A Santíssima Trindade: Fonte de todo o Bem


Neste Domingo, terminado o Tempo Pascal e de volta ao Tempo Comum, celebramos a Solenidade da Santíssima Trindade. Manifesta-se, desta forma, a presença salvífica desta no mundo e, ao mesmo tempo, o consolo que traz à Igreja, e a nós seus membros, nas tribulações pelas quais passamos e haveremos de passar.

Na figura da Trindade contemplamos o perfeito exemplo de comunhão, uma demonstração de que somente quando se age em conjunto, com Deus e consigo mesmo, os homens podem alcançar a transcendência que almejam. A Comunidade perfeita nos impulsiona nesta busca e nos mostra que Deus não está distante, mas age por nós, conosco e em nós; e por meio deste “agir” os homens tornam-se verdadeiros imitadores de Cristo.

Na primeira leitura, hoje retirada do livro do Êxodo (cf. 34, 4b-6.8-90), Moisés clama ao Senhor: “Senhor, Senhor! Deus misericordioso e clemente, vagaroso na cólera, cheio de bondade e de fidelidade”. Este é o Deus que adoramos! Não é um Deus colérico, mas amoroso, que desceu das nuvens para comunicar-se conosco, que não escondeu sua face de misericórdia, mas mostrou-a ao mundo; um Deus que não permaneceu inacessível nas alturas, satisfeito com sua autossuficiência, mas quis estabelecer um diálogo conosco, quis fazer-se um de nós para que pudéssemos conhecer este outro nome que damo-lo: Amor. Deus é amor! O amor, sabemos, não conhece a ira e a desunião, não conhece o ser “inacessível”, mas está ao lado, fortalecendo, não deixando que desanimemos. O amor é reflexo da Trindade, que primeiro nos amou, e da qual não pode vir o mal, ele não é interesseiro e sim gratuito. Por isso, santo Agostinho dirá: “Vides Trinitatem, si charitatem vides – Vês a Trindade, se vês a Caridade” (De Trinitatem, VIII, 8, 12).

Hoje vê-se que os homens não mais buscam contemplar o rosto de Deus, não desejam serem reflexos de Deus, mas de si próprios. E é por causa desta divulgação egocêntrica da auto-imagem que a sociedade está desnorteada, perdendo a direção que deve seguir, perdendo Deus de vista. Se o caminho do homem não for Deus ele jamais poderá encontrar a felicidade eterna e jamais poderá ter esperanças. Se o caminho do homem não for Deus sua vida será em vão e os progressos, ditos em nome de um mundo melhor, serão armas de destruição. A Sagrada Escritura conhece apenas um Deus, o Deus de todos os povos, de Abraão de Isaac e de Jacó (cf. Ex 3,1). Mas quando o homem não caminha segundo as leis de Deus ele acaba por criar outros deuses, como fora feito na Mitologia grega. Deveras, lá encontramos deuses que agiam de forma correta ou ruim, que matavam, que torturavam…, etc. Nosso Deus, porém, é um Deus que ama, que acolhe, que perdoa, que é de todos e, acima de tudo, não é uma estória mas uma Pessoa que encarna-se e que passa a ser um de nós em Cristo, Aquele que é “imagem do Deus invisível” (Cl 1, 15). E isto Jesus diz no Evangelho: “Tanto Deus amou o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16).

Deus age na história! Esta ação singular não é individual, mas comunitária, que abrange todas as três Pessoas divinas: “O Pai cria todas as coisas por meio do Verbo, no Espírito Santo” (Santo Atanásio, Ep. 1 ad Serapionem, 28-30). Assim, a Teologia nos explica que ao falarmos de Deus não nos referimos apenas ao Pai, mas também ao Filho e ao Espírito Santo “que procede do Pai e do Filho” (Símbolo niceno-constantinopolitano).

Ele está próximo a nós! Para isso, no entanto, é necessário que nos abramos à sua graça redentora e salvífica; que deixemo-nos tocar por seu amor e que sejamos um com Ele.

É nesta “graça” que São Paulo reúne a comunidade de Corinto, é nesta graça que nós nos reunimos em cada celebração eucarística, quando o celebrante profere: “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós” (2Cor 13, 13). É precisamente desta “Graça” que os povos sentem falta. E esta falta não é causada por uma ausência da graça no mundo, mas por uma ausência do mundo na graça. Nossa história deve estar firmada no nome de Deus. Só Deus pode solidificar as bases trêmulas de uma humanidade desumana, que dEle se afasta, que já não mais O faz centro, mas centraliza seus gostos. E esse perigo bate à nossa porta. Onde Deus deixa de ser o centro os caprichos e futilidades, a violência e a falta de fé, sufocam o homem e o atiram-no para um abismo criado por ele mesmo. A verdadeira autonomia do homem não está no achar-se superior a Deus, mas no inclinar-se perante Ele, no reconhecer a sua “essência” de filho e no estar aberto ao relacionamento com os irmãos.

Já na Sagrada Escritura vemos que Jesus revela aos discípulos o mistério da Trindade, que jamais pode ser compreendido pelos homens. Quando Filipe pede que Jesus mostrasse-lhes o Pai Ele responde: “A tanto tempo estou convosco e não me conheceis Filipe! Quem me viu, viu também o Pai. Não credes que estou no Pai, e que o Pai está em mim? As palavras que vos digo não as digo de mim mesmo; mas o Pai, que permanece em mim, é que realiza as suas próprias obras” (Jo 14, 9-10). Desta forma fica clara a pessoa de cada um, a essência igual de todos e a intrínseca união existente entre eles. São um! O pedido do discípulo não expressa a sua ignorância, mas a gritante necessidade que o mundo tem de ouvir essa resposta de Jesus.

Esse grito ecoa em todos os cantos da terra, mostrando que Igreja deve ser “espelho” da Trindade. “Numa sociedade tensa entre globalização e individualismo, a Igreja é chamada a oferecer o testemunho da koinonia, da comunhão. Esta realidade não vem ‘de baixo’, mas é um mistério que, por assim dizer, tem as ‘raízes no céu’: precisamente no Deus Uno e Trino. Ele, em si mesmo, é o eterno diálogo de amor que Jesus Cristo nos comunicou, entrando no tecido da humanidade e da história para levar à plenitude” (Homilia do Papa Bento XVI, 18 de maio de 2008).

Que Maria, Filha do Pai, Mãe do Filho e Esposa do Espírito Santo, interceda constantemente pela Igreja, para que seja sinal de unidade entre os povos