Sacrosanctum Concilium. Parte nove, A promessa divina realizada na Santa Missa.


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Sacrosanctum Concilium. Parte Nove. A promessa divina realizada na Santa Missa.

Em continuidade ao número 8 do documento intitulado Sacrosanctum Conciliumtemos que, além de entender que a Liturgia da qual participamos aqui é uma antecipação da liturgia celeste; que essa mesma liturgia é lugar de onde nos dirigimos à Deus, conforme por várias vezes já foi mencionado e que o documento nada mais faz do que confirmar o que estamos tentando dizer:

8. Pela Liturgia da terra participamos, saboreando-a já, na Liturgia celeste celebrada na cidade santa de Jerusalém, para a qual, como peregrinos nos dirigimos e onde Cristo está sentado à direita de Deus (…)

A Santa Missa se mostra um caminho que deve ser trilhado por todos nós, entendendo que Cristo é o Caminho (João 14, 6a) como Ele mesmo já nos disse. Na Santa Missa temos o sacrifício de Cristo, escândalo para um sem número de pessoas, cristãs ou não, que nos leva à salvação, afinal, Cristo morreu para nos salvar e abriu o caminho para que todos nós pudéssemos chegar ao Pai, contudo é preciso querer, é preciso buscar, é preciso trilhar esse caminho.

(…) por meio dela cantamos ao Senhor um hino de glória com toda a milícia do exército celestial, esperamos ter parte e comunhão com os Santos cuja memória veneramos, e aguardamos o Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo, até Ele aparecer como nossa vida e nós aparecermos com Ele na glória (23).

Os anjos não à toa participam da Santa Missa. Ela é o apogeu da adoração divina e toda criatura deve fazer essa adoração (Filipenses 2, 9-10). Obviamente que o grau de entendimento dos anjos é muito maior que o grau de entendimento do mais entendido dos seres humanos, contudo só podemos pagar por aquilo que sabemos e entendemos. Como diriam alguns: a ignorância salva mais do que qualquer outra coisa nesse mundo (Atos dos Apóstolos 17, 30).

Algumas passagens bíblicas são cristalinas para o entendimento da Santa Missa como ela é e como foi sendo inserida na humanidade desde o princípio.

Desde o início Deus faz uma aliança com Abraão, então Abrão, o que pode ser lido em Gênese 15, 5-19. A passagem parece estranha e com costumes estranhos aos nossos, porém, ao ser entendida como um pacto, podemos chegar a algumas conclusões.

Deus diz a Abrão que lhe dará uma infinita descendência:

E, conduzindo-o fora, disse-lhe: “Levanta os olhos para os céus e conta as estrelas, se és capaz… Pois bem, ajuntou ele, assim será a tua descendência.” (Gênesis 15,5)

Essa era uma promessa divina e certamente seria cumprida, contudo Abrão, mesmo confiando deixa transparecer uma ponta de dúvida ao perguntar a Deus:

“O Senhor Javé, como poderei saber se a hei de possuir?” (Gênesis 15, 8)

Deus, em Sua infinita misericórdia não leva a pergunta com maus olhos e entende a dúvida de Abrão, afinal era uma promessa sem precedentes e de uma grandeza sem fim. É preciso entender que a grandeza dessa promessa não estava somente na quantidade de descendentes, mas na possibilidade de ter esses descendentes. Nossa sociedade atualmente parece inverter os papéis e entender que uma grande prole e uma larga descendência é uma praga, uma espécie de maldição. As pessoas não mais querem filhos e preferem cachorros e gatos, contudo Abrão e toda a sociedade em que ele estava inserido não entendia assim, pelo contrário, tinha nessa grande prole e grande descendência o entendimento de que é uma bênção de Deus, como na verdade é.

Pois bem, Abrão considerou essa bênção grande demais e por isso faz a pergunta para Deus querendo saber como poderá saber se há mesmo de possuir tudo aquilo.

Deus responde com uma ordem estranha para nossos costumes:

“Toma uma novilha de três anos, respondeu-lhe o Senhor, uma cabra de três anos, um cordeiro de três anos, uma rola e um pombinho.” (Gênesis 15, 9)

A ordem de Deus para Abrão é um tanto quanto estranha, mas muito óbvia para Abrão que não titubeia e já parte em busca desses animais.

Como podemos perceber, Abrão já sabia o porque de Deus pedir esses animais e já prepara tudo sem mesmo que Deus determine algo mais, vejamos:

Abrão tomou todos esses animais, e dividiu-os pelo meio, colocando suas metades uma defronte da outra; mas não cortou as aves. (Gênesis 15, 10)

Deus não manda a Abrão que ele divida os animais ao meio, mas Abrão já faz isso porque já compreendeu o que Deus pretende.

Era costume da época que, quando selado um pacto, comercial normalmente, ou uma promessa qualquer feita entre duas pessoas, se pegasse animais e os partisse ao meio. Os dois pactuantes passavam entre os animais prometendo que se não cumprirem a promessa “que aconteça comigo o que aconteceu com esse animal”, ou seja, que morra da forma mais horrível possível. Tudo porque não cumprir o pacto.

Deus entende esse costume e Abrão também, por isso esse ritual já é prontamente organizado por Abrão.

Entretanto, a sequência dos fatos não acontece exatamente como Abrão esperava, nem como era o costume. Após uma clara profecia sobre o que aconteceria ao povo de Israel no Egito, inclusive o êxodo, a Bíblia nos relata o seguinte:

Quando o sol se pôs, formou-se uma densa escuridão, e eis que um braseiro fumegante e uma tocha ardente passaram pelo meio das carnes divididas. (Gênesis 15, 17)

Como dissemos, no meio dos animais divididos deveriam passar aqueles que fazem o pacto, ou seja, no caso em questão deveriam passar Deus e Abrão. Deus se manifesta por várias vezes como fogo, como bem sabemos. Existe o episódio da sarça ardente (Êxodo 3, 1-4), também pela invocação de Elias para provar que Deus era único e não existia nenhum Deus Baal (1Reis 18, 24ss) e outras tantas passagens.

Nesse caso, o fogo, que era Deus, passou sozinho por entre os animais partidos. O que isso poderia significar? Ora o significado é por demais óbvio: Deus assume toda a responsabilidade sozinho. É claro que Deus não descumpriria Sua palavra, contudo o homem, corrompido pelo pecado original e tendente sempre ao pecado, certamente descumpriria. Deus assume sozinho a responsabilidade e seria partido ao meio, ou seja, morto da pior forma, caso houvesse algum descumprimento de qualquer das partes.

A morte de Cristo nada mais foi do que o cumprimento dessa promessa e de tantas outras. Nessa promessa feita com Abrão, Deus se entrega à morte mais horrível não por Seu próprio descumprimento do que foi pactuado, mas pelo descumprimento da humanidade, isto é, morre por nós e no nosso lugar.

A morte de Cristo vem sendo confirmada na história do povo de Israel desde muitos anos antes da vinda do próprio Cristo e, antes mesmo dessa morte Cristo nos ensina muitas coisas entre elas a Santa Missa que deve ser celebrada apenas por aqueles que foram escolhidos e chamados pelo nome, apenas pelos Apóstolos e aqueles que o sucederem. Trata-se de um mandato divino, algo a ser discutido em outro texto.

É o cumprimento dessa promessa divina o que celebramos na Santa Missa e é nessa esteira que o altar se torna Calvário, celebrando a mesma morte de um Deus atemporal em cada Santa Missa diariamente celebrada em milhares de lugares pelo mundo.