Páscoa do Senhor: Páscoa do Cristão


“Non est hic: surrexit enim, sicut dixit – Ele não está aqui! Ressuscitou como dissera(Mt 28, 6).

Oh venturosa noite! Oh dia dos dias! O Senhor vitorioso está vivo. Não morre mais, mas vive eternamente. Pois vitorioso como o Senhor devem estar nossos corações, os corações de todos os cristãos. Travadas lutas e mais lutas, hoje glorificamos ao Senhor pelo Seu feito maravilhoso: A morte não pôde detê-Lo. Tenho dito que, se O amamos, fizéssemos aquilo que pediu Paulo: crucifiquemo-nos com Ele. Agora, para os que com Ele foram crucificados, há uma nova vida, firmada em Seu Sangue e brilhante como a Sua luz.

Quem ama deve madrugar e só assim acharão aquele por que procuram: “Qui mane vigilant ad me, inveniet me – Os que por mim madrugam me acharão” (Pr 8, 17). Foram, pois, as três Marias a túmulo de madrugada e porque muito amavam madrugaram, para limpar o corpo do Senhor e perfumá-lo, dado que no dia anterior não houvera tempo para fazê-lo. Mas ao chegarem não acharam o que buscavam. “Assim não cumpre Deus sua palavra, não porque falta, mas porque excede o que promete. Não acham o que buscavam, mas acharam o que nem a buscar, nem a desejar, nem a imaginar se atreviam” (Pe. Antonio Vieira, Sermão da Madrugada da Ressurreição).

Madrugada era esta que mais estava a terra coberta pelas trevas que pela luz. Meu Senhor, por que nas trevas quereis, Vós, ressurgir? Mas como pode a luz brilhar de dia? Somente no escuro brilhará ela fulgurante. A Luz das luzes, porém, quer brilhe de dia, quer brilhe a noite, sempre mantém seu fulgor, e sempre se destaca, mais que a luz do sol, pois não haveria de ter sol se não fosse por obra de Deus, o Sol por excelência. Como pode o brilho da criatura exceder o do Criador? Não há como. O próprio Senhor dissera: “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8, 12). Sim! Nós cremos que És Luz, Senhor glorioso. E mais que ver-Te brilhante, queremos brilhar ao teu lado. Não um brilho de efemeridades e prazeres, como brilha o mundo; mas o brilho daqueles que, em Vós, por Vós e Convosco foram ressuscitados.

Profundos são os dias que a Igreja convida-nos a celebrar. E tão profundos são que não haveria eu de contentar-me em celebrá-los se não fizessem com que os meus dias, outrora pecadores, sejam revistos no presente e modifiquem-me para o futuro com Deus. Pois há em tais dias profundas relações nas celebrações, e não é diferente na relação do Natal do Senhor e da Páscoa. Nestes dias nasce o Senhor, e por duas vezes nasce! A primeira nasce para o mundo, uma vez que nasce à vida mortal, por meio do seio virginal de Maria; e neste outro nasce à vida imortal, saindo do seio da terra, do sepulcro.

À Páscoa antecede-se à Quaresma. Com jejuns e orações clamamos a Deus o arrependimento dos nossos pecados. Agora, chegado o tempo da glória, e pondo de lado os jejuns, somos impelidos a cantarmos um hino de glória. Aleluia! Cantamos nós, das mais profundas entranhas. Louvai ao Senhor, dizemos ao próximo e a nós mesmos. Louvai-O todos os povos! E isto é mais que justo, pois haveremos de louvá-Lo pelo que é e pelo que realiza. Mas, ainda mais importante é não apenas dizermos que louvamos, e sim demonstrá-lo a todos os povos. Louvai-O pelo canto; louvai-O com a voz e a língua, mas, sobretudo, louvai-O com o coração; louvai-O com o exemplo; louvai-O com a fé; louvai-O com o amor; louvai-O nas desgraças; louvai-O nas alegrias, e assim havereis de cumprir o que Paulo exorta: “In omnibus gratias agite – Em tudo daí graças” (1 Tes 5, 18). Ainda nos dirá o excelso Santo Agostinho, predicador do Evangelho com a própria vida: “Louvamos a Deus agora que nos encontramos reunidos na Igreja. Mas logo ao voltarmos para casa, parece que deixamos de louvar a Deus. Não deixeis de viver santamente e louvarás sempre a Deus. Deixas de louvá-lo quanto te afastas da justiça e do que lhe agrada. Mas, se nunca te desviares do bom caminho, ainda que tua língua se cole, tua vida clamará; e o ouvido de Deus estará perto do teu coração. Porque assim como nossos ouvidos escutam nossas palavras, assim os ouvidos de Deus escutam nossos pensamentos” (Sermão da Páscoa).

Oh! Rejubilai-vos em Deus! Não agora poderemos plenamente rejubilar, senão quando face a face estivermos com Ele. Mas para quem ressuscita? Digo-vos, caríssimos, que não é ressuscitado só para Si ou para vós e sim para todos. Mas estejam atentos! Não fecheis o coração a Cristo! Ele quer salvar-vos. Deixai-vos alcançar pela ressurreição! Grandes coisas, vos afirmo, há de fazer o Senhor por nós, mas nada pode comparar-se ao que já fizera.

No início da solene celebração do Sábado Santo acontece a benção do fogo. O Sacerdote acende o Círio Pascal e canta: Lumen Christi – Luz de Cristo. Sim, verdadeira luz! Luz que as trevas não podem ofuscar. A Igreja, feliz em anunciá-lo ao mundo não se contenta em cantar uma vez, pois canta três vezes.

Seja-me permitido agora voltar ao tema dos que, por amor, madrugam. “Assim o fez nesta manhã o divino Amante Cristo, continuando os desvelos do seu amor; e assim o devemos nós fazer todos os dias, para não faltar às correspondências do nosso tempo” (Padre Antonio Vieira, Sermão da Ressurreição). Que grande madrugador é o amor! Como vemos, ele não deixa-se embalar pelos pesados olhos que faz transparecer o sono; sem mesmo diria que pode o amor bocejar. “Inquietas res est amor: parcem diligis, si multum quiesces – O amor é um espírito sempre inquieto, e quem aquieta muito, sinal é que pouco ama”, nos há dito o filósofo Platão. Jamais dorme o amor! Platão deveria saber o que era o amor, mas Cristo o soubera mais; e o soubera não apenas porque nunca tivesse o Seu amor dormido, mas porque Ele mesmo é o Amor. Durmam os sentidos e ainda teremos amor; durma o amor e já não servir-nos-ão nem os sentidos e nem nada mais, pois quem não ama torna-se vazio e nada do que faça haverá de preenche-lo. Perdeu-se há muito tempo o verdadeiro sentido do amor. Todos amam e a tudo amam. Criam essenciais supérfluos em suas vidas e esquecem que o único essencial é Deus.

Por ser o próprio Amor, madruga o Senhor antes mesmo que o sol desponte os seus primeiros raios, deveras que quando despontar o sol já será dia, e vem o Senhor para dissipar as trevas. Pois uma vez que estava ainda escuro que não chamam os evangelistas de sombra, senão que de trevas, como poderá afirmar alguns que o sol já havia despontado na ressurreição? Ora e quem é o verdadeiro sol que alumia a tudo com seu brilho? Não é o Cristo esta venturosa luz que curvamos para adorar? Como bem afirmara o salmista: “Desperta minha glória… quero acordar a aurora” (Sl 56, 9). Dirão os poetas que a aurora é quem desperta o sol, Davi no-lo dirá o contrário. Pois que a aurora nos acorde é prodígio da natureza, mas que se desperte a aurora não seria prodígio, e sim milagre. E quem poderia despertar a aurora? Excitabo auroram! O mesmo que desperta sua glória; que dá vida à humanidade e dá verdadeiro sentido à vida. Primeiro há de surgir a glória e assim poderá, Ele, despertar a aurora, pois será esta submetida a seu excelso poder.

Que dia preparou-nos o Senhor! Oh dia! Não qualquer dia, mas o dia dos dias. Deus meu, que grande amor Vós nos tens. Que havemos de neste dia fazer? Pergunto-vos hoje. Que sentimentos tomam vossos corações? “Entristecer-nos? Tremer? Temer? – pergunta Padre Vieira – Encarcerar-nos? Sepultar-nos? Meter-nos na sepultura donde Cristo saiu? A esta pergunta não se pode responder do púlpito; do confessionário sim! Se estais em estado de pecado mortal, temei e tremei, e cause-vos grande tristeza a ressurreição; mas se estais em graça de Deus, e tendes propósitos firmes de a conservar, alegrai-vos, ponde a vossa alma e o vosso coração muito de festa, e não temais” (Sermão da Páscoa, 1658).

Pois se muitos de vós estais a vos incomodardes com tais palavras sinto-me mui honrado, pois que a um pregador do Evangelho em primeiro lugar há que ter amor a Cristo, e depois a coragem. Dirá Paulo: “Denunciai abertamente as obras das trevas” (Ef 5, 11). Pois a dia mais oportuno que este para fazê-lo?

Peçamos ao Senhor que, no dia que foi vencida a morte, possamos com Ele ressuscitar à uma nova vida. Que sejamos reflexos do Seu amor bondoso. Pedimos que desperte a Igreja, para que seja purificada e continue a dar testemunho de santidade aos homens de hoje, fazendo com que eles possam ler o Evangelho em nossas vidas.

Concluíndo este artigo aproveito para formular a todos vós os meus votos de uma Santa Páscoa!