A persistência da fé


 

Sagrado Magistério

Sagrado Magistério

 

Neste domingo somos convidados a persistir, a ter perseverança, uma santa insistência. Foi isto que moveu o coração do poderoso juiz que meditamos no Evangelho. Também o Evangelho tornar-se-á para nós um paradigma, olhando aquela pobre viúva. Em nossos dias a persistência tem se esfacelado e perdido toda a sua consistência. Ter persistência, por conseguinte, é ter esperança. Precisamos de uma esperança que não esmoreça, que não se limite em consistir apenas neste mundo, mas que vá além. Além das nossas expectativas, além do que este mundo possa oferecer, além do que possamos imaginar.

Não costumo fazer meditações dos salmos, mas hoje vemos claramente presente um ato de confiança, de clamor, que parte das entranhas do salmista. “De onde pode vir meu socorro? – Pergunta –. Do Senhor é que me vem o meu socorro, do Senhor que fez o céu e fez a terra!” (Sl 120/121, 1-2). Nas atuais condições da nossa sociedade tais afirmações põem-nos novamente em contato íntimo com Deus. Contato este que só poderá acontecer quando os homens reconhecerem o auxílio que, provindo de Deus, perpetra em cada um o espírito da verdadeira esperança, que não é finita, mas infinita..

Um verdadeiro consolo é manifestado neste salmo. Um Deus que não abandona seu povo, mas está caminhando lado a lado com ele. Na vicissitude dos tempos é-nos possível comprovar os maravilhosos prodígios de Deus na história da humanidade. Somos um povo que para Deus caminha. Esta verdade manifestar-se-á mediante as ações cristãs que praticarmos. “Voltemo-nos para Deus!” É o clamor que leva a Igreja a bradar aos homens de hoje. Tomada por um espírito de individualismo, a sociedade começa a degenerar-se, dissimulando-se de sua missão. E se esta assim progride acaba por fomentar divisões, ódios, guerras. Não obstante as diversas tentativas para manter-se a paz, consequentemente esta não poderá subsistir se as ações contrárias forem maiores.

Mas eis que, quando tudo parece impossível, o salmo mais uma vez vem a recordar-nos: “O Senhor te guardará de todo o mal, ele mesmo vai cuidar da tua vida! Deus te guarda na partida e na chegada. Ele te guarda desde agora e sempre” (120/121, 7-8). Devemos colocar-nos sob o domínio do Senhor, submeter-nos aos seus salvíficos desígnios. Mas perguntemo-nos, então, por que muitos não o fazem? Porque a prepotência e a arrogância parecem falar mais alto a estes pobres corações do que a voz de Deus, que por vezes faz-se ouvir baixinha, quase inaudível.

Dirigindo-se a Timóteo, Paulo alerta para que o discípulo não deixe esmorecer sua fé.

Escreve ele: “Permanece firme naquilo que aprendeste e aceitaste como verdade; tu sabes de quem o aprendeste. Desde a infância conheces as Sagradas Escrituras: elas têm o poder de te comunicar a sabedoria que conduz à salvação pela fé em Cristo Jesus.
Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para ensinar, para argumentar, para corrigir e para educar na justiça,  a fim de que o homem de Deus seja perfeito e qualificado para toda boa obra. Diante de Deus e de Cristo Jesus, que há de vir a julgar os vivos e os mortos, e em virtude da sua manifestação gloriosa e do seu Reino, eu te peço com insistência: proclama a palavra, insiste oportuna ou importunamente, argumenta, repreende, aconselha, com toda a paciência e doutrina” (2 Tm 3, 14 – 4, 2).

Avaliemos bem este rico texto de Paulo. Em primeiro lugar tenhamos em mente que já, desde aqui, se faz presente o Magistério da Igreja, ao qual muitos se recusam a aceitar. Existe uma verdade que muitos podem não aceitar: a posse da verdade só será concedida aos que falam em união com a Igreja e com seus ensinamentos. É preciso que haja uma autêntica interpretação do Magistério da Igreja. Se a Igreja deixa livre a interpretação das Escrituras tende-se a cair no erro de Lutero (Sola Scriptura). Por isso a Escritura deve ser associada ao Magistério e a Tradição.

No versículo 16 fala-se da inspiração das Escrituras. Escritas por homens, por inspiração divina, elas tendem a levar-nos a Deus. Como escreve a Dei Verbum: “Tudo o que os autores inspirados afirmam deve ser tido como afirmado pelo Espírito Santo, de onde se deduz que os livros sagrados ensinam com certeza, fielmente e sem erro, a verdade que Deus, em vista da nossa salvação, quis que fosse consignada nas Escrituras Sagradas” (nº 11). O Papa Leão XIII ainda afirma que elas são “oráculos e palavras divinas, cartas dirigidas pelo Pai celestial e transmitidas pelos autores sagrados ao gênero humano que peregrina longe de sua pátria” (Encíclica Providentissimus Deus).

Outro aspecto que ressaltei no texto é o caráter incisivo de Paulo. Em suas veementes palavras ele pede a Timóteo que pregue a palavra, quer agrade, quer desagrade. Isso significa que jamais deveria silenciar-se mediante as injustiças e uma possível “prepotência” do homem.

Mas como estas palavras toda a Igreja é conclamada a aferir suas ações nestes milênios tão conturbados, não obstante a constante persistência na evangelização. Vivemos momentos difíceis na história da humanidade, como também na história da Igreja. Muitos querem silenciar a Igreja para que não mais propague a verdade unicamente a ela confiada. Diversos inimigos levantaram-se, ainda que inutilmente, contra a Igreja para tentar ferir-lhe a dignidade. Inimigos que muitas vezes surgiram de ações malignas, do pai da mentira, que não fica feliz com o trabalho valoroso dispensado por aquela que é a prefiguração do Reino de Deus. A Igreja não esconde os erros dos seus filhos, mas também sabe reconhecer a má-fé, ou ignorância, que muitos usam para ferir-lhe a dignidade.

A Igreja e os seus valorosos membros não se deixam abater. Mas levantam-se com a espada da justiça para dilacerar toda a mentira e hipocrisia que insurja no mundo, “Todos os imperativos acumulados nestes versículos têm a força das ordens militares e devem ser obedecidas por todo ministro de Cristo em todos os tempos e em todos os países” (Erdmann).

Os padres e bispos na podem ocultar-se, e nenhum cristão está isento da missão. Como dirá São Pio V: “Aquele que conhece a verdade e não a proclama é um covarde miserável e não um cristão”

Por fim, o Evangelho fala de duas parábolas que representam a insistência e perseverança, de um lado uma pobre viúva, do outro um rico juiz. No coração endurecido da humanidade desvela-se a insistência da oração cristã. Na viúva figura o retrato de muitos crentes que veem sua fé abatida em momentos tão delicados. Mais Jesus convida-nos a perseverar. Ainda que sejam fortes os problemas, as graças vindouras serão mais abundantes ainda.

É importante dizermos que o fato de Jesus apresentar um Deus que fará justiça aos pequeninos, não significa que Ele queira apresentar um Deus sem misericórdia, inacessível. Ao contrário: Ele afirma que Deus tornar-se-á mais acessível à medida que os homens tornarem-se mais justos e misericordiosos.

Ao final Ele faz uma pergunta que, na verdade, se transforma em uma exortação à perseverança: “Quando vier o Filho do Homem, será que ainda encontrará fé sobre a terra?” (Lc 18, 8). É precípuo como nunca que os homens guardem a fé, que redescubram a beleza da oração, e nela encontrem sentido para a caminhada.

Maria, Mãe da Fé, nos auxilie nesta caminhada. Aproveito para agradecer a Deus pelos seis novos santos concedidos pelo Santo Padre Bento XVI, hoje, à Igreja. E renovo as minhas orações pelo Sínodo dos Bispos do Oriente Médio, no Vaticano.

Salus et Pax in corde Iesus et Maria

Um pensamento sobre “A persistência da fé

  1. “Aquele que conhece a verdade e não a proclama é um covarde miserável e não um cristão”

    Imagina então aqueles que conhecem a verdade(como por exemplo: sabendo que a Igreja proibe o fiel de ser comuna ou maçom, mesmo assim é) e ainda assim preferem seguir o homicida e mentiroso?

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