Chamados à santidade

A Solenidade de Todos os Santos – que ocorre a primeiro de novembro, mas a Igreja no Brasil convida-nos a celebrar no domingo mais próximo – não se-nos apresenta como uma realidade impossível, e mesmo inacessível aos olhos humanos, mas tende, pelo contrário, a aproximar-nos de Deus, fazendo com que tornemo-nos partícipes do seu banquete escatológico e da vida eterna. Não obstante as constantes distrações e facilidades que o mundo apresenta, devemos fixar-nos em Cristo, voltarmo-nos a Ele, e, abertos à Sua mensagem, instaurar um Reino de Paz e amor, de justiça e fraternidade. Não um Reino utópico, mas um reino verdadeiro, ao qual devemos viver e esperar segundo as expectativas evangélicas.

Mas aqui gostaria de formular uma pergunta que – à medida que buscarmos uma vivência segundo os mandamentos – tornar-se-á mais veemente e ajudar-nos-á a colocarmo-nos em uma vivência íntima com o Senhor: Como ser santo hoje, em uma sociedade capitalista, que deseja denegrir a imagem de Deus, confiando em suas próprias expectativas e esquecendo que realizar-se-á somente aquilo que Deus destinou-nos? E mais ainda: Quem é Jesus para nós?

Essa dúplice pergunta remete-nos de imediato às leituras do dia. Por isso analisá-las-emos, fazendo uma analogia com os dias hodiernos e com o convite a santidade, dirigido também a nós.

No livro do Apocalipse (cf. 7, 2-4. 9-14), que tomamos hoje na liturgia, há uma riqueza de simbolismos, e narra de forma clara quem são os santos e como nós também somos chamados. Fala-se que os marcados com o selo do Cordeiro eram 144 mil. Isto significa que só serão salvos tal quantidade? Não! Essa simbologia numérica sempre ocorre na Sagrada Escritura. Tal quantidade seria a multiplicação das doze tribos de Israel por doze, e em seguida por mil, que é a cifra da história da salvação.

Em seguida narra-nos o apóstolo: “Vi uma multidão imensa, que ninguém podia contar, gente de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam em pé diante do trono e do Cordeiro, vestiam túnicas brancas e tinham palmas nas mãos” (v. 9). Vemos aqui a figura dos santos, que põe-se em adoração diante do Senhor e nos mostram que, assim como eles chegaram, não nos-é também impossível lá chegar. Estavam de pé. Ora, no citado livro estar de pé significa já ser participante da vitória. Uma vitória que não é por mérito nosso, mas de Cristo. Esta foi-nos concedida por Cristo ao pender no lenho sagrado da Cruz, e de lá, com seu sangue, lavar nossos pecados e ensinar-nos a sermos pessoas melhores. Estavam com túnicas brancas, sinal da pureza, e assim vestiam-se com a glória de Cristo.

É manifesta também aqui a unicidade e unidade da Igreja. Uma Igreja que, mesmo sendo constituída de diversas culturas, uni-se em um só canto, rendendo graças a Deus por intercessão dos Santos. Negros, brancos, amarelos, índios, homens, mulheres, Papas, Bispos, Sacerdotes, Diáconos, coroinhas, reis e rainhas, religiosos e religiosas, gordos e magros… Na Igreja não há distinção. Todos são um perante Deus, e todos formam um só coro de agradecimento e louvores incessantes ao Altíssimo.

E aqui respondemos a primeira pergunta sobre como ser santo hoje. É necessário que morramos para este mundo, e assim poderemos viver para Deus. “Sem um ‘morrer, sem a destruição do que há de mais individual, não há comunhão com Deus nem redenção” (Papa Bento XVI, Jesus de Nazaré, pag. 74).

É, portanto, necessário que o santo esteja a disposição do próximo; que ele saiba servir; que esteja fora do seu “mundinho” e de seu individualismo; que não busque colocar as suas expectativas eternas nas limitações deste mundo. Santos que verdadeiramente amem o Senhor, vencendo a mesquinhez e doando-se sem reservas ao projeto salvífico que produzirá abundantes frutos.

Na segunda leitura São João nos mostra a graça de sermos chamados “filhos de Deus”, e se somos filhos é graça a Jesus Cristo e a nossa comunhão com Ele (cf. ibid., pag 131). “Se o mundo não nos conhece, é porque não conheceu o Pai” (1 Jo 3,2). Nosso Senhor precisa ser apresentado a todos, ainda que sua mensagem não agrade a muitos.

A mensagem de Cristo não garante uma vida de comodidade a nenhum de seus seguidores. A renúncia e o sacrifício constituem uma das vias para vermos resplandecer a glória de Cristo. Aqui chegamos a segunda pergunta: Quem é Jesus para nós? Um profeta que anunciou uma mensagem de amor? O Filho de Deus? Um mito? Essa resposta deve ser pessoal, pois dirige-se a cada um em particular.

Quem busca uma glória sem passar pela cruz terá uma vã glória. Será uma glória meramente passageira, e não nos colocará em estrita união com nosso Salvador. Somos frágeis, e esse é o primeiro passo que devemos dar para buscarmos a santidade: reconhecimento de nossa fraqueza. Ora, como então, pecadores, poderemos ser comparados aos Santos? Eis que nos diz o apóstolo Paulo: “Onde abunda o pecado, superabundou a graça” (Rm 5, 20). Os santos também foram pecadores, mas diferente de nossas muitas atitudes, eles souberam escutar a Deus; souberam que sua vontade não poderia prevalecer diante da vontade de Deus.

Eis, então, que se deveras amamos a Deus, deixemos que Ele possa agir e nos transformar. Assim, Jesus já não será mas um mito, ou um profeta, mas será aquele que nos motiva a uma mudança de vida.

Por fim chegamos ao Evangelho, ao qual poderia discorrer muito sobre tal, mas abreviar-me-ei para que o texto não seja demasiado cansativo.

Jesus sobe ao monte para ensinar e senta-se. Estar sentado significa estar em atitude de ensinar, por isso, ao proclamar um Dogma ou ao falar Ex Cathedra, os Papas devem estar sentados na Cátedra, de onde presidem a Igreja. Para os que desejam aprofundar-se no Sermão da Montanha recomendo a leitura do livro Jesus de Nazaré, do Santo padre Bento XVI. Gostaria apenas de destacar alguns pontos fundamentais.

Em primeiro lugar somos chamados a sermos discípulos de Cristo, e o Sermão da Montanha é um forte convite a esse discipulado, que, por sua vez, dirigir-nos-á à santidade.”O Sermão da Montanha dirige-se a toda a vastidão do mundo, presente e futuro, mas ele exige discipulado e só pode ser verdadeiramente entendido e vivido seguindo-se Jesus, caminhando-se com Ele” (Papa Bento XVI, Jesus de Nazaré, pag. 75).

Podemos associar as bem-aventuranças com a imagem da Igreja, perseguida, humilhada, mas que sempre consola-se de suas tribulações, pois sabe que Cristo está aos seu lado. E precisamente quando sofre, a Igreja sabe que está na direção correta. Podemos também associá-las com a realidade humana voltada à condição espiritual.

Peçamos que, pela intercessão de todos os Santos e de Maria Santíssima, também nós trilhemos nosso caminho de santidade, mesmo com nossa fraqueza humana.

Salus et Pax in corde Iesus et Maria.

Celibato: amor sem limites

Foi-me dada para leitura uma reportagem da revista Aventuras na História, Edição 85, deste mês de agosto, o tema proposto era: A Igreja e o Sexo. Em primeiro momento pensei que seria sobre a questão da defesa da Igreja nos valores morais e as propostas inaceitáveis que a sociedade hodierna apresenta-nos, mesmo que, como sabemos, o seguimento a Cristo, para muitos é inaceitável e radical; no entanto, o que se deu foi um verdadeiro “bombardeio” contra a nossa Santa Mãe Igreja e contra os Papas. Não escrevo para cobrir erros dos Papas. Sabemos que alguns levaram uma vida devassa, entregue às paixões deste mundo. Mas alguns! Porque a grande maioria deu testemunho de vida santa, radicada unicamente em Jesus Cristo e nos seus ensinamentos. A mídia não recorda Papas como Pedro, Pio X, Pio V, João XXIII, João I, Cornélio, e mesmo em nossos tempos atuais João Paulo II, João Paulo I, Pio XII, que salvou de 700.000 a 850.000 judeus da morte certa, no regime nazista. E tantos outros que se doaram totalmente à concretização do Reino de Deus, prefigurado já neste mundo pela Igreja.

Porém o objetivo não é “fazer justiça” e mostrar à humanidade os erros de alguns filhos da Igreja; o objetivo verdadeiro, que se esconde nesta farsa, é atacar a invencível Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, que Ele resgatou com seu sangue (cf. At 20, 28) para que nela os homens encontrassem o verdadeiro caminho da salvação. Mas estes, que o fazem, não sabem (ou ignoram) a promessa do Seu Fundador: “Et porta inferi non prevalebunt – E nem as portas do inferno prevalecerão contra ela” (Mt. 16,18).

Mas retornando ao tema do celibato, vemos que esta preciosidade, à qual são chamados os sacerdotes, muitas vezes é interpretado de maneira precipitada. Quantos acham que o celibato é uma renúncia ao amor? Quantos vêem os padres como criaturas que não amam? Que são chamados a uma vida afastada, por assim dizer, do mundo e das pessoas. Tal interpretação é totalmente errônea, e tentarei provar o por quê.

Em primeiro lugar muitos, se perguntam: o por que de os padres não podem casar-se? “São Pedro foi Papa e se casou”, afirmam muitos categoricamente. Para começar desejo valer-me da diferença entre celibato e castidade. Poderíamos conjecturar que a castidade é o mesmo que celibato mas, na verdade, são diferenciais. Alguém que guarda o celibato, já pode ter sido casado. Outro que vive a castidade, deveras, nunca pode ter sido casado, exceto se, como a Virgem Maria, vivesse a castidade dentro do casamento.

São Pedro poderia ser viúvo. Não basta apenas afirmarmos que ele tinha uma sogra; isso seria argumento sem fundamento. De qualquer forma, estando viva ou não a sua esposa,  ele deixou tudo para seguir o Mestre. Prova disto é sua afirmação: “Eis que deixamos tudo para te seguir. Que haverá então para nós?” Ao que Jesus respondeu-lhe: “Todo aquele que por minha causa deixar irmãos, irmãs, pai, mãe, mulher, filhos, terras ou casa receberá o cêntuplo e possuirá a vida eterna” (Mt 19, 27.29).

O Papa Paulo VI afirmou: “O celibato sacerdotal, que a Igreja guarda desde há séculos como brilhante pedra preciosa, conserva todo o seu valor mesmo nos nossos tempos, caracterizados por transformação profunda na mentalidade e nas estruturas” (Carta Encíclica Sacerdotalis Caelibatus, nº 01).

Bem nos recorda este Servo de Deus que hoje em dia, em todo o âmbito social, somos confrontados com uma mudança de mentalidade que deseja apoderar-se também da Igreja, e aos poucos essas ideologias anti-evangélicas atingem membros, mesmo do clero, que desejam aplicar esses pensamentos também na Igreja. Essa invasão foi muito bem esclarecida pelo mesmo Papa, ao dizer que: “Por alguma brecha a fumaça de Satanás entrou no templo de Deus: existe a dúvida, a incerteza, a problemática, a inquietação, o confronto. Não se tem mais confiança na Igreja; põe-se confiança no primeiro profeta profano que nos vem falar em algum jornal ou em algum movimento social, para recorrer a ele pedindo-lhe se ele tem a fórmula da verdadeira vida. E não advertimos, em vez disso, sermos nós os donos e os mestres. Entrou a dúvida nas nossas consciências, e entrou pelas janelas que deviam em vez disso, serem abertas à luz…” (Discurso em 29 de Junho de 1972)

Reconheçamos que, de alguma forma, se a Igreja hoje está infestada de pensamentos nefastos, isto se dá porque alguns de seus membros foram contaminados com os pensamentos de um mundo moderno, que apresenta uma forma de vida fácil; um mundo onde o consumismo, a ditadura do relativismo e a autossuficiência caminham lado a lado.

O Catecismo da Igreja Católica assim nos diz:

“Todos os ministros ordenados da Igreja latina, com exceção dos diáconos permanentes, normalmente são escolhidos entre os homens fiéis que vivem como celibatários e querem guardar o celibato ‘por causa do Reino dos Céus’ (Mt 19,12). Chamados a consagrar-se com indiviso coração ao Senhor e a ‘cuidar das coisas do Senhor’, entregam-se inteiramente a Deus e aos homens. O celibato é um sinal desta nova vida a serviço da qual o ministro da Igreja é consagrado; aceito com coração alegre, ele anuncia de modo radiante o Reino de Deus” (§1579).

Os padres não são menos felizes ou amam menos por guardarem o celibato. Aí é que está a grande beleza disto: Quem mais ama são os padres. Quem mais doa-se e  vive radicalmente esta doação, são os sacerdotes. De uma grande multidão eles são pais. Por uma grande multidão eles se desgastam. Não pensam mais em si, mas apenas no próximo.

“A verdadeira e profunda razão do celibato é, como já dissemos, a escolha duma relação pessoal mais íntima e completa com o mistério de Cristo e da Igreja, em prol da humanidade inteira. Nesta escolha há lugar, sem dúvida, para a expressão dos valores supremos e humanos no grau mais elevado” (Carta Encíclica Sacerdotalis Caelibatus, nº 54).

A vocação para o sacerdócio exige também que haja vocação para o celibato. Deus, em sua divina sabedoria, quis que assim se fizesse. Por ventura nosso bondoso Pai daria uma vocação ao sacerdócio sem que a dê também para o celibato? O verdadeiro chamado de Deus para o sacerdócio requer que renunciemos a uma família, para que possamos abraçar uma multidão. Que grande dom! De Deus provém e para Deus se destina. Quem não tem vocação para o celibato, logo também não tem vocação para o sacerdócio; tê-la-á para o matrimônio, ou para a castidade, pois há outros meios [e muitos!] de servir santamente a Deus. Por exemplo: Não posso ser professor se tenho vergonha de falar em público. Posso conhecer tudo, mas a minha vergonha me impede de dirigir-me aos meus alunos.

O verdadeiro vínculo nupcial do sacerdote é com a Igreja. Feliz dos sacerdotes, pois deixam de contrair vínculo matrimonial com alguma mulher para se tornarem o próprio Cristo em cada Missa, em cada confissão, em cada celebração onde se faz presente.

Bem dizia São João Maria Vianney: “Quando um cristão avista um padre deve pensar em Nosso Senhor Jesus Cristo”. E ainda: “Se a Igreja não tivesse o sacramento da ordem, não teríamos entre nós Jesus Cristo”.

É interessante que em uma sociedade onde se clama por leis de divórcio e de projetos que se erguem contra os direitos da família, muitos estejam a gritar por casamento dos sacerdotes. É um visível paradoxo, uma verdadeira hipocrisia.

Quanto aos casos de pedofilia vale recordar as palavras do Cardeal Tarcísio Bertone, secretário de estado do Vaticano:Não há uma relação direta entre o celibato e a conduta desviada de alguns sacerdotes… Pelo contrário: é justamente a inobservância do celibato o que produz uma progressiva degradação da vida do sacerdote, que deixa de ser um exemplo, um dom, um guia espiritual para os demais… Está mais que demonstrado que o celibato, observado fielmente, é um grande valor para a missão sacerdotal e para a ajuda do Povo de Deus”.

Apenas 0,44% do clero estão envolvidos com possíveis casos de pedofilia. Philips Jenkins, em sua obra Pedophiles and Priests: Anatomy of a Contemporany Crisis (Pedófilos e Padres: Anatômia de uma crise contemporânea), atesta que: “Comparando-se a Igreja Católica dos EUA com as principais denominações protestantes, descobre-se que a presença de pedófilos é de duas a dez vezes mais alta entre pastores protestantes do que entre padres católicos. O problema não é o celibato, no caso, a maior parte dos pastores protestantes é casada”.

As atitudes louváveis do Papa Bento XVI mediante as descobertas destes infelizes sacerdotes que trairam seu ministérios, têm mostrado que a Igreja não silencia mediante as injustiças, mas age, pois também ela impõe a espada da justiça. E não queiramos genaralizar. Como provei: a maioria dos sacerdotes tem uma vida santa e honram seu ministério!

Peçamos que, por intercessão de São João Maria Vianney e da Santíssima Virgem Maria, possamos compreender o inestimável valor do celibato.

Ut in omnibus glorificetur Deus!

Vigilantes sempre!

Neste domingo o Santo Evangelho exorta-nos a guardamos a vigilância e a prudência. E quão grandes são esses valorosos conselhos no contexto da atual sociedade com que nos deparamos. Em um mundo relativista, que mostra resistência em ceder aos conselhos da Palavra de Deus, Jesus nos exorta veementemente a buscarmos um tesouro no céu: “Vendei vossos bens e dai esmola. Fazei bolsas que não se estraguem, um tesouro no céu que não se acabe; ali o ladrão não chega nem a traça corrói. Porque, onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” (Lc 12, 33-34).

Como as palavras de Jesus caracterizam profundamente o horizonte do mundo que temos à nossa frente. Uma sede de poder, uma ganância demasiada, um desejo exacerbado de possuir mais e mais, um consumismo desenfreado. Com isso, deixam-se cativar pelos “consolos” que esta vida pode oferecer, abandonado a Deus, buscam uma autoconfiança que os fazem transcender não para Deus, mas para este mundo, e esta transcendência logo perderá fôlego e vigor se o homem voltar-se para Cristo e nEle ver o único essencial e o único centro da vida humana.

Onde está o nosso tesouro? Indagam-se muitos no mundo hodierno. E eu iria mais a fundo: Onde temos feito os nossos tesouros? No mundo secularizado, que tende a sufocar os valores cristãos, éticos e morais; ou no Céu, no coração de Deus, onde os homens sequiosos são convidados para lá nutrirem forças na caminhada?

Não cabe somente a mim dar esta resposta. Só você poderá dá-la. O Senhor interroga a cada um de nós, e espera de nós uma resposta convicta, que verdadeiramente confirme um caráter de compromisso, como o “sim” de Maria.

Há! Como são felizes os mártires, que desapegaram-se de tudo, até mesmo das suas vidas! Como são felizes os sacerdotes, que desapegaram-se de uma feliz realização material para darem-se totalmente a Jesus Cristo! Isto porque a verdadeira felicidade não consiste em bens materiais, mas consiste em alguém: Jesus Cristo. Só Ele pode satisfazer todos os nossos anseios. Só nEle encontramos a verdadeira paz, a verdadeira felicidade.

Mais a diante o Senhor chama-nos a atenção para a vigilância: “Que vossos rins estejam cingidos e as lâmpadas acesas. Sede como homens que estão esperando seu senhor voltar de uma festa de casamento, para lhe abrirem, imediatamente, a porta, logo que ele chegar e bater” (Lc 12, 35-36). Vigiar tornou-se, nos dias de hoje, uma necessidade maior ainda para o cristão. Em uma sociedade que vulgariza os homens e mulheres, e que vive em espírito pecaminoso e de promiscuidade, as palavras de Jesus vêm tirar-nos da inércia espiritual, à qual muitos se rendem por não encontrarem forças para combater.

Estejam preparados! Que ecoe para todo o mundo estas palavras. Que ela possa alcançar todo o vasto campo de missão confiado a Igreja.

São Cipriano expõe muito bem o sentido deste Evangelho:

“Ninguém se preocupa com as coisas que hão de vir, ninguém pensa no dia do Senhor, na ira de Deus, nos futuros suplícios dos incrédulos, nos eternos tormentos destinados aos pérfidos… Quem acredita se acautela, quem se acautela se salva” (Sobre a Unidade da Igreja, XXVI).

A nós se dirigem as sábias e proféticas palavras de São Cipriano, tão incidentes na sociedade hodierna. Há meus irmãos! Se os homens soubessem a importância da vigilância! Eis que muitos não têm coragem de vigiar, assim como Pedro, Tiago e João não suportaram e curvaram-se ao sono.

A estes valem as fortes palavras de São Cipriano:

“Despertemos, irmãos diletíssimos, quebremos o sono da inércia rotineira e, por quanto for possível, sejamos vigilantes em guardar e cumprir os preceitos do Senhor… É necessário que estejamos cingidos, a fim de que, quando vier o dia da partida, não sejamos surpreendidos cheios de impedimentos e de embaraços. Fique sempre viva a nossa luz e brilhe em boas obras, para nos guiar da noite deste mundo aos esplendores da claridade eterna. Sempre solícitos e cautos, fiquemos à espera da chegada repentina do Senhor. Quando ele bater, encontre a nossa fé vigilante de forma que mereça receber o prêmio do Senhor. Se forem observados esses mandamentos, se forem postas em prática essas exortações, não acontecerá que sejamos vencidos – no sono – pela falácia do demônio, mas, como servos bons e vigilantes, reinaremos com Cristo glorioso” (idem).

“A quem muito foi dado, muito será pedido; a quem muito foi confiado, muito mais será exigido!” (Lc 12, 18). Não é porque somos cristãos que seremos poupados. As palavras do Senhor confirmam que árduo é o trabalho, mas será também grande a recompensa. Seremos cobrados por nossas ações e pelo que fizemos em prol do anúncio do Evangelho neste mundo. Àqueles que não querem guardar as palavras de Cristo, confiemos-lhes a misericórdia divina. E peçamos para nós o dom da vigilância, estar em prontidão, para que o Senhor nos convide ao seu eterno banquete.

A Virgem Santíssima nos auxilie nesta caminhada.

Ut in omnibus glorificetur Deus!

A eficácia da oração

“Através desta oração coral, que encontra o seu cume na participação cotidiana no Sacrifício Eucarístico, a vossa dedicação ao Senhor no silêncio e no escondimento é tornada fecunda e fértil, não somente em ordem do caminho de santificação e purificação pessoal, mas também no que diz respeito àquele apostolado de intercessão que desenvolveis por toda a Igreja, para que possa aparecer pura e santa diante do Senhor. Vós, que bem conheceis a eficácia da oração, experimentais todo o dia quantas graças de santificação ela pode obter à Igreja.”

(Papa Bento XVI, Homilia no Mosteiro Dominicano de Santa Maria do Rosário; 24 de junho de 2010)

O Santo Padre mais uma vez manifesta-nos a necessidade constante da oração, e não apenas dela, como também da vida contemplativa. Urge cada vez mais alto a necessidade de termos pessoas constantes na oração, que possam levar uma vida contemplativa e nela descobrir o verdadeiro rosto de Deus. Verdadeiramente não são as alegrias terrenas que nos farão contemplar a face de Deus, mas o nosso interior, a nossa condição de pessoas e de cristãos.

Para quantos no mundo hodierno parece-se uma insensatez, ou até mesmo uma loucura, a vida de clausura, ao qual muito dos nossos irmãos se detém? Mas a Igreja, constantemente, por meio dos Santos Padres sobretudo, nos convida a olharmos de forma diferenciada para esta vida de oração que a muitos enriquece. Quem sabe orar faz da sua vida um céu, quem não sabe a transforma em um inferno. Isto porque se a oração não nos dirige para Deus, e fere a nossa fé cristã nos fazendo cair na presunção da autossuficiência, não poderá ser boa e muito menos poderá pôr-nos em profundo contato com Deus, mas atirar-nos-á em um abismo, um existencialismo puro, sem um destino e sem Alguém que lhe dará pelo valor.

Só a oração verdadeira e íntima com Deus, que brota do coração, pode realmente fazer com que os homens e mulheres – especialmente os que dedicam suas vidas a rezar pelo mundo nos mosteiros – sintam o abraço do Pai e nele encontrem plena realização. Em um mundo tomado por ideologias que contrastam fortemente os sagrados ensinamentos evangélicos e os preceitos da moral católica, somos convidados a perseverar, como bem nos exorta São Pedro: “Sede, portanto, prudentes e vigiai na oração.” (1 Pd 4, 7).

São João Crisóstomo fala sobre os monges:

Ali há uma só riqueza para todos, a verdadeira riqueza, e uma só glória para todos, a verdadeira glória, pois não põem os bens nos nomes, mas nas coisas: um só prazer, um só desejo, uma só esperança para todos. Tudo está perfeitamente ordenado como com régua e esquadro. Não há ali desordem alguma. Tudo é ordem, ritmo e harmonia, e concórdia absoluta, e motivo constante de alegria. Por isto todos fazem e sofrem tudo para que todos vivam felizes e contentes. E assim, só entre os monges podemos ver esta pura alegria que não acontece em nenhuma outra parte, não só porque desprezaram o presente e cortaram pela raiz toda ocasião de dissensão e luta; não só porque têm as mais belas esperanças para o futuro, mas também pelo fato de que cada um considera como seu tudo quanto acontece de alegria ou tristeza aos demais. Deste modo, a tristeza desaparece facilmente, pois todos levam a carga, como se fossem um só, e se acrescentam os motivos de alegria, pois não se alegram só pelos próprios bens, mas também – e não menos que pelos próprios – pelos bens alheios”.

Contra os impugnadores da vida monástica
Discurso III, cap. 21

Se muitos soubessem o verdadeiro valor da vida monástica e religiosa não a atacariam tão vorazmente, e muito menos a colocariam como castigo. Da oração brota o amor. E quem primeiro ama são aqueles que mais rezam. Logo, em nenhum momento ousaria dizer que amo mais que um religioso, ou um monge, ou uma freira. É Deus que ama o mundo por meio deles, é Deus que nos ama por meio dos sacerdotes.

Os Santos são exemplo vivo disto: Santa Teresinha do Menino Jesus, São Bento, Santo Antonio e tantos outros, que, apesar de não serem monges, viviam em alguma congregação.

Doar-se e doar-se sem reservas: eis um lema que deve centralizar a vida cristã. Aquele que se doa em primeiro lugar doa-se à oração. E se muitos soubessem o inexaurível valor da oração não a excluiriam de suas vidas, mas saberiam que ali achariam forças para nutrir a caminhada neste mundo e nos garantir a salvação no próximo.

Não basta rezar, é necessário saber rezar.

Encerro com as sábias palavras de São Paulo, que são tão consoladores à todos nós: “Sede alegres na esperança, pacientes na tribulação e perseverantes na oração” (Rm 12, 12).

Fraternalmente em Cristo Jesus e Maria Santíssima!

Sacerdotes segundo o Coração de Jesus

Encerrando o Ano Sacerdotal e neste dia da Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, senti-me na necessidade de escrever aos nossos sacerdotes, em particular os que visitam este humilde blog que dispõe-se a serviço da Santa Igreja e da evangelização.

Desejo saudar a cada um de forma afetuosa, em Cristo Jesus e Maria Santíssima.

O Ano Sacerdotal foi uma experiência frutuosa para toda a Igreja, radicada em um clamor insistente pedindo sacerdotes santos para que, com sapiência, possam guiar o povo de Deus.

Esta feliz iniciativa do Santo Padre, o Papa, põe ante nossos olhos a urgente necessidade de rezarmos constantemente pedindo por alguns sacerdotes que passam por alguma dificuldade, ou que se desviam do mandato missionário, agindo de forma não muitas vezes errônea e imoral.

As leituras propostas à esta Solenidade relatam-nos a missão do sacerdote e como ele deve exercê-la, observando as Escrituras e confiantes na misericórdia incessante de Deus.

Na primeira leitura (Ez 34,11-16), assim como no Evangelho, somos postos em uma figura de linguagem, comumente usada na Igreja: pastor e ovelha. “Vede! Eu mesmo vou procurar minhas ovelhas e tomar conta delas” (v. 11). Vemos aqui já uma prefiguração da missão de Jesus. Este pastor que nos relata o profeta é o próprio Cristo, que, não permanecendo inacessível nos céus, quis fazer deste mundo sua habitação, e mais que isto: quis fazer de nós sua habitação. O Sumo e Eterno Sacerdote também quis estar presente e fazer dele as palavras do livro aos Hebreus: “O sacerdote é tirado do meio do povo, para ser posto no meio do povo”. Mas Ele poderia assumir um sacerdócio diferente, não necessitaria sair da Virgem Maria. O que quer Cristo mostrar?

Em minha concepção Jesus aponta-nos que, apesar de seres seus representantes, e agirem em sua pessoa, os sacerdotes também tem suas fraquezas, seus limites. Não podemos crucificar os padres por causa do erro de alguns membros do clero. Há padres que vivem a Boa Nova do Evangelho, são perseguidos, mortos. Padres que trabalham em prol dos que sofrem, tanto pelo sistema opressor do capitalismo, do marxismo, do comunismo, quanto pelas enfermidades corporais. Mas isso a mídia não propaga. Omite-se em anunciar uma verdade, para se apegar a mitos que criam na tentativa de, inutilmente, tentar derrubar a Igreja.

“Vou procurar a ovelha perdida, reconduzir a extraviada, enfaixar a da perna quebrada, fortalecer a doente, e vigiar a ovelha gorda e forte. Vou apascentá-la conforme o direito” (v. 16). Estas missões às quais os pastores de hoje são chamados, florescem cada dia mais no jardim da humanidade. Muitas são as ovelhas perdidas, que apascentam a si mesmas, se bem que algumas não se deixam apascentar.

Eis que os nossos sacerdotes devem ser pastores, assumindo a missão que lhes foi confiada pelo próprio Cristo: “Ide; eis que vos envio como cordeiros entre lobos” (Lc 10, 3). “Ide!” Ainda hoje Jesus continua a fazer este veemente apelo, para que não se cesse nunca o ardor missionário que os padres devem ter. Iremos Senhor. Mas iremos olhando para ti, observando teus mandamentos e guiando-nos pelo teu caminho, que é a Igreja.

No Evangelho Jesus afirma: “Se um de vós tem cem ovelhas e perde uma, não deixa as noventa e nove no deserto, e vai atrás daquela que se perdeu, até encontrá-la?” (Lc 15, 4). Parece paradoxal esta parábola, principalmente quando Jesus completa: “Assim haverá no céu mais alegria por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não precisam de conversão” (v. 7).

Não seria o céu um lugar para se alegrar pelos justos? Também! Mas se o é, ainda mais o será pelos pecadores.

Mergulhados na imensidão do Sagrado Coração de Jesus, queremos pedir que Ele olhe e proteja os nossos sacerdotes. A misericórdia infinita do Senhor é capaz de acolher a todos, por maior que seja o pecado. Basta arrepender-se de coração humilhado e confiar no Senhor que tudo perdoa. Ao contrário do nosso coração, o Coração de Jesus sabe amar e perdoar. Para aprender a amar o único meio é mergulharmos na inexaurível fonte de graças que jorram abundantemente do Coração de Jesus, ferido por nossos pecados. Introduzamo-nos neste mistério e descubramos que o Senhor convida a todos nós. E por que não aceitar o seu convite? Vamos ao manancial de graças. Deixemo-nos tomar por este espírito de amor, ao qual pedimos que hoje possa irradiar todo o mundo.

Do coração ferido pela lança, outrora saiu sangue e água, hoje saem o amor e a misericórdia, que a ninguém abandona e que a todos conforta.

Jesus é o amor que os cristão devem experimentar; caso contrário viverão na superficialidade e sentirão falta de algo essencial na caminhada. Ninguém tem uma boa caminhada religiosa se não ama, e mais ainda, se não sabe o que é o amor de Cristo. O desejo da santidade parte também do amor. Porque amaram, os santos puderam testemunhar o Evangelho de Cristo, puderam vivê-lo com fidelidade e puderam ter um feliz encontro com Deus.

Peçamos pelos que andam no mundo obscuro, para que seja-lhes dada a visão da luz.

Que este Ano Sacerdotal não fique restrito apenas ao tempo cronológico. Mas que esteja sempre no presente da vida sacerdotal.

Permaneçamos sempre confiantes nas palavras de Jesus a Santa Maria Alacoque: “Afinal reinará, este amável Coração, apesar de todos os que se quererão opor. Satã e todos os seus seguidores serão confundidos”

Anunciar o que vem do céu

Não é, portanto, nada de admirar se ainda hoje nalguns lugares se odeia o nome cristão; se, de diversos modos e com diversos métodos, é a Igreja em muitas regiões impedida de cumprir a missão divina que recebeu; e se, finalmente, não poucos católicos se deixam enganar com falsas doutrinas e se põem em grave perigo de perder a eterna salvação. Dê a todos nós força e ânimo a promessa do divino Redentor: “Eis que eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos”.(Mt 28,20.) Do céu nos alcance força S. Bonifácio, que, para levar o reino de Cristo a povos hostis, não recusou trabalhos aturados, ásperos caminhos e até a própria morte, que afrontou com fortaleza e confiança, derramando o próprio sangue. Com a sua intercessão obtenha ele de Deus invicta fortaleza de ânimo àqueles, sobretudo, que se encontram hoje em situação angustiosa por causa das maquinações dos inimigos de Deus; e chame também ele todos naquela unidade da Igreja, que foi não só constante norma o proceder, mas também anseio ardente que o fez perseverar toda a vida em tão diligente atividade. (Papa Pio XII, Carta Encíclica Ecclesiae Fastos, 39).

Celebrando a Festa de São Bonifácio, recordei-me desta passagem da Encíclica, acima citada, escrita pelo Servo de Deus Pio XII, para as comemorações do XII centenário da morte de São Bonifácio. Tais palavras são presentes de forma constante no mundo hodierno. Como São Bonifácio, muitos não cansam de dar suas vidas pela causa do Evangelho.

A Igreja tem sido constantemente atacada. Mas, se perguntarmo-nos do porquê a Igreja é alvo de tanta perseguição, não precisaríamos ir muito longe, basta que olhemos as recomendações de São Paulo aos Galátas, tomada com tanto fervor pelo Santo hoje lembrado: “Asseguro-vos, irmãos, que o evangelho pregado por mim não é conforme a critérios humanos. Com efeito, não o recebi nem aprendi de homem algum, mas por revelação de Jesus Cristo” (Gl 1, 11-12). Aqui está a causa central de toda a perseguição. Recentemente o Papa Bento XVI afirmou: “as perseguições também são prova da autenticidade de nossa missão apostólica.” E isto podemos constatar cada vez mais.

Ela deriva do fato que a Igreja prega aquilo que lhe foi ordenado por Cristo e transmitido pelos apóstolos. E eis que o Evangelho de Jesus, seus ensinamentos, contradizem todas as perspectivas de um mundo que é laicista, com ideologias marxistas e comunistas, anti-vida e anti-família. E não pode a Igreja buscar agradar ao mundo. Seu único prazer deve estar em Cristo Jesus. Por isso, se às vezes a Igreja é tida com retrógrada ou conservadora é porque não cede, e nunca irá ceder, às idéias que brotam das mentes humanas, pretendendo que se abandone aquilo que é seguramente divino.

“Se nós mesmo ou um anjo do céu vier e lhe anunciar um outro evangelho diferente do que temos pregado, que seja considerado maldito” (Gálatas 1, 9). Infelizmente têm surgido muitos “evangelhos”, mas não há um verdadeiro, senão o da única Igreja, subsistente em Nosso Senhor Jesus Cristo e que conduz todos os que nela permanecem à salvação.

Paulo designa a Igreja como “coluna e sustentáculo da verdade” (1Tim 3,15), ou seja: A Igreja sustenta a Verdade, que é Cristo Jesus e o que Ele lhe transmitiu. Por isso aqueles que se desviam da verdadeira doutrina atiram-se no poço da perdição e do erro. Ela é corpo místico de Cristo, Cabeça. Os que nela permanecem estão em Cristo, são guiados por Ele.

O que São Bonifácio viveu, dando testemunho até o martírio, é reflexo do que muitos cristãos vivem hoje. Perseguições e injúrias. Sabemos que Jesus não prometeu vida fácil a nenhum de seus seguidores; pelo contrário, ele foi firme ao afirmar: “Se alguém quiser seguirMe, tome a sua cruz e siga-Me” (Lc 9, 23). E tome a cruz justamente porque ela significa sofrimento, renúncia. O cristão que não é capaz de renunciar também não é capaz de dar testemunho do Evangelho. Somos chamados a viver a radicalidade do Evangelho, no seu todo. Não vivo o Evangelho pela metade, porque quem vive pela metade não é digno de ser chamado cristão. Só pode ser cristão quem assume uma vida firmada nos conceitos evangélicos, quem é capaz de, como São Bonifácio, doar sua vida em prol do Reino de Deus.

Mesmo sendo Bispo, Bonifácio, viveu a humildade, foi martirizado. Creio que está na hora de muitos Bispos olharem para a figura de São Bonifácio e nele verem o modelo ideal para suas vidas: Humildade e Obediência. Obediência a Cristo e ao Papa.

São Bonifácio, rogai por nós!

Fraternalmente em Cristo Jesus e Maria Santíssima!