Concílio Vaticano II. Sacrosanctum Conclium. Parte dois.

FONTE: http://is.gd/m96Q6s

A Constituição Conciliar Sacrosancto Concilium continua a manifestar o porquê da existência da Liturgia dentro da Igreja e por qual motivo é preciso tanto cuidado e apreço para com ela.

Em seu número 2 é redigida ipsis litteris assim:

2. A Liturgia, pela qual, especialmente no sacrifício eucarístico, «se opera o fruto da nossa Redenção» (1), contribui em sumo grau para que os fiéis exprimam na vida e manifestem aos outros o mistério de Cristo e a autêntica natureza da verdadeira Igreja, que é simultaneamente humana e divina, visível e dotada de elementos invisíveis, empenhada na ação e dada à contemplação, presente no mundo e, todavia, peregrina, mas de forma que o que nela é humano se deve ordenar e subordinar ao divino, o visível ao invisível, a ação à contemplação, e o presente à cidade futura que buscamos (2). A Liturgia, ao mesmo tempo que edifica os que estão na Igreja em templo santo no Senhor, em morada de Deus no Espírito (3), até à medida da idade da plenitude de Cristo (4), robustece de modo admirável as suas energias para pregar Cristo e mostra a Igreja aos que estão fora, como sinal erguido entre as nações (5), para reunir à sua sombra os filhos de Deus dispersos (6), até que haja um só rebanho e um só pastor (7).

Vemos que é preciso destrinchar o parágrafo que ficou longo e pode confundir alguns conceitos e temas, algo que é muito apreciado por várias pessoas que tem a manifesta intenção de causar balbúrdias interpretativas em textos da Igreja.

O início do parágrafo tenta explica sucintamente o que a liturgia pretende e a que ela coopera afirmando que “(…) contribui em sumo grau para que os fiéis exprimam na vida e manifestem aos outros o mistério de Cristo e a autêntica natureza da verdadeira Igreja (…)”. Vamos por partes como deve ser. A Liturgia, portanto, contribui em alto (sumo) grau para que os fiéis tragam para sua vida o mistério de Cristo. O mistério de Cristo não deve ser revelado, segundo o documento, em manifestações políticas, muito menos em expressões unilaterais de leigos e clérigos. O mistério de Cristo deve vir aos fiéis através da missa e através dela esse mistério deve ser propagado a todos os cantos, católicos ou não, tudo isso para revelar algo que atualmente os fiéis tem se esquecido: a natureza da verdadeira Igreja.

Verdadeira Igreja não é uma expressão solta e apartada do todo. Não se trata de uma expressão ilustrativa para que o texto fique mais bonito e de mais interessante leitura. A verdadeira Igreja é um conceito sempre atual e desejável por Deus. Cristo morreu para que Sua Igreja Dele nascesse ainda na cruz ao ter o lado aberto derramando água e sangue.

Devemos propagar, após o envio que é a missa, a verdade que somente a verdadeira Igreja de Cristo pode nos trazer. Nos dias atuais um sem número de pessoas insistem em afirmar que a Igreja não é santa, não é perfeita, não é única… Fazendo tais afirmativas apenas expressam que Cristo não fundou uma Igreja, não trouxe uma doutrina e não deixou ensinamentos que deveriam ser entendidos e repassados por pessoas específicas e determinadas. A Igreja de Cristo é única, não há possibilidade de serem várias e isso é bem atestado quando o próprio Cristo informa aos apóstolos e mais diretamente a Pedro que “edificarei a minha Igreja” (Mt. 16,18). Cristo não disse minhas Igrejas, não disse minhas doutrinas. Disse no singular e no singular deve ficar até o fim dos tempos.

A liturgia, portanto, tem o fito de contribuir para que os fiéis possam espalhar pelo mundo a sua volta os mistérios de Cristo revelados por Sua autêntica e verdadeira Igreja.

O enorme parágrafo ainda continua da seguinte forma:

“(…) que é simultaneamente humana e divina, visível e dotada de elementos invisíveis, empenhada na ação e dada à contemplação, presente no mundo e, todavia, peregrina, mas de forma que o que nela é humano se deve ordenar e subordinar ao divino, o visível ao invisível, a ação à contemplação, e o presente à cidade futura que buscamos (2).”

Se a Igreja é simultaneamente humana e divina, diriam alguns desavisados, como poderia ser perfeita? A humanidade não é perfeita e isso a própria Igreja nunca se furtou a dizer, até porque seria loucura afirmar o contrário. Não entendem esses seres desinformados, que a Igreja visível, como em seguida no texto se diz, é formada por pessoas e por homens é dirigida. Esses homens obviamente que são imperfeitos, obviamente que são pecadores e obviamente que não são deuses. Ai está o grande pulo do gato. Deus desceu à Terra para ser morto por nós. Foi morto por nós para que seu sacrifício fosse entregue ao Pai, uma vez que o pecado da humanidade em querer ser Deus através do pecado, é tão grande que somente o sacrifício do próprio Deus poderia ser ato suficientemente válido para nossa salvação. Os sacrifícios de animais e martírios que se seguiram não tem sequer uma ponta do que significa o sacrifício de Cristo, tanto o cruento, na cruz e com derramamento de sangue, quando o incruento, na missa e sem derramamento de sangue.

Foi se fazendo homem que Deus se humilhou tão fortemente, descendo à condição da criatura, com exceção do pecado, que os mistérios se reuniram em um só lugar autêntico: a Igreja. A Igreja de Cristo, a Católica Apostólica Romana, é instituição divina como não há outra. Nela temos Cristo como sendo a cabeça e o Espírito Santo como guia. É inteira divina, inteira perfeita e inteira impecável. Pecadores somos nós os homens que sequer conseguem ter a nítida noção da grandiosidade de todo esse plano divino.

Assim sendo, o parágrafo tem o intuito de informar que a Igreja é sim humana, visível, ativa, peregrina, contudo o humano está aquém e subordinado ao divino. Da mesma forma o visível ao invisível e a ação à contemplação. O caráter peregrino deve estar subordinado sempre a onipresença divina que se faz muito clara em todas as celebrações da Santa Missa que ocorrem durante o dia em todo o mundo.

A Igreja ativa, peregrina, lutadora e visível é importante, sem dúvida, desde que esteja focada na contemplação a Deus. Ação e atitude, por mais que sejam de boa aparência, quando não focadas em Deus são pérolas aos porcos e luz engolida por trevas. Os fins não justificam os meios e por isso não há como agir de qualquer maneira para um fim considerado justo. O fim deve ser justo e o meio também. A missa deve ser sempre focada no sacrifício e nesse mistério grandioso que é a humilhação de Deus se tornando homem. Fugir disso em prol de números e satisfações é justificar os fins com meios distorcidos. Nunca foi essa a intenção do Concílio Vaticano II.

Sacrosanctum Concilium. Parte um.

Outros artigos sobre o CVII:

FONTE: http://is.gd/anHtxh

50 anos é tempo suficiente?

O porque dos nomes dos documentos.

O Concílio Vaticano II e a ruptura.

Sacrosanctum Concilium. Parte um.

Sacrosanctum Concilium. Parte dois.

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Dizem por ai que a melhor forma de iniciar qualquer coisa é pelo começo. Não discordo. Sendo assim vamos começar a analisar o documento do Concílio Vaticano II, intitulado Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium que legislou sobre a sagrada liturgia.

Pois bem, como tinha dito, o início é sempre o melhor lugar para se começar, então vamos iniciar com um excerto do primeiro número do documento:

1. O sagrado Concílio propõe-se fomentar a vida cristã entre os fiéis, adaptar melhor às necessidades do nosso tempo as instituições susceptíveis de mudança, promover tudo o que pode ajudar à união de todos os crentes em Cristo, e fortalecer o que pode contribuir para chamar a todos ao seio da Igreja. Julga, por isso, dever também interessar-se de modo particular pela reforma e incremento da Liturgia.

 Como é bom lermos a introdução de todas as coisas, não é mesmo? Hoje já se perdeu esse costume já que a moda é o rápido. 140 caracteres e abreviações das mais esdrúxulas é que passou a ser a melhor forma de se escrever. Ler prefácio de livros? Nem pensar. Quem faz isso hoje em dia? Pois perdem uma enorme riqueza ao não lerem os prefácios e as introduções dos livros. Aliás, perdem muito em não ler livros.

 Mas o que isso tudo tem a ver com a Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium? A princípio tudo.

 O número 1 do texto coloca as propostas para o Concílio. Essas propostas são lidas por muitos sem se ler o final do parágrafo.

 Inicialmente diz: “O sagrado Concílio propõe-se (…)”

a) (…) fomentar a vida cristã entre os fiéis (…). Fomentar a vida cristã é o que a Igreja sempre fez e sempre fará, afinal é a forma de se chegar à salvação. O grande problema está em entender como se fomenta a vida cristã. Infelizmente para muitos que deturpam o verdadeiro ensinamento e espírito do Concílio, a vida cristã se fomenta através de oração e obediência à Igreja e todos os seus preceitos, eu disse todos e não aos que você escolher.

Obviamente que obedecer e crer na Igreja importa em ter uma vida de oração, mas é bom que se destaque isso, afinal não é apenas mais uma regra. Dificilmente encontramos um que se diz católico que se predisponha a rezar três ave-marias durante o dia, aliás, será difícil encontrar um que rigidamente encontre disposição inflexível de ir à missa todos os domingos. Até para essa presença na santa missa as dificuldades se avolumam.

Então, a Igreja sempre buscou fomentar a vida cristã, o grande problema são os meios para esse fomento. Alguns consideram que a política é um grande meio para esse fomento, do que não discordo em momento algum, contudo não posso concordar que seja o único nem que seja o mais importante.

Da mesma forma, realizar celebrações litúrgicas da santa missa em que as pessoas que ali estão presentes necessariamente sejam o alvo, ou seja, faz-se a missa não para Deus, mas para a torcida, também não é o meio de fomentar a vida cristã. Vida cristã não é estar dentro da Igreja para fazer o que bem entender. É estar dentro da Igreja e fazer parte dela. Quando se faz parte de um corpo não se pode ir contra o comando desse corpo. Ao acaso a mão não obedece a cabeça? Ou se rebela contra ela e age como bem entender? É simplesmente absurdo pensar assim.

A Igreja fomenta a vida cristã quando age de forma cristã, ensina de forma cristã e exige de seus fiéis atitude e ensinamento cristãos. A Igreja age de forma cristã a medida que é esposa de Cristo e Dele não pode se separar. Age de forma cristã a medida que Cristo a quis e a fundou. Age de forma cristã a medida que é guiada pelo Espírito Santo.

Fomentar a vida cristã entre os fiéis não pode ser interpretado como sendo um motivo para o fim das hierarquias uma vez que a vida cristã entre os fiéis é incompleta já que não podem fazer parte da hierarquia da Igreja. Não se assustem, é isso que muitos, inúmeros pensam por ai.

Quando o Concílio, através da Sacrosanctum Concilium afirma que é preciso fomentar a vida cristã entre os fiéis, não afirma que os fiéis precisam tomar as decisões que sempre couberam a diáconos, sacerdotes, bispos, cardeais… não significa também que o fiéis precisam passar a cumprir funções que esses mesmos diáconos, sacerdotes, bispos… sempre cumpriram. É por causa de pensamentos (maus pensamentos) como esses que se disseminou uma figura nos altares que nunca deveria ter as funções que culturalmente passou a ter: o Ministro Extraordinário da Sagrada Comunhão. O mesmo poderíamos dizer para os excessos que as equipes de liturgia cometem com a conivência dos sacerdotes e o caos que passou a ser os grupos de catequistas.

Tudo tem um pouco a ver com essa intenção mal interpretada de fomentar a vida cristã entre os fiéis. Toda a questão está envolvida no ponto em que a maioria dos que se dizem católicos não são nem nunca serão católicos. Isso não é de hoje e hoje não terminará. Os católicos de verdade sempre foram poucos, muito poucos, mesmo na Idade Média. Apenas era moda e conveniente ser católico. Os católicos verdadeiros sempre foram um punhadinho.

Isso a Igreja sempre soube e sempre se colocou na posição de mudar essa situação, contudo nesse documento a Igreja deixa bem claro que o meio que ela encontrou para que os católicos verdadeiros aumentem em qualidade e quantidade é pelo testemunho, pelo exemplo. Fomentando a vida cristã entre os fiéis, outros que se dizem fiéis entendem o que é o verdadeiro cristianismo católico.

b) (…) adaptar melhor às necessidades do nosso tempo as instituições susceptíveis de mudança (…). Adaptar sim, claro, porque não? Cada tempo tem suas necessidades, cada tempo tem seu pensamento humano, cada tempo tem suas tecnologias. A Igreja militante está inserida nesse mundo e nesse tempo. Deve usar esse tempo a seu favor, mas não ser escrava dele.

Adaptar as instituições significa caminhar conforme o ritmo da dança, contudo a ressalva é interessante e as vezes acho que é invisível. A frase diz que é preciso adaptar melhor ao tempo as instituições e continua: suscetíveis de mudança, ou seja, é requisito. A frase não termina em instituições. A parte que menciona o “susceptíveis de mudança” é essencial para o entendimento de que certas coisas não são susceptíveis de mudanças: o sacrifício da missa é uma dessas coisas, o respeito à eucaristia é outra e a valorização do sagrado outra. Não vamos nem comentar sobre a doutrina revelada, os dogmas e tantos outros pontos. Fiquemos só nesses, afinal estamos em um documento que fala sobre liturgia.

Quando afirmo que o sacrifício da missa não é susceptível de mudança, não falo de rito. Não me interpretem conforme sua vontade. Falo do sacrifício mesmo. Quantos dos que agora estão lendo esse texto tem a perfeita consciência de que a missa é sacrifício? E quanto estão ouvindo (lendo) isso pela primeira vez? A missa se tornou de tal forma culto agradável aos homens que deixou de ser sacrifício. Ninguém quer sacrifício. Ninguém quer dor, muito menos morte. Quem quer isso? Façamos da missa um culto agradável a quem assiste. Porque não celebramos a vida? Afinal Cristo ressuscitou pra nos salvar, não foi isso? Não, não foi! Cristo morreu pra nos salvar e foi Ele quem quis assim. Não precisava ter sido assim, mas Ele assim o quis. Eu ou você temos autoridade pra questionar ou mudar isso?

A questão passa a ser outra: quais instituições são susceptíveis de mudança? Como essa mudança irá ocorrer e com qual velocidade isso irá acontecer? Isso tudo depende da Igreja, não de nós e a Igreja tem seu tempo. Não queira que tudo aconteça durante o seu ínfimo tempo de vida por aqui. A Igreja não será destruída até que chegue o dia do juízo final. Essa é a promessa em Mateus 28,20.

c) (…) promover tudo o que pode ajudar à união de todos os crentes em Cristo (…). Essa frase pode ser interpretada das piores formas possíveis em prol de um ecumenismo falso e hipócrita.

Promover todo o possível para ajudar todos os crentes em Cristo, não significa de forma alguma em concordar com os erros, as vezes crassos de nossos irmão separados, vulgo protestantes.

Essa promoção também não significa confraternização litúrgica com eles.

O ecumenismo sempre foi a aproximação com os cristãos, eu disse cristãos, para que possamos iniciar uma conversação digna, legítima, leal e saudável sobre nossas diferenças para que eles entendam que o seu retorno à Igreja de Cristo é o melhor caminho. Da mesma forma, passado esse período de conversação, estabelecer normas para receber esses irmãos que estavam separados dentro da Igreja de Cristo. É o que vem acontecendo com muitos leigos e clérigos anglicanos e às vezes com denominações inteiras de igrejas protestantes, especialmente nos Estados Unidos.

E tem outro detalhe; ecumenismo é entre cristãos. Não existe ecumenismo com não cristãos. Com esses é muito complicado iniciar uma conversa, já que ou não creem em Deus uno e verdadeiro, ou deturparam-no de tal forma que fica impossível estabelecer um início para a conversa. Nesse ponto a conversa se dá em outro nível, não em ecumenismo. Lembre-se que os espíritas se colocam nesse grupo de não cristãos.

Pois bem, a frase é simples e pode ser interpretada erroneamente, contudo não seria assim se quem lesse se interessassem em ler a frase como um todo que diz:

(…) promover tudo o que pode ajudar à união de todos os crentes em Cristo, e fortalecer o que pode contribuir para chamar a todos ao seio da Igreja (…)

Chamar a todos ao seio da Igreja é o motivo principal do ecumenismo. Por esse único motivo é que se deve promover tudo o que pode ajudar à união de todos os crentes em Cristo.

Concluindo sobre esses três pontos, temos que tudo desemboca em fortalecer o que pode contribuir para chamar a todos ao seio da Igreja, independentemente se acontecer por meio do ecumenismo, através de adaptar instituições que são susceptíveis a adaptação ou fomentando a vida cristã entre os fiéis.

Finalmente, o parágrafo se auto conclui julgando a si próprio e aos anseios do Concílio dizendo que:

 Julga, por isso, dever também interessar-se de modo particular pela reforma e incremento da Liturgia.

Mais uma vez pode ser levado um erro crasso de interpretação: reformar e incrementar a liturgia nunca significou mudar seu motivo de existir, sua função e sua sacralidade.

50 anos é tempo suficiente?

FONTE: http://is.gd/h0JQBC

É interessante pensar no que significam esses 50 anos de Concílio Vaticano II.

O que são 50 anos no âmbito bimilenar da Igreja de Cristo? É possível dizer, como alguns dizem, que o Concílio foi um fracasso total ou um sucesso absoluto? Ou mesmo é possível avaliar que é hora de um novo Concílio?

O Concílio Vaticano II parece ter inaugurado um novo estilo de Concílio. A linguagem utilizada é inédita e mostra que os padres conciliares não tinham nenhuma motivação pela necessidade de passar um julgamento sobre novas questões eclesiásticas e teológicas polêmicas, como foi o caso claro de Trento, Nicéia e outros, mas sim pelo desejo de voltar a atenção à opinião pública dentro da Igreja e todo o mundo, no espírito do anúncio.

Um Concílio com um novo tipo de linguagem, uma linguagem que não foi, definitivamente como a de Trento, pode ser avaliada em 50 anos de decurso?

Retrocedendo-se o pensamento ao Concílio de Nicéia no ano de 325, as disputas em torno do dogma deste Concílio – sobre a natureza do Filho, ou seja, se Ele é da mesma substância do Pai ou não – continuaram por mais de cem anos. Cem anos é dobro do que já vivemos até aqui e o as linhas do Concílio era expressas, não interpretativas.

Santo Ambrósio foi ordenado Bispo de Milão por ocasião do cinquentenário do Concílio de Nicéia e teve que lutar duro contra os arianos que se recusavam a aceitar as disposições nicenas. Podemos tirar disso que os Concílio sempre trazem conflitos, justamente por tomarem posições certas ou fazerem mudanças.

Pouco tempo mais tarde veio um novo Concílio: o Primeiro Concílio de Constantinopla de 381, que foi considerado necessário a fim de concluir a profissão de fé de Nicéia. Durante este Concílio, Santo Agostinho recebeu a tarefa de tratar de solicitações e refutar hereges até a sua morte, em 430. É possível avaliar que mesmo o Concílio de Trento não foi muito frutuoso até o Jubileu de Ouro de 1596. Foi necessária uma nova geração de Bispos e prelados para amadurecer no “espírito do Concílio” antes que seu efeito pudesse efetivamente ser sentido.

Obviamente que não estamos ignorando que nos dias atuais as coisas acontecem mais rapidamente e as informações são praticamente instantâneas, embora pouco confiáveis. A velocidade das informações poderia ser um acelerador para que um Concílio pudesse ser entendido mais rapidamente. Não é o que acontece! Mais gente é trazida para o debate, mais argumentos passam a existir e mais palpites errados são dados. Isso só piora a situação. No final, cinquenta anos, são sempre cinquenta anos.

Precisamos nos conceder um pouco mais de espaço para respirarmos e mais tempo para fielmente estarmos no espírito do Concílio Vaticano II, junto com a Igreja, afinal, sem ela nunca estaremos no espírito de nada.

O Concílio Vaticano II e a ruptura.

FONTE: http://is.gd/LNfVjp

Esses anos pulularam cursos e palestras sobre o Concílio Vaticano II em virtude da comemoração de 50 anos do Concílio. Pois é, em um deles fui obrigado a ouvir muita besteira de um bispo emérito, que obviamente não vou citar o nome, mas que foi Bispo Conciliar.

Iniciou apresentando, como quis, sua posição sobre o ecumenismo, hierarquia, infalibilidade, posição do episcopado, perfeição da Igreja, fechamento da Igreja em si mesma e outros temas semelhantes, tudo relativo ao Concílio. Bem típico mesmo!

Esse tipo de pensamento: modernista e ligado à Teologia da Libertação virou bandeira depois do Concílio. Ideologizaram o tema, fincaram mastros, escreveram livros, manipularam fatos e opiniões. Fazem isso até hoje!

Pois bem, em um lado diametralmente oposto, os chamados tradicionalistas radicais diriam, sem muito pestanejar que o Concílio Vaticano II contradisse a Tradição da Igreja no que se refere a seus ensinamentos, especialmente ecumenismo, doutrina social e alguns outros temas.

Ora, nem tanto ao mar, nem tanto a terra. O Vaticano II parece ter se tornado um amplo campo de disputas.

Os tradicionalistas radicais não podem estar corretos porque se estiverem um grave problema deverá ser resolvido: o Vaticano II não poderia ser considerado legítimo, uma vez que um concílio ecumênico pode desenvolver, mas nunca poderá contradizer o ensinamento dogmático anterior da Igreja. É uma sequência, não uma quebra.

Mas o argumento de quebra não seria também um argumento pelo lado dos modernistas e TL? Sim. Seria. Eis um ponto de convergência entre os que estão em alto mar e os que estão em terra firme. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra.

A diferença se dá apenas em ver o lado positivo e o negativo. Para radicais tradicionalistas é ponto negativo essa quebra que o Vaticano II teria imposto em vários temas, para os modernistas, TL e afins, seria um ponto positivo. É como duas pessoas que veem um peixe no fundo de um lago turvo. Cada uma está em um ângulo diferente, cada uma tem uma iluminação diferente. Uma vê um peixe outra vê uma tartaruga. Na verdade é uma pedra! Se tirassem a nebulosidade do rio e deixassem suas paixões de lado para serem racionais, veriam que se trata de uma simples pedra: estática, fixa, concisa e dura. Uma doutrina. Uma pedra que não varia conforme as ondas, mas que fica firme, mesmo com as piores marés e tribulações.

A Igreja não pode simplesmente se contradizer em questão de doutrina. Se assim o for, não poderemos dizer que se trata da Igreja de Cristo. A Igreja de Cristo é a Igreja de Deus. A Igreja de Deus não pode errar em determinadas matérias. Se a Igreja de Deus errar nas matérias pré-estabelecidas significa que é imperfeita, se for imperfeita não é de Deus, pois Deus é perfeito. E ai? Como fica?

Como fica o Espírito Santo que guia a Igreja cuja cabeça é Cristo? Como fica a cabeça perfeita que é Cristo se erra com tanta facilidade?

Os Concílios Ecumênicos estão sob a égide de Pedro que é pedra e sob o qual a Igreja é edificada e que recebeu de Deus as chaves do reino dos céus sendo possível a ele, Pedro/Papa, ligar e desligar. (Mt. 16,18ss)

Errar em questões de fé e moral não são possíveis porque a Igreja, e o Papa como seu porta-voz por aqui, são guiados pelo Espírito Santo nessas questões.

Ademais, no discurso de abertura do Concílio, o Papa João XXIII parecia já estar prevendo que essas rupturas que poderiam via a acontecer e afirmou no que o Concílio queria:

“transmitir pura e íntegra a doutrina, sem atenuações nem subterfúgios”, empenhando-se para que “esta doutrina certa e imutável, que deve ser fielmente respeitada, seja aprofundada e exposta de forma a responder às exigências do nosso tempo”.

Não a toa que a Constituição Apostólica Lumem Gentium, um dos principais documentos do Concílio Vaticano II afirma categoricamente que:

“A luz dos povos é Cristo: por isso, este sagrado Concílio, reunido no Espírito Santo, deseja ardentemente iluminar com a Sua luz, que resplandece no rosto da Igreja, todos os homens, anunciando o Evangelho a toda a criatura (cfr. Mc. 16,15)”

A pergunta que fica frente a essa afirmação é: os grupos que disputam a interpretação do Concílio estão levando em conta que a luz dos povos é Cristo? Entenderam que o Concílio se reuniu à luz do Espírito Santo? Ou apenas atendem a disputas vaidosas do tipo: aos vencedores as batatas?

Não é a toa que a Igreja nunca foi destruída nesses mais de dois mil anos. Padres, diáconos, bispos, cardeais e até Papas já tentaram consciente e inconscientemente destruí-la. Nunca conseguiram! Pessoas de fora, não católicos e católicos de IBGE, nem se fala. Ela resiste e resistirá até o fim dos tempos justamente porque é guiada pelo Espírito Santo. Está aqui por um propósito e esse propósito não cessará até o fim dos tempos, pois Ele estará conosco até a consumação dos séculos, ou seja, o fim desse mundo. Foi o que nos foi prometido em Mt. 28,20b. Porque duvidar disso? Até agora a promessa está sendo cumprida.

Será mesmo que a Igreja havia de existir por dezenove séculos e meio e depois desse tempo haveria uma ruptura? Seria necessária essa ruptura como querem os modernistas, TL e afins? Ou seria essa ruptura desnecessária como pregam os radicais tradicionalistas? Nenhum deles. Simplesmente não houve ruptura. O Concílio Vaticano II foi um concílio plenamente válido como todos os vinte anteriores.

Concílio Vaticano II. O porque dos nomes dos documentos.

Por Emanuel Jr.

FONTE: http://is.gd/kjHKrs

Nesse estudo entenderemos, antes de manifestarmos sobre os documentos do Concílio Vaticano II em si, o significado e o porquê dos nomes desses documentos, uma vez que os nomes não são escolhidos livremente ou porque são mais bonitos uns que os outros.

É preciso entender a hierarquia desses documentos e o porquê de sua existência mais ainda. Sequer é preciso mencionar que é preciso obedecê-los, não é mesmo? Espero que não!

Vamos, portanto, às definições.

Constituição Dogmática.

Entre os quatro principais documentos do Concílio Vaticano II temos duas constituições dogmáticas:Constituição Dogmática Lumen Gentium e Constituição Dogmática Dei Verbum.

A constituição dogmática é um documento pontifício que trata de assuntos da mais alta importância, no caso desses dois documentos temos assuntos referentes a definições de dogmas.

O conceito de constituição dentro do direito canônico deriva diretamente do conceito de constituição do direito romano e como lá era entendido. Nas constituições se reservava o título de constititio para as leis mais importantes. Nesse sentido parece um pouco diferente do entendimento do moderno conceito de constituição como lei fundamental de um Estado, mas, de certa forma, a ideia central é a mesma.

É muito comum acharmos sob a assinatura de vários Papas as Constituições Apostólicas. Elas podem tratar de diversos temas, contanto que seja de grande importância, importância essa que a própria Santa Sé, na pessoa do Papa é que define. A Constituição Dogmática é uma constituição apostólica, já que se enquadra na definição de ser um documento que trata de questões da mais alta importância. O nome “dogmática” aparece pelo simples fato de tratar de definição de dogmas, documento exclusivo para tal ato.

É preciso entender, antes disso tudo, que o Concílio Vaticano II foi um Concílio Pastoral e, como pastoral, não é dogmático. Entretanto, também é preciso entender o que é fundamental e faz parte da coluna sustentaria da Igreja e o que é pastoral e, portanto, passível de questionamento, nunca de desobediência.

Constituição Pastoral.

A constituição pastoral também pode ser chamada disciplinar e a Gaudium et Spes é nosso exemplo dentro do Concílio Vaticano II.

A constituição pastoral continua na mesma linha das constituições, mesma argumentação e mesmo motivo de levar o nome constituição, contudo a constituição pastoral, ou disciplinar, faz o que o nome menos divulgado diz: estabelece pontos de disciplina.

Vejamos o exemplo da Gaudium et Spes, ela trata fundamentalmente das relações entre a Igreja Católica e o mundo onde ela está e atua. A primeira parte é mais doutrinária, tratando de vários temas eclesiológicos tais como a missão de serviço ou o sacerdócio comum do Povo de Deus, tema que acabou sendo bastante deturpado por muitos que resolvem fazer a leitura do Concílio fora do contexto de dois mil anos da Igreja. A segunda parte é fundamentalmente pastoral, centrando-se nos diversos problemas do mundo atual.

Ela, portanto, disciplina uma série de questões que precisam ser disciplinadas. Manifesta sobre questões que a Igreja ainda não tinha manifestado ou que a manifestação não foi suficientemente ampla devido a certas mudanças entre outras coisas.

Falaremos bastante sobre a Gaudium et Spes no momento em que nos voltarmos para esse documento, afinal ele é o centro de muitos debates entre modernistas e tradicionalistas.

Constituição Conciliar.

Dentro dos documentos principais do Concílio Vaticano II temos uma única constituição conciliar que é, exatamente a Sacrasanctum Concilium que fala e faz uma série de definições sobre a sagrada liturgia.

Pois bem, mais uma vez não entraremos nesse momento no contexto do documento, mas apenas é bom analisarmos seu nome.

Porque a Sacrasanctum Concilium foi a única a receber o nome de Constituição Conciliar?

Bom, responder a essa pergunta não é algo tão fácil quanto parece, contudo a resposta mais simples e direta é que o documento era, sem dúvida alguma, uma constituição já que tratava de tema da mais alta importância, aliás, para muitos, foi o centro do Concílio, o que não é verdade, diga-se de passagem. Sendo uma constituição, seria necessário encaixá-la em alguma subdivisão. Dogmática não era porque não definia dogmas. Não era pastoral ou disciplinar porque não lhe dava com esses temas. Se estavam em um concílio e a constituição deveria ser nomeada, que fosse nomeada como conciliar, sem mais problemas, uma vez que a dignidade do documento, nesse caso, não diminui ou aumenta conforme sua subdivisão, já que continuava a ser uma constituição.

Declarações e Decretos.

Dentro dos textos conciliares, temos ainda as declarações e decretos. Esses são de muito simples compreensão.

Um decreto não difere muito do que é entendido como tal no direito estatal: é uma ordem emanada de uma autoridade superior ou órgão (civil, militar, leigo ou eclesiástico) que determina o cumprimento de uma resolução.

O decreto pode partir de qualquer autoridade eclesiástica dentro dos parâmetros hierárquicos e dentro dos limites que lhe se são concedidos. Assim, um pároco de uma paróquia qualquer pode decretar algo via documento e enquanto pároco dentro dos limites que lhe são impostos dentro da hierarquia.

Da mesma forma pode acontecer com qualquer autoridade: vigários, reitores, bispos, cadeais, e o Papa. No caso em questão temos os decretos conciliares porque vieram de um concílio e que o Papa os aceitou apondo sua assinatura e decretando o que ali está escrito da forma como está.

Conclusão.

Assim, portanto, temos decretos conciliares sobre a atividade missionário da Igreja, sobre o ministério e vida dos sacerdotes, sobre o apostolado dos leigos e outros somando um total de nove decretos conciliares.

As declarações, da mesma forma, seguem o conceito que temos de declaração. É um documento através do qual a autoridade eclesiástica vem declarar algo a alguém. Assim temos três declarações conciliares: declaração conciliar sobre a educação cristã, sobre a Igreja e as religiões não-cristãs e sobre a liberdade religiosa a famosa Dignitatis Humanae.

Assim é formado o conceito jurídico dos documentos conciliares. Eles obviamente obedecem a uma hierarquia, embora o Direito Canônico tenha algumas diferenças do Direito Estatal nesses casos, já que o canônico é amplamente baseado em princípios, assim como total a fé católica, algo que o Direito Estatal está muito longe de visualizar, quanto mais alcançar, embora alguns visionários já consigam enxergar a principiologia como o futuro do Direito Latino.

Meditações sobre o “Ano da Fé” – Const. Dogm. Lumen gentium (Parte I)

Após a introdução sobre o Ano da Fé e suas perspectivas, damos início às meditações a partir dos documentos conciliares, neste período de um ano, para que com mais clareza e profundidade possamos observar os aspectos essenciais que o Concílio nos propusera e continua a propor-nos por meio do Magistério.

Se por um lado a Constituição é uma leitura do Mistério da Igreja, peregrina neste mundo e esperançosa dos mistérios celestiais que Nosso Senhor há de dar-lhe como recompensa pelos seus méritos; por outro é uma manifestação da Igreja triunfante, que após peregrinar em meio a tormentos e procelas, faz-se agora partícipe da gloria salvífica do Seu Fundador, Cristo Jesus, Rei e Senhor do Cosmos.

Assim inicia a Constituição Dogmática Lumen gentium:

“A luz dos povos é Cristo: por isso, este sagrado Concílio, reunido no Espírito Santo, deseja ardentemente iluminar com a Sua luz, que resplandece no rosto da Igreja, todos os homens, anunciando o Evangelho a toda a criatura (cfr. Mc. 16,15). Mas porque a Igreja, em Cristo, é como que o sacramento, ou sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano, pretende ela, na sequência dos anteriores Concílios, pôr de manifesto com maior insistência, aos fiéis e a todo o mundo, a sua natureza e missão universal. E as condições do nosso tempo tornam ainda mais urgentes este dever da Igreja, para que deste modo os homens todos, hoje mais estreitamente ligados uns aos outros, pelos diversos laços sociais, técnicos e culturais, alcancem também a plena unidade em Cristo” (nº1).

As condições teológicas que se seguiram ao Concílio foram mesmo inquietantes para a realidade pastoral e teológica da Igreja; de fato, muitos não quiseram aceitar o contexto e o viés teológico proporcionado pelo mesmo, que não interrompia em nada o anterior, mas era uma continuidade, suscitado pelo Espírito como Dom à Igreja.

O Bem-aventurado João XXIII no discurso de abertura do Concílio ressalta o objetivo principal deste acontecimento: “O que mais importa ao Concílio Ecumênico é o seguinte: que o depósito sagrado da doutrina cristã seja guardado e ensinado de forma mais eficaz” (Papa João XXIII, Discurso de abertura do Concílio Vaticano II). Assim, não tende a outra finalidade senão continuar, como depósito da sã doutrina, a anunciar a Boa Nova como mandara o seu Senhor e a fazer-se porta-voz do consolo de Cristo nas necessidades hodiernas que impetram temor e tremor aos homens.

Em primeiro lugar, a Constituição enfatiza claramente que o Concílio é fruto da ação do Espírito, não uma ação humana, restrita ao âmbito terreno, mas é dom do alto, é força propulsora que faz os homens recobrarem o valor da misericórdia de Deus e a natureza missionária, pela qual a Igreja foi constituída e que era o tema central daquele momento de graça.  

Uma primeira realidade que encontramos logo de início, é a Igreja anunciadora, missionária, que adentra povos e culturas para lhes indicar o kerigma, a novidade do Evangelho. Para anunciar esta novidade, antes, é preciso que ela mesma resplandeça o Cristo, afinal ninguém pode dar aquilo que ainda não possui. Anunciar o Senhor, e anuncia-lo com alegria sempre nova: eis o ideal cristão! O cristão não pode se tornar suscetível às alegrias e tristezas do mundo, mas, se firmado na verdade, sua alegria é inabalável, sua coragem é imutável, sua determinação é inatingível, sua vida torna-se assim testemunho autêntico do projeto do Reino. E iremos encontrá-la sobretudo na expressiva riqueza dos documentos conciliares, que chamam os fiéis não a uma fé fechada, restrita a seus ideais, uma fé triste pelas dificuldades que acarretam o ser cristão; é sim uma conclamação a alegria de Cristo, a mesma alegria que invadiu as mulheres quando, ao contemplarem o Ressuscitado, foram anunciá-lo aos apóstolos. Naquela madrugada, tomadas pelo medo mas também pela alegria, as mulheres foram pressurosas aos apóstolos anunciar aquilo que o anjo mandara: “Não vos assusteis! Procurais Jesus, o nazareno, aquele que foi crucificado? Ele ressuscitou! Não está aqui! Vede o lugar onde o puseram! Mas ide, dizei a seus discípulos e a Pedro: ‘Ele vai à vossa frente para a Galileia, Lá o vereis, como ele vos disse!’” (Mc 16,6b-7).

E precisamente aqui reside o foco primeiro do Concílio: dar um novo caráter pastoral à Igreja. Não visava condenar heresias ou proclamar dogmas, mas reavaliar, fomentar, ilustrar o novo cenário que se despontava e, nesta perspectiva, aggiornar (atualizar) os ensinamentos eclesiásticos mostrando ao mundo o caráter sempre atual do Evangelho. Ainda nesse aspecto o Papa João XXIII afirmara no discurso de abertura: “Uma coisa é a substância do “depositum fidei“, isto é, as verdades contidas na Doutrina da Igreja, e outra é a formulação com que são enunciadas, conservando-lhes, contudo, o mesmo sentido e o mesmo alcance. Será preciso atribuir muita importância a esta forma e, se necessário, insistir com paciência, na sua elaboração; e será necessário usar a maneira de apresentar as coisas que mais corresponda ao magistério, cujo caráter é prevalentemente pastoral”.

Um segundo aspecto é a manifestação da Igreja como Sacramento, emanada do lado aberto de Cristo, representada pelo sangue e pela água que jorraram do seu peito. Da Cruz brota para o mundo a Igreja, fincada no coração do Seu Senhor, ostentada pelo lenho da salvação. E por consequência desta ligação, mesmo com as adversidades constantes, com o cinismo religioso da parte de alguns, com o relativismo, com a descrença, Ela está indissoluvelmente estreitada ao lado de Cristo; desta forma, como nos diz o profeta, ela é receptáculo, beneficiada, por aquelas palavras que nos fazem atentar ao zelo pertinente que os cristãos tiveram nos séculos e que fizeram edificar-se na história: “Haurietis aquas in gaudium... – Haurireis águas com gáudio das fontes do Salvador” (Is 12,3).

O primeiro capítulo, portanto, está dedicado ao Mistério da Igreja e a sua história, desde a prefiguração do Antigo Testamento até a sua presença no contexto histórico-salvífico da humanidade, o qual continuaremos a ver, juntamente com outros documentos, no decorrer deste Ano da Fé.

Na Audiência Geral da Quarta-feira, 14 de Novembro, dando continuidade às suas meditações sobre o Ano da Fé, o Santo Padre Bento XVI, afirmou: “Muitos têm compreensão limitada da fé cristã, porque a identificam como um mero sistema de crença e de valores e não tanto com a verdade de um Deus revelada na história, desejoso de comunicar com o homem face a face, em um relacionamento de amor com Ele”.

Eis aqui o fundamento primeiro: amor! Uma palavra tão desgastada, tanto etimologicamente, quanto sentimentalmente. Transcorridos cinco decênios do Concílio faço insurgir um questionamento: temos sido a religião do amor e do perdão que Cristo tanto anunciou? Temos cumprido a primeira missão do ser cristão que reside convictamente no amor? Questionamentos pertinentes à nossa realidade que convidam-nos a realçarmos o papel primário do amor no âmbito cristão. 

Não desejo fazer uma meditação etimológica, teológica ou filosófica do amor, mas levar a uma realidade sobrepujante: a sua vivência. A realidade do amor é o fundamento do projeto salvífico de Cristo. Deus é o Deus da justiça, do perdão, da misericórdia, mas o é também – e sobretudo! – do amor. O Cristianismo, se esvaziado deste, perde todo o seu sentido, todo o seu significado maior, torna-se apenas um código de moral ou ética, rompe o laço trinitário, desvanece do seu caráter salvífico. Por isso, a Lumen gentium condiciona este caráter a estar arraigada em Cristo (“a Igreja, em Cristo…”), verdadeiro e único Salvador.

E se o amor é plano de fundo da comunhão entre os homens de boa vontade, é propício que também, atado a este, encontre-se outra definição eclesiológica conciliar: “instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano”. De fato, como por nós é sabido, todo instrumento é servido para auxiliar em algo, a alguém. A Igreja, usada pelo próprio Cristo como seu Corpo Místico, ou segundo a expressão paulina, “esposa de Cristo” (Ef 5,22-32), não é dona dos mistérios que lhe foram confiados, mas é uma administradora fiel, prudente e materna, que sapientemente conduz e produz frutos abundantes. Está em todos os lugares e é porta voz de todos os povos. 

Parece-nos que, muitas vezes, temos nos invalidado desta missão de promovermos a unidade; ao contrário, percebemos também que em diversos atos temos sido promotores de discórdias e de lutas, seja com nossos irmãos crentes ou com os que professam outra fé. Cabe a nós fazermos valer este título de promotora da unidade com o gênero humano. Devemos dialogar em comum fitando-nos no mesmo ponto que é Cristo Jesus. Isso não significa aceitarmos os erros teológicos de outrem, mas dialogarmos pela passividade, pelo respeito e pela liberdade, reconhecendo a autonomia religiosa de cada um e fazendo com que o primeiro direito e dom de Deus, a vida, seja defendido em todos os lugares. 

A Igreja também é, antes de tudo, um caráter mistagógico, outrora oculto em Deus, hoje revelado e em parte realizado; é manifestação de Deus aos homens, graça doadora do Pai para que, reconstituindo os laços humanos divididos pelo pecado, pudessem reencontrar um caminho, um farol, para seguirem adiante e não desanimarem no curso histórico.

Sendo mistério de Deus a definimos, por conseguinte, como “mistério humano”, ou ainda melhor diríamos: mistério aos homens. Não obstante ser genuinamente e basicamente projeto divino, ela não poderia desenvolver outro curso senão ao lado da história humana. É sabido que dentre as constituições ontológicas do homem, temos algo que lhe é inerente e, portanto, imutável: a sua passividade a errar. Deus, em sua absoluta grandeza, nunca está sujeito ao erro, uma vez que seria contrário à Sua natureza, e assim sendo, isto nos levaria a questionar a veracidade de Sua divindade; no entanto, sendo Deus o supremo arquiteto da graça e baluarte da salvação, doa aos homens a Igreja como propiciadora de uma feliz reconciliação, reatando os laços que, outrora, foram cortados pelo pecado.

Reafirmando a unicidade do homem com Deus e a impossibilidade de uma existência sadia longe d’Ele, o inimigo perversor semeia a intriga e a discórdia, para que seja a Igreja atacada de forma virulenta e possa desanimar de sua missão profética. Como bem alertara o Venerável Servo de Deus, Papa Pio XII, de imperecível memória, e com o qual findo esta primeira meditação: 

“Certamente, o ódio contra Deus e contra os que legitimamente lhe fazem as vezes é o maior crime que o homem pode cometer, criado como foi este à imagem e semelhança de Deus, destinado a gozar da sua amizade perfeita e eterna no céu; visto que pelo ódio a Deus o homem se afasta o mais possível do sumo Bem, sente-se impelido a repelir de si e do seu próximo tudo quanto vem de Deus, tudo quanto une com Deus, tudo quanto conduz a gozar de Deus, ou seja a verdade, a paz e a justiça” (Cart. Enc. Haurietis Aquas, 68).