Infelicidade: O castigo do pecado


“Interroga os tempos antigos que te precederam, desde o dia em que Deus criou o ser humano sobre a terra. Investiga, de um extremo a outro dos céus, se houve jamais um acontecimento tão grande, ou se jamais se ouviu algo semelhante! Existe porventura algum povo que tenha ouvido a voz de Deus falando-lhe do meio do fogo, como tu ouviste, e tenha permanecido vivo? Ou terá vindo algum Deus escolher para si uma nação entre todas, por meio de provações, sinais e prodígios, por meio de combates, com mão forte e braço estendido, por meio de grandes terrores, como tudo quanto fez por vós o SENHOR, vosso Deus, no Egito — diante dos teus olhos? Reconhece, pois, hoje, e grava em teu coração que o SENHOR é o Deus lá em cima no céu e cá embaixo na terra, e que não há outro além dele. Guarda suas leis e seus mandamentos que hoje te prescrevo, para que sejas feliz, tu e teus filhos depois de ti, e vivas longos anos sobre a terra que o SENHOR teu Deus te dará para sempre”. 

Deuteronômio 4,32-34.39-40

Esta é a primeira leitura da Solenidade da Santíssima Trindade, ano B. Enquanto ia acompanhando a leitura, esta frase particularmente me tocou: Guarda suas leis e seus mandamentos que hoje te prescrevo, para que sejas feliz.

Sempre que lia o Pentateuco eu encarava as ameaças contra os transgressores da Lei Divina como um castigo ativo. Deus garantiria que os pecadores fossem malditos. Ou seja, por uma ação divina os violadores da lei seriam punidos.

Porém a vida deu voltas. O filho pródigo sai da casa do Pai. O Pai não intervém. E o filho é a causa de sua própria infelicidade. Comecei a coigtar comigo que a transgressão da Lei Divina, o fundamento moral da lei natural, feito para as criaturas de livre-arbítrio e manchadas pela concupiscência da carne, é para sua felicidade, para a sua completude, para que atinjam a felicidade que Deus as havia reservado quando as criou. Criaste-nos para vós, Senhor, e nossa alma não repousa enquanto não descansar em vós disse Santo Agostinho, lapidarmente sintetizando o tão procurado Sentido da Vida.

Estou plenamente convicto, agora mais experiente, que não é Deus a causa da infelicidade que vém do pecado, mas é uma conseqüência natural, tal como uma bola cair ladeira abaixo quando solta. Qual é o estado de suprema infelicidade? O Inferno. O Inferno é o ponto de distância infinita de Deus, é o limite da criatura quando o pecado tende ao infinito. E é o ponto de maior infelicidade de universo.

Quando na desolação um demônio ou minha concupiscência vem me sugerir transgressão, não mais preciso apelar para as penas do Inferno, nem para a Lei Divina. Sou um homem vivido e curtido, tive minhas fases de filho pródigo, também comi lavagem de porcos na miséria de minhas escolhas ruins. Eu apelo para a memória e minha experiência mesmo. É minha razão que vai buscar toda a dor que já sofri no arquivo da memória e diz Você quer isso de volta? É a razão que pesa na balança os prazeres transitórios propostos e as penas que eles acarretaram em meu passado. E não são penas depreendidas pela Fé, nem a imaginação tentando visualizar o inimaginável Inferno, não. Não é a infelicidade após a morte, é a infelicidade também em vida!!! É a própria experiência, sofrida, comprovada, marcada a ferro em brasa na carne, são as cicatrizes de batalha, os traumas e a punição temporal dos pecados. Punição temporal, sim, aqui nesta terra o pecado também já cobra seu preço de dor e lágrimas. Aqui morro de fome!!! (Lc 15,17) Agora é a Razão que combate a concupiscência, já que não aprendeu pelo bem, pela Fé, aprendeu pelo mal, como filho miserával e faminto. Foi bom para mim ser afligido, a fim de aprender vossos decretos (Sl 118,71). Como diria o ditado: gato escaldado tem medo de água fria. O leitor que já passou por isso me entende, tenho certeza.

Felizes os que nunca precisaram se atirar na lama para saber que ela suja!!! Felizes os que obedientes a lei de Deus nunca se desviaram!!! Felizes os que repelem as tentações pela Fé apenas, não pela memória do que já viveram!!! Estes são os verdadeiros sábios!

O Deuteronômio é claro que a Lei de Deus deve ser seguida para que sejas feliz. Não é Deus quem castiga quem se desvia dele. É o desvio que faz já o castigo. Sendo que Deus é a felicidade, Criaste-nos para vós, Senhor, e nossa alma não repousa enquanto não descansar em vós, qualquer desvio é certeza de dar no vazio e rolar abaixo a longa ladeira do abismo da infelicidade…

Originalmente publicado no Jornadas Espirituais

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