Os leprosos de hoje


No Evangelho deste domingo vemos de maneira significativamente presente uma doença temida na época de Jesus, mas que está carregada de um valor espiritual: a lepra.

Já na primeira leitura o autor nos coloca diante de um fato notável. Em primeiro lugar devemos ressaltar quem era o leproso na época de Cristo. O que ele representava? Como podemos fazer uma analogia com os nossos dias?

Para os antigos o leproso era alguém impuro. Ele devia ser evitado, pois a lepra poderia contagiar-lhes, por isso não viviam nas cidades e povoados, mas fora destes.

Elias manda que Naamã, o sírio, lave-se no Jordão e ele fica purificado (cf. 2 Reis 5, 14). Mas por que o autor usa o termo purificado, e não curado? Por que purificar quer dizer limpar, tornar puro. O rio Jordão constitui o símbolo do renascimento. Nos Evangelhos veremos que Cristo batizou-se no Jordão, transformando-o assim em uma espécie de fonte de vida.

Na segunda leitura o apóstolo São Paulo, mais uma vez, dirigindo-se a Timóteo, seu fiel colaborador, alerta: “Lembra-te de Jesus Cristo, da descendência de Davi, ressuscitado dentre os mortos, segundo o meu evangelho.  Por ele eu estou sofrendo até às algemas, como se eu fosse um malfeitor; mas a palavra de Deus não está algemada.  Por isso suporto qualquer coisa pelos eleitos, para que eles também alcancem a salvação, que está em Cristo Jesus, com a glória eterna.
Merece fé esta palavra: se com ele morremos, com ele viveremos. Se com ele ficamos firmes, com ele reinaremos. Se nós o negamos, também ele nos negará. Se lhe somos infiéis, ele permanece fiel, pois não pode negar-se a si mesmo” (2 Tm 2, 8-13).

Com o termo usado por Paulo percebe-se que ao escrever ao seu discípulo estava ele acorrentado, isto é, preso. Um frase do apóstolo, dentre as tantas, que chamou-me particular atenção é a sua afirmação de que, apesar de estar acorrentado, mas a Palavra de Deus não. Ora, a Palavra de Deus por excelência é Jesus Cristo, Verbo encarnado. Logo, ele afirma que Jesus não está preso, restrito a um grupo. Podem ter prendido Paulo, mas não impedirão que mensagem de Cristo se expanda a todos os povos. Bem oportuna é esta leitura dentro do mês missionário. Ela nos estimula e nos dá consciência de que todos são chamados a anunciar Jesus Cristo, mesmo mediante as dificuldades que impõe-se na sociedade hodierna, levando-nos a um relativismo, a uma exclusão de Deus da sociedade e a falta de fraternidade, comumente presente, sobretudo pela guerra. Com tudo isso, somos chamados a testemunhar, e não apenas a anunciar, o evangelho.

De resto, Paulo convida a Timóteo para que permaneça firme em Cristo. As palavras do apóstolo anunciam de certa forma o Reino vindouro, e a Parusia do Senhor, em Seu Advento definitivo. Aquele que nega sua missão, porém, também soam veemente as palavras apostólicas que nos levam a um juízo sobre o rumo de nossa caminhada existencial. O que faço da minha vida? Perguntemo-nos. Será que estou deixando-me conduzir pelo bom caminho?

Mas uma coisa o apóstolo diz que Deus não pode ser: infiel. Ainda que o neguemos, que sejamos infiéis, mas Ele nunca poderá assumir tal aspecto que seria humano. Diria que a infidelidade não parte de uma ação divina, mas sim dos desejos limitados da nossa frágil humanidade.

Por isso peçamos sempre ao Senhor que nos ensine a sermos fiéis aos seus ensinamentos. Deste modo poderemos contemplar a Onipotência de Deus, que é amor. Um Amor capaz de vencer a mesquinhez e os egoísmos do coração humano.

Por fim o evangelho introduz-nos novamente ao pensamento da lepra. Uma lepra que contamina a nossa sociedade. A cura para esta doença está no perdão, na busca de uma profunda reconciliação com Deus, em vista de um bem comum a todos. Só centralizando-se em Deus e buscando mergulhar no Coração de Jesus, saberemos que o amor não consiste em méritos passageiros, mas no eterno mérito do encontro pessoal com Jesus.

A ingratidão presente no texto mostra-nos a ingratidão nos homens de hoje. Apenas um estrangeiro vem agradecer. “E os outros nove – pergunta o Senhor – onde estão? Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, a não ser este estrangeiro?” E disse-lhe: “Levanta-te e vai! Tua fé te salvou”. (Lc 17, 17-18).

Veja, meus irmãos! O Senhor sente a dureza dos corações desses nove homens. Apenas um voltou. O Senhor poderia ter dito aos que não voltaram: “Agora vou devolver a lepra para vocês”; no entanto não faz isso. E por que não o faz? Porque Ele é misericórdia. Veja que os dez homens pararam a distância, mas quando foram curados apenas um aproximou-se de Jesus. Isso significa que muitos recorrem ao Senhor somente em momentos de tribulação, e quando veem que a tempestade já cessou, sequer vem agradecer-Lhe.

Saibamos ser gratos ao Senhor. Vejamos nEle a Imagem da Misericórdia. Para que não deixemos apagar em nós a chama da fé.

Confio a intercessão de Nossa Senhora o Sínodo dos Bispos do Oriente Médio, que tem início hoje, para que possa a Terra Santa tornar-se lugar de paz e de contemplação dos mistérios da salvação.

Saúdo-vos em Cristo Jesus e Maria Santíssima!

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