“Tu és meu filho e hoje te gerei”: Solenidade do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo

Após o ciclo de quatro semanas propostas pela Igreja no tempo do Advento, celebramos hoje a Solenidade que faz maravilhar nossos corações: o Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo. Deus entra no espaço e no tempo dos homens. Fá-lo para realizar plenamente a salvação daqueles que estavam carregados com o julgo do pecado.

Apparuit enim gratia Dei salutaris omnibus hominibus – Manifestou-se a graça salvadora de Deus a todos os homens” (Tt 2, 11). Esta é a festa da gloriosa manifestação da graça santificante. Somos envoltos na luz da misericórdia e do amor de Deus, um Deus que faz-se um de nós assumindo o rebaixamento da nossa condição humana. Esse amor não aparece, mas manifesta-se. Manifesta-se, pois já existia, e porque já existia manifestou-se. Mas que coisa é para nós hoje esta manifestação? O que ela representa aos nossos dias atribulados pela valorização de coisas efêmeras, de guerras, de ódios, de divisões? Vemos com grande tristeza a perda dos valores natalinos. Enfeitamos as casas, os comércios, os, porém, corações continuam despreparados para acolher o Menino Deus que vem para libertar-nos do pecado. Os símbolos natalinos perdem seu valor e em nada traduzem o espírito natalino quando são privados de exalar o perfume de Cristo. A Igreja não cessa de convidar os católicos para que, profundamente tomados pela força revigoradora do Cristo, possam manifestar ao mundo que o verdadeiro espírito do Natal não há de consistir apenas nos presentes, pois hoje nos é dado o maior presente; também não há de consistir apenas na árvore de Natal, pois os céus se abrem hoje para manifestar que a Árvore da Vida implanta-se no mundo para nos guiar até o céu.

A manifestação daquele recém-nascido envolto em panos é também o grito de tantas crianças colocadas à margem da sociedade e que nesta noite, tomadas pela escuridão e pelo frio que as cercam não estão incluídas em seios familiares. A elas também dirijo o meu pensamento e peço que não se sintam abandonadas, mas que sintam a presença do Menino Jesus que as ama e com elas permanece sempre.

O Senhor faz-se pequeno para que a o gênero humano pudesse ser engrandecido, e o homem, tomado em sua totalidade, visse a manifestação da glória de Deus, mas não somente a visse como também a experimentasse, tocasse, por assim dizer, pudesse fazer parte dela. Só desta forma os homens poderiam sentir-se abraçados pelo grande amor de Deus, por Aquele que, a princípio, por ser grande e estar infinitamente acima de nós parecia-nos distante e inalcançável.

Na manifestação humilde do Filho de Deus o mundo encontra uma resposta a todas as suas angústias, a todos as suas interrogações. Só Deus pode responder verdadeiramente aos anseios do homem e só d’Ele provém a felicidade eterna e verdadeira, que não se restringe a um instante mas é algo novo, diferente. A alegria que provém de Deus não muda somente o estado de espírito do ser humano; ela vai além: muda o modo de viver, muda o coração e também os objetivos que deseja alcançar. Esta, e só esta, é a felicidade divina.

Na sua maravilhosa obra Confissões, Santo Agostinho irá manifestar um triângulo de relacionamentos em um parágrafo que considero um dos mais belos. Diz ele: “Ó eterna verdade e verdadeira caridade e cara eternidade! Tu és o meu Deus, por ti suspiro dia e noite. Desde que te conheci, tu me elevaste para ver que quem eu via, era, e eu, que via, ainda não era. E reverberaste sobre a mesquinhez de minha pessoa, irradiando sobre mim com toda a força. E eu tremia de amor e de horror. Vi-me longe de ti, no país da dessemelhança, como que ouvindo tua voz lá do alto: ‘Eu sou o alimento dos grandes. Cresce e me comerás. Não me mudarás em ti como o alimento de teu corpo, mas tu te mudarás em mim’”.

São estas belíssimas palavras que nos levam a contemplar novamente esta novidade que vem do alto. Sim, Deus é uma verdade eterna, imutável. Em um mundo que necessita exercitar seu empirismo para acreditar, a Igreja nos exorta novamente a abandonarmos esta mentalidade. Busquemos Aquele pelo qual acreditamos não por vermos e necessitarmos tocar, mas acreditamos pelo Amor, um amor incondicional que instiga-nos a caminharmos em direção do próximo, do que necessita nosso amparo e nosso amor, dos que sofrem por não amarem. A estes o Senhor faz um convite incansável: Não temam em abrir-se para o amor! Não temam em abrir-se a Mim!

Se eterna é a verdade, a caridade há de ser, então, verdadeira. Só a verdade pode levar o homem a sair de si mesmo e com Cristo, humilhar-se, e em Cristo, ser unido a Ele sem jamais deixar-se atribular por qualquer pressão do mundo. Renuncieis a esta vida e tereis a vida eterna. Renunciai a vida eterna e nem mesmo esta vida tereis, pois não existe maior desgraça para o homem do que afastar-se de seu Criador e colocar-se na condição de um ser autossuficiente, senhor de si e de seus desejos, podemos confirmá-lo nos vários sistemas políticos de autoritarismo.

A união com Cristo, como lembrará o Santo Bispo ao final de sua colocação, não é algo que assemelhá-Lo-á a mim, mas eu assemelhar-me-ei a Ele. A iniciativa foi dada por Cristo: Ele veio ao nosso encontro; tomemos agora a iniciativa de irmos ao encontro d’Ele, de sairmos das trevas, de amá-lo sem reservas. Indubitavelmente a falta de amor no mundo é consequência da falta de Deus, não porque Ele tenha se afastado do mundo, mas o mundo afastou-se d’Ele.

“O povo, que andava na escuridão, viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu” (Is 9,1). Assim escutamos nesta noite santa por meio do Profeta Isaias. Também o mundo de hoje caminha em meio a uma forte escuridão. A cultura moderna está impregnada por “sombras da morte”. Nós parecemos não enxergar nenhum sinal que venha nos animar, parecemos atordoados pelas fadigas derivadas do peso que a sociedade impõe. Nosso Senhor, no entanto, sempre aparece como Aquele que conforta-nos e soluciona as nossas tribulações. Confiemos em Deus! Não perece quem confia em Deus, mas aquele que nele não põe sua esperança logo será abatido pelos ventos contrários. Em quem colocamos a nossa confiança? Em Deus ou no mundo? No bem ou no mal? No que fortalece ou no que atribula?

Dominus dixit ad me filius meus es tu ego hodie genui te – O Senhor me disse: Tu és meu filho e hoje te gerei” (Sl 2, 7). Essas palavras a Igreja canta no Introito da Santa Missa da Noite Santa de Natal. Sim, “gerado, não criado; consubstancial ao Pai”, assim professamos no símbolo de fé niceno-constantinopolitano. Gerado desde toda a eternidade, Jesus, cumprindo o salvífico desígnio do Pai, restaura a condição humana decaída pelo pecado, reata os laços do homem com Deus, cortados por Adão e Eva.

“Enquanto estavam em Belém, completaram-se os dias para o parto, e Maria deu à luz o seu filho primogênito” (Lc 2, 6). Com esta frase, absolutamente sóbria, São Lucas narra o maravilhoso acontecimento que teve lugar na manjedoura. Mas que significado tem aqui o termo “primogênito”? Indicaria uma sucessão de filhos? A primogenitura, deste ponto de vista da Sagrada Escritura, na Antiga Aliança, não significa uma sucessão de filhos, mas é um título de honra. Jesus é sim o primogênito de Deus, de Maria e da História. Nele Deus concretiza o seu desígnio em relação a sua graça salvadora na humanidade. São Paulo usará desta palavra ao afirmar que Cristo é “o primogênito de toda a criatura” (Cl 1, 15). Sim, tendo cumprido a sua obra salvífica podemos afirmar que Ele torna-se também o primogênito de muitos irmãos. Maria, assim, poderíamos associar como mãe de muitos filhos. Aqui estão os outros filhos de Maria! Derivam da filiação adotiva, daquele que é Filho de Deus por excelência: Jesus Cristo.

“Ela o enfaixou e o colocou na manjedoura, pois não havia lugar para eles na hospedaria” (Lc 2, 7). Não havia lugar para o Senhor e para sua mãe naquela época. Também hoje muitos corações estão fechados à receptividade do Reino de Deus que vem na pessoa desta frágil criança. No frio daquela noite de Belém nasce Aquele que iria aquecer todos os corações com a chama do seu amor misericordioso. Pedimos que os corações sejam abertos a este menino salvador. Abram-se os corações e possam acolher aquele que a dois mil anos foi rejeitado.

Que lugar Jesus ocupa em nossos corações hoje? Esta pergunta deve fazer com que possamos melhor vivenciar o verdadeiro espírito natalino. Muitos corações estão endurecidos à mensagem que esta noite tem a transmitir-nos a Igreja. Enquanto a efemeridade e o secundário forem postos como necessários os homens não encontrarão a paz tão almejada. Não pode abrir-se ao mundo e aos irmãos quem antes não estiver aberto a Deus, quem não se tornar portador de sua Palavra e fizer de sua vida um Evangelho.

 “Naquela região havia pastores que passavam a noite nos campos, tomando conta do seu rebanho” (Lc 2, 8). Quem eram os pastores? Por que a eles o anúncio é dirigido primeiramente? Devemos dizer, em primeiro lugar, que eram pessoas humildes, tidas à margem da sociedade. Eram desconhecedores da Lei e, portanto, não a vivenciavam; andavam com suas ovelhas por diversos campos, inclusive campos pagãos. Por tudo isso, eram julgados pelos fariseus e considerados impuros e indignos de participar das cerimônias de culto.

Mas se por um lado lhes pesava o fardo da exclusão, por outro, todo este sacrifício deu-lhes uma consolação maior que qualquer outra: Contemplar a face do Salvador feito homem; contemplar um Deus que é tão pequeno, tão humilde, tão frágil e quis necessitar do nosso amor. Não há na mitologia grega e nos deuses romanos nenhum Deus que tenha se feito homem; mas há para nós, homens e mulheres, testemunhas do Evangelho. O nosso Deus não constitui parte de uma literatura mítica. Ele existe! Ele vive! E hoje Ele inclina-se dos altos céus não para condenar-nos, mas para nos mostrar quão grande é o seu amor; um amor capaz de doar-se, capaz de não apenas inclinar-se para olhar-nos, mas descer para estar conosco.

Precisamente esta impressão, pela qual hoje somos tomados, acometeu os pastores que contemplaram maravilhados o menino. Deixaram tudo, ao escutar o anúncio do anjo. Certamente houve um grande temor por parte deles, afinal não lhes era comum ver aquele personagem vindo do céu. O que os pastores nos ensinam? Esta resposta nos é dada pelo Papa Bento XVI: “Deles queremos aprender a não deixar-nos esmagar por todas as coisas urgentes da vida de cada dia. Deles queremos aprender a liberdade interior de colocar em segundo plano outras ocupações – por mais importantes que sejam – a fim de nos encaminharmos para Deus, a fim de O deixarmos entrar na nossa vida e no nosso tempo. O tempo empregue para Deus e, a partir d’Ele, para o próximo nunca é tempo perdido. É o tempo em que vivemos de verdade, em que vivemos o ser próprio de pessoas humanas” (Homilia do Natal do Senhor, 2009). Ademais ensinam-nos que só o amor pode nos dar coragem para vencer o medo. Só o amor nos dá coragem para seguir a Cristo. Quem tem uma fé fraca e deixa-se abalar pelas coisas do mundo ainda não está apto para tal seguimento. Por vezes há momentos de queda, mas a força que vem de Deus dá-nos a certeza de que não estamos abandonados. Deus está conosco!

Deixemos tudo, como fizeram os pastores. Coloquemo-nos a caminho de Belém e enquanto caminhamos, rezemos: Vem, ó Senhor! Toca os corações endurecidos; renova os nossos corações; dissipa o ódio e o mal da face da terra; reafirmai vossa primazia e poder sobre todos os homens e em todos os tempos. Renovai vosso ardente desejo de sermos Evangelhos vivos para os homens de nossos dias. Revigora o ânimo dos entristecidos; conforta os tristes; curai os enfermos; acolhei os abandonados. Tornai-nos corações vigilantes na expectativa de que, habitando Cristo em nossos corações, possamos abitar igualmente no coração amoroso d’Ele. Concede paz ao mundo dilacerado pela guerra, paz verdadeira e duradoura. Paz a todos os cristãos nos mais diversos países, perseguidos por causa do vosso nome. Livrai-nos da tentação de colocar-Vos em último lugar, mas que possais crescer enquanto nós, assim como João Batista, possamos diminuir.

A todos os meus votos de um Feliz e Santo Natal. Que a luz de Cristo resplandeça em vossos corações e em vossas famílias.

O mundo tem fome de Deus

O nosso mundo, não obstante transcorridos dois milênios de anúncio da Boa Nova de Jesus Cristo, ainda tem fome de Deus. Esta fome é maior do que a fome material, pois esta só Jesus Cristo poderá saciá-la.  E neste domingo as leituras vêm expressarem precisamente isso: todos têm direito à Palavra de Jesus Cristo.

Na primeira leitura o profeta, falando aos exilados de seu tempo que estavam sem esperança e sem fé, recorda as palavras do Senhor, convite sempre ressoante e vivo, que dirige-se a todos os povos: “Vinde às águas; vós que não tendes dinheiro, apressai-vos, vinde e comei, vinde comprar sem dinheiro” (Is 55, 1). Este convite tão sedutor é uma ação de complacência da parte de Deus para nós pecadores. Numa sociedade predominantemente capitalista, onde quem tem não se contenta com o que tem, mas sempre quer mais, e quem não tem quer ter mas está impedido pela ganância dos mais ricos, este convite deveria arrastar multidões, sobretudo os que, de forma sedenta, buscam um lugar para saciar-se.  A todos, ricos ou pobres, o Senhor dirige-se com proeminente benevolência: “Por que gastar dinheiro com outra coisa que não o pão, desperdiçar o salário senão com a satisfação completa? Ouvi-me com atenção” (v. 2). O mundo é autossuficiente, prepotente e acha que pode progredir e sustentar-se sozinho; crê que fechando os olhos à fé, a ciência poderá dar-lhe todo o progresso necessário, e isto já bastar-lhes-ia. No entanto é bem sabido o caráter ambivalente que ela possui, pois, se por um lado é verdade que a ciência trouxe importantes e cruciais avanços para o melhor bem estar dos povos (e a Igreja não se opõe a isso), por outro é verdade também que ela trouxe consigo, em certos âmbitos, aspectos consideráveis de ignorância e de mediocridade ateístas, fazendo-se valer da fé, em certos momentos, para depois ignorá-la, ou mesmo esquecendo que toda a sua formação e constituição fora iniciada na Igreja por monges ou padres, por Bispos e até mesmo por Papas. Desta forma, ignorando suas raízes e com um execrável ódio pela Igreja, ela quer sobrepor-se mesmo sobre a fé, que pode explicar aquilo que ela, em sua capacidade limitada de inteligibilidade, não o pode. Desta forma, a ciência e fé como “irmãs” devem caminhar juntas, de maneira que venham constituir as “duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade” (João Paulo II, Carta Encíclica Fides et Ratio).

Na segunda leitura o apóstolo irá reconfortar-nos sobre a nossa unidade ao amor de Cristo. É preciso estarmos sob a intrínseca proteção deste amor que nos conforta em todas as dificuldades. Só quem se põe sob o auxilio de Cristo conhece o verdadeiro amor; só quem reconhece em Cristo o Amor pode transmiti-lo a outros.  Como nos é sabido, Paulo fora perseguidor ferrenho da Igreja primitiva, não obstante o Senhor o chama a segui-lo, a testemunhar com sua vida o Evangelho e, por conseguinte, a sofrer o martírio por aquilo, ou melhor, por Aquele que anunciara.

Quis nos separabit a caritate Christi? – Quem nos separará do amor de Cristo” (Rm 8, 35). Quem poderia, Paulo, separar-vos do Amor de Cristo se fora Ele mesmo que te uniu a Ele. Assim, com tão excelso vínculo, nem mesmo as enumeradas situações descritas poderiam fazê-lo, pois não teriam força nenhum perante um vínculo tão estreito e tão gracioso: “Tribulatio an angustia an persecutio an fames an nuditas an periculum an gladius… Neque mors neque vita neque angeli neque principatus neque instantia neque futura neque virtutes neque altitudo neque profundum neque alia quaelibet criatura – Tribulação, angústia, perseguição, fome, nudez, perigo, espada… Nem a vida, nem os anjos, nem os poderes celestiais, nem o presente, nem o futuro, nem as forças cósmicas, nem a altura, nem a profundeza, nem outra criatura qualquer” (Idem 35. 38-39). Nada, nada separar-nos-á deste amor. Sabemos que a Carta aos Romanos é sim de autenticidade paulina, e disto nenhum biblista duvida. Porém encontramos uma coincidência notória neste trecho. Paulo dirige-se aos romanos e afirma que nem mesmo a espada poderia separar-nos do amor de Cristo, e sabemos que Paulo, tendo sido degolado, o fora em Roma, onde a poucos anos dirigiu-se aos seus habitantes.

E aqui chegamos a centralidade desta segunda leitura: O que é precisamente o Amor de Cristo? Como ele se manifesta? O Cristianismo é a religião do Amor Encarnado, que expressa-se sobretudo pelo sacrifício cruento de Cristo, que de livre vontade doa a sua vida pela salvação do mundo. Assim, com este gesto, o amor encontra sua expressão máxima na pessoa de Jesus e nos indica claramente que, além de doação gratuita, o amor é também levar ao cumprimento o projeto salvífico de Deus vivenciado na radicalidade do Evangelho. O amor de Cristo não subtrai-se mediante as provações e perseguições, mas revigora-se e permeia os mais duros corações, além de ser sustentado pela constante certeza da ressurreição.

Um segundo aspecto deste amor, pelo que não irei alongar-me para que possamos chegar de imediato ao Evangelho, é o amor ao próximo prescrito entre o novo mandamento deixado por Jesus: “Ut diligatis invicem, sicut dilexi vos – Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei” (Jo 15,12). Para alguns o amor em Platão era alheio a interesses ou gozos, era uma virtude. Na verdade, porém, olhando a fundo o pensamento de Platão, vemos que ele concebia o amor como faltoso, ou seja, não pode completar-se, mas busca no amado a Ideia que não possui em si. Destas duas formas podemos conceber o amor cristão. A primeira é a forma do amor ao próximo, que deve ser gratuito, como Cristo ensinara: Amar sem interesse, amar por amar; amar por que Ele, Amor verdadeiro, amou. A segunda é o amor a Deus: O ser humano em sua condição limitada é um ser faltoso. Não é um ser plenamente “autônomo”, mas depende de Deus, que lhe dá vida, que o sustenta e o criou. Quem busca a plenitude da felicidade e uma realização total com os seres limitados e finitos e esquece-se de correr a Deus nunca poderá sentir-se plenamente realizado, pois só Deus realiza plenamente o homem.

Na sua primeira Encíclica Deus Caritas est, o Santo Padre Bento XVI, de feliz reinado, evidencia isso ao afirmar: “O amor ao próximo é uma estrada para encontrar também a Deus, e que o fechar os olhos diante do próximo torna-os cegos diante de Deus” (n. 16).

No Santo Evangelho somos hoje convidados a meditar sobre a multiplicação dos pães. A intenção de Jesus era estar só, por isso retira-se a um lugar deserto e afastado, porém o povo o segue, mas segue para ouvi-lo sem saber o que depois haveria de suceder-se. O alimento que buscavam não era alimento material, queriam alimentar-se espiritualmente, estavam sedentos de respostas. Recordemo-nos que no famoso discurso do Pão da Vida se dirigem até Jesus pessoas interessadas apenas no pão material que viram do milagre da multiplicação feito.

Agora Nosso Senhor toma a iniciativa e faz o milagre, pois o povo não fora na intenção de comer, mas de escutar as palavras de vida eterna. Jesus então, vendo o quanto a multidão, que só homens eram cinco mil, sem contar mulheres e crianças, estavam fatigados por tantas horas expostos ao sol para escutá-lo, Jesus realiza então o gesto de multiplicação. Se antes procuraram a Jesus para que lhes desse pão de graça e Ele não no-lo deu, agora Ele concede pão aos que foram ouvi-lo, mas o concede porque antes de tudo foram em busca do Reino de Deus, e o resto viera em acréscimo (cf Mt 6,33). Aqui dois esclarecimentos viriam a ajudar-nos. Primeiro: Por que o evangelista só cita o número de homens, mas não o de mulheres e crianças? Porque somente os homens eram os reais seguidores da Lei. Mulheres e crianças eram deixados à margem desta aprendizagem.  A segunda observação é: O milagre de Jesus é já uma prefiguração de sua doação na Eucaristia, não uma mera apologia a partilha, mas é um milagre, manifestação da divindade de Jesus, para que todos reconhecem nele a imagem por excelência de Deus.

Por fim, peçamos a Maria Santíssima que interceda por nós e que sejamos sempre mais fortalecidos para corremos ás fontes e saciar-nos do Deus que é pão da vida.

Configurados a Cristo na Eucaristia

Caro cibus, sanguis potus/ manet tamen Christus totus sub utraque specie – O pão é a carne e o vinho é o sangue; todavia debaixo de cada uma das espécies Cristo está totalmente”. Eis como cantamos hoje na Sequência celebrando a Solenidade de Corpus Christi. A Igreja nos chama a adorar piedosamente a Eucaristia, que nos fortalece em nossa caminhada. Hoje somos convidados a olharmos para aquele dia em que Nosso Senhor, somente por amor, doa seu Corpo e Sangue pela nossa salvação. A celebração que hoje realizamos nos põe diante de um gesto presente, mas também escatológico. Primeiro reunimo-nos em volta do Senhor, comemos do seu corpo e bebemos do seu sangue; segundo é o gesto do caminhar, isto é, a procissão que tradicionalmente realizamos nos ensina que todos somos peregrinos para o Pai, que caminhamos para um encontro definitivo com Jesus Cristo e, por conseguinte, para a eterna felicidade; e em terceiro o gesto definitivo que é ajoelhar-se e adorar o Senhor, reconhecer a sua onipotência e agradecê-lo por se nos dar em alimento.

Neste dia a Igreja revive a Quinta-feira Santa, agora já à luz do mistério grandioso da Ressurreição. Na primeira leitura, retirada do Deuteronômio, faz-se memória da peregrinação do povo hebreu por quarenta anos, rumo a terra prometida, e lá se diz: “Ele te humilhou, fazendo-te passar fome e alimentando-te com o maná que nem tu nem teus pais conhecíeis, para te mostrar que nem só de pão vive o homem mas de toda a palavra que sai da boca do Senhor” (Dt 8, 3). Estas palavras são também dirigidas a nós, que fazemos parte de uma geração não mais confiante somente na palavra do Senhor, em sua paternal bondade e solicitude, mas, muito mais, por ela romper neste estreito vínculo com Deus e passar a gerar “falsas palavras”, que conseguem persuadir a tantos. Aquele maná, dado outrora aos hebreus, ganha mais tarde um novo significado, alcança, por assim dizer, a “plenitude” do termo em Jesus Cristo, pão eterno e verdadeiro dado a todos os homens. E por meio deste “dar-se” Ele plenifica e perpetua a sua estada em nosso meio.

Desta forma é rompida e suprimida a ausência deste espaço de tempo que nos separam de Cristo. Com essa perpétua estadia conosco Ele não retira-se do mundo, não está invisível, ausente, obscurecido pelo tempo. Também para o homem hodierno esta é uma esperança: Ainda que abandonemos a Deus Ele nunca nos abandonará. Ainda que d’Ele nos afastemos Ele sempre estará ao nosso lado! Por isso, tenhamos confiança! Quem confia no Senhor nunca será desamparado!

“Este é o pão que desceu do céu. Não é como aquele que os vossos pais comeram. Eles morreram. Aquele que come este pão viverá para sempre” (Jo 6, 58). Não basta comermos o Corpo do Senhor e permanecermos indiferentes à sua graça salvífica, é preciso aceitarmos ser transformados por Ele. É preciso carregar em nós Aquele que recebemos e demonstrá-Lo ao mundo.

Sobre este vínculo de unidade com o Senhor São Paulo nos diz na segunda leitura: “O cálice da bênção, o cálice que abençoamos, não é comunhão com o sangue de Cristo? E o pão que partimos, não é comunhão com o corpo de Cristo? Porque há um só pão, nós todos somos um só corpo, pois todos participamos desse único pão” (cf. 1 Cor 10, 16-17). Este é, sobretudo, um dos principais aspectos da Eucaristia: congregar a todos os povos diante de um único Senhor. Gostaria de dizer primeiramente que este aspecto é sinônimo de reconhecê-lo como verdadeiro Deus, de n’Ele encontrar a plena felicidade e o fundamento da esperança e do amor; caso contrário não é Deus. Quem se curva diante do dinheiro e dos prazeres terrenos fazendo-os centro de suas vida, não pode curvar-se diante de Deus. Depois: O verdadeiro Deus une a todos em seu amor, acolhe aos pecadores e ampara aos fracos, não faz distinção de ideias políticas, de nacionalidade, de profissão, mas une os homens em um único corpo: a Igreja, firmada em um único alicerce: o amor de Deus, partilhando um único Pão: Cristo.

Ademais, esta Solenidade é um momento sempre propício para nos alertar para a crescente tentação ao individualismo que sempre vem ganhando espaço na sociedade, e mesmo dentro da Igreja; esse constitui um desvio na estrada a caminho do Mestre, além de ser totalmente contrário ao que Ele ensinara. A Eucaristia é unidade, fraternidade, amor. Outro risco que corre-se, porém, é de generalizar tais palavras a ponto de chegar-se ao extremo de relacionar a Igreja com brigas políticas e sociais. “A Igreja, recordara muitas vezes o Beato João Paulo II, não é uma instituição democrática”, mas é “um projeto que nasceu no Coração do Pai” (Catecismo da Igreja Católica §759). Mediante isso, as vontades humanas não contam e não prevalecem, mas somente a divina.

São Leão Magno recorda que “a nossa participação no corpo e no sangue de Cristo não tende para se tornar senão o que recebemos” (Sermo 12, De Passione 3, 7, pl 54). Eis que recebendo Cristo, Pão vivo, também somos chamados a configurar-nos a Ele, a sermos testemunhas do Seu Reino hoje. Como bem dissera o Sumo Pontífice Bento XVI: “Todos podem se abrir à ação de Deus, ao seu amor; com o nosso testemunho evangélico, nós cristãos devemos ser uma mensagem viva, aliás, em muitos casos somos o único Evangelho que os homens de hoje ainda leem” (Homilia na Quarta-feira de Cinzas, 2011). Demonstrai, cristãos, ao mundo, que vós sois Evangelhos vivos e testemunhas verdadeiras! Que sejamos reconhecidos, antes de tudo, pelas nossas ações, imitadoras de Cristo, ainda que por vezes sejam falhas, mas que sejam imitadoras. Portemos a esperança ao mundo! Mas, mais ainda, portemos o mundo à Esperança verdadeira e perpétua.

“A Eucaristia é o alimento destinado àqueles que no Baptismo foram libertados da escravidão e se tornaram filhos; é o alimento que ampara no longo caminho do êxodo através do deserto da existência humana. Como o maná para o povo de Israel, assim para cada geração cristã a Eucaristia é alimento indispensável que ampara enquanto atravessa o deserto deste mundo, ressequido por sistemas ideológicos e econômicos que não promovem a vida, mas ao contrário a mortificam; um mundo no qual domina a lógica do poder e do ter em vez da do serviço e do amor; um mundo no qual com frequência triunfa a cultura da violência e da morte. Mas Jesus vem ao nosso encontro e infunde-nos segurança: Ele mesmo é ‘o pão da vida’ (Jo 6, 35.48)” (Bento XVI, Homilia de Corpus Christi 2007).

“Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que eu darei é a minha carne dada para a vida do mundo” (Jo 10, 21). Para muitos que ali se encontravam foram “duras” tais palavras. Deveras, a limitação da inteligência humana faz com que seja incapaz de entender os insondáveis mistérios da salvação. Para nós, porém, estas palavras portam esperança e vida, destinadas a toda a sociedade e confiada a todos os homens.

Invoquemos agora a Virgem Maria, “Mulher Eucarística”, como dissera o Papa João Paulo II, e peçamos que Ela seja nossa intercessora junto a Deus. Peçamos também que todo o mundo possa abrir-se a Cristo Eucarístico, que este possa produzir em nós os seus efeitos redentores. “Alimentai-nos e defendei-nos e fazei que mereçamos fruir da vossa glória na Terra dos vivos. Vós que tudo conheceis e tudo podeis fazer, e nos alimentais aqui, na Terra, da mortalidade, admiti-nos, Senhor, lá no Céu, à vossa mesa e dai-nos parte na herança e na companhia dos que moram na cidade santa. Amém. Aleluia” (Sequencia).

Paz e misericórdia que emanam do Senhor Ressuscitado

Neste segundo Domingo da Páscoa, a Igreja nos convida a celebrar três grandes festas que a tomam de profunda alegria, emanada do Senhor ressuscitado. Em primeiro lugar, temos a continuação do Mistério Pascal, vivendo intensamente a vitória do Senhor sobre o pecado e a morte. Em segundo lugar temos a Festa da Divina Misericórdia, que por ordem de Jesus, por intermédio de Santa Faustina, foi instituída no segundo domingo após a Páscoa. E uma terceira ocasião que acrescenta-se a este dia é a Beatificação do Papa João Paulo II, que com a sua vida, soube testemunhar o Evangelho, servindo a Deus e à Igreja.

No dia da Ressurreição, quando ainda não se lembravam das palavras de Jesus, os discípulos encontravam-se perturbados com o sumiço do corpo do Mestre, imaginando que fora roubado. Mas enganavam-se! Aquele que a morte parecia ter destruído, destruiu a morte. Agora, vivo, Jesus renova a todas as coisas, e esta renovação não parte de uma ideologia. A renovação proposta por Jesus não é apenas exterior, e sua ressurreição não é uma estória, mas uma realidade que foi necessária para libertar a todos os homens da cegueira, da obscuridão, gerada pelas trevas. E como outrora encontrava-se uma geração cega, também hoje muitos ainda estão cegos, não obstante a luz de Cristo que brilha e ilumina os caminhos pelos quais devem os homens trilhar. No entanto, para que a luz cumpra sua função, não se pode depender somente dela, mas também daquele que se deixa ou não iluminar. Se estamos a enxergar a luz, mas não queremos trilhar o caminho que nela resplandece, não é culpa dela se tantos ainda continuam nas trevas.

Desejo, por um instante, deter-me na narração evangélica deste dia. No dia para nós feito (Sl118, 24), tendo o Senhor ressuscitado pela manhã, à noite aparece aos seus, que estavam reunidos com as portas fechadas, pois temiam aos judeus que já haviam matado a Jesus, e, sem dúvida, no-lo tentariam matar também.

Estando com as portas fechadas, põe-se o Senhor no meio deles e diz: “Pax vobis – Paz a vós” (Jo 20,19). Paz a vós que tendes inimigos a cercar-vos por todos os lados, como outrora encontravam-se os apóstolos; a vós que nem dentro de vossas casas estais seguros; a vós que sois perseguidos por minha causa; a vós que havereis de morrer por meu nome. E hoje diz-nos também: Paz a vós! A vós que tendes fome; a vós que sois excluídos da sociedade porque condenais suas ideologias anticristãs; a vós que em mim confiais, ainda quando achais que vos esqueci; a vós que credes na Igreja, mesmo diante de tantas perseguições da mídia e diante das diversas tentativas de Satanás para denigrí-la; a vós que sabeis perdoar e rezar pelos que não vos amam; enfim, a todos vós: Paz! E é esta tão almejada pelos vários âmbitos da sociedade, mas nem todos sabem o caminho para alcançá-la. Quantos não se desapegam da paz verdadeira para apegar-se a ideologias falsas de pacificação que o mundo oferece, sem valores evangélicos e firmadas em bases insipientes e frágeis. A inquietação humana, os constrangimentos e a falta de fé são consequências da relutância do homem por falta de uma paz consistente, verdadeira. E enquanto agirem desta forma não poderão reconhecer no próximo um irmão e sim um inimigo a ser combatido.

No seu livro dezenove da Cidade de Deus, Santo Agostinho afirma: “Pax hominus est ordinata concórdia – A paz dos homens é uma concórdia ordenada”. Pois certo estava ao afirmá-lo, uma vez que, se não fosse ordenada, ainda que seja concórdia, não seria paz. A ordem gera a paz, e mesmo Cristo quis que assim fosse. Mas esta ordem não pode ser uma imposição desregrada que tenha em vista beneficiar apenas um determinado grupo. 

Nela não deve haver exclusões e nem deve-se fazer utilização interesseira da ordem para aniquilar aqueles que se opõem a nós. Se assim agíssemos estaríamos a constituir novos regimes totalitários, onde não se respeitariam os valores humanos, mas apenas aquilo que agradasse aos homens, e a Escritura é clara ao dizer: “Não há paz para os ímpios” (Is 48,22). A verdadeira paz sabe respeitar o próximo e empenha-se em um justo diálogo, despojado das armas, da violência e de qualquer outro preconceito. Esta transpõe as “paredes” que bloqueiam a reciprocidade entre países e povos. E tais como esta deve ser a mensagem evangélica: transpor todas as barreiras.

Duas coisas são necessárias para que se haja esta concórdia ordenada: “Da parte superior, e do que manda, igualdade; da parte dos inferiores, e dos que são mandados, paciência. Sem igualdade de uma parte, e sem paciência de outra, não se poderá conseguir nem conservar a paz. Vós que na família ou na república tendes o mando, se quiseres paz, igualdade; vós que na família ou na república sois mandados e sujeitos, se quereis paz, paciência” (Pe. Antônio Vieira, Sermão da segunda oitava da Páscoa).

Cristo dá-nos hoje verdadeiro exemplo de igualdade: “Pondo-se no meio dos discípulos, disse: Paz a vós” (Jo 20, 19). Coisa é – e muito notável! – que diga o evangelista que Cristo pôs-se no meio. E sempre esteve Cristo no meio: Na Transfiguração, na Ceia, na Crucifixão, e agora ali. Não estava Ele no centro apenas por ser o Senhor de todas as coisas, mas por ser o doador de tudo. Na transfiguração é luz; na ceia faz-se comida e bebida; na crucifixão é doador da salvação; e com os discípulos dá a paz. Naquele instante com suas palavras ensina a paz e com o lugar ensina o meio de a conseguir: a igualdade. Maravilhosa e suma igualdade é esta de Cristo! Estava cercado de Pedro, que o tinha negado, e de João, a quem muito amava e que o segui até o pé da cruz, mas nem se afasta de Pedro e nem se aproxima de João, senão que fica no centro de todos, a todos fala de igual forma e a nenhum favorece mais. “A todos – dirá Padre Vieira – oferece a paz: Pax vobis; a todos tira o temor: Nolite timere; a todos anima e consola: Quid turbat estis? A todos convida: Habetis aliquid quod manduceter? A todos regala: Dedit eis relíquias; a todos se entrega e franqueia todo: Pulpate, et videte” (op. cit.). Mas nem mesmo de João Vos aproximastes mais? Não! Pois o que portava Cristo em si e consigo era a paz. E se não houver igualdade, e igualdade para todos, não há paz.

Além daquela perturbação exterior, que incomoda a tantos seres que deveriam portar a paz, há aquela causada interiormente pelo pecado e pelo estar fora da graça. Assim, São Tomás de Aquino dirá: “Ninguém é privado da graça santificante a não ser em razão do pecado, razão pela qual o homem se afasta do verdadeiro fim e estabelece o fim em algo não verdadeiro. Assim sendo, seu apetite não adere principalmente ao verdadeiro bem final, mas a um bem aparente. Por esta razão, sem a graça santificante, não pode haver verdadeira paz, mas somente uma paz aparente” (Suma teológica II-II, q. 29, a. 3).

Como Tomé estão muitos hoje. Quantas vezes deixamo-nos levar pela incredulidade e pela desesperança? Quem temos colocado no centro de todas as coisas? Será que é a Jesus que temos dedicado particular atenção? Sim, Cristo deve ser o nosso centro! Não o mundo com sua aparente autoridade; não as nossas vontades, mas Cristo. Eis que de todos os lados somos puxados, exceto no centro. De um lado somos puxados pelo negativismo e pelo consumismo, pela inveja e pela autossuficiência; do outro somos puxados por um positivismo exacerbado, pela cultura politeísta que o mundo tende a centralizar, pelo querer o homem que Deus faça suas vontades. O único lugar que não será o homem puxado é no centro. E não tem a terra mais que um centro; e não deve ter a nossa vida mais que um centro: Jesus Cristo.

“Qual a maior desigualdade que jamais fez Deus, e qual a maior que cometeram os homens?” Pergunta Padre Vieira. Ao que responde: “A maior desigualdade que fez, nem podia fazer Deus, foi dar seu Filho pela redenção do homem. Vender o Filho para resgatar o escravo; condenar a inocência para absolver a culpa; morrer o imortal para ressuscitar o morto; deixar quebrar e perder os diamantes, para reparar o bano. Enfim, padrecer o Criador para que a criatura vil não padeça… E a maior que cometeram os homens, qual foi? Venderam esse mesmo Filho, e pregaram esse mesmo Filho com cravos em uma cruz… Oh bárbara, oh desumana, oh horrenda, oh sacrílega, oh infernal desigualdade! A de Deus mais que admirável por excesso de misericórdia, a dos homens mais que abominável por ultimo extremo de injustiça e crueldade” (op. cit.). Mas, mesmo com a violência, não perde Cristo o título de Príncipe da Paz, outrora outorgado pelos profetas (cf. Is 9,6). Tão cruéis foram os homens com Cristo, e tão manso fora Cristo com os homens! A que lhe haveremos de atribuir tão grande feito? “A paz que eu vos dou não a dou como o mundo no-la dá” (Jo 14, 27).

Tamanha é a misericórdia do Senhor. Por isso Santo Agostinho exalta-a de forma admirável: “Quem tão longânime, quem tão abundante em misericórdias? Pecamos e vivemos; aumentam os pecados e vai-se prolongando a nossa vida; blasfema-se todos os dias, e o sol continua nascendo sobre bons e maus. Por todos os lados convida-nos à correção, por todas as partes, à penitência, falando-nos por meio dos benefícios das criaturas, concedendo-nos tempo para viver, chamando-nos pela palavra do pregador, por nossos pensamentos íntimos, pelo açoite e castigos, pela misericórdia do consolo” (Enarrationes in Psalmos Ps 102,16).

Na Sua aparição a Santa Faustina Kowalska, Jesus lhe diz: “As almas se perdem apesar da minha amarga Paixão. Ofereço-lhes a última tábua de salvação, ou seja, a Festa da Minha Misericórdia. Se não adorares Minha Misericórdia, morrerão por toda a eternidade. Secretária da Minha Misericórdia, escreve, fala às almas desta grande misericórdia, pois está próximo o dia terrível, o dia da Minha justiça” (Diário de Santa Faustina,nº 965 ).

A todos quer o Senhor salvar, mas nem todos querem se aproximar Dele. O próprio Cristo recorda a dureza dos corações humanos. E hoje faço-vos o convite: Ide à Misericórdia Divina! Aproximai-vos sem temor dela! No quadro que Jesus mandou que pintasse, em honra a Sua misericórdia, encontra-se a inscrição: Jesus, eu confio em Vós! Sim, Senhor, em Ti eu confio, e a tua Misericórdia eu adoro. Voltai-vos para nós, pobres pecadores, e dai-nos a graça de contemplar Vossa face por toda a eternidade. Damos graças pela Beatificação do Vosso servo o Papa João Paulo II. Que a vida de intimidade convosco que teve ele, nos sirva de exemplo, para que possamos chegar um dia a santidade, que todos os homens são convidados.

Páscoa do Senhor: Páscoa do Cristão

“Non est hic: surrexit enim, sicut dixit – Ele não está aqui! Ressuscitou como dissera(Mt 28, 6).

Oh venturosa noite! Oh dia dos dias! O Senhor vitorioso está vivo. Não morre mais, mas vive eternamente. Pois vitorioso como o Senhor devem estar nossos corações, os corações de todos os cristãos. Travadas lutas e mais lutas, hoje glorificamos ao Senhor pelo Seu feito maravilhoso: A morte não pôde detê-Lo. Tenho dito que, se O amamos, fizéssemos aquilo que pediu Paulo: crucifiquemo-nos com Ele. Agora, para os que com Ele foram crucificados, há uma nova vida, firmada em Seu Sangue e brilhante como a Sua luz.

Quem ama deve madrugar e só assim acharão aquele por que procuram: “Qui mane vigilant ad me, inveniet me – Os que por mim madrugam me acharão” (Pr 8, 17). Foram, pois, as três Marias a túmulo de madrugada e porque muito amavam madrugaram, para limpar o corpo do Senhor e perfumá-lo, dado que no dia anterior não houvera tempo para fazê-lo. Mas ao chegarem não acharam o que buscavam. “Assim não cumpre Deus sua palavra, não porque falta, mas porque excede o que promete. Não acham o que buscavam, mas acharam o que nem a buscar, nem a desejar, nem a imaginar se atreviam” (Pe. Antonio Vieira, Sermão da Madrugada da Ressurreição).

Madrugada era esta que mais estava a terra coberta pelas trevas que pela luz. Meu Senhor, por que nas trevas quereis, Vós, ressurgir? Mas como pode a luz brilhar de dia? Somente no escuro brilhará ela fulgurante. A Luz das luzes, porém, quer brilhe de dia, quer brilhe a noite, sempre mantém seu fulgor, e sempre se destaca, mais que a luz do sol, pois não haveria de ter sol se não fosse por obra de Deus, o Sol por excelência. Como pode o brilho da criatura exceder o do Criador? Não há como. O próprio Senhor dissera: “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8, 12). Sim! Nós cremos que És Luz, Senhor glorioso. E mais que ver-Te brilhante, queremos brilhar ao teu lado. Não um brilho de efemeridades e prazeres, como brilha o mundo; mas o brilho daqueles que, em Vós, por Vós e Convosco foram ressuscitados.

Profundos são os dias que a Igreja convida-nos a celebrar. E tão profundos são que não haveria eu de contentar-me em celebrá-los se não fizessem com que os meus dias, outrora pecadores, sejam revistos no presente e modifiquem-me para o futuro com Deus. Pois há em tais dias profundas relações nas celebrações, e não é diferente na relação do Natal do Senhor e da Páscoa. Nestes dias nasce o Senhor, e por duas vezes nasce! A primeira nasce para o mundo, uma vez que nasce à vida mortal, por meio do seio virginal de Maria; e neste outro nasce à vida imortal, saindo do seio da terra, do sepulcro.

À Páscoa antecede-se à Quaresma. Com jejuns e orações clamamos a Deus o arrependimento dos nossos pecados. Agora, chegado o tempo da glória, e pondo de lado os jejuns, somos impelidos a cantarmos um hino de glória. Aleluia! Cantamos nós, das mais profundas entranhas. Louvai ao Senhor, dizemos ao próximo e a nós mesmos. Louvai-O todos os povos! E isto é mais que justo, pois haveremos de louvá-Lo pelo que é e pelo que realiza. Mas, ainda mais importante é não apenas dizermos que louvamos, e sim demonstrá-lo a todos os povos. Louvai-O pelo canto; louvai-O com a voz e a língua, mas, sobretudo, louvai-O com o coração; louvai-O com o exemplo; louvai-O com a fé; louvai-O com o amor; louvai-O nas desgraças; louvai-O nas alegrias, e assim havereis de cumprir o que Paulo exorta: “In omnibus gratias agite – Em tudo daí graças” (1 Tes 5, 18). Ainda nos dirá o excelso Santo Agostinho, predicador do Evangelho com a própria vida: “Louvamos a Deus agora que nos encontramos reunidos na Igreja. Mas logo ao voltarmos para casa, parece que deixamos de louvar a Deus. Não deixeis de viver santamente e louvarás sempre a Deus. Deixas de louvá-lo quanto te afastas da justiça e do que lhe agrada. Mas, se nunca te desviares do bom caminho, ainda que tua língua se cole, tua vida clamará; e o ouvido de Deus estará perto do teu coração. Porque assim como nossos ouvidos escutam nossas palavras, assim os ouvidos de Deus escutam nossos pensamentos” (Sermão da Páscoa).

Oh! Rejubilai-vos em Deus! Não agora poderemos plenamente rejubilar, senão quando face a face estivermos com Ele. Mas para quem ressuscita? Digo-vos, caríssimos, que não é ressuscitado só para Si ou para vós e sim para todos. Mas estejam atentos! Não fecheis o coração a Cristo! Ele quer salvar-vos. Deixai-vos alcançar pela ressurreição! Grandes coisas, vos afirmo, há de fazer o Senhor por nós, mas nada pode comparar-se ao que já fizera.

No início da solene celebração do Sábado Santo acontece a benção do fogo. O Sacerdote acende o Círio Pascal e canta: Lumen Christi – Luz de Cristo. Sim, verdadeira luz! Luz que as trevas não podem ofuscar. A Igreja, feliz em anunciá-lo ao mundo não se contenta em cantar uma vez, pois canta três vezes.

Seja-me permitido agora voltar ao tema dos que, por amor, madrugam. “Assim o fez nesta manhã o divino Amante Cristo, continuando os desvelos do seu amor; e assim o devemos nós fazer todos os dias, para não faltar às correspondências do nosso tempo” (Padre Antonio Vieira, Sermão da Ressurreição). Que grande madrugador é o amor! Como vemos, ele não deixa-se embalar pelos pesados olhos que faz transparecer o sono; sem mesmo diria que pode o amor bocejar. “Inquietas res est amor: parcem diligis, si multum quiesces – O amor é um espírito sempre inquieto, e quem aquieta muito, sinal é que pouco ama”, nos há dito o filósofo Platão. Jamais dorme o amor! Platão deveria saber o que era o amor, mas Cristo o soubera mais; e o soubera não apenas porque nunca tivesse o Seu amor dormido, mas porque Ele mesmo é o Amor. Durmam os sentidos e ainda teremos amor; durma o amor e já não servir-nos-ão nem os sentidos e nem nada mais, pois quem não ama torna-se vazio e nada do que faça haverá de preenche-lo. Perdeu-se há muito tempo o verdadeiro sentido do amor. Todos amam e a tudo amam. Criam essenciais supérfluos em suas vidas e esquecem que o único essencial é Deus.

Por ser o próprio Amor, madruga o Senhor antes mesmo que o sol desponte os seus primeiros raios, deveras que quando despontar o sol já será dia, e vem o Senhor para dissipar as trevas. Pois uma vez que estava ainda escuro que não chamam os evangelistas de sombra, senão que de trevas, como poderá afirmar alguns que o sol já havia despontado na ressurreição? Ora e quem é o verdadeiro sol que alumia a tudo com seu brilho? Não é o Cristo esta venturosa luz que curvamos para adorar? Como bem afirmara o salmista: “Desperta minha glória… quero acordar a aurora” (Sl 56, 9). Dirão os poetas que a aurora é quem desperta o sol, Davi no-lo dirá o contrário. Pois que a aurora nos acorde é prodígio da natureza, mas que se desperte a aurora não seria prodígio, e sim milagre. E quem poderia despertar a aurora? Excitabo auroram! O mesmo que desperta sua glória; que dá vida à humanidade e dá verdadeiro sentido à vida. Primeiro há de surgir a glória e assim poderá, Ele, despertar a aurora, pois será esta submetida a seu excelso poder.

Que dia preparou-nos o Senhor! Oh dia! Não qualquer dia, mas o dia dos dias. Deus meu, que grande amor Vós nos tens. Que havemos de neste dia fazer? Pergunto-vos hoje. Que sentimentos tomam vossos corações? “Entristecer-nos? Tremer? Temer? – pergunta Padre Vieira – Encarcerar-nos? Sepultar-nos? Meter-nos na sepultura donde Cristo saiu? A esta pergunta não se pode responder do púlpito; do confessionário sim! Se estais em estado de pecado mortal, temei e tremei, e cause-vos grande tristeza a ressurreição; mas se estais em graça de Deus, e tendes propósitos firmes de a conservar, alegrai-vos, ponde a vossa alma e o vosso coração muito de festa, e não temais” (Sermão da Páscoa, 1658).

Pois se muitos de vós estais a vos incomodardes com tais palavras sinto-me mui honrado, pois que a um pregador do Evangelho em primeiro lugar há que ter amor a Cristo, e depois a coragem. Dirá Paulo: “Denunciai abertamente as obras das trevas” (Ef 5, 11). Pois a dia mais oportuno que este para fazê-lo?

Peçamos ao Senhor que, no dia que foi vencida a morte, possamos com Ele ressuscitar à uma nova vida. Que sejamos reflexos do Seu amor bondoso. Pedimos que desperte a Igreja, para que seja purificada e continue a dar testemunho de santidade aos homens de hoje, fazendo com que eles possam ler o Evangelho em nossas vidas.

Concluíndo este artigo aproveito para formular a todos vós os meus votos de uma Santa Páscoa!

Com Cristo crucificados

Hoje o Senhor oferece-se por nós todos, dando sua própria vida como preço pela nossa salvação. Ah, dia de luto e de grande tristeza! No entanto, esta tristeza não é aquela “que perdeu a esperança, que já não confia no amor nem na verdade e que por isso desagrega e arruína o homem por dentro”; porém, é “a tristeza que vem do abalo, da comoção provocada pela verdade, que leva o homem à conversão, à resistência contra o mal” (Bento XVI, Jesus de Nazaré, p. 88, Edit. Planeta). O Gólgota até este dia era o mais infame de todos os lugares do mundo; mas quando a cruz de Cristo ali elevou-se tornou-se o mais glorioso e santo lugar.

Há que dizer-se – e muitos não hão de concordar-me – que muitos corações são hoje verdadeiros montes Calvários. Do coração saem todos os homicídios, blasfêmias e ódios, injúrias e adultérios. De sorte que pior é o nosso coração do que o Calvário; pois lá se castigavam os delinquentes, mas nos corações formar-se-ão os crimes, delitos e todo o tipo de delinquencia. No Calvário castigavam-se as blasfêmias e falsos testemunhos, mas em nossos corações insistimos em fazê-los. No Calvário castigavam-se os ladrões, mas em nossos corações roubamos o tempo de Deus para dá-lo ao mundo. E eis por que mais horrendos são nossos corações do que o Monte Calvário. Mas da mesma forma que Cristo transformou aquele lugar em santo e venerável, assim cremos que o fará com nossos míseros corações; de lugares sujos tornar-se-ão lugares de santidade.

“Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim será levantado o Filho do Homem” (Jo 3, 14). Pois este é o dia da elevação; é este o dia de deixarmos nossos corações serem atraídos a Cristo. Ainda assim haverá quem, neste dia, resista com um duro e obstinado coração? Oh! Quão ingrato sois, e que tristeza tamanha causais vós, insolente coração. Como podes negar Aquele que é tua força e, consequentemente, colocar-te a beira da tua destruição? Outrora fora Cristo crucificado elevado no Calvário, seja agora elevado no altar dos nossos corações. Digo-vos que todo cristão [todos mesmo!], deveriam levar em seu coração um Crucificado. Pois creio que nos faria pensar muito antes de ferirmos o Senhor com nossos pecados.

Que exemplo é Vós Senhor meu! Nascente pobre e pobre haveríeis de morrer; nasceste despido e despido voltavas para Deus; nascestes com um puro coração, e assim voltavas para Deus, nascestes amando, e amando te aproximastes do Pai. Pois que em tudo haveria Cristo de nascer e morrer com igual medida, como pudera falar ontem. E que depois de tão excelso exemplo haja cristãos que mantenham a soberba no mundo! E que de tão excelso exemplo haja fiéis que disputam para ver que maior será! E que depois de tão excelso exemplo tramem os homens injúrias e ofensas a Vós em seus corações! Certo está Padre Vieira que diz: “Desacreditai-vos, fiéis, que fiéis não sois. Desacreditai-vos, cristãos, que cristãos não sois”. O que vos afirmo parece ser duro? Dureza maior há nos corações daqueles que se reúnem hoje para celebrar a Paixão, mas os seus interiores estão entregues a libertinagem e ao pecado. E se me faço parecer duro, mais duro são os que não se reúnem em nome de Cristo, mas vão à Igreja com o coração endurecido pelo pecado. Aqueles, no entanto, que buscam ao Senhor e de coração vão adorá-Lo e contemplar o sacrifício redentor da Sua Paixão, esses são bem aventurados, pois encontram toda a Sua benevolência e os seus braços abertos a os acolher.

Na segunda leitura, o autor da homilia aos Hebreus escreve: “Temos um sumo sacerdote eminente, que atravessou os céus: Jesus Cristo, o Filho de Deus. Por isso permaneçamos firmes na profissão de fé” (4, 14). Esta mensagem dirigir-se-á, sobretudo a nós, cristãos. Devemos permanecer firmes no atual contexto da sociedade. Jesus penetra nos céus! Pois como Ele uma vez penetrou, também penetraremos para contemplar sua incessante face.

Só poderá estar com Cristo quem com Ele crucificar-se, uma vez que “da cruz brota a grande fecundidade” (Bento XVI, op. cit. P. 170). Ó tamanha desventura que nos chamemos cristãos mas não ajamos como se fossemos de Cristo. Mas vos digo que tenhais fé! Bons tempos hão de vir ao nosso encontro, mas precisamos nós também irmos ao encontro deles. Paulo dirá que com Jesus estava crucificado. Pois vede como este apóstolo amava incomensuravelmente a Cristo, a ponto de crucificar-se com Ele na mesma cruz. Christo confixus sum cruci! Estou crucificado com Cristo. E nós haveremos de perguntar: Não parece minúsculo este espaço? Não seria impossível caber menos que uma pessoa? Ora, digo-vos que não. Pois onde coubera Deus nós todos caberemos.

E com que cravos haveremos de ser crucificados? E quem serão os algozes a fazê-lo? Deixarei que agora fale um grande pregoeiro do Evangelho. Dirá Padre Antonio Vieira: “O primeiro cravo do temor de Deus prega-o um algoz, que se chama Pensamento da Morte; o segundo cravo do temor de Deus prega-o outro algoz, que se chama Pensamento do Juízo; e o terceiro cravo do temor de Deus prega-o outro algoz, que se chama Pensamento do Inferno” (Sermão da Crucifixão do Senhor). Quais cravos hão de ser usados no-lo sabemos; e quem haverá de fazê-lo sabemos também. Mas eis que deveríamos saber uma terceira questão: o que crucificaremos com estes três cravos? Em primeiro lugar haveremos de pregar o primeiro e maior dos nossos inimigos: os desejos impuros que de Deus nos apartam. Por meios destes as almas de muitos já se perderam e as de muitos haverão de perder-se. O segundo a ser crucificado deve ser os olhos, para que limitemo-nos a ver apenas aquilo que é salutar à nossa edificação e desprezemos os gostos de Satanás. E o terceiro que deve ser crucificado é a língua. Mas como crucificaremos a língua? Ela nos serve para a pregação do Evangelho. Sim, muito nos serve a língua; porém para nada servirá se, antes da língua, não mostrarem os exemplos que deveras vivo o cristianismo. A língua que não é crucificada há de servir ao Evangelho, mas também servir-se-á das coisas mundanas. Porém, a língua que está crucificada com Cristo somente poderá falar coisas santas e úteis, pois não lhe permitirá que fale o cravo do “Pensamento do Inferno”.

E vós? O que já crucificastes e o que havereis de crucificar? Ai de vós, que não vos crucificais com Cristo, mas, ao contrário, O crucificam hoje. E para todos os tempos houve Cristo que ser crucificado: passado, presente e futuro. Ai de vós! Outrora era o Senhor crucificado, não sabiam o que faziam os seus algozes, e por isso clama: “Pater, dimitte illis, non enim sciunt, quid faciunt – Perdoai-os, Pai, eles não sabem o que fazem” (Lc 23, 34). É amoroso e misericordioso Jesus a ponto de sacrificar-Se por nós. Mas, estas mesmas palavras que absolviam os seus assassinos nos condenam a nós. “Os que crucificavam a Cristo no monte Calvário merecem perdão e tem desculpa, porque não sabiam o que faziam, nem conheciam a quem crucificavam; mas quando crucificamos a Cristo com nossos pecados, não temos desculpa nenhuma, e somos totalmente indignos de perdão; porque cremos que Cristo é Deus, e cremos que morreu por nós, e cremos que nos há de vir a julgar, e contudo crucificamo-lo. Se o mesmo Cristo, advogado nosso, e que tanto nos ama, não achar com que nos defender, vede o que será de nós. Valha-nos sua misericórdia infinita, que só por ser infinita nos pode valer” (Pe. Vieira, op. cit.).

Horas de suplício terríveis passara o Senhor na cruz. Há dois suplícios que sofria Cristo: um interior e outro exterior; um que dilacerava o corpo e outro que dilacerava a alma. Padecia as dores da flagelação, da coroa de espinhos, dos cravos, da sede, da carne dilacerada. Mas padecia as blasfêmias dos que, não se contentando em vê-Lo crucificado, ainda o insultavam. Pois uma coisa pede Cristo: Perdoai-os! Ó coração tão amoroso, que ama mesmo aqueles que vos fazem mal. Mas, que deve ser o amor, senão a graça de rezar mesmo pelos que nos perseguem e nos amaldiçoam! Por duas vezes Cristo exercita o perdão na cruz: aos seus algozes e ao ladrão arrependido. “Hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23, 43). Pecamos e tantas vezes quis Deus perdoar-nos. E ainda há os que pecam confiando na misericórdia de Deus, e a estes eu digo: ferida a justiça de Deus ainda recorremos a Sua misericórdia; mas se ferirmos sua misericórdia a que recorreremos?

Que Maria, mãe dolorosa, sempre aos pés da cruz, nos ajude em nossa caminhada rumo aos céus. Para que o Senhor, em sua infinita misericórdia se recorde de nós. Como disse o salmista: “Fortalecei os corações, tende coragem, todos vós que no Senhor confiais” (Sl 30, 25).

O amor põe-se a serviço

Hoje damos início ao Tríduo Pascal com a Santa Missa In Coena Domini, isto é, na Ceia do Senhor. Neste dia, os homens são chamados a identificar na cena evangélica o amor máximo que moveu os angustiados corações dos apóstolos, que dentro em breve já não mais teriam o Senhor entre eles. Quinta-feira Santa: dia em que manifestar-se-nos-á a maior prova de humildade que o Senhor transmitiu-nos. O Messias inclina-se perante os apóstolos e lava-lhes os pés e depois enxuga-os. O nosso Pontífice recordar-nos-á que “a subida para Deus acontece precisamente na descida ao serviço humilde, a descida ao amor, que é a essência de Deus e, portanto, a verdadeira força purificadora, que capacita o homem para conhecer Deus e vê-lo” (Bento XVI, Jesus de Nazaré, pag. 95, Edit Planeta). Sabendo que deveria voltar para o Pai, como nos relata o Evangelho de hoje (Jo 13, 1), ascender ao Céu, o Senhor desce, inclina-se, lavando os pés dos discípulos, e desta forma – assim querendo – Ele pode voltar ao Pai.

Diz-nos o Evangelista São João que Jesus estava ciente do que iria acontecer: “Sciens Jesus quis venit hora ejus ut transeat ex hoc mundo ad Patrem, cum dilexisset suos qui erat in mundo, in finem dilexit eos – Sabendo Jesus que era chegada a sua hora de passar deste mundo ao Pai, como tinha amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo, 13, 1). As palavras “até o fim”, para alguns comentaristas e exegetas, seria dizer que Jesus os amou até o momento da morte. Esta definição, no entanto, parece-me incompleta, pois, mais que na morte, o Senhor os amou na Ressurreição e os amará por todo o sempre. Também não nos disse o evangelista que amou mais, senão que na mesma proporção de como já os amava desde a sua encarnação e durante todos os dias de sua vida. Nunca Cristo amou mais nem menos.

De Deus veio e para Deus voltaria, assim Jesus o sabia. Para mostrar que o serviço, como o amor, deve estar arraigado no homem, em sua essência, faz com que seus apóstolos pudessem notá-lo. Ora, sabia Cristo que ao seu redor estava um traidor e um que iria negá-lo logo. E também destes lavou os pés. Não foram os pés de Pedro, Senhor meu, aqueles pés covardes que O seguiam de longe? Não são estes pés desleais de Pedro que irão levá-lo ao lugar onde negar-vos-á? Não são os pés de Judas os pés do traidor que levaram a guarda até o Horto? Pois prostrado diante deles estais? Sim! E contento-me em ver-Vos assim. Pois não seríeis Vós quem sois, meu amado Jesus, nem vosso amor seria amor, nem fora vosso, se o pudessem mudar as ingratidões perpetradas pelos homens ou os agravos por eles ditos. Pois, se nestes homens tamanha foi a ingratidão, maior foi o vosso amor.

Quanto a ti, Judas, tivestes um coração endurecido e envenenado por Satanás. Estavas obscurecido pela sombra das trevas, não permitindo, assim, ver quão excelso é o amor do Senhor que estava disposto a perdoar-te. Mas nem este gesto moveu-te as duras entranhas. E por que não excluiu o Senhor a Judas? – Pergunto-me curiosamente eu e vós vos perguntais com devoção. Digo-vos que não o excluiu porque este dia não seria do julgamento, mas do amor, e o amor verdadeiro a ninguém exclui, mas é capaz de manifestar-se ainda quando somos traídos.

“Jesus… levantou-Se da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura” (Jo 1, 4 – 5). Santo Agostinho de forma bela narra esta ação de Jesus: “Tirou Seu manto Aquele que, sendo Deus, aniquilou-se a Si mesmo; cingiu-Se com uma toalha Aquele que verteu Seu Sangue para com ele lavar as manchas do pecado” (Sto. Agostinho apud Sto. Tomás de Aquino, Catena aurea). Oh, divindade tão simples e tão incompreensível! Amar-Vos não me seria suficiente, senão amar-Vos e servir-Vos; pois Vós por primeiro nos servistes. Que seja o homem a servir a Deus não nos é surpresa; mas Deus servir ao homem? Pois quanto estupor não causar-nos-ia hoje ver o Filho de Deus inclinado ante a nós para lavar-nos também os pés?! Tão inusitado gesto só poderia deixar uma imensa perplexidade nos Apóstolos. Aquele que hoje nos inclinamos para adorar, se inclinou por primeiro pra servir-nos. Quiçá o exemplo de Cristo possa infundir em nossos corações um profundo amor e humildade.

Enquanto estava a lavar os pés eis que chega a vez de Pedro e este, surpreso, lhe perguntara, como também nós O perguntaríamos: “Domine, tu mihi lavas pede – Senhor, Vós quereis lavar-me os pés?” (Jo 13, 6). E Jesus lhe afirma: “Quod ego facio, tu nescis modo, sciens autem postea. Dicit ei Petrus: Non lavabis mihi pedes in aeternum. Respondit ei Jesus: Si non lavero te, non habebis partem mecum – O que agora faço tu não entendes, mais tarde, porém, o compreenderás. Disse-Lhe Pedro: Nunca me lavarás os pés. Respondeu-lhe Jesus: Se eu não te lavar os pés, comigo não hás de ter parte (vv. 7 – 8). Hoje continua o Senhor a lavar-nos, não mais com água, mas com Seu próprio Sangue vertendo na cruz. Pois se na primeira lavou os pés dos apóstolos, agora lava-nos para que com Ele possamos ter parte, purificando-nos de todos os pecados.

Santo Agostinho, São Beda e outros escritores, hão de afirmar que a lavagem dos pés haveria de ter iniciado por Pedro, a quem Cristo sempre priorizou como chefe dos apóstolos. Outros antigos comentaristas – Orígenes, São João Crisóstomo, Eutímio – afirmam que ela teria iniciado por Judas “para pagar ao traidor o mal com o bem e comovê-lo por meio de um benefício singular, bem como advertir-nos de que devemos agir semelhantemente com nossos inimigos” (Maldonado, Comentário aos quatro Evangelhos, p. 754). Se nos diz o Evangelho que chegou a vez de Pedro, logo haveria de ter ao menos um antes dele.

Depois de terminar tão portentoso exemplo de humildade, voltou o Senhor e assentou-se, perguntando aos que lhe eram tão caros: “Scitis, quid fecerim vobis? – Compreendeis o que vos fiz?” (v. 12). De maneira enfática pergunta o Senhor se sabiam, mostrando que não. Desta forma, disposta a narrativa evangélica, na primeira parte estava a demonstrar a sabedoria de Cristo, na segunda, a mostrar a ignorância dos homens.

Paulo na Carta aos Coríntios dirá o que foi-lhe passado sobre a Ceia do Senhor. “Na noite em que ia ser entregue, o Senhor Jesus tomou o pão e, depois de dar graças, partiu-o e disse: ‘Isto é o meu corpo entregue por vós. Fazei isto em memória de mim’. Do mesmo modo, depois da ceia, tomou também o cálice e disse: ‘Este cálice é a nova aliança no meu sangue. Todas as vezes que dele beberdes, fazei-o em minha memória’” (1º Cor 11, 23-25).

A Igreja, com a Sucessão Apostólica, é incumbida pelo Senhor para que perpetue sua presença na terra por meio da Eucaristia.

Hoc facite in meam commemorationem – Fazei isto em minha memória. Filhos – diz-nos Cristo hoje – tudo dei por vós. Dei a minha vida, o meu sangue, dei-me todo por amor de vós e não quero nenhuma outra paga de vós, senão que vos recordei de mim. De tantas coisas que nos fez e disse o Filho de Deus nenhuma, digo-vos, [nenhuma!] é de nos entristecer mais nossos corações do que este pedido. Que o Deus, que por nós se fez homem e se doou inteiramente chegue a pedir que dEle nos recordemos? Oh! Amor! Oh! Quão grande é a bondade divina! Mas oh ingratidão humana! “É Deus tão amoroso e tão benigno que nos pede a nossa memória, e somos tão duros e tão ingratos, que é necessário a Deus que no-la peça” (Padre Antonio Vieira, Sermão do Mandato).

Em memória de Cristo e em Seu nome, a Igreja administra os Sacramentos.

Hoje a humildade vence a arrogância de Satanás. Hoje Aquele que se inclina faz-se pão para nutrir a nossa caminhada. Não deixemos que Jesus seja esquecido! Não deixemos que a nossa sociedade chegue ao êxito de sua descristianização. A voz do Senhor ressoa também em nossos dias, e busca acolhida em nosso coração. Seu exemplo é gritante para os homens de hoje, fartos por uma autossuficiência e arrogância que os aparta mais ainda de Deus.

Rezemos, pois, neste dia, para que o Senhor encontre-nos abertos a Sua Palavra. Que o Cristo, que outrora inclinou-Se para lavar os pés dos apóstolos, receba todo o nosso louvor. E a Ti Maria, Mãe do divino amor, elevamos uma prece, neste dia, para que a humanidade encontre repouso em Jesus Cristo, que em tudo nos é exemplo.

Nossos dias como os dias de Noé

Mais uma vez, com o Domingo de Ramos, somos chamados a adentrarmos na Semana Santa, tempo de, no silêncio, meditarmos sobre os últimos dias de Jesus nesta terra e sua gloriosa Ressurreição.

Eis, meus irmãos, que mais uma vez nos é chegada a Santa Semana. E agora cabe-me perguntar, não apenas a vós, senão que também – e antes de tudo – a mim, o que fizemos nesta Quaresma? Como nos aproveitamos dela para, como nos disse o Senhor por meio do profeta Joel em sua tão já escutada e tão nova proposta, convertermo-nos e rasgarmo,s os corações e não as vestes? (cf. Jl 2, 12-13). Agora, aproximando-nos das jubilosas festividades pascais vemos que o tempo está para encerrar-se. O sol da Ressurreição já desponta seus primeiros raios, e muitos ainda não se voltaram ao Senhor.

Santo Agostinho, São Basílio e São Pedro Crisólogo comparam os quarenta dias da Quaresma aos quarenta dias do dilúvio universal. Naqueles dias, por quarenta dias, fez Deus sobre a terra chover castigo; nestes dias faz chover abundantemente sua misericórdia. Mas sendo verdade que o amor de Deus por nós é incomensurável, apesar de nossas perversidades, o Senhor faz com que a chuva de misericórdia não cesse. Porém, como recordara o tão ilustre Padre Antonio Vieira: “Somos os homens tão protervos, que nem por bem, nem por mal pode Deus conosco: os castigos não nos emendam, as misericórdias não nos abrandam” (Sermão de Ramos).

Notemos que o mesmo que sucedeu-se àqueles antigos homens de coração endurecido no primeiro dilúvio a nós nos acontece neste outro que vivenciamos.

“Começou a chover o dilúvio de Noé: alagaram-se na primeira semana os vales e os quartos baixos dos edifícios; subiram-se os homens aos quartos altos. Choveu a segunda semana; venceram as águas os quartos altos, subiram-se aos telhados. Choveu a terceira semana; sobrepujou o dilúvio os telhados, subiram-se às torres. Choveu a quarta semana: ficaram debaixo das águas as torres e ameias mais altas, subiram-se aos montes. Choveu a quinta semana; ficaram também afogados os montes, subiram-se finalmente às árvores, e assim estavam suspensos e pegados nos ramos. Postos neste estado os homens já não tinham para onde subir, e não lhes restava mais que uma das duas: ou nadar, ou acolher-se à Arca, ou deixar-se afogar e perecer no dilúvio” (Idem).

Oh! Vejamos neste espelho o que hoje acontece à nossos dias verossímeis ao dilúvio, e talvez pior do que eles, visto que, se no dilúvio primeiro estavam os homens com os corações endurecidos para Deus; neste segundo há os que nem mesmo acreditam nEle. E não há vida mais vazia, desnorteada e sem sentido, fundamentada em um existencialismo descabido, sem uma verdadeira racionalidade, do que aquela onde Deus já não mais é o centro e o manancial de fortaleza. Sobre isso nos dirá o Santo Padre ao afirmar: “Somente a fé no único Deus liberta e ‘racionaliza’ realmente o mundo. Onde ela desaparece, o mundo se torna racional apenas aparentemente” (Bento XVI, Jesus de Nazaré, pag. 157, Edit. Planeta). Assim, os nossos dias hão de ser, e já o são, piores que os de Noé.

Desde o princípio da Quaresma quer Deus conquistar as almas, e nós sempre a nos retardarmos. “Passou a primeira semana da Quaresma, guardamo-nos para a segunda; passou a segunda, deixamo-nos para a terceira; passou a terceira, esperamos para a quarta; passou a quarta, dilatamo-nos para a quinta; passou a quinta, apelamos para a sexta; já estamos na sexta e na última semana deste dilúvio espiritual, já estamos como os do outro dilúvio, com as mãos nos ramos das árvores, ou com as árvores dos ramos nas mãos” (Padre Antonio Vieira, op. cit).

Noutro dilúvio não puderam salvar-se a todos, pois a uns não lhes era sabido da existência da Arca; outros não souberam nadar. Há neste dilúvio, no entanto, inúmeras portas abertas por nosso Salvador e pelas quais podemos ingressar. Naquele todos os homens morreram, só Noé e sua família salvaram-se; neste, morreu e afogou-se tão somente o divino Noé, para que a todo gênero humano fosse concedida a salvação.

Eis, pois, a semana em que deveis converter-vos, vós que até agora tendes passado a Quaresma despercebidos do tempo favorável à nossa salvação, perdendo tantos dias que pudéreis abrir os olhos, entrando em vossos corações e ouvindo estonteante a voz do Senhor, que deveras nos ama. Já não podem tornar os dias que, outrora tivemos, escorregaram por nossas mãos sem que dele nos aproveitássemos; os vindouros – até a quinta-feira in Coena Domini – não nos são mais que três dias reservados aos mais descuidados. Aproveitai-vos deles para reconciliar-vos com o Senhor! Como nos recordara o salmista: “Deus não desprezou nem rejeitou a miséria do que sofre sem amparo; não desviou do humilhado sua face, mas o ouviu quando gritava por socorro” (Sl 21, 25).

Agora seja-me permitido deter-me por um instante na Epístola paulina aos Filipenses, que para este dia nos é apresentada como segunda leitura. O texto é um hino que provavelmente já existia e era recitado nas comunidades cristãs. Paulo utilizar-se-ia dele para urgir aos Filipenses que se comportem de maneira humilde, como no-lO fez Cristo. Mas, além disso, o hino não pode ser ab-rogado de sua autonomia teológica profundamente rica.

É notória a evocação do despojamento de Cristo, que não se apegou a sua condição divina, mas “humilhou-se fazendo-se obediente até a morte – e morte de cruz” (2, 8). Cristo é o protótipo, por excelência, do cristão; seja enquanto Pastor; seja enquanto pregador; seja enquanto obediência; seja enquanto humildade. Mas, que em tudo, estejamos com os olhos fixos no Senhor, como nos diz o salmista (cf. Sl 122). Por meio da obediência Deus glorifica o Seu Filho acima de todas as coisas, constituindo-O Senhor do mundo, Senhor dos senhores. Não nos tardemos em adorá-lo, pois Ele não irá tardar-Se em salvar-nos. Aquele que assumiu a “forma de escravo” (Fl 2,7) é o Rei dos reis. Sua entrada em Jerusalém, assentado sobre um jumento, mostra, como nos afirma Zacarias, que uma das suas características de Messias é a humildade (cf. Zc 9, 9). Sim! O Senhor não entra em uma carruagem digna aos reis. E por quê? – perguntar-nos-emos. Porque Ele, melhor que ninguém, sabe que o Seu Reino não é dos dinheiros e dos prazeres. Não é da corrupção e da ambição; não é do ouro. As verdadeiras características deste são o amor, a humildade e a fé. Eis o verdadeiro tesouro do cristão! Não está visível aos nossos olhos, mas pode ser contemplado com os olhos da fé. Ele é uma Pessoa: Jesus Cristo, Filho de Deus! E eis que o vemos a caminho de Jerusalém. Apressemo-nos à sua frente, e prostrando-nos por terra O adoremos.

Ele voltará! E assim terá de sê-lo para que possa findar toda a história da humanidade. Não virá rodeado de pompas e adornado com ouro, não obstante ser o Verdadeiro e Único Senhor. Aproveitai o tempo que vos será oportuno. Lembrai-vos de quantas semanas se têm passado sem que dela tenhais tirado proveito. E pode ser que esta seja a última semana para alguns de nós. Quantos viveram a passada que não vivem esta, e quantos vivem esta e não viverão a vindoura! Pois se soubéssemos que esta será a última para alguns de nós, o que faríamos? Pois o que faríeis façais não meramente por medo do inferno e da morte, mas na certeza de amar a Jesus e de tê-lo ofendido.

Oh! Meu boníssimo Senhor! Peço-vos perdão por ter-vos outrora ofendido. Não Vos peço respostas, mas sabedoria para encontrá-las. Não vos peço imunidade contra as tentações, mas coragem para enfrentá-las. Não Vos peço santidade, mas forças para conseguir alcançá-la. Não Vos peço o céu, mas que ilumines a minha caminhada, para que trilhando o verdadeiro caminho, possa eu alcançá-lo.

Maria, Mãe do Autor e Senhor da vida, concedei-me, por vossa intercessão, a humildade que levou vosso Filho a obedecer, até o derramamento salvífico de Seu sangue.

Rasgai os vossos corações

Após um longo período sem redigir nenhum artigo, aos poucos vou me estabilizando aqui no Seminário e o tempo vai se conciliando.

Mais uma vez somos convidados pela Igreja ao tempo quaresmal. Neste período faz-se ecoar em nosso coração o clamor do Senhor: “Voltai para mim com todo o vosso coração, com jejuns, lágrimas e gemidos; rasgai o coração, e não as vestes; e voltai para o Senhor, vosso Deus; ele é benigno e compassivo, paciente e cheio de misericórdia, inclinado a perdoar o castigo” (Joel 2, 12-13). Deter-me-ei primeiramente nesta profecia para melhor adentrarmos ao mistério celebrado.

Como, neste dia de cinzas e início de quaresma, poderemos nos esvaziar de qualquer sentimento de engrandecimento e prepotência e rasgarmos o coração? Como poderemos mostrar a outros que o que realmente Deus olha é o coração e não o exterior? Primeiramente tenhamos em mente que é necessário testemunharmos. É preciso que o cristão seja uma testemunha veemente do evangelho. Nada mais nos pede o Senhor, senão que rasguemos os corações. E por que nos pede que rasguemos o coração e não as vestes? Por que as vestes se rasgam mas não se vê o coração, e o coração rasgado, ainda que não se rasguem as vestes, pode ser visto. A ascese neste período constitui algo fundamental na experiência da humildade cristã e nos faz reconhecer que nada somos, mas Deus é tudo e Ele tudo pode.

É triste vermos, pois, que a nossa sociedade não mais quer voltar-se à Deus, senão aos prazeres e efemeridades que este mundo oferece. O mundo necessita de Deus! Deus está próximo do mundo, mas o mundo não quer estar próximo dEle. Ainda clamamos, em comunhão com toda a Igreja: O Senhor quer perdoar-vos! Ele é um Deus amoroso! Achegai-vos a Ele! É sabido que ninguém pode resistir sem Deus. Qualquer sociedade sem Deus jamais, por si só, ficará de pé. É Deus quem sustenta todos os homens, e os fortalece em sua caminhada. Quando parecemos estar sós, quando parecemos desesperançados, Deus nos estende a mão, manifesta sua misericórdia e nos convida a levantar novamente. Não estamos sós nestas provações, estamos com Deus! Não rasguemos as vestes pois elas não demonstram o que somos, rasguemos o coração, para que vendo o nosso amor outros também o façam.

Neste sentido as cinzas, impostas hoje em nossa cabeça pelos sacerdotes, demonstram o que somos: pó, e é ao pó que retornaremos. Nada somos! Somos criados à imagem e semelhança de Deus. Não fisicamente nos assemelhamos a Ele, mas o nosso espírito deve ser semelhante. Que semelhança a criatura pode ter com o que Lhe fez? O amor! O amor nos assemelha a Deus. Um amor que deve ser incondicional. E ponho-me muitas vezes a perguntar para que apegar-se tanto aos bens materiais? Para que arrogância e prepotência? Para que se fechar à sempre nova mensagem do Evangelho? Nossa vida assemelha-se a um sopro. Que seja sopro do Espírito Santo, e não das frivolidades que tentam impor-se em nossa cultura.

Na segunda leitura Paulo convida-nos a reconciliarmo-nos com Deus. Eis o momento propício para que o mundo se volte a Ele. Voltemo-nos hoje! Agora! Deixai de lado a mediocridade que levais em vossas vidas. “’No momento favorável, eu te ouvi e, no dia da salvação, eu te socorri’. É agora o momento favorável, é agora o dia da salvação” (2Cor 6,2). Este clamor de Paulo, perpassados dois mil anos, convida-nos a deixar de lado este velho homem. Deixai de lado a vida laxa que levais! Cristo está a bater na porta e vós não escutais. E aqui escutamos as palavras do apóstolo refletidas pelo Santo Padre Bento XVI na sua mensagem para a Quaresma deste ano: “Sepultados com Ele no batismo, foi também com Ele que ressuscitastes” (cf. Cl 2, 12).

Ó! Mundo incrédulo, quando ireis abrir-vos a Deus? Quando ireis parar de crucificar novamente o nosso Salvador? Quando escutareis o clamor do Senhor que sempre está chamar-vos pelo nome? Hoje vo-los convido, irmãos, a mudarem de vida. Despi-vos do que era velho, o Senhor nos traz o que é novo. A cada Quaresma, preparando-nos para a Semana Santa, o Senhor faz-nos recordar a sua constante fidelidade e a sua maior prova de amor: a doação de seu Filho único. E creiam meus irmãos: nada é maior e nenhuma prova de amor maior podemos esperar do que esta grande e humilde atitude de Deus.

O mundo deixou-se contaminar pelo veneno de Satanás! Ele está procurando afastar-nos de Deus para nos atrair aos seus desejos, e admitamos que ele está a conseguir. E aqui o nosso Cristianismo deve fazer-se presente. Devemos fazer com que o próximo veja em nós o rosto de Cristo, sempre presente e acolhedor. Nossa Igreja não pode fundamentar-se em leis se em primeiro lugar a caridade não se fizer presente, pois do contrário será endurecida. A Igreja deve ter leis, deve prezar pelas alfaias e pela liturgia, mas se não prezar pela caridade perderá toda a sua fundamentação e o demais será vazio.

Não seja o que disse até aqui visto de forma passiva. E se for, minha mensagem não surtirá efeito. Pois se o que aqui disse for aceito por todos então não é o Evangelho que prego. É necessário que as reações contrárias sejam aqui manifestadas, pois Jesus vem não para agradar, mas para ferir com a sua palavra os corações endurecidos e que insistem em enveredar pelas sombras da morte.

Que nesta Quaresma estejamos voltados para o Cristo e que assumamos a conversão de vida para a qual todos somos chamados.  E, se o mundo vos disse que não é de grande valia as penitências e mortificações, aproximai-vos, contritos e humildes, das mesmas, oferecendo-as pelos pecadores que não reconhecem a misericórdia de Deus. Que Maria Santíssima interceda por nós e nos faça fieis ao projeto salvífico-redentor de Seu Filho.

Santa Quaresma a todos!

Luzes com a Luz

Celebramos hoje a Festa da Apresentação do Senhor, que acontece quarenta dias após o Natal. Jesus é apresentado no Templo por Maria e José, segundo a lei mosaica havia prescrito; além desta apresentação (como é de costume antigo), celebrava-se a festa da Purificação de Nossa Senhora, pois também Maria devia purificar-se após o parto, e, ali, deveriam oferecer sacrifícios, por serem pobres Maria e José ofereceram um par de rolas ou dois pombinhos. Mas a Festa de hoje não é de caráter mariano, e sim de Nosso Senhor Jesus Cristo, o que não quer dizer que não devemos honrar a bela cena da Sagrada Família que nos é apresentada.

Jesus é o consagrado por Deus e dado à humanidade. Ele vai à casa de Seu Pai, e não seria errado dizermos: Ele vai à Sua casa. Na fragilidade da criança contempla-se a luz que irradiaria em meio a um mundo tenebroso. Por isso, a Liturgia hodierna convida-nos a contemplarmos também a luz, símbolo que, de certa forma, assume hoje uma característica peculiar. Detenhamo-nos agora na primeira leitura, sendo que nos é apresentado Malaquias e Hebreus (por ser dia de semana faz-se apenas uma), nos deteremos neste ano na profecia de Malaquias.

“Eis que envio meu anjo, e ele há de preparar o caminho para mim; logo chegará ao seu templo o Dominador, que tentais encontrar, e o anjo da aliança, que desejais. Ei-lo que vem, diz o Senhor dos exércitos; e quem poderá fazer-lhe frente, no dia de sua chegada? E quem poderá resistir-lhe, quando ele aparecer?” (3, 1-2).

Chegará o Dominador. Sim! A apresentação de Jesus já havia sido prefigurada por Malaquias. Ele é o Dominador que tudo tem sob Si, o “Senhor dos exércitos”. Mas seu domínio não é comparado aos dos reis e soberanos deste mundo. Seu poder não é de escravidão! Ele não domina para Si, apesar de ser Deus. Pelo contrário: O Domínio de Jesus consiste sobretudo na verdade e na justiça; no amor e na compreensão.

Mas encontramos nesta leitura algo que dirige o nosso olhar também para a escatológica vinda do Senhor. Assim como há mais de dois mil anos, também na Sua vinda ninguém poderá resistir-lhe e fazer frente aos seus desígnios. Somos chamados a um renovado apelo de vivência e experiência da santidade, para que, na vinda do Senhor, sejamos também nós convidados a participarmos do seu banquete. Também a sua Onipotência é confirmada pelo salmista que leva-nos a cantar: “O rei da glória é o Senhor onipotente” (Sl 23). E hoje, ao contemplarmos nosso mundo dilacerado pela violência, pela falta de fé, por uma cultura desregrada da sexualidade, por uma aparente autossufuciência, queremos também elevar a Deus uma oração de súplica: Senhor concede paz aos nossos dias. Dá-nos a Tua paz, e não a paz passageira que o mundo aparentemente oferece. Faz com que o clarão da vossa luz salvífica brilhe sobre todos os homens, sobretudo aqueles que se enveredam pelas estradas da escuridão. Que a vossa glória seja plenamente manifestada Senhor! Que a nossa humanidade reconheça em Ti o Senhor da glória, que nos liberta de toda a tentação e obscuridade dos nossos olhos da fé!

Estando no Templo concretiza-se a profecia que nos foi citada na primeira leitura. Ao ver o Menino que era ofertado, Simeão faz duas afirmações que caracterizam as ações messiânicas e toda a vida de Jesus. Estavam, por assim dizer, intrínsecas a sua missão. Elas relacionam-se com a sua Paixão e Ressurreição. Temos dois adjetivos atribuido-Lhe: “luz das nações” e “glória do povo de Israel” (Lc 2, 32).  A luz que Jesus não apenas simboliza, mas realmente É, encontra pleno ápice na sua Ressurreição, de onde a humanidade, revigorada por tão grande mistério de amor, é imersa nesse profundo clarão, que investe, com toda sua força, contra os poderes maléficos. Por isso, a procissão das luzes feita hoje remete-nos ao glorioso sábado em que Cristo passa da morte à vida.

E agora encontramo-nos diante da  afirmação: “Glória do povo de Israel”. Talvez muitos que ali estivessem pensassem: como poderia na fragilidade de uma criança residir a glória de todo o povo? Mas, precisamente naquela fragilidade, Deus mostra o Seu poder. Ele não precisa se manifestar nos poderosos deste mundo, e nem quis fazê-lo, senão por meio de uma criança, aparentemente frágil e indefesa, mas que carregava em Si toda a glória e salvação do povo, dos pagãos de Israel, e de todos nós, que fomos beneficiados com o sacrifício redentor.

Agora dirijo-me a todos os consagrados e consagradas, e cumprimento-os pelo vosso dia. Que o Senhor, neste dia especial, vos estimule em vossas caminhas, e vos torne cada dia mais fiéis ao seu Evangelho e à sua Igreja. Ainda quando parece ser difícil a caminhada, a certeza de que o Senhor caminha ao nosso lado jamais nos deixa desanimar ou exitar de nossa missão. Que possais ser sinal da presença de Cristo em nosso mundo. E que sejais revigorados pelas bençãos divinas que sempre vos acompanham.

A todos reforço o convite: Sejamos luzes em nossos dias turbulentos! Não deixemos apagar em nós a chama da fé que deve irradiar esperança aos que hoje estão desesperançados; amor aos que hoje não sentem-se amados; fraternidade aos que vivem no egoísmo; fé aos que vivem na incerteza e na dúvida. Enfim, que possamos cumprir a missão a nós confiada, por aquele que é a Luz por excelência.

Que Maria Santíssima e São José nos ajudem a apresentarmo-nos diante de Deus, e a Ele oferecermos todos os nossos sacrifícios e a nossa vida