele Adão que Michelangelo pintou na Sistina, penitente, arrependido, abandonando o Éden consolado por cumprir a Justiça Divina. A imagem do castigado altivo, que perde a guerra mas não perde a (sua) razão cabe mais em Satanás expulso do céu.

Por outro lado, quando observamos que o pecado original gerou a concupiscência da carne, a imagem do Adão transtornado e arrogante não é tão errada. Adão e Eva tiveram a carne inclinada ao mal, transmitiram a seus filhos. Após a queda, é narrado em seguida o assassinato de Caim. Mas é possível afirmar certamente que Adão não teve apenas “a Queda” como único pecado, e pecou mais vezes depois. Não me refiro aos apócrifos judaicos que narram curiosas relações sexuais de Adão e Eva com versões femininas e masculinas de Satanás, mas coisas menores, aqueles pecados veniais (lamentavelmente) do dia a dia. Será que Adão que não teve seus momentos de revolta contra Deus, achando-se – quem sabe? – ter sido punido excessivamente por tão pequeno delito, tão pequena desobediência… em sua humana e personalíssima opinião.

https://i2.wp.com/4.bp.blogspot.com/_QAZNVKZxV-c/TIA3yixj-ZI/AAAAAAAAAqI/Bc3dxzLKlB0/s1600/Rubens__Adam_et_Eve.JPGO leitor deve estar me criticando por tão heterodoxa elocubração. Mas pense comigo, não é o mal da concupiscência tentando e pervertendo a razão humana e nos impelindo ao vício, e do vício ao pecado? Parece imagem comum que Adão tenha se consolado e considerado Deus correto na sua atitude. Mas talvez não tenha Adão blasfemado e reclamado quando espetou pela primeira vez a mão num espinho, quando foi atacado pela primeira vez por um animal, quando bateu o pé a primeira vez numa pedra, quando adoentou-se a primeira vez, quando a primeira vez passou fome, quando a primeira vez passou frio… Diz o catecismo que em Adão e Eva estávamos todos nós, estávamos todos nós com nossas blasfêmias e revoltas tolas, movidas pela frustração, permitidas pela concupiscência, incitadas pela tentação.

Como disse, a figura do pecador altivo e impenitente, que perde o Céu e o Paraíso mas não perde sua razão, é a imagem de Satanás. Santo Antônio, doutor da Igreja, comenta que cada vez que um homem peca troca em sua alma a sua imagem de Cristo pela imagem de Demônio. Nossos primeiros pais optaram pelo Maligno, e procederam como ele, atirando toda criação e sua descendência à tirania de tão cruel figura. Por que não voltaria na blasfêmia Adão a imitar o anjo caído?

Sou homem, trago em mim a maldição de Adão. Todo dia, ao levantar para ir trabalhar, lembro que devo comer o pão com o suor do meu rosto. A cada vez que adoeço, a cada cabelo branco que me surge, lembro que sou pó, e para o pó voltarei. A cada vez que me acontece uma contrariedade, lembro que a terra para mim gerará espinhos e abrolhos. Minha revolta contra Deus – Deus justo, Deus benigno, Deus misericordioso – é tolice ditada pela concupiscência, como um cão doente cego de dor que morde a mão que vai o alimentar.

Mas o mal não é substância, é ato da degradação do bem. Adão não saiu do Paraíso nu em suas capacidades, a despeito do pecado haver transtornado a sua natureza. O poeta muito belamente neste Adão blasfemo coloca a consolação no amor de Eva. Esta paixão entre homem e mulher é perfeitamente querida por Deus, boa, justa, santa e desejável. Já dizia Salomão, O amor é forte como a morte, é uma faísca do Senhor. O amor dos primeiros pais da humanidade é bom. Captada – talvez involuntariamente por Bilac – foi a perversão deste bem pela concupiscência. Adão usa o amor de Eva para desprezar o temor de Deus, quase que dizendo “Troveje o Altíssimo para me punir, quero a Eva”. O bem supremo é Deus. Mal é preterir o bem supremo por um bem inferior. É bom amar Eva (e as Evas que encontramos para serem nossas companheiras). É ruim amar Eva ao ponto de dar de ombros a Deus. Assim como o pecado original foi desejar comer a fruta proibida e dar de ombros para a vontade de Deus, a verdadeira comida da humanidade, conforme dito claramente por Nosso Senhor: Minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou. Compreendemos portanto o grito de um Adão blasfemo, já manchado pela concupiscência, preferindo os bens menores aos maiores.

Não posso terminar esta meditação neste tom pessimista, de quem vê a humanidade degenerada como que irremediavelmente. Irremediavelmente nada! Se me permitem avançar na imaginação, enquanto um Adão pecador e blasfemo saía do paraíso, temendo o querubim que vedava sua volta, sozinho no Éden, o Altíssimo balançava a cabeça, e a Trindade discutia o plano de como trazer os homens de volta, e melhores que o plano original. Qual é o plano os leitores conhecem melhor que eu. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

Um pensamento sobre “Meditações em “Alvorada do Amor” ou O Adão blasfemo

  1. “Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!”

    Para sempre seja louvado!

    Que belo texto! Também não havia pensado Adão dessa forma ainda.

    Mas sua “divagação” em torno do poema leva a uma conclusão, de fato, ainda mais engrandecedora de Deus (se é que isso é possível, engrander mais ainda O Grandioso por natureza!)

Os comentários estão desativados.