Quaresma: Momento favorável para a conversão


Mais uma vez somos convidados pela Igreja ao tempo quaresmal. Neste período faz-se ecoar em nosso coração o clamor do Senhor: “Voltai para mim com todo o vosso coração, com jejuns, lágrimas e gemidos; rasgai o coração, e não as vestes; e voltai para o Senhor, vosso Deus; ele é benigno e compassivo, paciente e cheio de misericórdia, inclinado a perdoar o castigo” (Joel 2, 12-13). Deter-me-ei primeiramente nesta profecia para melhor adentrarmos ao mistério celebrado.

Como, neste dia de Cinzas e início de Quaresma, poderemos nos esvaziar de qualquer sentimento de engrandecimento e prepotência e rasgarmos o coração? Como poderemos mostrar a outros que o que realmente Deus olha é o coração e não o exterior? Primeiramente tenhamos em mente que é necessário testemunharmos. É preciso que o cristão seja uma testemunha veemente do evangelho. Nada mais nos pede o Senhor, senão que rasguemos os corações. E por que nos pede que rasguemos o coração e não as vestes? Por que as vestes se rasgam mas não se vê o coração, e o coração rasgado, ainda que não se rasguem as vestes, pode ser visto. A ascese neste período constitui algo fundamental na experiência da humildade cristã e nos faz reconhecer que nada somos, mas Deus é tudo e Ele tudo pode.

É triste vermos, pois, que a nossa sociedade não mais quer voltar-se à Deus, senão aos prazeres e efemeridades que este mundo oferece. O mundo necessita de Deus! Deus está próximo do mundo, mas o mundo não quer estar próximo dEle. Ainda clamamos, em comunhão com toda a Igreja: O Senhor quer perdoar-vos! Ele é um Deus amoroso! Achegai-vos a Ele! É sabido que ninguém pode resistir sem Deus. Qualquer sociedade sem Deus jamais, por si só, ficará de pé. É Deus quem sustenta todos os homens, e os fortalece em sua caminhada. Quando parecemos estar sós, quando parecemos desesperançados, Deus nos estende a mão, manifesta sua misericórdia e nos convida a levantar novamente. Não estamos sós nestas provações, estamos com Deus! Não rasguemos as vestes pois elas não demonstram o que somos, rasguemos o coração, para que vendo o nosso amor outros também o façam.

Neste sentido, as Cinzas, impostas hoje em nossa cabeça pelos sacerdotes, demonstram o que somos: pó, e é ao pó que retornaremos. Nada somos! Somos criados à imagem e semelhança de Deus. Não fisicamente nos assemelhamos a Ele, mas o nosso espírito deve ser semelhante. Que semelhança a criatura pode ter com o que Lhe fez? O amor! O amor nos assemelha a Deus. Um amor que deve ser incondicional. E ponho-me muitas vezes a perguntar para que apegar-se tanto aos bens materiais? Para que arrogância e prepotência? Para que se fechar à sempre nova mensagem do Evangelho? Nossa vida assemelha-se a um sopro. Que seja sopro do Espírito Santo, e não das frivolidades que tentam impor-se em nossa cultura.

Memento homo, quia pulvis es, et in pulverem reverteri – Lembra-te que és pó e ao pós hás de voltar”. Claro está que com esta frase, dita pelo sacerdote na imposição das cinzas sobre nossas cabeças, resume-se todo o sentido da nossa espiritualidade quaresmal. O brado evangélico da salvação associa-se a estas palavras da Escritura. Não é a vivência da vida de forma desenfreada que será para nós garantia de uma felicidade. “Recorda-te que é pó”. Mas o que precisamente simboliza este pó? Em primeiro lugar devemos recordar que não significa um período que se esvai da nossa vida reduzido a mera finitude deste mundo, e, portanto, uma parte que pode ser apagado, mas vai além disso: O pó recorda-nos que nada somos, que nossa vida não é eterna; que não persiste a matéria, mas a nossa alma que transcende a Deus. O verdadeiro sinônimo de felicidade não pode ser encontrado se não estiver totalmente radicado na perspectiva evangélica da conversão.

Na segunda leitura São Paulo convida-nos a reconciliarmo-nos com Deus. Eis o momento propício para que o mundo se volte a Ele. Voltemo-nos hoje! Agora! Deixai de lado a mediocridade que levais em vossas vidas. “’No momento favorável, eu te ouvi e, no dia da salvação, eu te socorri’. É agora o momento favorável, é agora o dia da salvação” (2 Cor 6,2). Este clamor de Paulo, perpassados dois mil anos, convida-nos a deixar de lado este velho homem. Deixai de lado a vida laxa que levais! Cristo está a bater na porta e vós não escutais. Este momento favorável não virá, mas já está entre nós. É Deus quem nos socorre. A dualidade da vida de um homem faz com que ele perca todas as suas esperanças, sente-se só, isolado de toda uma realidade que parece estar além dele. Mas quem possui Deus, ainda que a vida oscile e manifeste-se em várias direções, a perseverança e o amor não deixaram que percamos nossa fé.

Só Cristo pode transformar qualquer situação de pecado em novidade de graça. Eis por que assume um forte impacto espiritual a exortação que Paulo dirige aos cristãos de Corinto: “Em nome de Cristo suplicamos-vos: reconciliai-vos com Deus”; e ainda: “Este é o tempo favorável, é este o dia da salvação” (5, 20; 6, 2).

Hoje vos convido, irmãos, a mudarem de vida. Despi-vos do que era velho, o Senhor nos traz o que é novo. A cada Quaresma, preparando-nos para a Semana Santa, o Senhor faz-nos recordar a sua constante fidelidade e a sua maior prova de amor: a doação de seu Filho único. E creiam meus irmãos: nada é maior e nenhuma prova de amor maior podemos esperar do que esta grande e humilde atitude de Deus.

O mundo deixou-se contaminar pelo veneno de Satanás! Ele está procurando afastar-nos de Deus para nos atrair aos seus desejos, e admitamos que ele está a conseguir. E aqui o nosso Cristianismo deve fazer-se presente. Devemos fazer com que o próximo veja em nós o rosto de Cristo, sempre presente e acolhedor. Nossa Igreja não pode fundamentar-se em leis se em primeiro lugar a caridade não se fizer presente, pois do contrário será endurecida. A Igreja deve ter leis, deve prezar pelas alfaias e pela liturgia, mas se não prezar pela caridade antes de qualquer coisa, perderá toda a sua fundamentação e tudo tornar-se-á vazio.

Este ano o Santo Padre Bento XVI nos oferece como meditação quaresmal com a mensagem do autor sagrado: «Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras» (Heb 10, 24). Estas exortantes palavras tomam um grande sentido sobretudo ao contemplarmos a nossa sociedade secularizada, que já não mais coloca-se no exercício da caridade cristã. Peçamos ao Senhor que renove os nossos corações; que estejamos atentos para ajudar-nos uns aos outros na caminhada. Que sejamos capazes de despojar-nos dos nossos desejos e de todas as coisas que prendem a nossa atenção na superficialidade.

Que nesta Quaresma clamemos ao Senhor por um coração renovado, capaz de estar sempre disposto a perdoar e capaz de configurar-se a Cristo por meio disto. Que Maria Santíssima interceda sempre por nós!

Uma Santa Quaresma a todos!