Epístola a Policarpo de Esmirna

“Epístola a Policarpo de Esmirna”


Inácio, Bispo de Antioquia (67 – 110 d.C.).

Inácio, também chamado Teóforo, a Policarpo, bispo da Igreja dos esmirnenses, ou antes àquele que tem a Deus-Pai e ao Senhor Jesus Cristo como o bispo os melhores votos de felicidades.

1. Dando acolhida a teus sentimentos em Deus, me rejubilo exaltado, porque eles estão fundados numa rocha inabalável e porque eu fui julgado digno de contemplar teu rosto puro, gozo este que gostaria de perpetuar em Deus. Pela graça de que estás revestido, eu te exorto a acelerar ainda teu passo e a exortar também os outros para que se salvem. Justifica tua posição, empenhando-te todo, física e espiritualmente. Cuida da unidade; nada melhor do que ela. Promove a todos como o Senhor te promove; suporta a todos com amor, como aliás o fazes. Dispõe-te para orações ininterruptas; pede ainda maior inteligência do que já tens; sê vigilante, dono de um espírito sempre alertado. Fala a cada qual no estilo de Deus. Vai levando as enfermidades de todos como atleta consumado. Quanto maior o labor, maior o lucro.

2. Se te agradares dos bons discípulos não terás méritos; submete antes com doçura os contaminados. Nem toda ferida se cura com o mesmo emplastro. Crises violentas acalmam-se com compressas úmidas. Faze-te prudente como serpente em todos os assuntos, sempre simples como a pomba. Por isso é que és carnal e espiritual para atraíres a teu rosto o que te aparece ante os olhos. As coisas invisíveis pede que te sejam reveladas, para que não te chegue a faltar nada e tenhas toda graça em abundância. O tempo atual exige tua presença, para chegares até Deus, assim como os pilotos anelam pelos ventos e os açoitados da tempestade pelo porto. Sê sóbrio como atleta de Deus. O premio é a incorruptibilidade e a vida eterna, do que aliás já te convenceste. Em todos os sentidos, somos teu resgate eu e minhas cadeias que te são caras.

3. Aqueles que parecem dignos de fé e no entanto ensinam o erro não te abalem. Mantém-te firme como bigorna sob os golpes. É próprio de um grande atleta receber pancadas e vencer. Não tenhas nenhuma dúvida, temos que suportar tudo pela causa de Deus, para que também Ele nos suporte. Torna-te ainda mais zeloso do que és; aprende a conhecer os tempos. Aguarda o que está acima do oportunismo, o atemporal, o invisível que por nossa causa se fez visível, o impalpável, o impassível que por nós se fez passível, o que de todos os modos por nós sofreu!

4. Viúvas não fiquem desatendidas; depois do Senhor, providencia tu por elas. Nada se faça sem o teu consentimento; nada faças tu sem Deus; o que aliás não fazes. Sê firme. As reuniões sejam freqüentes; procura a todos, um por um. Não trates com sobranceria a escravos e escravas; também eles não se encham de orgulho, mas sirvam com mais dedicação para a glória de Deus, a fim de alcançarem da parte de Deus uma liberdade melhor. Que não se inflamem sabendo que poderiam libertar-se à custa da comunidade, a fim de não acabarem por escravizar-se à cobiça.

5. Foge às más artes, prega antes contra elas. Fala às minhas irmãs, que amem o Senhor e se contentem com os maridos na carne e no espírito. Da mesma forma, recomenda aos meus irmãos em nome de Jesus Cristo que amem suas esposas como o Senhor ama a Igreja. Se alguém é capaz de perseverar na castidade em honra da carne do Senhor, persevere sem orgulho. Caso se orgulhar, está perdido; se ainda for tido como mais do que o Bispo, está corrompido. Convém aos homens e às senhoras que casam contraírem a união como consentimento do bispo, a fim de que o casamento se realize segundo o Senhor e não conforme a paixão. Tudo se faça para honra de Deus.

6. Atendei ao bispo para que Deus vos atenda. Ofereço-me como resgate daqueles que se sujeitam ao bispo, aos presbíteros e diáconos. Com eles me seja concedido ter parte em Deus. Labutai uns ao lado dos outros, lutai juntos, correi, sofrei, dormi, acordai unidos, como administradores de Deus, como Seus assessores e servos. Procurai agradar Aquele sob cujo estandarte combateis, de quem igualmente recebeis o soldo. Que não se encontre desertor entre vós. Vosso batismo há de permanecer como escudo, a fé como capacete, o amor como lança, a paciência como armadura. Vossos fundos de reserva são vossas obras, para receberdes um dia os vencimentos devidos. Sede pois magnânimos uns com os outros na doçura, como Deus o é convosco. Oxalá possa alegrar-me convosco sempre.

7. Uma vez que a Igreja em Antioquia da Síria goza de paz, como me foi participado, graças a vossas orações, também eu me encorajei mais, pela confiança em Deus; contanto que me encontre com Ele pelo sofrimento e assim no dia da ressurreição possa ser contado como vosso discípulo. Convém, ó Policarpo feliz em Deus, convocar uma reunião agradável a Deus e escolher alguém, tido como especialmente querido e incansável, para poder chamar-se estafeta de Deus; encarregar pois a um tal de viajar para a Síria e aí celebrar vossa caridade infatigável para a glória de Deus. Um cristão não tem poder sobre si mesmo, mas está à disposição de Deus. Esta obra é de Deus e vossa, caso a leveis ao fim. Confio na graça, que estejais prontos para uma obra boa que convém a Deus. Conhecendo vosso zelo pela verdade, acabei por exortar-vos com essas poucas linhas.

8. Uma vez que não pude escrever a todas as Igrejas, por ter que partir apressadamente de Trôade para Nápoles, como manda a vontade de Deus, escreverás às Igrejas mais do Oriente, pois que possuis o espírito de Deus, a fim de que elas também façam o mesmo: umas – as que podem – enviando mensageiros, as outras por sua vez cartas através de enviados teus. Assim sereis enaltecidos por uma obra imperecível, como bem o mereces. Saudações a todos nominalmente, também à viúva de Epitropos com toda a família e filhos. Saudações a Átalo meu amigo; saudações àquele que for julgado digno de viajar à Síria. A graça há de estar sempre com ele e com Policarpo que o envia. Faço votos que passeis bem para sempre em nosso Deus Jesus Cristo, no qual haveis de permanecer na união com Deus e o bispo. Saudações a Alceu, que me é tão caro. Passar bem no Senhor.

8 pensamentos sobre “Epístola a Policarpo de Esmirna

  1. muito bom ler esta carta e perceber oquanto as pessoas tinha tanta fé pela sua dedicação estas maravilhas chegou até nos

  2. Pingback: SANTO INÁCIO DE ANTIOQUIA – EPÍSTOLA A POLICARPO DE ESMIRNA « BLOG CARLOS LOPES שלום

  3. Estou fazendo um estudo sobre o Cristianismo antes de Constantino, e já nessa carta aprendi uma lição importante.
    Os Batistas falam que a Igreja Primitiva só tinha dois cardos, Bispo e diácono, mas lendo esta carta no 6 parágrafo eu ví já 3 cardos: Bispo, Presbítero e Diácono.

  4. gostaria tanto que, em nome de NOSSSO Senhor Jesus Cristo , cessassem todas as contendas que existem entre nós cristãos… obrigado por ter esse site como fonte de consulta estudo patrístico, muito obrigado por ter pessoas que se preocupamem tornar acessível tais ensinamentos que nos fazem compreender a história da igreja que o Senhor Jesus Cristo formou, muito obrigado, a graça e a paz do senhor Jesus Cristo seja com (todos)
    seminarista claudio verli de almeida (seminário unido de mesquita-RJ)

  5. Ah! Nadir. E vc jura que Aquela Igreja continua hoje nos recintos da igreja do Vaticano. Fala sério.
    Eu concordo que a Igreja tenha que seguir o Bispo em questões de fé, desde que esse Bispo seja parte da Herança de Deus em Jesus Cristo.
    A partir do momento em que houve pervesão da real doutrina da verdade, você acha que é correto seguir o Bispo corrompido? Pensemos nisso.

    Realmente, Inácio estava a serviço da Igreja com espírito de verdade, e o que escreveu foi para manter essa Igreja sempre unida a Cristo.
    -A partir de quando foi adotado o homem (Papa) infalível?
    Quantos erros foram por eles cometidos? Não são infalíveis? E justamente em questões de fé.
    -A parir de quando foi permitido pelos bispos corrompidos a intercessão dos mortos pela igreja romana? Foi desde o início? Absolutamente não.
    Então, teme ao Senhor e aparta-te do mal.

  6. Quando falamos algo temos que ter conhecimento do que falamos, senão corremos o risco de falar asneiras. A infalibilidade do papa se dá no momento em ele está em exercício de suas sagradas funções eclesiásticas. O papa é infalível quando se dirige à Igreja através de uma encíclica dando à ela uma orientação universal da fé cristã. É nesse momento em que ele (papa), toma a postura de Pedro, para guiar sua rebanho. Portanto, vamos desassociar o caráter humano do papa, com o procedimento divino de agir em favor dos fiéis.

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