Sacrosanctum Concilium. Parte quatro. A plenitude do culto divino.


FONTE: http://is.gd/wQ9lyx

O primeiro capítulo da Sacrosanctum Concilium pretende falar-nos sobre os princípios gerais da reforma e dos incrementos à liturgia.

Logo no início menciona sobre Jesus Cristo, salvador do mundo. A primeira parte do número 5 é um parágrafo em que não há muito o que comentar, haja visto que faz algumas referências bíblicas para chegar ao cerne da questão que é óbvia: Cristo veio para nos salvar.

Pois bem, essa primeira parte do número 5, entretanto, tem uma citação deveras interessante para constar no documento sobre liturgia, não porque seja diferente do tema, longe disso, mas porque trata-se de uma frase vinda de um sacramentário datado de 1956 e que deveria ser visto com muito mais profundidade e seriedade do que é visto hoje.

A frase encerra o primeiro parágrafo do número 5 assim: “Por isso, em Cristo ‘se realizou plenamente a nossa reconciliação e se nos deu a plenitude do culto divino’”. A frase foi retirada do Sacramentário de Verona (Leoniano): ed. C. Mohlberg, Roma, 1956, n.° 1265, p. 162 e tem uma profundidade que não pode passar em brancas memórias.

Ao se dizer que em Cristo se realizou plenamente a nossa reconciliação, o sacramentário não pretende apenas enfatizar a reconciliação ao utilizar a palavra plenamente. A palavra plenamente está muito bem colocada pelo simples fato de que precisamos entender que antes de Cristo nossa reconciliação era uma sombra de reconciliação. Não havia meios eficazes de alcance de Deus que nos pudesse reconciliar com Ele plenamente, sem mácula e sem mancha. Pensando assim fica fácil entender que não era possível entrar no reino dos céus, uma vez que só com a vinda de Cristo essa reconciliação acontece plenamente. Antes havia manchas e máculas, o que impossibilitava a presença junto ao Pai, daí a importância da existência do limbo dos patriarcas, os infernos ou, como consta no credo que muitos rezam nas missas hoje em dia: mansão dos mortos.

Certo, mas o que nos interessa realmente é a liturgia, já que o documento é litúrgico. Essa plena reconciliação foi um dos efeitos da encarnação e morte de Cristo, o outro foi a plenitude do culto divino.

Cristo morre a cada missa. Não se trata de outra morte, ou de morrer outra vez. Se trata da mesma morte acontecida fora de nosso tempo humano e limitado. A mesma morte ocorrida há dois mil anos é a morte que acontece em cada missa celebrada. Deus não está no tempo. O tempo é criatura. Deus não pode se sujeitar a uma criatura Sua, a não ser que faça parte de Sua vontade, o que não é o caso. A morte de Cristo em cada missa, a mesma morte que ele sofreu há dois mil anos, é a plenitude do culto, isso porque Cristo é o cordeiro de Deus.

Os sacerdotes judeus sempre oferendavam a Deus o que tinham de melhor. Assim o foi desde Adão, que ensinou a Abel e Caim, embora Caim não tivesse aprendido muito bem a lição, já que matou Abel justamente por ciúmes da aceitação por parte de Deus das oferendas de Abel e não as de Caim. A Deus sempre o melhor, isso Abel aprendeu. Caim não. Por esse motivo os sacerdotes ofereciam suas próprias oferendas e as oferendas que o povo levava a eles, sacerdotes, para serem sacrificadas. Uma oferta humilde e limitada que a humanidade ofertava a Deus em pedido de remissão pelos seus erros e para cultuar a Deus.

Obviamente que as ofertas eram aceitas quando realmente feitas de bom grado e sendo o melhor do que tinham, contudo nada disso poderia sanar um profundo erro da humanidade: querer ser Deus. Toda vez que pecamos tentamos tomar o lugar de Deus, já que vamos contra Seu plano perfeito de salvação e contra tudo o que Ele nos planejou, ou seja, tentamos saber melhor que Ele o que é melhor a cada um de nós. Tentamos nos salvar sem a presença imprescindível de Deus.

Para que esse erro terrível fosse sanado, não era suficiente o sacrifício de cabras, bodes, pombos e cordeiros. Era necessário que o próprio Deus derramasse Seu próprio sangue. Isso só poderia ser feito pela encarnação de Deus. Cristo é Deus feito homem. Faltava a parte do sacrifício. Era preciso que, após Deus se fazer homem, fosse entregue como vítima, como cordeiro, para que pudéssemos ter a chance de salvação. Só o sangue divino poderia libertar de tão grande erro, de tão grande pecado.

Essa forma encontrada por Deus de nos dar a chance de fazer parte do projeto salvífico, estando na presença de Deus e estando com Ele face a face, é o maior motivo para nossa plenitude de culto divino.

Com a morte de Cristo todos agora temos a chance de salvação, temos que fazer nossa parte, afinal o livre-arbítrio continua, mas agora podemos buscar a salvação que acontece em Deus. Esse sacrifício, não mais uma sacrifício de animais, mas o sacrifício do próprio Deus que morre por amor, um amor que transborda tamanha é sua imensidão, é o que celebramos na missa de ontem, de hoje e de sempre. A missa sempre será sacrifício e, por isso mesmo, local de profundo respeito e contemplação.

O concílio Vaticano II logo em seu início nos lembra de tudo isso em uma pequena e as vezes intangível frase.

Nunca esquecer que a morte de Cristo é o que nos traz a plenitude do culto divino. Essa parece ser a mensagem inicial do documento SacrosanctumConcilium. Muito diferente do que muitos pregam por ai, não?