Meditações sobre as Cartas Paulinas – 1ª Tessalonicenses, Cap. 1

Estamos iniciando o estudo do corpo da Carta Paulina aos Tessalonicenses. Hoje gostaria de falar do capítulo 1º.

Como podemos ver logo no começo, dirige-se à comunidade de Colossos, não somente Paulo, como também Silvano e Timóteo, como eles mesmos definiram: “À igreja dos tessalonicenses reunida em Deus Pai e no Senhor Jesus Cristo” (v. 1). Conforta-nos, de certa forma, saber que Paulo não dirigia-se a indivíduos isolados, mas a uma comunidade de fé, reunida em Deus, por meio de Jesus Cristo. Garante suas orações pela comunidade e deseja-lhes graça e paz, de todo o coração sabemos que ele no-lo faz. Nutria, verdadeiramente, um sentimento de alegria pela comunidade.

Lembramo-nos da ação de vossa fé, do esforço de vosso amor e da constância de vossa esperança em nosso Senhor Jesus Cristo” (v. 3).

O cristão ama! Esta verdade percorre dois mil anos com tamanha vivacidade. Não é um amor puramente sentimental, que restringe-se aos limites humanos. É um amor que plenamente se realiza em Deus. E poderíamos dizer que vai além: Um amor que é Deus. Que cativa a todos os homens não por bens materiais, ou por posses e títulos, mas por Sua Palavra, por Seu Filho, que, morrendo na cruz, destruiu todo o pecado, e nos inseriu no seu mistério de salvação. É preciso, não obstante, que deixemo-nos cativar por Ele, e não buscar impô-Lo em nossas ideologias, ou adaptá-Lo aos nossos sentimentos.

No versículo 6, porém, Paulo fala algo que me chama particular atenção: “Vos tornastes imitadores nossos e do Senhor, acolhendo a Palavra em meio a muita tribulação e, no entanto, com a alegria que vem do Espírito Santo”.

Destas informações podemos fazer diversas analogias com nossos dias. Em primeiro lugar, o termo “imitadores nossos e do Senhor”. Devemos então centrar-nos um pouco aqui. Imitar! Como esta palavra é tão mais realista em nossos dias, e para nós cristãos. É preciso que nos tornemos imitadores. Imitadores na radicalidade, capazes de renunciarmos tudo para abraçar o ideal de Jesus Cristo, o qual Paulo abraçou e jamais se desapegou deste.

Porém, por vezes, parece que este imitar sente-se abalado mediante as divergências e oportunismos que figuram-se no mundo. Somos chamados a acolher a Palavra, e acolhendo-a então, poderíamos sentir-nos firmes, permeados da fortaleza que Deus nos concede dia a dia, ainda que mediante as dificuldades, possamos nos fixar unicamente no Evangelho. Um Evangelho que não é um conjunto de ideologias, mas é muito mais que isso: é o próprio Jesus Encarnado que faz-se Palavra de vida eterna. Só estando com Cristo poderemos ter plena força, e só então os homens poderão transcender. E esta transcendência não será apenas aparente, mas dar-se-á no interior, quando os homens não irão buscar mais o ter, e sim o ser.

Também nos é possível fazer uma associação com as palavras do Senhor, que nunca cessam de ressoar: “Se alguém quer vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me” (Lc 9, 23).

Precisamos ter em mente, primeiramente, que estas palavras salvíficas, de certa forma, exprimem um intrínseco imitar. Aquele que imita a Cristo, aquele que deseja fazer de sua vida um modelo de santidade, deve também carregar sua cruz. Não se pode esperar que nosso seguimento e doação total a Ele não tenha reação por parte de uma sociedade subjetivista.

Em segundo lugar, centremo-nos nas palavras “acolhendo a Palavra em meio a muita tribulação e, no entanto, com a alegria que vem do Espírito Santo”. Tribulações! E quantas vezes elas se põem no caminho do cristão! Quanto mais nos dedicamos ao anúncio do Evangelho, mais somos tentados a estarmos contra ele, a fazermos o que não nos é permitido. Parece-nos também paradoxal esta afirmação de São Paulo. Como pode alguém na tribulação, possuir a alegria?

A resposta para tal pergunta poderemos encontrar ao longo de toda a Sagrada Escritura. Precisamente no sofrimento, na tribulação, quando já não sentimos que Deus está conosco, aí então Ele se manifesta de uma forma forte, capaz de mover-nos, mesmo em nossos sentimentos mais profundos, seja de ódio ou de angústia; e no lugar dá-nos a alegria, vinda do Espírito, que atinge a cada um de forma diferente, mas com a mesma finalidade: tornar-nos cidadãos do céu. Alegria esta que nos impulsiona a sermos autênticas testemunhas do Evangelho. Testemunhando-o, antes de tudo, com nossa vida.

No capítulo 10, Paulo refere-se, pela primeira vez, à Parusia de Jesus Cristo. Escreve ele: “Pois todos contam como fomos recebidos por vós e como, virando as costas aos ídolos, vos voltastes para o Deus vivo e verdadeiro e vos pusestes ao seu serviço, na espera do seu Filho, Jesus, que ele ressuscitou dentre os mortos e que virá dos céus para nos arrancar da ira que vem vindo”.

Os tessalonicenses viraram as costas para os ídolos. Viremos também nós as costas para os ídolos que impregnam de forma maléfica a nossa sociedade. Voltemo-nos contra a ganância e o poder do consumismo; voltemo-nos contra as drogas e o uso desregrado do dinheiro; voltemo-nos contra os vícios e prazeres carnais, fora dos ensinamentos evangélicos.

Sigamos unicamente o Deus vivo e verdadeiro, que é capaz de confortar-nos e de nos abrir as portas para as eternas alegrias. Um Deus que nos ama sinceramente pelo que somos, e não pelo que possuímos. Deus que envia Seu Filho único para a Redenção do mundo, e para nos livrar dos abismos que nossos pecados causaram. Que o mundo se abra a Jesus Cristo e experimente o seu incomensurável amor por cada um de nós. Que o mundo se abra à verdadeira libertação, que não redime o homem por meio de seus bens, mas o liberta unicamente por Cristo Senhor.

O Ressuscitado, conforme diz São Paulo, vai nos “arrancar da ira que vem vindo”. Mas que ira seria esta?  Poderíamos associá-la ao Juízo Final, último acontecimento da obra Salvadora de Jesus Cristo. Não se expressaria exatamente pelo termo ira, seria demasiado pesado para nós; porém, para a comunidade da época, assim São Paulo no-la associou, visto que os pecados excediam, não a misericórdia de Deus, pois ela é verdadeiramente incomensurável, e o próprio Jesus atesta a Santa Faustina: “A falta de confiança das almas dilacera-Me as entranhas. Dói-me ainda mais a desconfiança da alma escolhida. Apesar do Meu amor inesgotável, não acreditam em Mim, mesmo a Minha morte não lhes é suficiente. Ai da alma que deles abusar!” (Diário de Santa Faustina, 50).

Portanto, também vemos uma perspectiva escatológica nestes textos. Que a nossa preparação para o advento definitivo do Senhor não seja apenas por temor do inferno ( = morte eterna), mas, sobretudo, por reconhecimento ao Amor de Jesus, que não faz distinções, e deveras olha a todos igualmente.

Peçamos neste dia a intercessão de Santa Isabel da Hungria, Padroeira da Ordem Franciscana Secular. Dela nos diz o Santo Padre Bento XVI, quando ainda era o Cardeal Ratzinger:

“O que fez foi realmente viver com os pobres. Desempenhava pessoalmente os serviços mais elementares do cuidado com os doentes: lavava-os, ajudava-os precisamente nas suas necessidades mais básicas, vestia-os, tecia-lhes roupas, compartilhava a sua vida e o seu destino e, nos últimos anos, teve de sustentar-se apenas com o trabalho das suas próprias mãos.(…)

Deus era real para ela. Aceitou-o como realidade e por isso lhe dedicava uma parte do seu tempo, permitia que Ele e sua presença lhe custassem alguma coisa. E como tinha descoberto realmente a Deus, e Cristo não era para ela uma figura distante, mas o Senhor e o Irmão da sua vida, encontrou a partir de Deus o ser humano, imagem de Deus. Essa é também a razão por que quis e pôde levar aos homens a justiça e o amor divinos. Só quem encontra a Deus pode também ser autenticamente humano”. (Da homilia na igreja de Santa Isabel da Hungria de Munique, em 2 de dezembro de 1981).

A Família: Igreja doméstica

 

Assistimos nos últimos dias o triste cenário, dramatizado em toda a humanidade: a destruição da família, célula-mãe da sociedade. O triste cenário mundial forma-se, sobretudo pela falta de fraternidade entre os povos, que, mesmo com a globalização, não impediu o crescimento de barreiras que destruíssem a fraternidade. Por isso o Santo Padre Bento XVI recordou muito bem: “A sociedade cada vez mais globalizada torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos” (Cart. Enc. Caritas in Veritate, 19). E mediante isto põe-se em evidência que a família, ao contrário da economia, não sobrevive apenas com recursos financeiros, estes são importantes, mas não são o essencial. O essencial, que de forma alguma pode ser “perdido de vista”, é Deus. E podemos constatar que hoje Ele é o que mais falta nas famílias. Não que Ele esteja ausente; mas as famílias ausentaram Deus da sua convivência. Para muitos o essencial é o ter; e aí voltamos à velha questão do egocentrismo, e que por sinal nunca se ausentou da humanidade.

Mas, naturalmente, podeis perguntar-me: como poderemos fazer com que Deus habite em nossa família? É claro que não podemos delimitar espaços a Deus, isso é impossível à natureza humana; mas há um meio muito fácil de fazer com que Ele habite conosco. Que Ele faça da nossa casa a Sua casa. Este meio é a ORAÇÂO. Nós somos chamados a vivermos a oração também em nosso lar. E o lar é onde, desde criança, se ensina os valores cristãos. “A família é a comunidade na qual, desde a infância, se podem assimilar os valores morais, tais como honrar a Deus e usar corretamente a liberdade. A vida em família é iniciação para a vida em sociedade” (Catecismo da Igreja Católica, 2207). E o Papa João Paulo II, de venerada memória, também recorda-nos: “A oração reforça a estabilidade e a solidez espiritual da família, ajudando a fazer com que esta participe da ‘fortaleza’ de Deus. Na solene ‘benção nupcial’ durante o rito do matrimônio, o celebrante invoca deste modo o Senhor: ‘Efunde sobre eles (os recém-casados) a graça do Espírito Santo, a fim de que, em virtude do teu amor derramado nos seus corações, perseverem fiéis na aliança conjugal’. É desta ‘efusão do Espírito Santo’ que dimana a força interior das famílias, bem como o poder susceptível de as unificar no amor e na verdade” (Carta às famílias, 2 de fevereiro de 1994, 4).

A família é chamada a ser instrumento de graça, de amor, de bondade e de oração. De tal forma, entregue a “sorte” da sociedade, a família desintegra-se, principalmente porque não crê, e se crê não professa, e se professa não vive, por conseguinte ela enfraquece suas “bases” e qualquer “tempestade” com ventos indômitos, indubitavelmente irá derrubá-la. Para isto tomemos como exemplo a parábola da casa mal-edificada e feita na areia, e aquela construída na rocha (cf. Mt 7,24-27). A chuva veio e derrubou a casa da areia, mas não derrubou a da rocha, e por quê? Porque enquanto uma estava construída sobre a areia, a outra estava edificada sobre a rocha.

Adaptemos a parábola a realidade hodierna. Se a família buscar apenas o que é efêmero, superficial, aquilo que não lhe sacia, continuará a sofrer com as demasiadas tempestades dos dias de hoje. Porém se ela edifica-se sobre a rocha, buscado a vivência da oração e a entrega constante a Deus, não será, jamais, derrubada por ventos impetuosos.

Para isto tomemos como exemplo a Sagrada Família de Nazaré que jamais cessou na oração, ou que jamais deixou-se levar pelas diversas circunstâncias que afligiam à época.

Em Maria os homens e mulheres são chamados a observar todas as mães de hoje. Mães que lutam, mães que batalham, que sofrem com seus filhos presos aos vícios e ao narcotráfico, mães que trabalham para garantir o sustento da família, abandonadas pelo marido e deixadas a mingua da cruel sociedade.

Em José contemplamos os pais. Estes são chamados a imitá-lo na perseverança de que a família pode ser aquele lar tão desejado, uma família que sempre reze. Pais que trabalham para o sustento familiar. Maridos comprometidos, fiéis, honestos.

Em Jesus queremos agora olhar as crianças. Aquelas que são marginalizadas, as que sofrem por desavença familiar, principalmente por causa de brigas entre pais, as que não tem um teto, um alimento diário.

Na família mais perfeita, a Santíssima Trindade, quero pedir a graça da santidade para as famílias e a santificação dos seus membros; para que, por meio da vivencia fraterna, da solidariedade, do amor, da união, do respeito, da fidelidade e da oração, possam ser cada dia mais instrumento de Deus para a santificação da humanidade.

“A família, como a Igreja, deve ser um lugar onde se transmite o Evangelho e donde o Evangelho irradia. Portanto no interior de uma família consciente desta missão, todos os componentes evangelizam e são evangelizados. Os pais não só comunicam aos filhos o Evangelho, mas podem também receber deles o mesmo Evangelho profundamente vivido. Uma tal família torna-se, então, evangelizadora de muitas outras famílias e do ambiente no qual está inserida” (Paulo VI, Exor. Ap. Evangelii Nuntiandi, 71).

Portanto se você acha que seu casamento não tem mais solução ou sua família não irá mais resistir, busque a oração, busque a Cristo. Ele tem todas as repostas. Não espere que seja como doril (tomou doril a dor sumiu). Você precisa comprometer-se na reconstrução da mesma para que não sejam em vão todas as suas orações. Se você espera uma ação de Cristo tenha também a sua ação. Eu lhe garanto: Jesus é a solução. Busque-O pela oração.

Concluo com as palavras de São Paulo: “Cumpra o marido seu dever conjugal para com a esposa, e a esposa, do mesmo modo, para com o marido. Aos casados ordeno, não eu, mas o Senhor: a mulher não se separe do marido. E o marido não pode despedir a mulher” (Cor. 7, 3.10-11).

Na certeza de que esta carta não foi em vão, peço a Sagrada Família que vos abençoe sempre a vós e vossas famílias.

Dário Meira, 10 de outubro de 2009, Memória de São Daniel Comboni