Sacrosanctum Concilium, Parte Seis. Santa Missa: culto agradável a Deus e o caráter esponsal de Cristo com Sua Igreja.


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Gostaria de voltar a insistir no início do documento conciliar Sacrosanctum Concilium, mais especificamente em seu número 7.

A riqueza de conteúdo de um simples parágrafo que trata da presença de Cristo na liturgia é imensa, senão vejamos:

7. (…) Em tão grande obra, que permite que Deus seja perfeitamente glorificado e que os homens se santifiquem, Cristo associa sempre a si a Igreja, sua esposa muito amada, a qual invoca o seu Senhor e por meio dele rende culto ao Eterno Pai.

A grande obra mencionada, sem dúvida é a missa que o parágrafo anterior e todo o documento discorrem, entretanto, logo na primeira frase desse parágrafo algo significante é revelado:

“(…) permite que Deus seja perfeitamente glorificado e que os homens se santifiquem, (…)

Ora, a Santa Missa permite que Deus seja perfeitamente glorificado, então porque modificá-la ao bel prazer de quem assiste ou pretende prepará-la? A perfeição mencionada não é figurativa, é conceitual. Perfeição é perfeição. Algo perfeito não precisa ser modificado. Tudo se modifica porque busca a perfeição, penso que não há dificuldades em entender isso. Se a missa “permite que Deus seja perfeitamente glorificado”, não é a mudança inserida por um sacerdote desobediente ou mal-formado ou mesmo uma equipe de liturgia mal-conduzida e muito garantidora de si que poderá modificar a liturgia ao seu bel prazer.

A perfeição inserida na liturgia por todos os motivos imaginados e ainda o caráter sacrifical e de culto que a Santa Missa traz consigo, garante a ela o direito de não ser modificada a não ser por quem de direito, por quem tem o poder de ligar e desligar concedido pelo Cristo (Mt. 16, 18 ss) e porque quem tem o poder de pastorear (Jo 21, 15-17). Sim, a Igreja pode modificar a liturgia, mas obviamente não como um todo, o cerne da Santa Missa nunca poderá ser modificado, nem mesmo pela Igreja de Cristo.

Em outro momento, dentro da mesma frase, temos o seguinte:

“(…) e que os homens se santifiquem.

Ora, se a Santa Missa permite que Deus seja perfeitamente glorificado, por obviedade que a consequência disso é a santificação dos homens, que não são alvos da Santa Missa, já que é culto agradável a Deus (Rm 12,1-2) instituído pelo próprio Cristo, mas os homens ali presentes se santificam pelo Espirito Santo de Deus que é amor (1Jo 4,8 e 1Jo 4,16) e transborda esse amor gerando cada um de nós e o mundo a nossa volta com o poder santificador que só através de Deus pode vir.

Esse ponto é o que os protestantes não conseguem compreender, alguns por absoluta ignorância (que é o que os salva) e outros por total má-fé (que é o que os condena). Só Deus salva e o único mediador é Cristo (1Tm 2, 5), contudo essa salvação santificante vem através da missa quando há a consagração do corpo e sangue de Cristo (Eucaristia) conforme prescrito por Ele próprio. Cristo morreu para nos salvar, Ele não ressuscitou para nos salvar. Por esse motivo a Santa Missa é a celebração da cruz, da morte e não da ressurreição que só é memorial nesse milagre que todos os dias acontece sobre a Terra e nos passa desapercebido.

Para se chegar a estar plenamente preparado para ter Cristo dentro de si é preciso seguir um sério caminho santificador que não é fácil de ser percorrido e que não se percorre sozinho. Nesse ponto entram os santos e a maior de todas, Maria, aquela que é o ser humano mais perfeito criado por Deus; além da Igreja, claro (Hb 5,1). É Deus que salva e é Cristo o mediador, o que não impede que outros mediadores nos levem a Cristo. Levando-nos a Cristo levam-nos, infalivelmente, à Santa Missa que, por sua vez, tem esse poder santificante sobre os homens.

Terminando esse ínfimo parágrafo que muito diz em pouquíssimas palavras, temos o seguinte:

“(…) Cristo associa sempre a si a Igreja, sua esposa muito amada, a qual invoca o seu Senhor e por meio dele rende culto ao Eterno Pai.”

Cristo sempre se associa a Sua Igreja pelo fato de que é Sua esposa amada. Assim como o homem se associa permanentemente à sua esposa quando enlaçados pelo matrimônio, Cristo se associa inseparavelmente à Sua esposa que é a Igreja e por meio dela presta culto ao Pai, assim como deve ser prestado culto ao Pai pelos esposos em seu matrimônio.

Cristo quis unir-se à Igreja por meio de uma aliança indissolúvel e, mesmo que não esteja presente fisicamente no meio de nós, Ele está de forma sacramental e esponsal no seu corpo místico: a Igreja, sua esposa, afinal os esposos se tornam uma só carne (Gn 2, 24; Mt 19,5; Mt 19,6; Mc 10, 8 e Ef 5,31). Tornando-se uma só carne com Cristo, a Igreja é Cristo no meio de nós. Uma breve leitura de Os 2,21-22 e mais especificamente do capitulo segundo inteiro, pode nos abrir a mente quanto ao caráter esponsal havido entre Cristo e Sua Igreja.