A crise de fé na existência do homem contemporâneo

“O que vimos e ouvimos nós vos anunciamos” (1Jo 1,3)

Por ocasião do Ano da Fé faço chegar minha saudação cordial aos irmãos e irmãs que com ardoroso empenho se dedicaram de forma corajosa e fiel para o bom êxito deste período de graças abundantes. Tenho dito que o Senhor nos proporcionou prodígios imensos com estes dias benéficos propostos pelo nosso querido Papa emérito Bento XVI e abraçado por toda a Igreja como um convite para renovarmos a nossa fé no “Deus de todas as consolações” (2Cor 1,3).

Agora, tendo chegado à conclusão deste ano de graça, desejamos auspicar os votos provenientes do nosso íntimo para que se possam haurir todos os ensinamentos que usufruímos neste tempo, sejam eles vindos do Magistério, sejam eles vindos da Sagrada Escritura vivenciada no cotidiano. Por isso este artigo procura retratar a necessidade primordial de conservar a fé no coração e na história do homem contemporâneo. Há, indubitavelmente, uma lacuna no que tange ao sensus fidei no seio da humanidade. Temos muitos homens; temos poucos humanos. Perdida a fé se esvai a esperança daquilo que chamo de metanóia da interioridade, ou seja, mudança, conversão de costumes, hábitos e vida. Sem esta caímos na indiferença do grito ecoante dos indefesos e pequenos nos negando à prática da caridade, maior de todas as virtudes.

A crise de fé, entretanto, não vem sozinha. Antes, vem acompanhada de uma crise de grande magnitude: a existencial, que afeta a vida, os direitos, a fé e a dignidade, de modo particular dos que são postos à margem de qualquer posição. É comum (até necessário!) que a sociedade seja abalada por esta crise. Cada homem é chamado a lutar contra si, descobrir-se em meio a tantas propostas e tantas formas de propor; perguntas que caracterizam os percursos da vida humana. Porém, temos percebido que tem ela ganhado uma força aparentemente incontrolável, onde ressaem mais as inconstâncias e preocupações subjetivas do que a fé que une a todos sob um mesmo amor redentor.

Não obstante, no decorrer destes dois milênios a Igreja tem feito com que o homem questione a si mesmo de forma sadia e coerente não para que se torne um agnóstico, alguém descrente, mas para que possa dar razão e sentido à sua fé. Como bem nos recordara o Bem-aventurado Papa João Paulo II na Carta Encíclica Fides et Ratio: “Na base de toda a reflexão feita pela Igreja, está a consciência de ser depositária duma mensagem, que tem a sua origem no próprio Deus (cf. 2Cor 4,1-2). O conhecimento que ela propõe ao homem não provém de uma reflexão sua, nem sequer da mais alta, mas de ter acolhido na fé a palavra de Deus (cf. 1Ts 2,13)” (nº 7).

Propus-me a meditar sobre esta crise de fé, que está intrinsecamente unida a crise existencial, para que este ano não seja um labor em vão mas um momento oportuno onde a palavra outrora pregada por São Paulo ecoe incessantemente no mundo hodierno: “Prega a Palavra, quer agrade, quer desagrade” (2Tim 4,2).

Em uma de suas poesias, Manoel de Barros escreveu: “No que o homem se torne coisal – corrompem-se nele os veios comuns do entendimento”.

Também hoje fazemos nossas as suas palavras. O que significa ser o homem “coisal”? Deveras, é o fato de que este se torne tão somente uma “coisa”, um ser casual, produto da sociedade consumista e exacerbadamente capitalista; perde-se de si, perde-se dos outros; está no mundo sem descobrir-se e sem redescobrir a beleza da vida e a finalidade da sua existência. Este cenário despontou há alguns séculos e torna-se sempre mais costumeiro e insensível à realidade dos sinais propostos pelas concepções filosóficas ou pela religião a respeito de Deus. Gradativamente vai o homem perdendo a esperança com relação a sua fé e ao “por que” das coisas. Neste consiste o imperioso dever de fazermos com que o homem enverede novamente pelo caminho da luz e da razão.

Seria demasiado extenso tratarmos a fundo do problema da crise existencial, além de desfocarmos da centralidade da nossa carta. Por isso, procurarei explanar brevemente o tema limitando-me a enumerar alguns aspectos que incidem de forma pungente em nosso cenário.

O relativismo e as problemáticas diante da fé

O primeiro destes aspectos é o relativismo, denunciado inúmeras vezes pelo Sumo Pontífice o Papa Emérito Bento XVI. Uma das suas mais famosas denúncias deu-se na Santa Missa Pro Eligendo Pontifice, quando ainda era o então Cardeal Ratzinger:

“Ter uma fé clara, segundo o Credo da Igreja, muitas vezes é classificado como fundamentalismo. Enquanto o relativismo, isto é, deixar-se levar ‘aqui e além por qualquer vento de doutrina’, aparece como a única atitude à altura dos tempos hodiernos. Vai-se constituindo uma ditadura do relativismo que nada reconhece como definitivo e que deixa como última medida apenas o próprio eu e as suas vontades”.

Sábias palavras estas! O que é bom torna-se mal; o que é mal torna-se bom. É este o relativismo que devasta a nossa crença e a nossa sociedade nos fazendo homens descrentes, fechados à realidade da fé e da salvação. Se cremos devemos ter consciência de que não cremos individualmente mas em comunidade eclesial.  Crer, portanto, é adesão à base da nossa fé, que é a Trindade, perfeita Comunidade. Se a fé torna-se sinônimo de isolamento não subsiste porque se torna discrepante com o Evangelho e com o modelo de Igreja que nos foi transmitido na vicissitude dos séculos. É necessário que aprendamos a ser individuais sem sermos individualistas. “A fé não é um fato privado, uma concepção individualista, uma opinião subjetiva, mas nasce de uma escuta e destina-se a ser pronunciada e a tornar-se anúncio” (Cart. Enc. Lumen Fidei, 22).

Se por um lado é demasiado perigoso que a fé se torne individualista, o é também que ela assuma uma dimensão comunitária desvirtuada do seu real objetivo e deformada da sua essencialidade quando deixamos de crer com todos para crer com alguns. O relativismo permeia esses dois âmbitos. Evidencia-se desta feita que, para responder às reais razões da problemática existencial do homem e para conduzi-lo à Verdade, devemos fazer a correlação entre e razão. Relembrando o saudoso João Paulo II em sua já citada encíclica, também nós queremos reafirmar que “a razão, privada do contributo da Revelação, percorreu sendas marginais com o risco de perder de vista a sua meta final. A fé, privada da razão, pôs em maior evidência o sentimento e a experiência, correndo o risco de deixar de ser uma proposta universal” (nº 48).

Não prescinde do homem sua fé, mas ela é dom de Deus que se manifesta e que se lê sapientemente com os sinais dos tempos e guiada unicamente para a Verdade. Por isso, restringir a fé de um caráter universal para uma particularidade é também delimitar espaços para a verdade e interpretá-la ao nosso bel prazer, fazendo-nos descrentes com a realidade imperiosa da salvação e tornando-nos crentes com a alucinógena realidade do querer. O teólogo Jean Daniélou bem nos relatou esta realidade em seu livro O futuro no presente da Igreja: “O mistério da fé está, certamente, acima e para além de toda expressão humana; nenhuma definição poderá jamais esgotar todo o seu conteúdo de verdade” (Ed: Paulinas, 1974).

A Verdade primeira consiste na Pessoa Daquele que diz: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”, acrescentando logo em seguida: “Ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14,6). E aqui – embora não nos seja um momento exegético – deveríamos nos perguntar, para assim melhor evidenciarmos o caminho da verdade: Por que diz Cristo “vem” e não “vai” ao Pai? Desejaria ressaltar dois motivos pelos quais a verdade torna-se inacessível se não for trilhado o caminho que Cristo evidencia:

a)      O primeiro refere-se àquela afirmação de caráter salvífico: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30), reafirmado a sua unicidade com Deus e de onde viera: não de outro lugar, senão do seio do Pai. Ele e o Pai são um! Diferença na Pessoa, igualdade na divindade. É um caminho que requer autenticidade e o amor pela verdade e pelo conhecimento. Santo Agostinho bem escrevera: “Onde existe o Amor existe a Trindade: um que ama, um que é amado e uma fonte de amor” (De Trinitate).

b)      A segunda frase é, por assim dizer, um complemento quanto à primeira. Nenhum outro é o caminho para o Pai senão em Cristo. Só Ele é a via de acesso para a salvação do homem, como dissera Paulo: “Unus enim Deus, unus et mediator Dei et hominum, homo – um só Deus e há um só mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo, homem” (I Tim 2,5). Embora muitos sejam os ideais e as formas de buscar o conhecimento, todas resumem a ideia paulina dita em algumas linhas antes desta citação, quando afirma que Deus é Aquele que “deseja que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (v.4). Um caminho é o da verdade e nós podemos adorá-lo porque é também uma Pessoa. Uma vez que “ninguém pode sinceramente ficar indiferente quanto a verdade do seu saber” (Fides et ratio, 25), a Sagrada Escritura fomenta um conhecimento ao homem que – provenha de Deus ou provenha de sua consciência – é via estreita para chegar-se a esta Verdade que Jesus se-nos apresenta. Porém, tendo conhecido o Evangelho, o homem é convidado a refletir sua postura anterior para que, conscientemente avaliadas, sejam aderidas ou não. Tendo aderido torna-se partícipe, mas se ignora então persiste no erro.

O testemunho como essência da fé

Aqui adentramos em um segundo aspecto da crise de fé que vai tentando sorrateiramente corroer as estruturas da verdade na qual cremos: falta de testemunho. Para os que creem o testemunho não é privilégio, mas exigência e necessidade de um autêntico discipulado. O verbo crer é um sinônimo (para o cristão) do verbo testemunhar, e os dois se conjugam na linguagem universal da fé.

A falta de testemunho, sobretudo por parte dos membros, tem impactado muitos fiéis que, com a fé já atormentada pela forma periclitante de questionamentos, se deparam com a incoerência de vida dos que se dizem parte do Corpo Místico de Cristo mas que agem como se nele não estivessem. Por essa razão este ano não nos convidou somente a um renovando modelo de fé, mas a um testemunho convicto e convincente daquela mensagem que nos foi dada e que deve por nós ser testemunhada.

A palavra não é nossa! A mensagem não é da Igreja! Tudo lhe advém por Cristo, Senhor e Juiz da História. Afinal, “quem se abriu ao amor de Deus, acolheu a sua voz e recebeu a sua luz, não pode guardar este dom para si mesmo. Uma vez que é escuta e visão, a fé transmite-se também como palavra e como luz” (Cart. Enc. Lumen Fidei, 37). Aos que conheceram e se abriram à graça da salvação, é outorgada uma necessidade de fé que não acomoda, antes incomoda, inquieta e estimula a transmitir também o que já vem sido anunciado (cf. ICor 15,3).

Por isso é imperioso o nosso dever de advertir para que não se pregue aquilo que não nos convém ou não é de nosso caráter missionário. Devemos sim pregar sobre a necessidade e a essência da nossa missão cristã que consiste naquilo que pertence ao sagrado Depósito da Fé. Quando a religião deixa de pregar sobre Deus e o seu Evangelho e passa a ser transmissora de suas convicções institucionais, ou de convicções pessoais de seus membros, deixa de ser semente de Deus e passa a ser joio do Diabo (cf. Mt 13,39).

O momento decisivo do encontro com Deus não deve estar esperançado somente na expectativa de um mundo vindouro, mas deve sê-lo, já aqui, um preclaro sinal de que Aquele em quem nós acreditamos não nos deixará no vazio, na obscuridade; ao contrário, nos ilumina e revigora, nos dá luzes, mesmo que por vezes as trevas pareçam predominar e o cheiro de morticínio, desprezo e ignomínia se elevem como um clamor versado na desgraça alheia. Neste âmbito Paulo nos conclama a um renovado olhar sobre a ação de Deus no mundo nos pedindo para não desprezar a nossa fé e colocar em dúvida o querer de Deus em meio às adversidades: “Sei em quem pus minha confiança” (II Tim 1,12).

Somos chamados a unir-nos de forma particular aos nossos irmãos que sofrem pelas perseguições por testemunharem sua fé no Cristo Ressuscitado e por isso são injustiçados, humilhados e mortos. O Senhor olha também por estes mártires do novo milênio que segue não menos rigoroso com quantos se põe a serviço do Evangelho.

A concretude da fé na caridade

A verdadeira fé não se faz isolar. Ela nos descerra a um encontro com a verdade centrada no Cristo, contemplada em sua vida e sentida pela sua presença. Santo Tomás de Aquino, exímio em sua sabedoria e humilde em sua vida, fala a respeito de uma oculata fides (uma fé que vê) dos Apóstolos (cf. Summa theologiae, III, q. 55, q. 2, ad 1) (cf Lumen Fidei, 30). Essa “visão” traduz-se na expressão máxima da fé que é a caridade. Por isso, a advertência de São Tiago constitui, ainda mais para a nossa sociedade capitalista e egoísta que não olha a necessidade dos desfavorecidos, uma cartilha de caridade cristã, como o é toda a Escritura Sagrada: “Tu tens a fé, e eu tenho as obras; mostra-me a tua fé sem as tuas obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras” (Tg 2,18).

Quando o homem se fecha para o grito daquele que sofre, fecha-se também ao grito de Cristo que clama e é solícito para com os pequenos do seu Reino. O mundo tem fome de pão e ainda mais esfomeado está pela Palavra viva que produz a fé. Aos que padecem pela fome repetimos o apelo paternal do Servo de Deus Papa Paulo VI: Não basta alimentar os esfomeados: ainda é preciso assegurar a cada homem uma vida conforme a sua dignidade” (Discurso à ONU, 04/10/1965).

Se, por um lado, urge a necessidade de um olhar pelos irmãos necessitados e pelos locais em via de desenvolvimento, mas que sofrem empecilhos por parte daqueles que detém grande parte do poder econômico; por outro faz-se também atenciosa a situação daqueles que faltam à caridade para com o próximo em estado espiritual. Tantos são os que, fechados à comodidade de suas situações estáveis, não atentam ao apelo dos irmãos sofridos e privados do anúncio de Jesus Cristo. Se a fé é dom de Deus não deve ser retida. Podemos reter o que é nosso, mas jamais o que pertence a todos. “A fé torna-se operativa no cristão a partir do dom recebido, a partir do Amor que o atrai para Cristo (cf. Gl 5,6) e torna participante do caminho da Igreja, peregrina na história rumo à perfeição” (Lumen Fidei, 22).

Novamente apelo para a consciência moral dos povos, sobretudo dos governantes, para que escutem o brado dos irmãos que são tratados como aquele da parábola do rico epulão e do pobre Lázaro (cf. Lc 16,19-31), deixado à margem e do qual vinham os cachorros para lamber as suas feridas.  No dia da morte, nada ficará sem que se preste contas a Deus. E então, Lázaro é “levado” para o alto pelos anjos, ao seio de Abraão. Finalmente, o pobre entra na jubilosa comunhão do banquete messiânico; o rico, ao contrário, “foi sepultado… na morada dos mortos, achando-se em tormentos…” (Lc 16, 22-23).

O Santo Padre Bento XVI em sua homilia na Missa dos aposentados alertou que há de ter-se cuidado com três pontos fundamentais em que o dinheiro pode prejudicar a vida do homem e do qual vemos bem frisado no Evangelho:

a)      A riqueza faz definhar a vida do pobre: O Evangelho faz a descrição do homem rico como ornado de ouro, abastardo de alimento, fechado em sua comodidade; ignorava o grito do pobre em sua porta, não tinha compaixão para aquele seu irmão, filho do mesmo Deus, que lá estava atirado. Aqueles desfavorecidos não possuem o capital e os recursos necessários para a sobrevivência, podendo tão somente contar com a ajuda dos que são bem ressarcidos em seu meio de trabalho ou em suas posições sociais. A Igreja se solidariza com estes e lhes faz estreitar com o Cristo sofredor, que não os ignora, mas é presente em suas necessidades cotidianas.

b)      A riqueza faz definhar a vida dos ricos: Neste segundo aspecto retratemos o prejuízo da riqueza para a vida dos ricos. Novamente fazemos ecoar as palavras do Servo de Deus Paulo VI, que duramente exortou os povos a recobrarem o senso caritativo da humanidade: “A solidariedade universal é para nós não apenas um fato e um benefício, mas também um dever” (Carta Enc´. Populorum Progressio, 17). Quando as pessoas de condição social elevada menosprezam o grito de desespero dos povos que padecem pela fome, pela falta de oportunidade, pelo desemprego e tantas outras desgraças a que são lançados, perdem a sua dimensão humanística e cristã. Aliás, é isso que tende o homem soberbo: sua autossuficiência não o faz reconhecer-se filho de Deus e faz desconhecer nos irmãos o sinal complacente do Cristo sofredor. Como nos faz saber o Santo Padre Bento XVI: “À aspiração frustrada dos pobres durante a vida corresponde o desejo dramaticamente negado aos ricos, de acederem ao banquete messiânico: ‘Ai de vós, ricos, porque já dispondes da vossa consolação’ (cf. Lc 6, 25)” (Homilia na Missa para os aposentados).

c)      A riqueza faz definhar a fé dos ricos: Por fim desejamos acender a este terceiro aspecto que se manifesta no que concerne à fé do rico. Deveríamos esclarecer aqui que a riqueza e a pobreza não devem apenas ser vistas num contexto exterior, mas também interior, para que não caiamos numa utopia ou numa concepção ideológica de pobreza e riqueza. De fato, é imperioso que tenhamos cuidado para não valorizarmos o pobre que é soberbo e esquecermo-nos do rico que é pobre. Voltemos mais uma vez à parábola. O rico, já na mansão dos mortos, pede que Abraão mande Lázaro alertar seus familiares para que também eles não caiam no tormento. Mas não lhe é concedido tal, uma vez que – segundo a narração – eles já possuíam a palavra dos profetas. Não necessitamos de mensagens dos mortos para orientarmos a nossa vida nos caminhos do Evangelho; hoje temos a Igreja, os ensinamentos dos santos e diversos meios de combatermos o nosso egoísmo e o amor ao deus-dinheiro. Por isso, se o rico deposita a sua fé mais na riqueza do que em Deus, ouvirá aquelas palavras outrora proferidas por Jesus: “Louco! Ainda esta noite será pedida conta de tua vida; e para quem ficará o que deixastes?” (Lc 12,21). A verdadeira humildade não consiste tão somente na renuncia de bens materiais, mas sobretudo no serviço a Verdade.

Conclusão

Enfim, queremos novamente elevar aos céus nossos singelos e sinceros agradecimentos a Deus pelo dom do Pontificado do Santo Padre Bento XVI que, com o raio da sabedoria divina, nos presenteou com este ano oportuníssimo à nossa fé e comunhão eclesial. Em nossa sociedade que menospreza o crer em Deus como fruto de uma “ilusão” e “se bem que nos encha de amarga dor o ver a fé definhar nos bons, e contemplar como, pelo falaz atrativo dos bens terrenos, lhes decresce nas almas e aos poucos se apaga o fogo da caridade divina, muito mais nos atormentam as maquinações dos ímpios, que, agora mais do que nunca, parecem incitados pelo inimigo infernal no seu ódio implacável contra Deus, contra a Igreja e, sobretudo, contra aquele que representa na terra a pessoa do divino Redentor e a sua caridade para com os homens” (Carta Enc. Haurietis Aquas, 67).

Por isso, em comunhão de caráter universal, queremos que esta iniciativa do Ano da Fé seja um momento de perpétua renovação onde já não mais possam contar as nossas vantagens, mas predomine o serviço renovado e ardente ao evangelho. “Por conseguinte, só acreditando é que a fé cresce e se revigora; não há outra possibilidade de adquirir certeza sobre a própria vida, senão abandonar-se progressivamente nas mãos de um amor que se experimenta cada vez maior porque tem a sua origem em Deus” (Carta Apost. Porta Fidei, 7).

Que nosso crer não seja uma apologia, uma forma de engrandecimento, mas um sinal de que Deus não está restrito a um passado. Ele nos alcança, fala também a nós e nos chama a sermos cristãos de firmes convicções. Não idealizemos a fé, mas a testemunhemos! Se a fé se projeta apenas no passado é uma mera lembrança; se se projeta apenas no presente é inteligível; se se projeta apenas no futuro é utopia. Ela deve albergar essas três realidades: aprender com o passado em um olhar de esperança para o futuro e uma ação no hoje da história.,

Invoquemos a Maria, Mãe da fé, para que junto ao Seu Filho faça crescer nos homens o desejo de procurarem trilhar cotidianamente, a passos vagarosos, mas firmes, os caminhos de Deus. Que todos se abram à graça salvífica e sintam Sua estreita proximidade para conosco, mesmo diante dos tormentos da sociedade contemporânea. Que este ano deixe-nos a certeza de que a vida cristã deve sempre nos ensinar a conjugarmos a fé com a esperança e o amor. Essas são as virtudes basilares para conhecer o Cristo e apresentá-Lo ao mundo. O conhecimento perpassa antes de tudo a experiência do encontro. Só conhece, de fato, quem encontra e quem convive. Nós devemos conviver com Deus!

Em Cristo Jesus, peço sobre vós as saúdes e bênçãos do céu.

Jequié, 9 de novembro – Festa da Dedicação da Basílica de São João de Latrão – do Ano do Senhor de 2013

Ian Farias de Carvalho

Sacrosanctum Concilium. Parte doze. A Santa Missa: o alvo e a flecha, o princípio e o objetivo.

Outros artigos sobre o CVII: 

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 O nº 10 da Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium é relativamente grande uma vez que engloba dois parágrafos. Grande em assuntos abordados, como não poderia deixar de ser e o é em praticamente todos os parágrafos do documento, como também é grande em tamanho físico. Vejamos o primeiro parágrafo do nº 10 para poder destrinchá-lo e analisá-lo coerentemente:

10. Contudo, a Liturgia é simultaneamente a meta para a qual se encaminha a ação da Igreja e a fonte de onde promana toda a sua força. Na verdade, o trabalho apostólico ordena-se a conseguir que todos os que se tornaram filhos de Deus pela fé e pelo Batismo se reúnam em assembleia para louvar a Deus no meio da Igreja, participem no Sacrifício e comam a Ceia do Senhor.

O parágrafo menciona desde a meta para a qual a Igreja se dirige, passando pelo motor de onde a Igreja retira suas forças para desempenhar seu papel e atividade, até chegar ao esforço que a Igreja precisa empreender para alcançar a uma perfeita participação em seus objetivos.

Pois bem, é como entender cada uma dessas encruzilhadas para que não se tornem confusas a ponto de nos perdermos em meio a tantos caminhos.

O texto do parágrafo afirma que “a Liturgia é simultaneamente a meta para a qual se encaminha a ação da Igreja (…)”. O texto é claríssimo a demonstrar, não só aqui nessa frase, mas em toda e qualquer manifestação da Igreja sobe a liturgia da Santa Missa que esse é o fim principal da Igreja, afinal ali, na Santa Missa, é que se faz o sacrifício, conforme ordenado pelo próprio Cristo e onde se conserva Cristo crucificado e vivo, onde se conserva a comunhão e nosso compromisso renovado com esse projeto salvífico.

A encíclica de nosso saudoso João Paulo II é clara ao deixar, em todo o seu texto, desde o título, que aqui se trata da Igreja da Eucaristia, a Igreja que vive na e da Eucaristia. Suas palavras são implacavelmente diretas ao colocar a Eucaristia, portanto o sacrifício da Missa, em primeiríssimo lugar:

1. A Igreja vive da Eucaristia. Esta verdade não exprime apenas uma experiência diária de fé, mas contém em síntese o próprio núcleo do mistério da Igreja. (Encíclica Ecclesiade Eucharistia, Papa João Paulo II)

Na mesma encíclica o Papa João Paulo II ainda menciona:

“Por isso mesmo a Eucaristia, que é o sacramento por excelência do mistério pascal, está colocada no centro da vida eclesial.”

(Encíclica Ecclesiade Eucharistia, Papa João Paulo II, ponto 3, itálico no original)

Quando a Sacrosanctum Concilium afirma que “a Liturgia é a meta a qual se encaminha a ação da Igreja” é justamente desse caminho, o da Eucaristia, que ela quer falar. Sem a Eucaristia não existe Igreja, sem Santa Missa não existe Eucaristia. A conclusão fica clara como o sol: sem Santa Missa não há Igreja.

O próprio Concílio Vaticano II tratou de deixar nítida tal afirmação em outro de seus documentos, a Lumen Gentium, demonstrando a total coerência que não podia deixar de acontecer em um Concílio que, apesar das más-línguas, apenas propagou a continuidade dos mais de vinte que o antecederam, sem falha e sem ruptura, para desespero de muitos. Vejamos:

“(…)Pela participação no sacrifício eucarístico de Cristo, fonte e centro de toda a vida cristã (…)”

Não há como negar, portanto, que a Liturgia é o centro da vida eclesial. Todos os demais pontos de conversão em que a Igreja se encontra são secundários, por mais que o mundo assim não veja.

Parece insensível fazer esse tipo de afirmação quando colocamos, por exemplo, as questões assistenciais. Entretanto, antes de pormenorizar, afirmamos: a Santa Missa é mais importante.

Em vários lugares pelo mundo já que não é exclusividade de nossa América Latina, a questão assistencial da Igreja é muito latente. Dificilmente deixamos de encontrar as chamadas Pastorais Sociais nas paróquias. Ninguém nunca disse que esse tipo de trabalho é proibido ou inconveniente, pelo contrário, contudo não pode, nunca, ser colocado acima da Santa Missa.

Sacerdotes que são verdadeiros líderes comunitários e desenvolvem um trabalho social invejável são de extrema importância e muito bem vistos, contudo sua preocupação deve igualmente girar em torna da dignidade litúrgica e mais ainda em torno da importância do sacrifício de Cristo na Santa Missa.

É preciso sempre lembrar que a função da Igreja é salvar almas. Distribuição de cestas básicas pode ser um dos caminhos, contudo não é o único, caso contrário, parafraseando nosso Papa Francisco: não seremos mais que uma gigantesca ONG.

É nesse sentido que devemos identificar todos os trabalhos que envolvem a Igreja, fora o trabalho litúrgico. Grupos de Oração, trabalhos pastorais do mais diversos e a trazer a dignidade a quem não tem, são temas e serviços muito caros à Igreja e muito bem vistos aos olhos de Deus. Trazem uma dignidade à alma que sem dúvida ajudará em nossa salvação e ajudará na salvação de tantos outros, contudo não é o principal, repito. A Santa Missa sim, o é.

Não a toa que a primeira oração do primeiro parágrafo do nº 10 da Sacrosanctum Concilium conclui que:

“(…) a Liturgia é simultaneamente a meta para a qual se encaminha a ação da Igreja e a fonte de onde promana toda a sua força.”

Não só a Liturgia é a meta, o alvo e o objetivo maior, mas também é o princípio, o início de tudo quanto há, afinal quem mesmo é o alfa e o ômega (Ap 1,8; 21,6; 22,13)?

Sacrosanctum Conclium. Parte onze. Igreja, nossa bússola. O envio como condição.

Outros artigos sobre o CVII:

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Em continuação ao número 9 do documento do Concílio Vaticano II intitulado Sacrosanctum Concilium, não é possível deixar em branco a menção de que esse parágrafo pode e deve gerar uma série de reflexões devido a sua complexidade e conteúdo. Dentro de quatro ou cinco linhas o parágrafo diz muito e pode ser destrinchado em diversos temas que geram diversas discussões.

É nessa esteira que vamos correr, caminhar e tentar chegar a algumas rasas conclusões. Vejamos, novamente, o que o parágrafo de número 9 nos fala:

9. A sagrada Liturgia não esgota toda a ação da Igreja, porque os homens, antes de poderem participar na Liturgia, precisam de ouvir o apelo à fé e à conversão: «Como hão-de invocar aquele em quem não creram? Ou como hão-de crer sem o terem ouvido? Como poderão ouvir se não houver quem pregue? E como se há-de pregar se não houver quem seja enviado?» (Rom. 10, 14-15).

Bom, que antes de participar da missa é preciso conversão, isso já estudamos e foi digno de um artigo inteiro anterior a esse, contudo que conversão é essa e de onde vem. Melhor ainda, como vem e como podemos reconhece-la?

O reconhecimento da verdadeira fé é um problema dos dias atuais. Como atuais me circunscrevo a cerca de quatro séculos, e piorando gradativamente. Aos que ainda não entenderam, falemos de forma clara: o protestantismo é um sério problema de identidade. Explico! A medida que a verdadeira fé não é reconhecida, ela, necessariamente, deve ser reconhecida em outros lugares, mesmo que errôneos, afinal, como pode ser estudado no catecismo: “O Homem é capaz de Deus” o homem sempre busca a Deus. Não adentraremos nesse tema agora.

O importante é verificar que o protestantismo é uma tentativa de encontrar Deus onde Ele não está. Quando se acha que encontrou algo onde esse algo não está, certamente estamos encontrando algo que se parece com o que buscamos, mas que não é exatamente o que buscamos. Pode até ser um vestígio, uma pista, mas não é exatamente nosso objeto de desejo.

Não há como se converter sem saber pra que lado se vai. Conversão pode acontecer de todos os modos para todas as teses e teorias, por mais absurdas que possam parecer. Por isso é preciso algo exterior que nos governe: uma bússola.

O que poderia ser essa bússola? O que pode poderia ser esse algo externo que nos guia? Bom, aos bons entendedores…

A Igreja precisa ser esse caminho para Cristo que “é o caminho, a verdade e a vida”(1Tm. 2, 5). Acontece que nesse caminho temos vários obstáculos, vários sacrifício e vários encontros. Esses encontros podem ser para nos ajudar ou nos atrapalhar. Nos ajudam porque querem fazer o bem ajudando alguém ou as vezes sem querer, da mesma forma, nos atrapalham querendo nos ajudar ou querendo fazer o mal. Isso acontece em todo caminho, certo?

Pois bem, com esse instrumento que Cristo nos deixou para que possamos ser guiados a Ele, nosso verdadeiro norte, essa bússola que é a Igreja, precisa de ponteiros regulados e em perfeita consonância, perfeita sincronia com essa bússola. Como fazer isso? Quem seriam esses ponteiros que nos indicam esse caminho dentro dessa bússola? Qual o grau de cumplicidade e sincronia entre os ponteiros e a bússola?

Em primeiro lugar sabemos que toda bússola aponta para o Norte. O Norte atrai seus ponteiros. A Igreja sempre aponta para Cristo justamente porque Cristo atrai os seus, mas não basta ser atraídos, precisamos ter certeza de que estamos sendo atraídos para o caminho certo e só uma bussola bem regulada pode nos garantir isso.

O número 9 do Sacrosanctum Concilium é claro ao ilustrar-se com a seguinte passagem bíblica:

«Como hão-de invocar aquele em quem não creram? Ou como hão-de crer sem o terem ouvido? Como poderão ouvir se não houver quem pregue? E como se há-de pregar se não houver quem seja enviado?» (Rom. 10, 14-15)

A passagem pede o uso da lógica. É um caminho que obrigatoriamente temos que seguir. Não há como crer na pessoa certa, muito menos invoca-lo se não for por meio de um caminho certo, um ponteiro bem sincronizado em uma bússola bem regulada e correta. É preciso que sejamos enviados para esse serviço que é a evangelização.

O Catecismo de João Paulo II em seu número 875 menciona esse mesmo contexto e nos dá um caminho muito claro sobre o assunto de envios:

875. (…) Ninguém, nenhum indivíduo ou comunidade, pode anunciar a si mesmo o Evangelho. «A fé surge da pregação» (RM 10,17). Por outro lado, ninguém pode dar a si próprio o mandato e a missão de anunciar o Evangelho. O enviado do Senhor fala e atua, não por autoridade própria, mas em virtude da autoridade de Cristo; não como membro da comunidade, mas falando à comunidade em nome de Cristo. Ninguém pode conferir a si mesmo a graça; ela deve ser-lhe dada e oferecida. Isto supõe ministros da graça, autorizados e habilitados em nome de Cristo. É d’Ele que os bispos e presbíteros recebem a missão e a faculdade (o «poder sagrado») de agir na pessoa de Cristo Cabeça e os diáconos a força de servir o povo de Deus na «diaconia» da Liturgia, da Palavra e da caridade, em comunhão com o bispo e com o seu presbitério. A este ministério, no qual os enviados de Cristo fazem e dão, por graça de Deus, o que por si mesmos não podem fazer nem dar, a tradição da Igreja chama «sacramento». O ministério da Igreja é conferido por um sacramento próprio.

(Catecismo da Igreja Católica)

Falando claramente, não é possível que alguém se autointitule pastor, bispo e até apóstolo como é o que vemos por ai. Ninguém nesse mundo tem autoridade própria para se conceder esses títulos. Esses títulos foram concedidos pelo próprio Deus na pessoa de Cristo e esses mandatos foram entregues a essas pessoas. Por Cristo ainda foi dado o múnus de dar continuidade a esses mandatos, conceder a sucessão, tudo sob a promessa de que nunca iríamos ser abandonados por Ele (Mt. 28, 20).

O sacramento da ordem é preciso para que os devidamente enviados possam proceder como pastores (padres e diáconos), bispos e sucessores reais dos apóstolos, da mesma forma é preciso que todos nós, católicos, leigos ou não, sejamos enviados pelo menos semanalmente, na Santa Missa, para o nosso trabalho de evangelização. Esse envio só pode ser feito por um sacerdote que, antes, fora devidamente enviado para isso e assim sucessivamente pelos séculos até chegarmos ao próprio Cristo.

O nosso Papa Emérito Bento XVI, então ainda no governo da Igreja, proferiu as seguintes palavras sobre esse assunto em audiência no Vaticano:

Num trecho sucessivo, diz ainda:  “A fé vem da escuta” (cf. RM 10,17). A fé não é produto do nosso pensamento, da nossa reflexão, é algo de novo que não podemos inventar, mas somente receber como uma novidade produzida por Deus. E a fé não vem da leitura, mas da escuta. Não é algo somente interior, mas uma relação com Alguém. Supõe um encontro com o anúncio, supõe a existência do outro que anuncia e cria comunhão.

(Audiência. Papa Bento XVI dia 10/02/2008, Sala Paulo VI, Roma)

Ou seja, é preciso que haja um outro anterior que tenha enviado aquele que agora nos prega e esse outro foi enviado por um outro que o antecedeu e assim viajamos pelos séculos em sentido inverso, retrocedendo, ininterruptamente até os apóstolos e o próprio Cristo.

E no mesmo dia, na mesma audiência, Bento XVI conclui:

E finalmente, o anúncio:  aquele que anuncia não fala por si, mas é enviado. Está dentro de uma estrutura de missão que começa com Jesus enviado pelo Pai, passa aos apóstolos a palavra apóstolos significa “enviados” e continua no ministério, nas missões transmitidas pelos apóstolos.

(

Audiência. Papa Bento XVI dia 10/02/2008, Sala Paulo VI, Roma)

E é assim que a Liturgia se desenvolve para os que anteriormente se converteram. A palavra de Deus é transmitida na Santa Missa e assim o é desde os primórdios quando os próprios apóstolos (enviados), enviavam outros sacerdotes e mesmo seus sucessores, para os mais distantes pontos da Terra a fim de divulgar uma palavra intacta, afinal, é a palavra de Deus.

E termina Bento XVI explicando tais pontos mais detidamente:

“Ele vos dará outro Paráclito o Espírito da Verdade”. A fé, como conhecimento e profissão da verdade sobre Deus e sobre o homem, “surge da pregação, e a pregação surge pela palavra de Cristo”, afirma São Paulo (RM 10,17). Ao longo da história da Igreja, os Apóstolos anunciaram a palavra de Cristo, preocupando-se em transmiti-la intacta aos seus sucessores, que por sua vez a comunicaram às gerações sucessivas, até aos nossos dias. Muitos pregadores do Evangelho deram a vida precisamente em virtude da fidelidade à verdade da palavra de Cristo. E assim, da atenção pela verdade nasceu a Tradição da Igreja. Como nos séculos passados, também hoje há pessoas ou ambientes que, ignorando esta Tradição plurissecular, gostariam de falsificar a palavra de Cristo e tirar do Evangelho as verdades que, na sua opinião, são demasiado incómodas para o homem moderno. Procura-se criar a impressão de que tudo é relativo: também as verdades da fé dependeriam da situação histórica e da avaliação humana. (Viagem Apostólica do Papa Bento XVI à Polônia. Homilia na cidade de Varsóvia, 26/05/2006)

Sacrosanctum Concilium. Parte Dez: Antes de participar da Santa Missa é preciso fé e conversão.

Outros artigos sobre o CVII:

 

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Ao analisar a liturgia como um todo e ler documentos como a Ecclesia de Eucharistia do Beato João Paulo II, muitos que tem em seu intento apenas o estudo deixando de lado a vivência da fé comunitariamente, seja participando ativamente em uma paróquia seja apenas frequentando a missa nos dias santos e de guarda, como prescreve o mandamento, acaba por tirar suas próprias conclusões de forma errada. Essas conclusões podem divagar entre dois pontos:

Primeiro: a liturgia é um conjunto de regras a serem seguidas com gestos, rituais e falas marcadas por momentos adequados;

Segundo: a liturgia é o ponto principal, portanto o único que deve ser levado em consideração, sendo os demais mero enfeite desse principal.

Ora, ambas as considerações estão erradas. Depois da internet e o acesso fácil a um sem número de documentos, foram criados senhores em doutrina católica como “nunca-antes-visto-nesse-país”, digo até que no mundo. Surgiram experts em assuntos que antes apenas demandava fé e obediência por parte dos fiéis que, antes de tudo são isso: fiéis.

Entender de doutrina, conhecer documentos da Igreja, saber o porquê de cada detalhe na liturgia da Santa Missa, são de especial importância, contudo não são essenciais. Ninguém precisa ser perito em liturgia para comungar legitimamente, muito menos para se confessar ou crer que a Igreja foi fundada por Cristo e a ela devemos nossa obediência. Ninguém precisa saber o que vem a ser transubstanciação, doxologia final, oração sobre as oblatas ou discutir academicamente a tradução da fórmula da consagração para ser bom católico. Aliás, esses, os que não sabem dessas discussões, costumam ser os melhores católicos, porque, na ignorância e pobreza, inclusive de coração (Mt. 5, 3) ) são os que creem. São eles os que creem sem terem visto (Jo. 20,29).

Pois bem, a liturgia não é só um conjunto de regras rígidas de falas e posicionamentos de corpo. Essa definição se assemelha mais a uma parada militar. A Santa Missa também não se fecha nela mesma e se esgota em si mesma. A Santa Missa é muito mais que isso. Trata-se do sacrifício de Deus. Essa frase parece não expressar toda a amplitude da questão, contudo é exatamente isso: Deus dando Sua vida para abrir caminhos à salvação da humanidade que se perdeu por querer justamente atacar e ser esse mesmo Deus. Nenhuma religião prega um Deus como esse. Os politeísmos grego e romano tinham deuses que se proliferavam mais que ratos fechados em um porão, contudo nenhum desses deuses seria capaz de se entregar por aqueles meros e insignificantes mortais. Trata-se de algo novo e inesperado na história: um Deus que se rebaixa à condição precária de ser humano e entrega a vida com total resignação e sofrimento à uma humanidade que como ser social nunca fez nada para merecer tal ato de misericórdia.

É nesse sentido que o número 9 da Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium manifesta:

9. A sagrada Liturgia não esgota toda a ação da Igreja, porque os homens, antes de poderem participar na Liturgia, precisam de ouvir o apelo à fé e à conversão: «Como hão-de invocar aquele em quem não creram? Ou como hão-de crer sem o terem ouvido? Como poderão ouvir se não houver quem pregue? E como se há-de pregar se não houver quem seja enviado?» (Rom. 10, 14-15).

Grande parte do parágrafo merece ser dissecado em texto apartado por que a complexidade ultrapassa os limites do que aqui já foi discutido e tornaria o texto extremamente longo: assim o faremos. Entretanto, que fique muito clara a primeira frase desse número 9 do documento conciliar: “A sagrada Liturgia não esgota toda a ação da Igreja, porque os homens, antes de poderem participar na Liturgia, precisam de ouvir o apelo à fé e à conversão (…)”

A Liturgia, antes de ser vista e dignamente acompanhada e honrada por nós, deve ser resultado de profunda conversão. Podemos entender cada parte da missa e explicá-la a qualquer leigo ou doutor em teologia, mas nunca ela será completamente entendida e, mais que isso, vivenciada, se não estivermos em profundo estado de conversão. A medida que entendemos, mas não cremos piamente no que ali acontece, para nós nada ocorre que não um evento social ou religioso que pode ser visto em qualquer lugar a qualquer tempo, portanto, “depois posso assistir à missa, vou ficar conversando aqui fora agora”.

Entender o milagre que acontece em cada Santa Missa é saber que nada pode ser mais importante, nada pode sobrepor esse momento ímpar. Acompanhar a Santa Missa dignamente e convertido é acompanhar um milagre pessoalmente com hora marcada. Qual de nós nunca teve pelo menos um breve lapso de vontade de ver um milagre acontecer à frente de nossos olhos? Qual de nós nunca pensou que poderia ter estado no dia de pentecostes, vendo e ouvindo os apóstolos falarem em sua própria língua e todos ouvirem em suas línguas, uma Babel ao contrário? Ou quem nunca pensou que poderia ter estado naquela manhã de outubro de 1917 em Fátima para ver o sol dançar no céu? Sem dúvida todos já tivemos essa vontade, entretanto, simplesmente abandonamos a oportunidade de ver um milagre com hora marcada que acontece todos os dias diversas vezes e que é o motivo de todos esses outros milagres: a consagração e transubstanciação.

A conversão transforma nossa vivência da Santa Missa em algo de suprema importância e magistral significância. Cada gesto, cada palavra, cada inclinar de cabeça ou dobrar de joelhos, passa a ser não uma obrigação ou imitação, mas um verdadeiro ato de adoração, fé e conversão.

Sacrosanctum Concilium. Parte nove, A promessa divina realizada na Santa Missa.

Outros artigos sobre o CVII:

50 anos é tempo suficiente?

O porque dos nomes dos documentos.

O Concílio Vaticano II e a ruptura.

Sacrosanctum Concilium. Parte um.

Sacrosanctum Concilium. Parte dois.

Sacrosanctum Concilium. Parte três. Um guarda fiel da tradição.

Sacrosanctum Concilium. Parte quatro. A plenitude do culto divino.

Sacrosanctum Concilium. Parte Cinco. A presença de Cristo na Santa Missa.

Sacrosanctum Concilium, Parte Seis. Santa Missa: culto agradável a Deus e o caráter esponsal de Cristo com Sua Igreja.

Sacrosanctum Concilium. Parte Sete. Culto público e integral da Igreja e exercício da função sacerdotal de Cristo.

Sacrosanctum Concilium. Parte Oito. A Liturgia terrena, antecipação da Liturgia celeste.

Sacrosanctum Concilium. Parte Nove. A promessa divina realizada na Santa Missa.

Em continuidade ao número 8 do documento intitulado Sacrosanctum Conciliumtemos que, além de entender que a Liturgia da qual participamos aqui é uma antecipação da liturgia celeste; que essa mesma liturgia é lugar de onde nos dirigimos à Deus, conforme por várias vezes já foi mencionado e que o documento nada mais faz do que confirmar o que estamos tentando dizer:

8. Pela Liturgia da terra participamos, saboreando-a já, na Liturgia celeste celebrada na cidade santa de Jerusalém, para a qual, como peregrinos nos dirigimos e onde Cristo está sentado à direita de Deus (…)

A Santa Missa se mostra um caminho que deve ser trilhado por todos nós, entendendo que Cristo é o Caminho (João 14, 6a) como Ele mesmo já nos disse. Na Santa Missa temos o sacrifício de Cristo, escândalo para um sem número de pessoas, cristãs ou não, que nos leva à salvação, afinal, Cristo morreu para nos salvar e abriu o caminho para que todos nós pudéssemos chegar ao Pai, contudo é preciso querer, é preciso buscar, é preciso trilhar esse caminho.

(…) por meio dela cantamos ao Senhor um hino de glória com toda a milícia do exército celestial, esperamos ter parte e comunhão com os Santos cuja memória veneramos, e aguardamos o Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo, até Ele aparecer como nossa vida e nós aparecermos com Ele na glória (23).

Os anjos não à toa participam da Santa Missa. Ela é o apogeu da adoração divina e toda criatura deve fazer essa adoração (Filipenses 2, 9-10). Obviamente que o grau de entendimento dos anjos é muito maior que o grau de entendimento do mais entendido dos seres humanos, contudo só podemos pagar por aquilo que sabemos e entendemos. Como diriam alguns: a ignorância salva mais do que qualquer outra coisa nesse mundo (Atos dos Apóstolos 17, 30).

Algumas passagens bíblicas são cristalinas para o entendimento da Santa Missa como ela é e como foi sendo inserida na humanidade desde o princípio.

Desde o início Deus faz uma aliança com Abraão, então Abrão, o que pode ser lido em Gênese 15, 5-19. A passagem parece estranha e com costumes estranhos aos nossos, porém, ao ser entendida como um pacto, podemos chegar a algumas conclusões.

Deus diz a Abrão que lhe dará uma infinita descendência:

E, conduzindo-o fora, disse-lhe: “Levanta os olhos para os céus e conta as estrelas, se és capaz… Pois bem, ajuntou ele, assim será a tua descendência.” (Gênesis 15,5)

Essa era uma promessa divina e certamente seria cumprida, contudo Abrão, mesmo confiando deixa transparecer uma ponta de dúvida ao perguntar a Deus:

“O Senhor Javé, como poderei saber se a hei de possuir?” (Gênesis 15, 8)

Deus, em Sua infinita misericórdia não leva a pergunta com maus olhos e entende a dúvida de Abrão, afinal era uma promessa sem precedentes e de uma grandeza sem fim. É preciso entender que a grandeza dessa promessa não estava somente na quantidade de descendentes, mas na possibilidade de ter esses descendentes. Nossa sociedade atualmente parece inverter os papéis e entender que uma grande prole e uma larga descendência é uma praga, uma espécie de maldição. As pessoas não mais querem filhos e preferem cachorros e gatos, contudo Abrão e toda a sociedade em que ele estava inserido não entendia assim, pelo contrário, tinha nessa grande prole e grande descendência o entendimento de que é uma bênção de Deus, como na verdade é.

Pois bem, Abrão considerou essa bênção grande demais e por isso faz a pergunta para Deus querendo saber como poderá saber se há mesmo de possuir tudo aquilo.

Deus responde com uma ordem estranha para nossos costumes:

“Toma uma novilha de três anos, respondeu-lhe o Senhor, uma cabra de três anos, um cordeiro de três anos, uma rola e um pombinho.” (Gênesis 15, 9)

A ordem de Deus para Abrão é um tanto quanto estranha, mas muito óbvia para Abrão que não titubeia e já parte em busca desses animais.

Como podemos perceber, Abrão já sabia o porque de Deus pedir esses animais e já prepara tudo sem mesmo que Deus determine algo mais, vejamos:

Abrão tomou todos esses animais, e dividiu-os pelo meio, colocando suas metades uma defronte da outra; mas não cortou as aves. (Gênesis 15, 10)

Deus não manda a Abrão que ele divida os animais ao meio, mas Abrão já faz isso porque já compreendeu o que Deus pretende.

Era costume da época que, quando selado um pacto, comercial normalmente, ou uma promessa qualquer feita entre duas pessoas, se pegasse animais e os partisse ao meio. Os dois pactuantes passavam entre os animais prometendo que se não cumprirem a promessa “que aconteça comigo o que aconteceu com esse animal”, ou seja, que morra da forma mais horrível possível. Tudo porque não cumprir o pacto.

Deus entende esse costume e Abrão também, por isso esse ritual já é prontamente organizado por Abrão.

Entretanto, a sequência dos fatos não acontece exatamente como Abrão esperava, nem como era o costume. Após uma clara profecia sobre o que aconteceria ao povo de Israel no Egito, inclusive o êxodo, a Bíblia nos relata o seguinte:

Quando o sol se pôs, formou-se uma densa escuridão, e eis que um braseiro fumegante e uma tocha ardente passaram pelo meio das carnes divididas. (Gênesis 15, 17)

Como dissemos, no meio dos animais divididos deveriam passar aqueles que fazem o pacto, ou seja, no caso em questão deveriam passar Deus e Abrão. Deus se manifesta por várias vezes como fogo, como bem sabemos. Existe o episódio da sarça ardente (Êxodo 3, 1-4), também pela invocação de Elias para provar que Deus era único e não existia nenhum Deus Baal (1Reis 18, 24ss) e outras tantas passagens.

Nesse caso, o fogo, que era Deus, passou sozinho por entre os animais partidos. O que isso poderia significar? Ora o significado é por demais óbvio: Deus assume toda a responsabilidade sozinho. É claro que Deus não descumpriria Sua palavra, contudo o homem, corrompido pelo pecado original e tendente sempre ao pecado, certamente descumpriria. Deus assume sozinho a responsabilidade e seria partido ao meio, ou seja, morto da pior forma, caso houvesse algum descumprimento de qualquer das partes.

A morte de Cristo nada mais foi do que o cumprimento dessa promessa e de tantas outras. Nessa promessa feita com Abrão, Deus se entrega à morte mais horrível não por Seu próprio descumprimento do que foi pactuado, mas pelo descumprimento da humanidade, isto é, morre por nós e no nosso lugar.

A morte de Cristo vem sendo confirmada na história do povo de Israel desde muitos anos antes da vinda do próprio Cristo e, antes mesmo dessa morte Cristo nos ensina muitas coisas entre elas a Santa Missa que deve ser celebrada apenas por aqueles que foram escolhidos e chamados pelo nome, apenas pelos Apóstolos e aqueles que o sucederem. Trata-se de um mandato divino, algo a ser discutido em outro texto.

É o cumprimento dessa promessa divina o que celebramos na Santa Missa e é nessa esteira que o altar se torna Calvário, celebrando a mesma morte de um Deus atemporal em cada Santa Missa diariamente celebrada em milhares de lugares pelo mundo.

Sacrosanctum Concilium. Parte Oito. A Liturgia terrena, antecipação da Liturgia celeste.

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Sacrosanctum Concilium. Parte Sete. Culto público e integral da Igreja e exercício da função sacerdotal de Cristo.

Sacrosanctum Concilium. Parte Oito. A Liturgia terrena, antecipação da Liturgia celeste.

Um título perfeito foi o encontrado pelos padres conciliares ao dar cabeçalho ao número 8 do documento Sacrosanctum Concilium de “A Liturgia terrena, antecipação da Liturgia celeste”.

Poucos católicos sabem o que é realmente a Santa Missa, quanto aos demais, sejam protestantes, não cristãos ou até mesmo os que tentam admitir que não creem em nada, apesar de terem em suas teorias um pressuposto de infalibilidade dogmática incontestável, quanto a esses todos, obviamente, que não têm a mínima noção do que seja uma celebração litúrgica, uma vez que sequer conhecem, em sua maioria, a palavra liturgia.

Pois bem, de qualquer forma o católico, ou o que se diz católico, normalmente não tem nem um vislumbre do que vem a ser liturgia, muito menos de que a Santa Missa que é celebrada em diversas igrejas e que pode ser acompanhada por qualquer um de nós, é uma antecipação do que acontecerá após a  nossa morte, caso esse seja o nosso destino após essa vida, claro.

O número 8 do documento assim é redigido:

8. Pela Liturgia da terra participamos, saboreando-a já, na Liturgia celeste celebrada na cidade santa de Jerusalém, para a qual, como peregrinos nos dirigimos e onde Cristo está sentado à direita de Deus, ministro do santuário e do verdadeiro tabernáculo (22); por meio dela cantamos ao Senhor um hino de glória com toda a milícia do exército celestial, esperamos ter parte e comunhão com os Santos cuja memória veneramos, e aguardamos o Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo, até Ele aparecer como nossa vida e nós aparecermos com Ele na glória (23).

O parágrafo é relativamente longo visualmente, mas extremamente estreito para a quantidade de detalhes, conceitos e afirmações importantes que faz. Por esse motivo vamos ter que destrincha-lo deixando para outra oportunidade o estudo de suas demais partes. Vejamos seu início:

“Pela Liturgia da terra participamos, saboreando-a já, na Liturgia celeste celebrada na cidade santa de Jerusalém (…)”

Esse pequeno excerto foi feito para que entendamos uma coisa básica: a Santa Missa não é reunião de pessoas; não é encontro social; não é culto para agradar sentidos humanos manchados pelo pecado original. A Santa Missa é culto agradável a Deus e só a Ele dirigido. A Santa Missa é a antecipação do paraíso.

Para entendermos isso é bom sabermos que existem três partes ou estados da Igreja, todas católicas, claro: Igreja militante, Igreja padecente e Igreja triunfante.

A Igreja militante é a que fazemos parte e que milita aqui nesse mundo buscando a purificação e a aproximação da glória final junto a Deus. A Igreja padecente é aquela que está no purgatório e padece, sofre e purga seus pecados para também, um dia, estar na glória de Deus. Por fim, a Igreja triunfante que é aquele cujos membros já foram salvos e estão junto a Deus no paraíso formando uma grande torcida que silenciosamente intercede por todos nós conforme os preceitos divinos.

São Pio X em seu Catecismo Maior certamente é mais conciso e feliz ao explicar:

146. Onde se encontram os membros da Igreja?

Os membros da Igreja encontram-se parte no Céu, formando a Igreja triunfante; parte no Purgatório, formando a Igreja padecente e parte na terra, formando a Igreja militante.

Por favor, ninguém me acuse de afirmar que a Igreja é divida em três partes independentes, não disse isso em momento algum. Disse que a Igreja é dividida em três partes que melhor podem ser compreendidas como três estados. Essas três partes ou estados compõem, por óbvio uma só Igreja cuja cabeça é única: Cristo. São Pio X também não me deixa solitário nessa explicação e certamente explica com mais clareza em seu Catecismo Maior:

147. Estas diversas partes da Igreja constituem uma só Igreja?

Sim, estas diversas partes da Igreja constituem uma só Igreja e um só corpo, porque têm a mesma cabeça que é Jesus Cristo; o mesmo espírito que as anima e as une e o mesmo fim, que é a felicidade eterna, que uns já estão gozando e que outros esperam.

Justamente por ser militante a Igreja aqui na Terra é também gloriosa, não no mesmo sentido da Igreja que já está no paraíso, a triunfante, mas no sentido de que milita e também tem sua glória. Lembre-se que falamos da Igreja que é gloriosa mesmo aqui sendo militante e não dos seus membros que não são gloriosos, afinal a glória maior ainda está por vir mesmo para a Igreja dos Santos, ou seja, mesmo para a Igreja triunfante, uma vez que ela só atingirá a plenitude da glória quando vier o juízo final e todos aqueles que foram salvos e que Deus chama pelo nome (Is 49,1) farão parte de Seu corpo. Nesse dia a Igreja militante se “unirá” definitivamente à Igreja triunfante e padecente. É pensando assim que temos a Santa Missa como ato de total entrega de Cristo por aquela parcela da humanidade que O aceita e O quer. A Santa Missa passa a ser a antecipação da liturgia celeste quando nos eleva a Deus de tal forma que os anjos aclamam conosco, a uma só voz, o canto do Santo.

É nesse estrito sentido que nos unimos à Igreja triunfante todas as vezes que celebramos a Santa Missa já que, assim, tocamos o céu nesse milagre diário que nos passa desapercebido que é a Santa Missa antecipando o que no futuro esperamos conseguir encontrar nos céus.

Sacrosanctum Concilium. Parte Sete. Culto público e integral da Igreja e exercício da função sacerdotal de Cristo.

Outros artigos sobre o CVII:

50 anos é tempo suficiente?

O porque dos nomes dos documentos.

O Concílio Vaticano II e a ruptura.

Sacrosanctum Concilium. Parte um.

Sacrosanctum Concilium. Parte dois.

Sacrosanctum Concilium. Parte três. Um guarda fiel da tradição.

Sacrosanctum Concilium. Parte quatro. A plenitude do culto divino.

Sacrosanctum Concilium. Parte Cinco. A presença de Cristo na Santa Missa.

Sacrosanctum Concilium, Parte Seis. Santa Missa: culto agradável a Deus e o caráter esponsal de Cristo com Sua Igreja.

Sacrosanctum Concilium. Parte Sete. Culto público e integral da Igreja e exercício da função sacerdotal de Cristo.

Sacrosanctum Concilium. Parte Oito. A Liturgia terrena, antecipação da Liturgia celeste.

Sacrosanctum Concilium. Parte Nove. A promessa divina realizada na Santa Missa.

É incrível a riqueza do documento conciliar Sacrosanctum Concillium. Cada frase, cada parágrafo, pode ser desenvolvido em textos de profundíssima reflexão e verdades incontestáveis da fé que só a Igreja pode proclamar.

O número 7 do documento é relativamente grande sendo composto não por um parágrafo, mas por quatro. O terceiro e o quarto merecem reflexão separada justamente por, mesmo dando continuidade ao que foi dito nos dois anteriores, aprofundarem em um tema obscuro para a maioria dos católicos e negada pelo protestantismo. Aqui falaremos exclusivamente do terceiro parágrafo.

Não podemos afirmar com absoluta certeza se a obscuridade vem devido à negação dos protestantes, uma vez que estamos em uma sociedade protestantizada, ou se o protestantismo veio devido a obscuridade já havida entre os católicos. Não vamos discutir isso porque seria o mesmo que discutir quem veio primeiro o ovo ou a galinha. Na verdade não interessa. Qualquer que seja a origem do problema, a questão é que a falta de formação e entendimento da fé que professa nos leva a protestar contra a nossa própria fé. Antes essa fé fosse somente uma fé particular e inerente a cada ser, não, não é. Trata-se da negação e protesto contra a única fé que traz a verdade consigo, não porque pretende ser a dona da verdade e queira dominar o mundo. Essas acusações sempre vem sem um argumento digno. É a única que traz a verdade consigo porque é a única que o próprio Deus fundou e deixou sob o comando de Pedro Apóstolo (Mt. 16, 18 ss) além de deixar a necessidade de sucessão.

Pois bem, voltando aos dois últimos parágrafos número 7 do documento Sacrosanctum Concillium, temos sua redação nos seguintes termos:

“(…) Com razão se considera a Liturgia como o exercício da função sacerdotal de Cristo. Nela, os sinais sensíveis significam e, cada um à sua maneira, realizam a santificação dos homens; nela, o Corpo Místico de Jesus Cristo – cabeça e membros – presta a Deus o culto público integral.”

O parágrafo começa com uma afirmação que pouco se conhece entre os católicos: a missa é o exercício da função sacerdotal de Cristo.

Quando se vê um pastor protestante, qualquer que seja a denominação, presidindo seu culto, ou um rabino ensinando na mesquita, ou um espírita fazendo seus ensinamento ou dando passes em um centro ou terreiro, nenhum deles ousa proclamar-ser representante de Deus ou mais que isso, o próprio Deus.

Que os céus sacudam agora na visão protestante, mas é o que o sacerdote é durante a celebração da missa: o próprio Cristo. Não só ele, mas ele principalmente. Assim, por obviedade que Cristo exerce Sua função sacerdotal, já que Ele mesmo fala na missa, seja nas leituras, seja na consagração e em outros momentos. In persona Christi é o nome que se dá em latim para o fato de o sacerdote falar na missa como que o próprio Deus (Cristo).

Caso não fosse assim, como poderia um mero homem, cheio de pecados, insatisfações, erros e imperfeições fazer o milagre programado de transformar o pão em Cristo? Obviamente que aquelas mãos são consagradas, aquele ser, o sacerdote, não é como nós que não seguimos esse caminho, contudo é Cristo quem consagra através daquele ser, assim como é Cristo que fala através daquele que faz a leitura na missa.

No mesmo parágrafo o documento conciliar continua:

“(…) Nela (na liturgia), os sinais sensíveis significam e, cada um à sua maneira, realizam a santificação dos homens;(…)”

Essa verdade continua e sempre continuará sendo absoluta devido o simples fato de ser culto a Deus estabelecido pelo próprio Deus e manutenido pela Igreja.

O mais importante é sempre entender que a Santa Missa é culto agradável a Deus, embora seja Seu próprio sacrifício o que ocorre. Não um outro sacrifício, mas aquele mesmo ocorrido dois milênios atrás. Esse sacrifício vale mais que qualquer sacrifício que possamos fazer, mesmo os martírios já que “no martírio é o ser humano que dá a vida por Deus e na missa é Deus quem dá a vida pela humanidade” (Santo Tomás de Aquino). Esse sacrifício é, também e por esse motivo, o meio de santificação dos homens. A humanidade se beneficia desse sacrifício para se santificar, através de Deus, sempre assim deve ser, e chegar ao próprio Deus, fazendo parte de Seu projeto salvífico.

Importante perceber que faremos parte desse projeto, dessa felicidade, alegria e justiça plenas. Não veremos ou estaremos presentes, mas faremos parte como membros.

É por isso que o documento completa o parágrafo dizendo:

“(…)nela (na liturgia), o Corpo Místico de Jesus Cristo – cabeça e membros – presta a Deus o culto público integral.”

O Corpo Místico de Cristo justamente é essa Igreja que Ele fundou e deixou aqui na Terra com seus membros distribuídos conforme sua função, necessidade e importância (1Cor 12,4-31).

Outro ponto que passa batido por todos nesse pequeno excerto é o de que a Santa Missa é “culto público integral” prestado a Deus pela Igreja. Ora. Parece óbvio que se diga isso, mas não é.

Inicialmente a grande maioria, a maioria esmagadora das pessoas, católicas ou não, não tem consciência plena de que a Santa Missa é culto a Deus. Ou se tem agem como se não tivessem. Digo isso porque se a Santa Missa é culto a Deus, então a quem devemos agradar nesse culto? Agora me respondam a quem boa parte das pessoas pretende agradar quando tocam músicas dançantes, inventam missas show e fazem teatro nesse momento? Não é a Deus que pretendem agradar, embora tentem mascarar sua errada atitude com esse argumento. O que tentam fazer é agradar o público da Santa Missa. Literalmente “jogam para a torcida”, ou seja, fazem o que for preciso para que aquele espetáculo (a Santa Missa) seja agradável aos seus espectadores (assembleia). Assim deixamos de ter a Santa Missa como culto agradável a Deus para ser culto agradável aos homens.

Outro ponto: a Igreja presta culto a Deus. Esse culto é publico e todos os católicos são chamados, e em certos dias do ano convocados, a participares desse culto. Se é a Igreja que celebra esse culto, e isso é óbvio uma vez que o sacerdote que celebra é, ou deveria ser, sacerdote fidelíssimo à Santa (não pecadora) Igreja, como é possível que sacerdotes e equipes de liturgia queiram mexer, modificar, inventar, criar, diversificar, teatralizar e fazer da missa um verdadeiro carnaval? Isso no mínimo é usurpação. A Santa Missa é culto da Igreja, portanto só ela, a Igreja, poderá mexer no ritual desse culto e mesmo assim não pode mexer em todas as partes uma vez que várias delas fora instituída pelo próprio Cristo.

Por último, temos o ponto de que se trata de culto público e integral. Já entendemos que é culto da Igreja, agora concluímos que é público e integral. O “público” já pode ser entendido no parágrafo acima. Apesar de ser culto da Igreja, é público porque todos os católicos são chamados e/ou convocados para a Santa Missa (Mt 18,20). A palavra “integral” é que deve ser explicada mais a fundo. A missa não é culto que servirá para completar a semana ou para irmos nos encontrar socialmente com os amigos. Muito menos é ocasião de encerramento de grupo de oração ou de encontro. A Santa Missa é um todo, sem partições e o mais importante de tudo o que há. Assim já dizia Santo Agostinho e tantos outros Santos. A Santa Missa não pode ser partida ou repartida, mutilada ou dilatada. A Santa Missa é o que é sem palpites ou intervenções alheias. A Santa Missa é culto integral por que abre e fecha todo um ciclo ritual.

Sacrosanctum Concilium, Parte Seis. Santa Missa: culto agradável a Deus e o caráter esponsal de Cristo com Sua Igreja.

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Sacrosanctum Concilium. Parte três. Um guarda fiel da tradição.

Sacrosanctum Concilium. Parte quatro. A plenitude do culto divino.

Sacrosanctum Concilium. Parte Cinco. A presença de Cristo na Santa Missa.

Gostaria de voltar a insistir no início do documento conciliar Sacrosanctum Concilium, mais especificamente em seu número 7.

A riqueza de conteúdo de um simples parágrafo que trata da presença de Cristo na liturgia é imensa, senão vejamos:

7. (…) Em tão grande obra, que permite que Deus seja perfeitamente glorificado e que os homens se santifiquem, Cristo associa sempre a si a Igreja, sua esposa muito amada, a qual invoca o seu Senhor e por meio dele rende culto ao Eterno Pai.

A grande obra mencionada, sem dúvida é a missa que o parágrafo anterior e todo o documento discorrem, entretanto, logo na primeira frase desse parágrafo algo significante é revelado:

“(…) permite que Deus seja perfeitamente glorificado e que os homens se santifiquem, (…)

Ora, a Santa Missa permite que Deus seja perfeitamente glorificado, então porque modificá-la ao bel prazer de quem assiste ou pretende prepará-la? A perfeição mencionada não é figurativa, é conceitual. Perfeição é perfeição. Algo perfeito não precisa ser modificado. Tudo se modifica porque busca a perfeição, penso que não há dificuldades em entender isso. Se a missa “permite que Deus seja perfeitamente glorificado”, não é a mudança inserida por um sacerdote desobediente ou mal-formado ou mesmo uma equipe de liturgia mal-conduzida e muito garantidora de si que poderá modificar a liturgia ao seu bel prazer.

A perfeição inserida na liturgia por todos os motivos imaginados e ainda o caráter sacrifical e de culto que a Santa Missa traz consigo, garante a ela o direito de não ser modificada a não ser por quem de direito, por quem tem o poder de ligar e desligar concedido pelo Cristo (Mt. 16, 18 ss) e porque quem tem o poder de pastorear (Jo 21, 15-17). Sim, a Igreja pode modificar a liturgia, mas obviamente não como um todo, o cerne da Santa Missa nunca poderá ser modificado, nem mesmo pela Igreja de Cristo.

Em outro momento, dentro da mesma frase, temos o seguinte:

“(…) e que os homens se santifiquem.

Ora, se a Santa Missa permite que Deus seja perfeitamente glorificado, por obviedade que a consequência disso é a santificação dos homens, que não são alvos da Santa Missa, já que é culto agradável a Deus (Rm 12,1-2) instituído pelo próprio Cristo, mas os homens ali presentes se santificam pelo Espirito Santo de Deus que é amor (1Jo 4,8 e 1Jo 4,16) e transborda esse amor gerando cada um de nós e o mundo a nossa volta com o poder santificador que só através de Deus pode vir.

Esse ponto é o que os protestantes não conseguem compreender, alguns por absoluta ignorância (que é o que os salva) e outros por total má-fé (que é o que os condena). Só Deus salva e o único mediador é Cristo (1Tm 2, 5), contudo essa salvação santificante vem através da missa quando há a consagração do corpo e sangue de Cristo (Eucaristia) conforme prescrito por Ele próprio. Cristo morreu para nos salvar, Ele não ressuscitou para nos salvar. Por esse motivo a Santa Missa é a celebração da cruz, da morte e não da ressurreição que só é memorial nesse milagre que todos os dias acontece sobre a Terra e nos passa desapercebido.

Para se chegar a estar plenamente preparado para ter Cristo dentro de si é preciso seguir um sério caminho santificador que não é fácil de ser percorrido e que não se percorre sozinho. Nesse ponto entram os santos e a maior de todas, Maria, aquela que é o ser humano mais perfeito criado por Deus; além da Igreja, claro (Hb 5,1). É Deus que salva e é Cristo o mediador, o que não impede que outros mediadores nos levem a Cristo. Levando-nos a Cristo levam-nos, infalivelmente, à Santa Missa que, por sua vez, tem esse poder santificante sobre os homens.

Terminando esse ínfimo parágrafo que muito diz em pouquíssimas palavras, temos o seguinte:

“(…) Cristo associa sempre a si a Igreja, sua esposa muito amada, a qual invoca o seu Senhor e por meio dele rende culto ao Eterno Pai.”

Cristo sempre se associa a Sua Igreja pelo fato de que é Sua esposa amada. Assim como o homem se associa permanentemente à sua esposa quando enlaçados pelo matrimônio, Cristo se associa inseparavelmente à Sua esposa que é a Igreja e por meio dela presta culto ao Pai, assim como deve ser prestado culto ao Pai pelos esposos em seu matrimônio.

Cristo quis unir-se à Igreja por meio de uma aliança indissolúvel e, mesmo que não esteja presente fisicamente no meio de nós, Ele está de forma sacramental e esponsal no seu corpo místico: a Igreja, sua esposa, afinal os esposos se tornam uma só carne (Gn 2, 24; Mt 19,5; Mt 19,6; Mc 10, 8 e Ef 5,31). Tornando-se uma só carne com Cristo, a Igreja é Cristo no meio de nós. Uma breve leitura de Os 2,21-22 e mais especificamente do capitulo segundo inteiro, pode nos abrir a mente quanto ao caráter esponsal havido entre Cristo e Sua Igreja.

Sacrosanctum Concilum. Parte Cinco. A presença de Cristo na Santa Missa.

Ainda falando sobre a natureza da sagrada liturgia e sua importância na vida da Igreja, o número 7 do documento intitulado Sacrosactum Concilium assim manifesta ipsis litteris:

7. Para realizar tão grande obra, Cristo está sempre presente na sua igreja, especialmente nas ações litúrgicas. Está presente no sacrifício da Missa, quer na pessoa do ministro – «O que se oferece agora pelo ministério sacerdotal é o mesmo que se ofereceu na Cruz» (20) – quer e sobretudo sob as espécies eucarísticas. Está presente com o seu dinamismo nos Sacramentos, de modo que, quando alguém batiza, é o próprio Cristo que batiza (21). Está presente na sua palavra, pois é Ele que fala ao ser lida na Igreja a Sagrada Escritura. Está presente, enfim, quando a Igreja reza e canta, Ele que prometeu: «Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles» (Mt. 18,20).

Pois bem, certas coisas parecem óbvias, mas não lhe damos com elas com a obviedade que merecem, muito menos com a importância que lhes é devida.

Cristo cria a Sua Igreja e coloca Pedro, alicerçado por seus demais apóstolos, hoje nossos Bispos, para estarem a frente e formarem essa ligação sutil, mas duradoura e indestrutível entre Sua Igreja e os céus. Cristo é a cabeça e a Igreja o Corpo. A Igreja é a esposa de Cristo e com Ele se torna uma só carne assim como o esposa se torna uma só carne com seu esposo ao celebrar suas núpcias sob as bênçãos de Deus perante Sua Igreja.

Assim sendo, é claro que Cristo estará sempre presente todos os dias, em todos os momentos, bons e ruins, de Sua Igreja. Essa foi a promessa em Mateus 28, 20.

Durante a Santa Missa, ponto auge e máximo da vida eclesial e momento mais importante vivido por qualquer ser humano, temos Cristo presente intimamente em vários momentos que nos passam despercebidos.

Ao perguntarmos como Cristo está presente na missa, imediatamente um grande número de pessoas, muitos sem refletir muito sobre o que diz, nos dirá que Cristo está presente na Eucaristia. Sem dúvida. Acertada a resposta! Alguns outros, mas em menor número, dirão que Cristo está presente na pessoa do sacerdote que celebra a Santa Missa. Ponto de novo! Ao perguntar onde mais Cristo se torna presente durante a missa, um silêncio ensurdecedor acontecerá. Façam o teste.

Cristo também está presente em outros momentos da Santa Missa e esse número 7 enfatiza dois outros momentos cruciais para nossa vida religiosa. Ao fazer uma das leituras na missa, inclusive o salmo, cantado ou não, é Cristo que fala. O leitor apenas empresta sua boca para que Cristo se faça presente e fale por aquela pessoa à toda a comunidade ali reunida. Por esse motivo o documento salienta:

(…)Está presente na sua palavra, pois é Ele que fala ao ser lida na Igreja a Sagrada Escritura. (…)

Por isso se discute tanto sobre a preparação de um leitor para a missa. Não deve ser qualquer pessoa, escolhida “a laço” do meio da comunidade, como é comum acontecer. Muito menos uma pessoa que simplesmente quer fazer a leitura por ocasião de um aniversário ou coisa parecida. A leitura tem que ser feita por pessoa de ilibada religiosidade católica. Pessoa que, dentro das condições do local, saiba ler o melhor possível, proclamando uma palavra que não é dele, mas de Deus.

Quanto aos ouvintes, não são, pra início de conversa, leitores. São ouvintes. O melhor é que deixe esses folhetos indesejáveis de lado e olhem para quem proclama a palavra. É Deus que está falando! Caso você estivesse em uma das pregações de Cristo, seja no sermão da montanha ou em qualquer uma de suas pregações e ensinamentos, iria ficar olhando para um folheto ou para o próprio Deus encarnado na sua frente? Vamos lá, a resposta não é tão complicada assim.

É Cristo que fala, e nós devemos ouvir e prestar atenção. Pegar um folheto e ficar esperando o momento em que o leitor irá errar a leitura de uma palavra mais difícil, um plural, uma vírgula ou uma pontuação, não atitude de quem ouve a palavra de Cristo. Aliás, não é atitude digna de quem verdadeiramente está na Santa Missa participando desse momento sublime.

Outro momento em que o próprio Deus se faz presente é quando cantamos e rezamos o que deve ser cantado e rezado durante a Santa Missa. Mais um motivo para não cantarmos qualquer coisa, muito menos dizermos qualquer asneira que nos vem a cabeça, algo muito comum em alguns abusos litúrgicos conhecidos por ai.

O documento manifesta isso de forma muito direta:

(…) Está presente, enfim, quando a Igreja reza e canta (…)

A presença de Deus durante a sagrada liturgia é constante. Não façamos da Santa Missa um momento de prestação de contas social, muito menos de encontro entre amigos. A Santa Missa, como já dissemos, é o momento mais sublime que um ser humano pode vivenciar, já dizia assim Santo Agostinho. Ali acontece o mesmo sacrifício acontecido há mais de dois mil anos sobre o Calvário. Aliás fazemos a memória da ressurreição, mas sobretudo ali acontece o sacrifício de Cristo que morreu para nos salvar e continua sofrendo a cada vez que estamos presentes indignamente durante o sacrifício da Missa. Cada vez que agimos de forma indigna durante esse sacrifício, não somos como João e Maria que estão aos Seus pés sofrendo com Ele e chorando por Ele, somos como os soldados que zombam e tripudiam, massacram e torturam a Cristo. Somos como aqueles que O chicotearam. Sejamos melhores que isso.

Sacrosanctum Concilium. Parte quatro. A plenitude do culto divino.

FONTE: http://is.gd/wQ9lyx

O primeiro capítulo da Sacrosanctum Concilium pretende falar-nos sobre os princípios gerais da reforma e dos incrementos à liturgia.

Logo no início menciona sobre Jesus Cristo, salvador do mundo. A primeira parte do número 5 é um parágrafo em que não há muito o que comentar, haja visto que faz algumas referências bíblicas para chegar ao cerne da questão que é óbvia: Cristo veio para nos salvar.

Pois bem, essa primeira parte do número 5, entretanto, tem uma citação deveras interessante para constar no documento sobre liturgia, não porque seja diferente do tema, longe disso, mas porque trata-se de uma frase vinda de um sacramentário datado de 1956 e que deveria ser visto com muito mais profundidade e seriedade do que é visto hoje.

A frase encerra o primeiro parágrafo do número 5 assim: “Por isso, em Cristo ‘se realizou plenamente a nossa reconciliação e se nos deu a plenitude do culto divino’”. A frase foi retirada do Sacramentário de Verona (Leoniano): ed. C. Mohlberg, Roma, 1956, n.° 1265, p. 162 e tem uma profundidade que não pode passar em brancas memórias.

Ao se dizer que em Cristo se realizou plenamente a nossa reconciliação, o sacramentário não pretende apenas enfatizar a reconciliação ao utilizar a palavra plenamente. A palavra plenamente está muito bem colocada pelo simples fato de que precisamos entender que antes de Cristo nossa reconciliação era uma sombra de reconciliação. Não havia meios eficazes de alcance de Deus que nos pudesse reconciliar com Ele plenamente, sem mácula e sem mancha. Pensando assim fica fácil entender que não era possível entrar no reino dos céus, uma vez que só com a vinda de Cristo essa reconciliação acontece plenamente. Antes havia manchas e máculas, o que impossibilitava a presença junto ao Pai, daí a importância da existência do limbo dos patriarcas, os infernos ou, como consta no credo que muitos rezam nas missas hoje em dia: mansão dos mortos.

Certo, mas o que nos interessa realmente é a liturgia, já que o documento é litúrgico. Essa plena reconciliação foi um dos efeitos da encarnação e morte de Cristo, o outro foi a plenitude do culto divino.

Cristo morre a cada missa. Não se trata de outra morte, ou de morrer outra vez. Se trata da mesma morte acontecida fora de nosso tempo humano e limitado. A mesma morte ocorrida há dois mil anos é a morte que acontece em cada missa celebrada. Deus não está no tempo. O tempo é criatura. Deus não pode se sujeitar a uma criatura Sua, a não ser que faça parte de Sua vontade, o que não é o caso. A morte de Cristo em cada missa, a mesma morte que ele sofreu há dois mil anos, é a plenitude do culto, isso porque Cristo é o cordeiro de Deus.

Os sacerdotes judeus sempre oferendavam a Deus o que tinham de melhor. Assim o foi desde Adão, que ensinou a Abel e Caim, embora Caim não tivesse aprendido muito bem a lição, já que matou Abel justamente por ciúmes da aceitação por parte de Deus das oferendas de Abel e não as de Caim. A Deus sempre o melhor, isso Abel aprendeu. Caim não. Por esse motivo os sacerdotes ofereciam suas próprias oferendas e as oferendas que o povo levava a eles, sacerdotes, para serem sacrificadas. Uma oferta humilde e limitada que a humanidade ofertava a Deus em pedido de remissão pelos seus erros e para cultuar a Deus.

Obviamente que as ofertas eram aceitas quando realmente feitas de bom grado e sendo o melhor do que tinham, contudo nada disso poderia sanar um profundo erro da humanidade: querer ser Deus. Toda vez que pecamos tentamos tomar o lugar de Deus, já que vamos contra Seu plano perfeito de salvação e contra tudo o que Ele nos planejou, ou seja, tentamos saber melhor que Ele o que é melhor a cada um de nós. Tentamos nos salvar sem a presença imprescindível de Deus.

Para que esse erro terrível fosse sanado, não era suficiente o sacrifício de cabras, bodes, pombos e cordeiros. Era necessário que o próprio Deus derramasse Seu próprio sangue. Isso só poderia ser feito pela encarnação de Deus. Cristo é Deus feito homem. Faltava a parte do sacrifício. Era preciso que, após Deus se fazer homem, fosse entregue como vítima, como cordeiro, para que pudéssemos ter a chance de salvação. Só o sangue divino poderia libertar de tão grande erro, de tão grande pecado.

Essa forma encontrada por Deus de nos dar a chance de fazer parte do projeto salvífico, estando na presença de Deus e estando com Ele face a face, é o maior motivo para nossa plenitude de culto divino.

Com a morte de Cristo todos agora temos a chance de salvação, temos que fazer nossa parte, afinal o livre-arbítrio continua, mas agora podemos buscar a salvação que acontece em Deus. Esse sacrifício, não mais uma sacrifício de animais, mas o sacrifício do próprio Deus que morre por amor, um amor que transborda tamanha é sua imensidão, é o que celebramos na missa de ontem, de hoje e de sempre. A missa sempre será sacrifício e, por isso mesmo, local de profundo respeito e contemplação.

O concílio Vaticano II logo em seu início nos lembra de tudo isso em uma pequena e as vezes intangível frase.

Nunca esquecer que a morte de Cristo é o que nos traz a plenitude do culto divino. Essa parece ser a mensagem inicial do documento SacrosanctumConcilium. Muito diferente do que muitos pregam por ai, não?