O amor põe-se a serviço


Hoje damos início ao Tríduo Pascal com a Santa Missa In Coena Domini, isto é, na Ceia do Senhor. Neste dia, os homens são chamados a identificar na cena evangélica o amor máximo que moveu os angustiados corações dos apóstolos, que dentro em breve já não mais teriam o Senhor entre eles. Quinta-feira Santa: dia em que manifestar-se-nos-á a maior prova de humildade que o Senhor transmitiu-nos. O Messias inclina-se perante os apóstolos e lava-lhes os pés e depois enxuga-os. O nosso Pontífice recordar-nos-á que “a subida para Deus acontece precisamente na descida ao serviço humilde, a descida ao amor, que é a essência de Deus e, portanto, a verdadeira força purificadora, que capacita o homem para conhecer Deus e vê-lo” (Bento XVI, Jesus de Nazaré, pag. 95, Edit Planeta). Sabendo que deveria voltar para o Pai, como nos relata o Evangelho de hoje (Jo 13, 1), ascender ao Céu, o Senhor desce, inclina-se, lavando os pés dos discípulos, e desta forma – assim querendo – Ele pode voltar ao Pai.

Diz-nos o Evangelista São João que Jesus estava ciente do que iria acontecer: “Sciens Jesus quis venit hora ejus ut transeat ex hoc mundo ad Patrem, cum dilexisset suos qui erat in mundo, in finem dilexit eos – Sabendo Jesus que era chegada a sua hora de passar deste mundo ao Pai, como tinha amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo, 13, 1). As palavras “até o fim”, para alguns comentaristas e exegetas, seria dizer que Jesus os amou até o momento da morte. Esta definição, no entanto, parece-me incompleta, pois, mais que na morte, o Senhor os amou na Ressurreição e os amará por todo o sempre. Também não nos disse o evangelista que amou mais, senão que na mesma proporção de como já os amava desde a sua encarnação e durante todos os dias de sua vida. Nunca Cristo amou mais nem menos.

De Deus veio e para Deus voltaria, assim Jesus o sabia. Para mostrar que o serviço, como o amor, deve estar arraigado no homem, em sua essência, faz com que seus apóstolos pudessem notá-lo. Ora, sabia Cristo que ao seu redor estava um traidor e um que iria negá-lo logo. E também destes lavou os pés. Não foram os pés de Pedro, Senhor meu, aqueles pés covardes que O seguiam de longe? Não são estes pés desleais de Pedro que irão levá-lo ao lugar onde negar-vos-á? Não são os pés de Judas os pés do traidor que levaram a guarda até o Horto? Pois prostrado diante deles estais? Sim! E contento-me em ver-Vos assim. Pois não seríeis Vós quem sois, meu amado Jesus, nem vosso amor seria amor, nem fora vosso, se o pudessem mudar as ingratidões perpetradas pelos homens ou os agravos por eles ditos. Pois, se nestes homens tamanha foi a ingratidão, maior foi o vosso amor.

Quanto a ti, Judas, tivestes um coração endurecido e envenenado por Satanás. Estavas obscurecido pela sombra das trevas, não permitindo, assim, ver quão excelso é o amor do Senhor que estava disposto a perdoar-te. Mas nem este gesto moveu-te as duras entranhas. E por que não excluiu o Senhor a Judas? – Pergunto-me curiosamente eu e vós vos perguntais com devoção. Digo-vos que não o excluiu porque este dia não seria do julgamento, mas do amor, e o amor verdadeiro a ninguém exclui, mas é capaz de manifestar-se ainda quando somos traídos.

“Jesus… levantou-Se da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura” (Jo 1, 4 – 5). Santo Agostinho de forma bela narra esta ação de Jesus: “Tirou Seu manto Aquele que, sendo Deus, aniquilou-se a Si mesmo; cingiu-Se com uma toalha Aquele que verteu Seu Sangue para com ele lavar as manchas do pecado” (Sto. Agostinho apud Sto. Tomás de Aquino, Catena aurea). Oh, divindade tão simples e tão incompreensível! Amar-Vos não me seria suficiente, senão amar-Vos e servir-Vos; pois Vós por primeiro nos servistes. Que seja o homem a servir a Deus não nos é surpresa; mas Deus servir ao homem? Pois quanto estupor não causar-nos-ia hoje ver o Filho de Deus inclinado ante a nós para lavar-nos também os pés?! Tão inusitado gesto só poderia deixar uma imensa perplexidade nos Apóstolos. Aquele que hoje nos inclinamos para adorar, se inclinou por primeiro pra servir-nos. Quiçá o exemplo de Cristo possa infundir em nossos corações um profundo amor e humildade.

Enquanto estava a lavar os pés eis que chega a vez de Pedro e este, surpreso, lhe perguntara, como também nós O perguntaríamos: “Domine, tu mihi lavas pede – Senhor, Vós quereis lavar-me os pés?” (Jo 13, 6). E Jesus lhe afirma: “Quod ego facio, tu nescis modo, sciens autem postea. Dicit ei Petrus: Non lavabis mihi pedes in aeternum. Respondit ei Jesus: Si non lavero te, non habebis partem mecum – O que agora faço tu não entendes, mais tarde, porém, o compreenderás. Disse-Lhe Pedro: Nunca me lavarás os pés. Respondeu-lhe Jesus: Se eu não te lavar os pés, comigo não hás de ter parte (vv. 7 – 8). Hoje continua o Senhor a lavar-nos, não mais com água, mas com Seu próprio Sangue vertendo na cruz. Pois se na primeira lavou os pés dos apóstolos, agora lava-nos para que com Ele possamos ter parte, purificando-nos de todos os pecados.

Santo Agostinho, São Beda e outros escritores, hão de afirmar que a lavagem dos pés haveria de ter iniciado por Pedro, a quem Cristo sempre priorizou como chefe dos apóstolos. Outros antigos comentaristas – Orígenes, São João Crisóstomo, Eutímio – afirmam que ela teria iniciado por Judas “para pagar ao traidor o mal com o bem e comovê-lo por meio de um benefício singular, bem como advertir-nos de que devemos agir semelhantemente com nossos inimigos” (Maldonado, Comentário aos quatro Evangelhos, p. 754). Se nos diz o Evangelho que chegou a vez de Pedro, logo haveria de ter ao menos um antes dele.

Depois de terminar tão portentoso exemplo de humildade, voltou o Senhor e assentou-se, perguntando aos que lhe eram tão caros: “Scitis, quid fecerim vobis? – Compreendeis o que vos fiz?” (v. 12). De maneira enfática pergunta o Senhor se sabiam, mostrando que não. Desta forma, disposta a narrativa evangélica, na primeira parte estava a demonstrar a sabedoria de Cristo, na segunda, a mostrar a ignorância dos homens.

Paulo na Carta aos Coríntios dirá o que foi-lhe passado sobre a Ceia do Senhor. “Na noite em que ia ser entregue, o Senhor Jesus tomou o pão e, depois de dar graças, partiu-o e disse: ‘Isto é o meu corpo entregue por vós. Fazei isto em memória de mim’. Do mesmo modo, depois da ceia, tomou também o cálice e disse: ‘Este cálice é a nova aliança no meu sangue. Todas as vezes que dele beberdes, fazei-o em minha memória’” (1º Cor 11, 23-25).

A Igreja, com a Sucessão Apostólica, é incumbida pelo Senhor para que perpetue sua presença na terra por meio da Eucaristia.

Hoc facite in meam commemorationem – Fazei isto em minha memória. Filhos – diz-nos Cristo hoje – tudo dei por vós. Dei a minha vida, o meu sangue, dei-me todo por amor de vós e não quero nenhuma outra paga de vós, senão que vos recordei de mim. De tantas coisas que nos fez e disse o Filho de Deus nenhuma, digo-vos, [nenhuma!] é de nos entristecer mais nossos corações do que este pedido. Que o Deus, que por nós se fez homem e se doou inteiramente chegue a pedir que dEle nos recordemos? Oh! Amor! Oh! Quão grande é a bondade divina! Mas oh ingratidão humana! “É Deus tão amoroso e tão benigno que nos pede a nossa memória, e somos tão duros e tão ingratos, que é necessário a Deus que no-la peça” (Padre Antonio Vieira, Sermão do Mandato).

Em memória de Cristo e em Seu nome, a Igreja administra os Sacramentos.

Hoje a humildade vence a arrogância de Satanás. Hoje Aquele que se inclina faz-se pão para nutrir a nossa caminhada. Não deixemos que Jesus seja esquecido! Não deixemos que a nossa sociedade chegue ao êxito de sua descristianização. A voz do Senhor ressoa também em nossos dias, e busca acolhida em nosso coração. Seu exemplo é gritante para os homens de hoje, fartos por uma autossuficiência e arrogância que os aparta mais ainda de Deus.

Rezemos, pois, neste dia, para que o Senhor encontre-nos abertos a Sua Palavra. Que o Cristo, que outrora inclinou-Se para lavar os pés dos apóstolos, receba todo o nosso louvor. E a Ti Maria, Mãe do divino amor, elevamos uma prece, neste dia, para que a humanidade encontre repouso em Jesus Cristo, que em tudo nos é exemplo.

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