“Ser católico por inteiro”. Uma crítica ao irenismo de muitos cristãos.

Alguns textos realmente conseguem surpreender qualquer leitor, seja pela clareza com que o autor expõe suas ideias, seja pela coragem e bravura em abordar alguns temas importantes, que são não raro “marginalizados”, colocados de lado. É o caso do texto que reproduzimos abaixo, publicado pela agência Zenit, e de autoria de Edson Luiz Sampel, doutor em direito canônico pela Pontifícia Universidade Lateranense, do Vaticano. Não podemos, em nome de um falso ecumenismo, renunciar à “nossa belíssima identidade católica”, como se a nossa Fé fosse uma religião qualquer, como se o sangue que inúmeros mártires derramaram por amor à Igreja fosse sacrifício vão ou irrelevante. Neste sentido, é preciso que “demos nome aos bois”: esta atitude de abandonar a Verdade revelada em nome do “amor ao próximo” ou do diálogo inter-religioso não é ecumenismo, mas sim relativismo, irenismo.

Segue, em azul, o texto referido, de título “Ser católico por inteiro”.

SÃO PAULO, sexta-feira, 10 de agosto de 2012 (ZENIT.org) – Gostaria de discutir o problema da adesão à fé católica, não na perspectiva prática, porque nesta seara, infelizmente, por causa do pecado, os católicos vivemos os ditames do evangelho mais ou menos.

Quero tratar do tema no viés doutrinal. Neste diapasão, ou se é 100% católico ou não se é católico em hipótese nenhuma. Não posso ser católico e, ao mesmo tempo, advogar a tese de que Jesus não fundou nenhuma Igreja específica; apenas instaurou uma novel religião. Não posso ser católico e perfilhar a teoria de que nossa Senhora teve relações sexuais com seu casto esposo. Não posso ser católico e, concomitantemente, asseverar que não há demônios nem Satanás. Não posso ser católico e, outrossim, prestar atenção ao espiritismo. Não posso ser católico e fazer ouvidos moucos ao que o papa ensina. Não posso ser católico e me escusar de divulgar o parecer da Igreja contrário ao homossexualismo. Não posso ser católico e me colocar em prol do aborto, ou, então, ficar em cima do muro.  Eis somente alguns exemplos.

Qual é a questão de fundo? Em minha opinião, é o relativismo, já bastas vezes exprobrado por Bento XVI, combinado com uma equivocada interpretação do ecumenismo. Exemplificando, a pretexto de não vulnerar a suscetibilidade dos nossos irmãos separados, a doutrina protestante não é mais herética: cuida-se apenas de visões diferentes, verberam alguns. Deixemos o mínimo que nos separa, postulam outros, e nos unamos no máximo que nos é comum! Que máximo é esse, se frei Lutero solapou todos os sacramentos, preservando unicamente o batismo?

Quando o mal da não adesão plena e obsequiosa é perpetrado por certos padres ou teólogos, estamos em face de uma vicissitude gravíssima. Aqui, em vários casos, vigem a arrogância e a soberba, uma espécie de desdobramento do pecado original: quer-se saber mais do que a Igreja de Cristo!

Temos de ser ecumênicos sim, sempre amorosos com os outros cristãos e com os membros de qualquer credo, cônscios de que não somos melhores do que eles e que Deus ama todos os homens. No entanto, devemos resgatar nossa belíssima identidade católica, assumindo-a plenamente, sem respeitos humanos, acatando cabalmente o magistério infalível. Esta obrigação é ainda mais urgente por parte dos padres, que têm o múnus de industriar a puríssima doutrina de nosso Senhor Jesus Cristo, custodiada pela Igreja católica.

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A crítica à perigosa amizade que muitos católicos têm feito com a doutrina protestante também foi tema de um texto recente do frei Clemente Rojão.

Bento XVI: “Uma fé criada por nós mesmos não tem nenhum valor.”

http://veja.abril.com.br/assets/pictures/12411/O-papa-Bento-XVI-size-598.jpg?1278699104O Papa concedeu, esta semana, como de costume, uma audiência geral, durante a qual comentou a viagem apostólica que realizou à sua terra natal, a Alemanha. Refletindo no encontro ecumênico que teve com os protestantes em Erfurt, Sua Santidade foi precisa:

“É necessário o nosso esforço comum no caminho rumo a uma plena unidade, mas sempre somos bem conscientes de que não podemos ‘fazer’ seja a fé, seja a unidade tão desejada. Uma fé criada por nós mesmos não tem nenhum valor, e a verdadeira unidade é, mais do que tudo, um dom do Senhor, o qual rezou e reza sempre pela unidade dos seus discípulos. Somente Cristo pode dar-nos essa unidade, e seremos sempre mais unidos na medida em que voltarmos a Ele e nos deixamos transformar por Ele.”

Uma fé criada por nós mesmos não tem nenhum valor. A sutileza com a qual Bento XVI criticou a figura rebelde do monge alemão Martinho Lutero na frente de seus seguidores entra em cena novamente… Esta afirmação foi (mais) uma magistral “alfinetada” do Pontífice ao luteranismo e, portanto, ao próprio fundador da revolta, Lutero. Ora, e o que é a fé protestante senão uma fé criada por um homem, ou seja, “por nós mesmos”, pessoas, seres falíveis e miseráveis? E o que são as hoje milhares de dissensões do protestantismo? Não são um exemplo daquela observação convenientíssima de nosso Senhor Jesus Cristo, de que “se um cego conduz a outro, tombarão ambos na mesma vala” (Mt 15, 14)? Não se aplica a estes que se afastaram da única Igreja fundada por nosso Senhor aquela passagem: “Quem não está comigo está contra mim; e quem não ajunta comigo, espalha” (Mt 12, 30)?

Seremos sempre mais unidos na medida em que voltarmos a Ele e nos deixamos transformar por Ele. Leia-se: seremos sempre mais unidos na medida em que voltarmos ao Seu Corpo Místico, desejando fazer parte também de sua estrutura visível, tendo como pontos comuns da fé não só a Trindade, a Divindade de Jesus ou a Ressurreição, mas também o Símbolo dos Apóstolos e os Sacramentos.

A maneira como o Papa critica o luteranismo é estratégica. Ele sabe que uma manifestação aberta e explícita de condenação pode, ao invés de aproximar os dissidentes da Igreja, gerar uma verdadeira campanha de propaganda midiática anticlerical ou mesmo manter distantes aqueles que estão em busca de um verdadeiro diálogo ecumênico. Mas, ao mesmo tempo, conhece a necessidade de deixar transparecer a unicidade e a santidade da Igreja para aqueles que estão de alguma forma dela afastados.

Os resultados de todos os esforços de Bento XVI para, a pedido de Jesus, promover e firmar a unidade entre os seus seguidores, são visíveis. A onda de conversão de anglicanos à fé católica, um grupo de fiéis anglo-luteranos que também estão voltando ao seio da verdadeira Igreja são alguns exemplos de como é frutuoso o trabalho de nosso Pontífice ao redor do mundo.

Rezemos por seu ministério, para que Deus o conserve fiel à missão que lhe foi confiada, e que não pereça ante as investidas do inimigo.

Uma reabilitação de Martinho Lutero?

Tendo em vista que precisava reforçar alguns pontos no artigo, torno a publicá-lo novamente, sem medo algum ou receio. O fato do artigo ter saído do ar uns dias para muitos pode ter parecido que quis retirar aquilo que disse. Jamais! Tenho comigo as palavras de Santo Agostinho que dizia: “Prefiro errar com a Igreja a acertar sozinho”.

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A 21ª Viagem Apostólica de Sua Santidade Bento XVI é à Alemanha (a terceira neste país). Este é um momento propício para a renovação da fé daquele povo, que tanto necessita de uma palavra de consolo e de um gesto de apoio e carinho do Papa naquela sociedade secularizada. As maiores confissões religiosas nesse país são o Luteranismo e o Catolicismo, respectivamente, com 32,9% e 32,3% de fiéis. 67% (54.765.265) da população é cristã.

Em um dos atos públicos da sua viagem ressalta-se o encontro inter-religioso com os membros da confissão luterana e com os representantes das igrejas evangélicas na Alemanha. Esse grande passo dado pelo Santo Padre, neste âmbito, foi criticado por alguns católicos que disseram que  ele teria reabilitado Lutero; e ouve gente que até mesmo fez chacota afirmando: “São Lutero, rogai por nós!”. Essa mesma conversa já havia saído em 2008.

O grande problema não é o encontro que o Sumo Pontífice, felizmente reinante, promoveu, mas a má interpretação dele, sobretudo por alguns membros da Igreja e pela mídia. E o que dizer, quando até mesmo nos Seminários vemos pessoas que se opõem às decisões do Papa? São estes os sacerdotes que colocamos para o povo de Deus? E como depois queremos cobrar do povo aquilo que nós não oferecemos a eles?

Com este artigo não quero criar inimizade com os tradicionais, a quem muito admiro (e inclusive sou tradicional!), ou com os sedevacantistas, ou protestantes. Apenas desejo demonstrar de forma clara que as afirmações do Sumo Pontífice não reabilitam a Lutero.

Vamos, porém, ao que disse o Santo Padre:

«Como posso ter um Deus misericordioso?» O facto que esta pergunta tenha sido a força motriz de todo o seu caminho, não cessa de maravilhar o meu coração. Com efeito, hoje quem se preocupa ainda com isto, mesmo entre os cristãos? Que significa a questão de Deus na nossa vida, no nosso anúncio? Hoje a maioria das pessoas, mesmo cristãs, dá por suposto que Deus, em última análise, não se interessa dos nossos pecados e das nossas virtudes. Ele bem sabe que todos nós não passamos de carne. Se se acredita ainda num além e num juízo de Deus, praticamente quase todos pressupõem que Deus terá de ser generoso e, no fim de contas, na sua misericórdia ignorar as nossas pequenas faltas. A questão já não nos preocupa. Mas, verdadeiramente são assim pequenas as nossas faltas? Porventura não está o mundo a ser devastado pela corrupção dos grandes, mas também dos pequenos, que pensam apenas na própria vantagem? Porventura não é ele devastado por causa do poder da droga, que vive, por um lado, da ambição de vida e de dinheiro e, por outro, da avidez de prazer das pessoas que a ela se abandonam? Não está ele porventura ameaçado por uma crescente predisposição à violência que não raro se dissimula sob a aparência de religiosidade? Poderiam a fome e a pobreza devastar assim regiões inteiras do mundo, se estivesse mais vivo em nós o amor de Deus e, derivado dele, o amor ao próximo, às criaturas de Deus que são os homens? E poderiam continuar as perguntas nesta linha. Não, o mal não é uma ridicularia. Mas não seria forte, se verdadeiramente colocássemos Deus no centro da nossa vida. Esta pergunta que desinquietava Lutero – Qual é a posição de Deus a meu respeito, como apareço a seus olhos? – deve tornar-se de novo, certamente numa forma diversa, também a nossa pergunta, não acadêmica mas concreta. Penso que este constitui o primeiro apelo que deveremos escutar no encontro com Martinho Lutero” (Discurso aos representantes do Conselho da Igreja Evangélica na Alemanha).

Belíssimas palavras do nosso Papa! Quanta sabedoria! Quanta prudência! E neste texto quem seguramente poderá me afirmar que o Papa teria reabilitado Lutero? A única coisa que ele cita como esplêndido na vida do subversor é a pergunta que norteou toda a sua vida. E esta pergunta mesma foi colocada à margem da vida cristã. Elogiar uma pessoa por uma característica, não é elogiá-la pelo todo.

O que norteia-nos hoje? A mídia secularizada, nossos desejos, o excesso, do qual o filósofo Aristóteles bem falara, a relativização, a cultura de morte… Pecamos à vontade porque achamos que Deus perdoará todos os nossos pecados no dia do Juízo Final. Vivemos em constante estado de tibieza, fraquejamos na fé, apegamo-nos ao mundo e depois achamo-nos no direito de apontar os pecados dos outros. Quanta falta de fé! Anunciar a verdade do Evangelho, que é o próprio Cristo, significa transmitir puramente a Santa Doutrina, mas apenas transmitir e não julgar. ‎ “O dano para a Igreja não vem dos seus adversários, mas dos cristãos tíbios” (Papa Bento XVI, Homilia na Vigília com os jovens na Alemanha). Denunciar é uma coisa, julgar é outra bem diferente, e esta compete somente a Deus.

O Santo Padre, em seguida, formula várias perguntas, demonstrando se não seriam nossa culpa tantas desgraças que afligem a humanidade. Sabemos que Lutero era um apóstata, um libertino vulgar que se dizia “reformador” do Cristianismo e da Cristandade. Pode ele não ter querido (o que acho impossível!) a princípio ser este “reformador” e causar esta “desunião”, mas é sabido que ele, apesar de não ter querido, deu total continuidade a este desgraçado acontecimento. E o que aconteceu? A Igreja mudou? O Papado acabou? Não! Lutero morreu! A Igreja não acabou nem acabará!

“O pensamento de Lutero, a sua espiritualidade inteira era totalmente cristocêntrica. Para Lutero, o critério hermenêutico decisivo na interpretação da Sagrada Escritura era «aquilo que promove Cristo». Mas isto pressupõe que Cristo seja o centro da nossa espiritualidade e que o amor por Ele, o viver juntamente com Ele, oriente a nossa vida” (Discurso aos representantes do Conselho da Igreja Evangélica na Alemanha).

Querendo ou não sabemos que a Teologia de Lutero era sim, de certa forma, Cristocêntrica, apesar de não ser Eclesiológica. O centro de todos os seus escritos foi Cristo, foram as Escrituras, independente do que viria a fazer e falar deles depois. E todos os teólogos com quem conversei foram unânimes em afirmá-lo. Agora, se existe alguém que pressupõe saber mais do que os teólogos, e do que o próprio Papa (a quem comparo com um Doutor da Igreja), então não venha disseminar suas ideologias aqui. Ademais, o fato de que os protestantes não estejam unidos ao Corpo eclesiológico não significa que não possam estarem unidos a sua alma. Poderíamos condenar todos os não-católicos ao inferno? E aqueles que tem reta intenção? E aqueles que vivem o Evangelho melhor do que nós? E os que, mesmo não sendo cristãos, procuram viver uma vida reta e sem hipocrisia? Como o próprio Papa dissera:

“«Os publicanos e as mulheres de má vida vão antes de vós para o Reino de Deus. João Baptista veio ao vosso encontro pelo caminho que leva à justiça, e não lhe destes crédito, mas os publicanos e as mulheres de má vida acreditaram nele. E vós, que bem o vistes, nem depois vos arrependestes, acreditando nele» (Mt 21, 31-32). Traduzida em linguagem de hoje, a frase poderia soar mais ou menos assim: agnósticos que, por causa da questão de Deus, não encontram paz e pessoas que sofrem por causa dos seus pecados e sentem desejo dum coração puro estão mais perto do Reino de Deus de quanto o estejam os fiéis rotineiros, que na Igreja já só conseguem ver o aparato sem que o seu coração seja tocado por isto: pela fé.

Assim, a palavra deve fazer-nos refletir seriamente; antes, deve abalar a todos nós. Isto, porém, não significa de modo algum que todos quantos vivem na Igreja e trabalham para ela se devam considerar distantes de Jesus e do Reino de Deus. Absolutamente, não!” (Homilia do Papa na santa Missa em Friburgo)

Sabemos que, pelas suas obras neste mundo, o seu destino ultimo pode não ter sido dos melhores. “Na hierarquia dos anjos rebeldes, ainda que cause pesar aos seus amigos, Lutero ocupa o grau mais baixo, mais próximo do lodo e do pântano” (Th. Mainage: Témoignages dês apostats. Paris 1916, p. 76). Por outro lado: se Cristo perdoou os maiores pecadores, aqueles que mereceriam as chamas eternas, que são os seus assassinos, como poderíamos afirmar que não perdoara também a Lutero? Então me direis: Mais aqueles não conheciam a Cristo, enquanto Lutero o conhecia. Eu responderia: E Cristo faz diferença em sua misericórdia? Acaso todos não são iguais ante seus olhos? Quem somos nós para restringir a misericórdia de Cristo? Quem somos nós para limitá-la e dizer quem deve ou não ser salvo? Não seremos nós, antes, condenados pela nossa falta de caridade? O Sagrado Concílio Vaticano II dirá:

São plenamente incorporados à sociedade que é a Igreja aqueles que, tendo o Espírito de Cristo, aceitam toda a sua organização e os meios de salvação nela instituídos, e que, pelos laços da profissão da fé, dós sacramentos, do governo eclesiástico e da comunhão, se unem, na sua estrutura visível, com Cristo, que a governa por meio do Sumo Pontífice e dos Bispos. Não se salva, porém, embora incorporado à Igreja, quem não persevera na caridade: permanecendo na Igreja pelo «corpo», não está nela com o coração. Lembrem-se, porém, todos os filhos da Igreja que a sua sublime condição não é devida aos méritos pessoais, mas sim à especial graça de Cristo; se a ela não corresponderem com os pensamentos, palavras e acções, bem longe de se salvarem, serão antes mais severamente julgados (Constituição Dogmática Lumen Gentium, 14).

O Concílio ainda afirma:

A Igreja vê-se ainda unida, por muitos títulos, com os batizados que têm o nome de cristãos, embora não professem integralmente a fé ou não guardem a unidade de comunhão com o sucessor de Pedro. Muitos há, com efeito, que têm e prezam a Sagrada Escritura como norma de fé e de vida, manifestam sincero zelo religioso, creem de coração em Deus Pai omnipotente e em Cristo, Filho de Deus Salvador, são marcados pelo Batismo que os une a Cristo e reconhecem e recebem mesmo outros sacramentos nas suas próprias igrejas ou comunidades eclesiásticas. Muitos de entre eles têm mesmo um episcopado, celebram a sagrada Eucaristia e cultivam a devoção para com a Virgem Mãe de Deus. Acrescenta-se a isto a comunhão de orações e outros bens espirituais; mais ainda, existe uma certa união verdadeira no Espírito Santo, o qual neles actua com os dons e graças do Seu poder santificador, chegando a fortalecer alguns deles até ao martírio. Deste modo, o Espírito suscita em todos os discípulos de Cristo o desejo e a prática efectiva em vista de que todos, segundo o modo estabelecido por Cristo, se unam pacificamente num só rebanho sob um só pastor. Para alcançar este fim, não deixa nossa mãe a Igreja de orar, esperar e agir, e exorta os seus filhos a que se purifiquem e renovem, para que o sinal de Cristo brilhe mais claramente no seu rosto (Idem, 45).

Na belíssima declaração Dominus Iesus, se diz:

Existe portanto uma única Igreja de Cristo, que subsiste na Igreja Católica, governada pelo Sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele. As Igrejas que, embora não estando em perfeita comunhão com a Igreja Católica, se mantêm unidas a esta por vínculos estreitíssimos, como são a sucessão apostólica e uma válida Eucaristia, são verdadeiras Igrejas particulares. Por isso, também nestas Igrejas está presente e atua a Igreja de Cristo, embora lhes falte a plena comunhão com a Igreja católica, enquanto não aceitam a doutrina católica do Primado que, por vontade de Deus, o Bispo de Roma objetivamente tem e exerce sobre toda a Igreja.

As Comunidades eclesiais, invés, que não conservaram um válido episcopado e a genuína e íntegra substância do mistério eucarístico, não são Igrejas em sentido próprio. Os que, porém, foram baptizados nestas Comunidades estão pelo Batismo incorporados em Cristo e, portanto, vivem numa certa comunhão, se bem que imperfeita, com a Igreja. O Batismo, efetivamente, tende por si ao completo desenvolvimento da vida em Cristo, através da íntegra profissão de fé, da Eucaristia e da plena comunhão na Igreja (nº 17).

Agora a questão é: Se alguém não aceita o Sagrado Concílio Vaticano não é a mim que se opõe, mas a Doutrina da Igreja, unida ao Sucessor de São Pedro, o nosso Supremo Pastor Visível.

Lutero era sim hipócrita! Queria condenar a Igreja por “vender” indulgências, mas era assassino, comparável a estes miseráveis abortistas e a estes movimentos claramente contrários a dignidade da vida humana. Antes: era antissemita. Ele próprio escrevera: “A Alemanha deve ficar livre de judeus, aos quais após serem expulsos, devem ser despojados de todo dinheiro e joias, prata e ouro, e que fossem incendiadas suas sinagogas e escolas, suas casas derrubadas e destruídas (…), postos sob um telheiro ou estábulo como os ciganos (…), na miséria e no cativeiro assim que estes vermes venenosos se lamentassem de nós e se queixassem incessantemente a Deus” (Sobre os judeus e suas mentiras de Martinho Lutero).

É nossa a culpa em não matar eles.“, dizia Lutero a respeito dos judeus (Michael, Robert. “Luther, Luther Scholars, and the Jews,” Encounter, 46 (Autumn 1985) No.4:343).

Conhecendo a ideologia desta personagem, que é a prefiguração de Hitler, vocês achariam realmente que o Santo Padre tenderia a reabilitar Lutero? A única coisa que ele não poderia afirmar (como também nenhum de nós) é que Lutero esteja no inferno. Detesto Lutero, mais neste aspecto não poderia calar-me diante da afirmação de alguns, sobretudo da mídia, que, como sempre, tende a contrariar as afirmações do Santo Padre.

Em 2006 Sua Santidade Bento XVI tinha afirmado que: “A fé não é uma marcha triunfal, mas um caminho salpicado de sofrimentos e de amor” (Audiência Geral, 24 de maio de 2006). Quem critica o Papa deveria ter ao menos um pouco de Teologia para saber que a justificação pela fé, para Lutero, tornaria o homem impecável, e, portanto, seria um triunfante caminho em direção do céu. Com este ataque o Papa faz cair por terra a ideia de uma possível reabilitação de Lutero, que, tenho certeza disto, nunca virá a acontecer.

Portanto, tenhamos cautela em nossas colocações. Negar a Misericórdia de Deus é pecado gravíssimo. Rezemos pelos membros da confissão luterana, que tiveram a triste sorte de terem Lutero como fundador, e rezemos pelo nosso Papa. Que o Espírito Santo o ilumine e inspire sempre mais. Que ele continue sendo esta autêntica testemunha da Verdade, modelo para todos os cristãos. E que sempre nos lembremos das promessas de Cristo: “As portas do inferno não prevalecerão” (Mt 16,16).

Viva o Santo Padre!!

Viva a Santa Igreja Católica!!

A Rede Globo e a promoção da hipocrisia religiosa

Essa semana a novela da Rede Globo, de nome “Viver a Vida”, apresentou uma cena na qual relaciona, de maneira totalmente distorcida, a religião cristã católica com as crenças espíritas. Sem falar do abuso da palavra “ecumenismo”, que, segundo a trama, seria traço de hipocrisia e incoerência religiosa. Desinformação religiosa: é o que a Globo gosta de promover. Eis o vídeo:

“Cada um de nós aqui é um espírito que está evoluindo em nossa passagem pela vida”. Essa é uma doutrina do espiritismo de Allan Kardec, proposta totalmente contraditória à verdade cristã proclamada pela Igreja. Segundo o espiritismo, a nossa evolução se daria através de várias e sucessivas reencarnações; segundo o catolicismo, a nossa vida é única e, com nossas atitudes, ou seremos salvos ou condenados eternamente. Não discuto aqui a veracidade do dogma cristão, mas os contrastes existentes entre a fé espírita e a fé católica.

Mas, e por que não discutir a veracidade dessas afirmações? Afinal, a hipocrisia dos “católicos espíritas” é, de certo modo, semelhante à incoerência que permeia a doutrina kardecista, conforme podemos observar nas palavras do próprio Kardec. Segundo ele, a revelação espírita “nada ensina em contrário ao que ensinou o Cristo” (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. I, v. 7). Interessante essa afirmação. Mais interessante ainda é quando comprovamos que ela é totalmente enganadora. A doutrina de Cristo é absolutamente incompatível com a mensagem espírita.

Ora, podemos comprovar isso examinando as Sagradas Escrituras e os livros de Kardec. Atenho-me, somente para dar um simples exemplo, ao dogma da eternidade absoluta das penas, que o fundador do espiritismo considera “incompatível com o progresso das almas, ao qual opõe uma barreira insuperável” (O céu e o inferno, cap. VI, v. 21). Ora, vejamos o que diz Jesus sobre a “eternidade das penas”. Em uma passagem do Evangelho, ele alude ao inferno como um “castigo eterno” (Mt 25, 46); em outras, fala do fogo da Geena como “fogo inextinguível” (cf. Mt 3, 12; Mc 9, 43; Lc 3, 17), observando por diversas vezes a eternidade do castigo do inferno. Jesus diz que sim. Kardec, que não. Mas, não era a doutrina espírita “fiel” “ao que ensinou Cristo”? Definitivamente NÃO. O espiritismo é uma mentira.

Eis que desmascarada está a hipocrisia espírita. No entanto, pior que a hipocrisia do próprio espiritismo é a hipocrisia dos que dizem ser ao mesmo tempo católicos e espíritas. “Ninguém pode servir a dois senhores” (Mt 6, 24), diz Jesus. “Não podeis participar ao mesmo tempo da mesa do Senhor e da mesa dos demônios” (1 Cor 10, 21). Está clara a incompatibilidade existente entre a fé cristã e a mensagem espírita, mas mesmo assim os nossos brasileiros insistem teimosamente em se dizer “católicos praticantes” e frequentadores de centros espíritas.

E quem propaga essa ideologia profana? A Rede Globo; as novelas que não se cansam de fazer propaganda anticristã, visando a ruína de todas as formas de religião, em especial a Católica, que, como sendo a única verdadeira, não pode, sem grande injustiça, ser equiparada às demais religiões.

Além de prestar grande desserviço à Verdade, a Rede Globo também mostra um conceito errado de ecumenismo. Para a personagem da atriz Thaís Araújo, sua mãe é “ecumênica”. Mas, a verdade é que sua mãe não é ecumênica, pois não há ecumenismo com religiões não-cristãs. A verdade é que sua mãe, sendo católica e ao mesmo tempo participando ativamente de sessões espíritas, está caindo em heresia; nas palavras de outra personagem da novela, “está acendendo uma vela para Deus e outra para o diabo”.

Na novela – é verdade – a personagem que proferiu a frase posa de vilã. Claro. É vilão todo aquele que condena a hipocrisia religiosa. É vilão todo aquele que tenta expor a verdade nua e crua, deixando claro que é preciso se esforçar para ser católico não somente no nome, mas de fato.

Lamentável é a situação em que vivem muitos católicos em nosso país. Não. Nós não duvidamos de que muitos participam ao mesmo tempo “da mesa do Senhor e da mesa dos demônios”. Duvidamos, no entanto, que esses sejam verdadeiros católicos. Peçamos à Virgem Santíssima que se digne olhar para a Igreja no Brasil, tão assolada pela mentira e pela enganação. Que os meios de comunicação cessem de promover valores contrários à fé católica.

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

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Leia também: Diálogo ecumênico com o espiritismo?, artigo extraído do livro Espiritismo – Orientação para Católicos, do Frei Boaventura Kloppenburg.

Qual o problema de ouvir “Faz um milagre em mim”?

Há uma música que circunda nos meios evangélicos, chamada “Faz um milagre em mim”, cujo compositor é Regis Danese. No entanto, a música não se contentou em ficar famosa somente no meio protestante – como se a música se impusesse aos cristãos de outras denominações religiosas – e se proliferou. Faz-se ouvir o “Como Zaqueu…” dentro das igrejas católicas, em grupos de oração, em encontros de família e até mesmo em celebrações litúrgicas. Essa é a realidade: a música realmente se tornou sucesso entre muitos católicos.

No entanto, o que é hoje real difere muito do que realmente deveria ser. Nesse momento, mais uma vez precisamos traçar uma linha entre o real e o ideal. O real é isso o que vemos: católicos desprezando sua liturgia, seus cantos, sua cultura, para se protestantizarem, ou seja, incorporar elementos de outras religiões, para se satisfazerem, como se não bastasse os elementos da nossa Igreja. Os católicos preferem se afogar no mar da confusão que está presente no protestantismo, ao invés de continuarem sob a tutela do Sumo Pontífice, na barca de Pedro.

Lamentável. Mas tudo isso já foi profetizado por São Paulo há quase dois mil anos atrás: “Porque virá tempo em que os homens já não suportarão a sã doutrina da salvação. Levados pelas próprias paixões e pelo prurido de escutar novidades, ajustarão mestres para si. Apartarão os ouvidos da verdade e se atirarão às fábulas” (2 Tm 4, 3-4). Por que rejeitar a nossa Liturgia e o maravilhoso canto gregoriano para ouvir uma música que às vezes nem mesmo canta o que cremos e vai diretamente contra o princípio da nossa fé? Esquecemo-nos muitas vezes do Lex orandi; Lex credendi e acabamos por incorporar em nossa fé elementos totalmente acatólicos.

É que não conseguem diferenciar mais o ecumenismo, que consiste “[n]as atividades e iniciativas, que são suscitadas e ordenadas, segundo as várias necessidades da Igreja e oportunidades dos tempos, no sentido de favorecer a unidade dos cristãos” (Unitatis Redintegratio, 4), da afirmação sempre atual de Pio XI: “Não é lícito promover a união dos cristãos de outro modo senão promovendo o retorno dos dissidentes à única verdadeira Igreja de Cristo, dado que outrora, infelizmente, eles se apartaram dela” (Mortalium Animos, 16). Promover o ecumenismo, portanto, não significa querer a unidade a qualquer custo. Precisamos sobretudo, no nosso empenho em promover a unidade, salvaguardar a pureza da fé católica, aquela pela qual todos devem se salvar, e fora da qual a salvação se torna praticamente impossível, mediante a consciência de sua fundação por Jesus Cristo.

Contra essa iniciativa – de reafirmar a doutrina católica ante a tentativa dos modernistas em protestantizá-la – surge um artigo: “Faz um milagre em mim”: católicos se rendem e música gospel vira novo hit. Para o autor do texto, “o maior nome da Igreja Católica no Brasil” é Padre Marcelo Rossi. Começa aqui um erro terrível: nenhum leigo, padre, ou mesmo um bispo pode ser considerado autoridade maior que a de fato autoridade máxima da Igreja, aqui no Brasil e em qualquer outro lugar do mundo, o Santo Papa. Essa tentativa de se instituir o homem como autor de sua própria fé – tendência que surge a partir da reafirmação do princípio da democracia – é totalmente contraditória ao princípio da unidade, defendido e valorizado por nossa Igreja.

Mas, enfim, qual é o motivo pelo qual os católicos não deveriam ouvir a música protestante e, nesse caso mais especial, a música “Faz um milagre em mim”?


Para aqueles que ainda não ouviram a música – acho difícil – acima ela cantada. Quem a ouve uma vez, sem ler a letra, já identifica nela um erro absurdo. A música canta: “Quero amar somente a Ti”. O cristão que estuda a Bíblia e conhece a doutrina da Santa Igreja sabe muito bem que queremos verdadeiramente amar a Deus, mas não somente a Ele. O amor que temos para com Ele se desdobra no amor aos irmãos. Nesse sentido, amamos a Deus e também aos irmãos, porque, exorta São João, “o que amar a Deus, ame também a seu irmão” (1 Jo 4, 21).

Sem verdade, a caridade cai no sentimentalismo” (Caritas in Veritate, 3), adverte o Santo Papa Bento XVI, nome maior da Igreja no Brasil e no mundo. Músicas com letras cheias de inverdades são sentimentalistas. E o artigo do qual falamos anteriormente, ele próprio, que busca elogiar a música, acaba confessando isso, através da declaração de Rodrigo Plaça, cantor católico: “Quando escutam [as músicas evangélicas], as pessoas entram em uma espécie de transe, ficam emocionadas e colocam suas emoções para fora”. Quando o cantor fala em transe, está identificada uma característica de sentimentalismo, de caridade que não se fundamenta na verdade, senão em emoções espirituais vagas.

Esse é um motivo pelo qual não cantamos e nem ouvimos “Faz um milagre em mim”. Mas, não somente ela, mas outras músicas evangélicas, porque, pelo fato das pessoas que as compuseram não crerem na nossa fé, a adição, na própria letra da música, de valores totalmente estranhos à fé católica e à integridade da mesma, não só pode acontecer, como muitas vezes é evidente. E mais: repugna-me a idéia de cantar a música de alguém que despreza de modo cruel os elementos da nossa fé. Regis Danese – sim, esse mesmo que canta o “Como Zaqueu…” – certa vez, em testemunho em uma igreja, assumiu que, ao entrar em uma igreja católica, gostaria muito de QUEBRAR as imagens de santos. A confissão está no vídeo abaixo, aproximadamente aos 5min30s:

Então, queremos realmente ouvir uma música composta por um iconoclasta? Queremos realmente continuar cantando “Quero amar somente a Ti…”, mesmo sabendo que provavelmente o compositor da música escreveu assim no propósito de rejeitar o amor católico à Virgem Maria e aos santos?

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Lendo mais profundamente o artigo que exalta a música de Regis Danese, observamos alguns pontos, os quais acho importante destacar e comentar:

Os católicos já perceberam a diferença e, aos poucos, estão se acostumando ao estilo gospel de música. Já foi o tempo em que as canções “Maria de Nazaré” e “Segura na Mão de Deus” eram os únicos sucessos nas missas. Hoje, os hits cantados nas celebrações são compostos por autores evangélicos, sem preconceito.

É. A realidade infelizmente é essa. Mas não deveria ser. A missa é um ato sagrado, no qual celebramos a Eucaristia, elemento indispensável para a vida do cristão em busca da salvação. Ótimo. Qual o mistério central da Missa? Justamente a Eucaristia, o mistério no qual Jesus Cristo se faz alimento espiritual para cada um de nós. Todos os elementos presentes na Sagrada Celebração (música, orações, leituras etc.) visam nos levar ao encontro de Jesus Eucarístico, visam louvá-Lo, glorificá-Lo e adorá-Lo com mais perfeição. A partir do momento em que eu introduzo, no contexto da celebração, músicas compostas sem exaltar a Eucaristia ou algo no que nós, católicos, cremos, esses elementos perdem seu sentido. Assim, da mesma maneira, quando começamos a cantar “sucessos” nas missas, e deixamos de cantar cantos que verdadeiramente tenham a intenção de glorificar a Deus no Santíssimo Sacramento do Altar, estamos dessacralizando a Santa Missa.

Além disso, revoltante a forma como o artigo caracteriza as músicas cantadas nas celebrações: chamam-nas de hits e sucessos, como se a Santa Missa fosse um show ou algo do tipo.

Atualmente, os estilos caminham para a unificação, segundo os próprios religiosos. “Hoje está acontecendo o uso comum das músicas porque as letras deixaram de fazer apologia a uma determinada religião e passaram a se voltar à mensagem do evangelho”, afirma o padre Juarez de Castro, secretário de comunicação da Arquidiocese de São Paulo. As letras não citam mais termos religiosos típicos das missas – como a eucaristia, por exemplo.

E não deveria ser assim, como já deixei claro acima. Aliás, a mensagem do Evangelho não deveria ser considerada contraditória com a apologia à religião católica, uma vez que é no próprio Evangelho que está contida a base para a realidade de que Jesus Cristo fundou uma única Igreja, santa e católica. Essa mania de se excluir temas como Eucaristia, Virgem Maria, veneração aos santos, de músicas e elementos litúrgicos é lamentavelmente anti-católica. É uma tentativa – disfarçada, é claro – de colocar a caridade acima da verdade, sendo que é “só na verdade é que a caridade refulge e pode ser autenticamente vivida” (Caritas in Veritate, 3).

Estamos deixando de lado valores importantíssimos da nossa fé, como a Eucaristia, o amor e o culto à Virgem Santíssima para agradar a pessoas que não têm o mínimo de vontade de aceitar os dogmas da nossa Igreja. Estamos nos esquecendo da indagação do Apóstolo: “É, porventura, o favor dos homens que eu procuro, ou o de Deus? Por acaso tenho interesse em agradar aos homens? Se quisesse ainda agradar aos homens, não seria servo de Cristo” (Gl 1, 10). Ser servo de Cristo significa obedecer à Vontade d’Ele e da Sua Santa Igreja. Ser servo de Cristo significa rejeitar e negar as “opiniões” do mundo que contrariam a nossa fé.

Estão observando a ideologia que está por trás de toda essa questão? A pergunta – se um católico deve ou não ouvir música protestante – envolve toda uma ideologia, linha de pensamento que promove a banalização da Sagrada Liturgia, com a qual felizmente não podemos compactuar.

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

Sobre a volta dos anglicanos à Igreja

A Igreja sempre deixou claro que é a única fundada por Jesus Cristo. Não há outra, reafirmou o Concílio Vaticano II. Mas ao mesmo tempo em que a Santa Sé fazia essa confissão ela estabeleceu, através do decreto Unitatis Redintegratio, um movimento chamado ‘ecumenismo’, cuja proposta era trazer ao seio da Igreja as religiões cristãs afastadas de um ou outro ponto da doutrina verdadeira.

Desde o fim do Concílio a Igreja vem buscando promover o diálogo religioso com outros cristãos. Um diálogo que muito avançou nesse sentido foi com a Igreja Ortodoxa Oriental. Com as igrejas protestantes a Sé Católica pouco foi adiante. Os obstáculos que se encontram para a plena realização desse diálogo são muitos, como, por exemplo, a visível falta de unidade existente entre as comunidades evangélicas presentes em todo o mundo. Umas, por exemplo, mantém elementos católicos em seus cultos e celebrações; outras, porém conservam uma visão às vezes totalmente contrária ao que prega a Madre Igreja. Assim sendo, se torna difícil o ecumenismo.

Contudo – como disse – algumas mantêm elementos católicos em suas celebrações. É o caso da Igreja Anglicana. “Entre aquelas nas quais continuam parcialmente as tradições e as estruturas católicas, ocupa um lugar especial a Comunhão anglicana” (UR, 13), reconheceu o Vaticano II. Essa presença – existente, embora imperfeita – da espiritualidade católica na comunhão de fé anglicana fez com que alguns anglicanos tradicionais decidissem voltar para a Igreja da qual nunca deveriam ter saído: a Barca de Pedro.

As raízes da ruptura anglicana com a Cátedra de Pedro derivam do mesmo século em que Lutero e Calvino começaram a pregar contra a Igreja Católica. Henrique VIII, rei da Inglaterra, queria se casar novamente. Mas, a Igreja, fiel ao ensinamento de Cristo que diz que o que Deus uniu o homem não separa, não permitiu que isso ocorresse. No rei inglês surgiu o sentimento de revolta e ele fundou no seu país uma igreja própria: o anglicanismo. Mas essa denominação não fugiu tanto dos dogmas católicos assim como as doutrinas calvinistas e luteranas. Permaneceram na igreja anglicana vários ‘elementos e estruturas’ da Igreja.

É certo que com os anglicanos o diálogo seria mais fácil do que com outras comunidades protestantes. Mas se a Igreja não tomasse a iniciativa de buscar a unidade certamente não haveria nenhum princípio de discussão ou reintegração. Então, graças ao Concílio Vaticano II e aos bispos da nossa Igreja, que incansavelmente trabalharam pelo genuíno ecumenismo, os anglicanos voltam… Vêem que a salvação fora da Igreja é muitíssimo difícil de ser alcançada e decidem voltar. Diz o documento (não-oficial) emitido pela Congregação para a Doutrina da Fé e postado aqui no Ecclesia Una:

“[O] Santo Padre introduziu uma estrutura canônica que provê tal reunião corporativa ao estabelecer Ordinariatos Pessoais, que permitirão aos antigos Anglicanos entrar em plena comunhão com a Igreja Católica enquanto preservam elementos do distintivo patrimônio espiritual e litúrgico Anglicano.

Católicos apaixonados pela tradição: é o que veremos nesses anglicanos que decidiram voltar ao seio da Igreja; homens valorosos que, por amor à Verdade, não suportavam viver desintegrados do autêntico Amor de Deus manifestado no Corpo de Cristo, que é a Igreja. Como ressaltou o Rafael Brodbeck, do blog Veritatis Splendor, esses novos fiéis “não são quaisquer fiéis. São excelentes fiéis, muito bem formados, acostumados a ler a Bíblia, conhecedores da Tradição Apostólica a tal ponto que se convenceram de que, por ela, só se pode ser católico apostólico romano.”

Sim, sim. Continuemos a orar pela Unidade da Igreja. Os frutos do árduo trabalho da Igreja hoje estão sendo colhidos. Continuemos trabalhando para que possam vir mais e mais frutos.

Graça e paz.

Acolhida de fiéis anglicanos na Igreja Católica

[Congregação para a Doutrina da Fé anuncia nova Constituição Apostólica com disposições sobre o ingresso de Anglicanos na Igreja Católica. Abaixo, a íntegra da declaração [tradução não-oficial]:]

Fonte: Fratres in Unum

Com a preparação de uma Constituição Apostólica, a Igreja Católica responde a muitos pedidos que foram submetidos à Santa Sé de grupos de clérigos e fiéis Anglicanos em diferentes partes do mundo que desejam entrar em plena comunhão visível.

Nesta Constituição Apostólica, o Santo Padre introduziu uma estrutura canônica que provê tal reunião corporativa ao estabelecer Ordinariatos Pessoais, que permitirão aos antigos Anglicanos entrar em plena comunhão com a Igreja Católica enquanto preservam elementos do distintivo patrimônio espiritual e litúrgico Anglicano. Conforme os termos da Constituição Apostólica, a vigilância e o governo pastoral para tais grupos de fiéis já Anglicanos serão asseguradas através de um Ordinariato Pessoal, cujo Ordinário será habitualmente indicado entre o antigo clero Anglicano.

A vindoura Constituição Apostólica concede uma razoável e mesmo necessária resposta a um fenômeno mundial, ao oferecer um único modelo canônico para a Igreja universal que é adaptável a várias situações locais e justo aos antigos Anglicanos em sua aplicação universal. Ela provê a ordenação como padres Católicos do clero casado anteriormente Anglicano. Razões históricas e ecumênicas impedem a ordenação de homens casados como bispos tanto na Igreja Católica como Ortodoxa. A Constituição estipula, então, que o  Ordinário seja um padre ou um bispo não casado. Os seminaristas no Ordinariato deverão ser preparados ao lado de outros seminaristas Católicos, embora o Ordinariato possa estabelecer uma casa de formação para responder às necessidades particulares de formação no patrimônio Anglicano. Desta maneira, a Constituição Apostólica procura, por um lado, equilibrar a preocupação de preservar o digno patrimônio litúrgico e espiritual Anglicano, e, por outro, a preocupação de que estes grupos e seu clero sejam integrados à Igreja Católica.

O Cardeal William Levada, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, que preparou esta disposição, disse: “Tentamos ir ao encontro dos pedidos por uma plena comunhão que nos últimos anos nos chegaram de Anglicanos de diferentes partes do mundo de maneira uniforme e equitativa. Com esta proposta a Igreja quer responder às legítimas aspirações destes grupos Anglicanos por unidade plena e visível com o Bispo de Roma, sucessor de São Pedro”.

Estes Ordinariatos Pessoais serão formados, segundo as necessidades, mediante prévia consulta às Conferências Episcopais, e sua estrutura serão similares de certo modo àquela dos Ordinariatos Militares que foram estabelecidos na maioria dos países para prover cuidado pastoral aos membros das forças armadas e seus dependentes pelo mundo. “Aqueles Anglicanos que se aproximaram da Santa Sé deixaram claro seu desejo por plena e visível unidade na una, santa, católica e apostólica Igreja. Ao mesmo tempo, eles nos expressaram a importância de suas tradições de espiritualidade e culto Anglicanos para sua jornada de fé”, disse o Cardeal Levada.

A provisão desta nova estrutura é consistente com o empenho no diálogo ecumênimo, que continua sendo a prioridade para a Igreja Católica, particularmente através dos esforços do Conselho Pontíficio para a Promoção da Unidade dos Cristãos. “A iniciativa surgiu de um número de diferentes grupos de Anglicanos”, continou o Cardeal Levada: “Eles declararam que partilham a fé Católica comum como é expressa no Catecismo da Igreja Católica e aceitam o ministério Petrino como algo desejado por Cristo à Igreja. Para eles, chegou o tempo de expressar esta unidade implícita na forma visível da plena comunhão”.

Segundo Levada, “É a esperança do Santo Padre, o Papa Bento XVI, que o clero e os fiéis Anglicanos que desejam se unir à Igreja Católica encontrem nesta estrutura canônica a oportunidade de preservar aquelas tradições Anglicanas preciosas a eles e consistentes com a fé Católica. Enquanto estas tradições expressam de maneira diferente a fé  comum que é professada, elas são um dom a ser partilhado na Igreja universal. A unidade da Igreja não requer uma uniformidade que ignora diversidades culturais, como a história da Cristianismo mostra. Ademais, as diversas tradições presentes na Igreja Católica atualmente são todas enraizadas no princípio articulado por São Paulo em sua carta aos Efésios: ‘Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo’ (4:5). Nossa comunhão é, portanto, fortalecida por tais diversidades legítimas, e portanto estamos felizes que estes homens e mulheres tragam consigo suas contribuições particulares para a nossa vida comum de fé”.

Informações contextuais.

Desde o século XVI, quando o Rei Henrique VIII declarou a Igreja da Inglaterra independente da autoridade Papal, a Igreja da Inglaterra criou suas próprias confissões doutrinais, livros litúrgicos e práticas pastorais, frequentemente incorporando idéias da Reforma no continente Europeu. A expansão do Império Britânico, junto do trabalho missionário Anglicano, finalmente deu surgimento à Comunhão Anglicana em nível mundial.

No curso de mais de 450 anos de sua história, a questão da reunificação dos Anglicanos e Católicos nunca foram esquecidas. Na metade do século XIX, o movimento de Oxford (na Inglaterra) mostrou um renovado interesse nos aspectos Católicos do Anglicanismo. No início do século XX, o Cardeal Mercier, da Bélgica, entrou em conversações públicas com Anglicanos para explorar a possibilidade de união com a Igreja Católica sob a bandeira de um Anglicanismo “reunido, mas não absorvido”.

Posteriormente, no Concílio Vaticano Segundo a esperança por união foi nutrida quando o Decreto sobre Ecumenismo (n.13), referindo-se às comunhões separadas da Igreja Católica na época da Reforma, afirmou que: “Entre aquelas nas quais as tradições e instituições Católicas continuam em parte a existir, a Comunhão Anglicana ocupa lugar especial”.

Desde o Concílio, as relações entre Anglicanos e Católicos criaram um maior clima de mútuo entendimento e cooperação. A Anglican-Roman Catholic International Commission (ARCIC) produziu uma série de declarações doutrinais no curso dos anos na esperança de criar as bases para a unidade plena e visível. Para muitos em ambas comunhões, as declarações da ARCIC foram um veículo no qual uma expressão de fé comum pôde ser reconhecida.  É neste contexto que esta nova disposição deve ser vista.

Nos anos depois do Concílio, alguns Anglicanos abandonaram sua tradições de conferir as Sagradas Ordens apenas a homens ao convocar mulheres ao sacerdócio e ao episcopado. Mais recentemente, alguns seguimentos da Comunhão Anglicana se afastaram do ensinamento bíblico comum sobre a sexualidade humana — já claramente afirmado no documento da ARCIC “Life in Christ” — pela ordenação de clérigos abertamente homossexuais e pela benção de uniões homossexuais. Ao mesmo tempo, enquanto a Comunhão Anglicana encara estes novos e difíceis desafios, a Igreja Católica permanece plenamente empenhada em continuar o compromisso ecumênico com a Comunhão Anglicana, particularmente através dos esforços do Conselho Pontifício para a Unidade dos Cristãos.

Neste ínterim, muitos Anglicanos individualmente entraram em plena comunhão com a Igreja Católica. Às vezes, houve grupos de Anglicanos que entraram enquanto preservaram alguma estrutura “corporativa”. São exemplos deste ingresso a diocese Anglicana de Amritsar, Índia, e algumas paróquias individuais nos Estados Unidos, que mantiveram uma identidade Anglicana ao ingressar na Igreja Católica por uma “provisão pastoral” adotada pela Congregação para a Doutrina da Fé e aprovada pelo Papa João Paulo II em 1982. Nestes casos, a Igreja Católica frequentemente dispensou das exigências de celibato para permitir àqueles clérigos Anglicanos casados que desejassem continuar seus serviços ministeriais como padres Católicos serem ordenados na Igreja Católica.

À luz destes desenvolvimentos, os Ordinariatos Pessoais estabelecidos pela Constituição Apostólica podem ser vistos como outro passo em direção à realização das aspirações por plena e visível união na Igreja de Cristo, um dos principais objetivos do movimento ecumênico.

* * *

Confira a nota original da Congregação em italiano.

16º domingo do Tempo Comum

Vivemos o 16º Domingo do Tempo Comum. A liturgia de hoje – eu diria – é um convite ao regresso. Àquelas ovelhas perdidas, que se dispersaram para outros caminhos, para outros lugares, Deus faz a exortação: “Voltai, Israel, para o Senhor teu Deus” (Os 14,2). É momento, sobretudo, de repensar os conceitos de ecumenismo que estamos cultivando na Igreja cristã. A Santa Sé, por meio do Concílio Vaticano II, oficializou sua proposta em reunir os cristãos novamente, em trazê-los de volta ao rebanho original, para que possam ser guiados ao caminho certo, de Jesus Cristo. Sabemos que se na Igreja Católica encontramos a verdade, então o que se encontra nas outras religiões não passa de mentira. Logo, a nossa missão hoje, que é principalmente inspirada pelo profeta Jeremias na primeira leitura, é de converter os povos que ainda não conhecem a verdade de Jesus Cristo.

Quanta enganação e perversão dos mandamentos de Deus vemos hoje nesse mundo onde predomina acima de Deus, acima da religião, a “ditadura do relativismo”! Não é possível que todos se salvem se todos não chegarem ao pleno conhecimento da verdade. Não é possível… Assim é necessário que haja uma volta, um regresso, ou melhor, um ÊXODO; um êxodo de tudo aquilo que não condiz na verdade em Jesus, uma fuga de todo abismo de pecado em que vivemos, para que, felizes, possamos dizer: “Graças a Jesus Cristo, vós que antes estáveis longe, vos tornastes presentes, pelo sangue de Cristo” (Ef 2,13). É esse o desejo de Deus: que todos sejam um! Que belo é para um pai ver irmãos reconciliados. Imaginem irmãos, que alegria Deus sente quando vê dois irmãos se unindo pela causa de Cristo. Ele que com amor modelou todos os seres da terra e deu uma especial atenção ao ser humano, quer, mais do que nunca nos tempos de hoje, que toda a humanidade se una pela justiça, pelo amor, pela verdade, por Deus.

E, meus irmãos, só o Preciosíssimo Sangue de Jesus pode vencer ‘o muro de inimizade’ (cf. Ef 2,14) que separa os cristãos. Pode subir ao céu o clamor da Igreja, dos protestantes e dos ortodoxos; se não houver uma busca profunda pela misericórdia através do Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, não haverá união, não haverá autêntico ecumenismo, não haverá nada. Afinal, “vós sabeis que não é por bens perecíveis, como a prata e o ouro, que tendes sido resgatados pela vossa vã maneira de viver (…) mas pelo precioso sangue de Cristo” (1 Pd 1,18). O Papa Bento XVI já alertou que não pode existir um verdadeiro ecumenismo enquanto não nos convertermos. E isso tanto do lado católico quanto do outro lado. É preciso que aqueles que conhecem a fé verdadeira a pratiquem para que, assim, possam realizar firmemente seu ministério. Só desse modo poderemos irradiar a luz de Cristo aos que ainda não a conhecem. E para isso o clamor pelo sangue de Jesus é fundamental. Porque – diz São Pedro – é Ele que nos resgata da iniqüidade.

Sim, meus irmãos: éramos todos pecadores. Mas pelo sangue de Cristo somos chamados a uma vida nova, graças à remissão dos pecados que recebemos no sacrifício da cruz.

“Onde abundou o pecado superabundou a graça” (Rm 5,20). Observamos aqui uma multiplicação. O pecado foi eliminado, mas ao mesmo tempo sua quantidade foi multiplicada, foi superada pela graça. E isso só pode acontecer graças a Jesus Cristo, que “compadeceu-se” (Mc 6,34) da multidão, que “era como ovelhas sem pastor”. Quantos cristãos, iludidos pelo pensamento de que a conversão não exige nenhum esforço próprio, ainda não têm em seus corações a luz de Cristo, que é o nosso pastor? Quantos cristãos ainda vivem como ovelhas sem pastor e ainda não assumiram um compromisso verdadeiro com a Palavra de Deus? É nossa, pois, a missão de evangelizar! Busquemos fazer isso com atitudes; já estamos cheios de palavras.

Graça e paz.

Adiutricem Populi

CARTA ENCÍCLICA
ADIUTRICEM POPULI
DE SUA SANTIDADE
PAPA LEÃO XIII

Fonte: Vaticano

A todos os Veneráveis Irmãos Patriarcas,
Primazes, Arcebispos, Bispos do Orbe Católico
em graça e comunhão com a Sé Apostólica,
sobre o Rosário de Nossa Senhora.

Veneráveis Irmãos, Saúde e Bênção Apostólica.

Consolador despertar da piedade mariana

http://blog.cancaonova.com/fatimahoje/files/2007/10/nossa-senhora-480.jpg1. É coisa boa celebrar com louvores sempre maiores e implorar com sempre mais viva confiança a Virgem Mãe de Deus, poderosa e misericordiosíssima auxiliadora do povo cristão. Com efeito, os motivos desta confiança e destes louvores são multiplicados por esse rico e variado tesouro de benefícios sempre mais abundantes derramados em toda parte por Maria para o bem-estar comum.

E, em troca de tal munificência, os católicos certamente não têm faltado ao seu dever de profundo reconhecimento. Visto como hoje, mais do que nunca, não obstante a presente luta contra a religião, podemos ver aumentados e sempre mais afervorados, em todas as classes da sociedade, o amor e o culto para com a beata Virgem.

E a reconstituição e a multiplicação das confrarias sob o seu patrocínio; a construção de suntuosos monumentos dedicados ao seu augusto nome; as peregrinações de multidões devotíssimas aos santuários mais venerados; os congressos que têm como finalidade uma sempre maior difusão da sua glória; e inúmeras outras manifestações deste gênero, excelentes por si mesmas e de feliz augúrio para o futuro, são luminosa prova deste fato.

Mas a Nós apraz recordar aqui de modo especial que, entre as múltiplas formas de piedade para com Maria, a mais estimada e praticada é a, tão excelente, do santo Rosário. Isto, dizíamos, é de grande alegria para nós; porquanto, se temos dedicado parte notável das Nossas solicitudes a propagar a devoção do Rosário, tocamos com a mão a realidade de com que benevolência a Rainha do Céu, assim invocada, tem correspondido aos Nossos votos; como esperamos que Ela quererá também amenizar as dores e as amarguras que os próximos dias nos preparam.

Orar pelo retorno dos dissidentes

2. Mas, é sobretudo para a difusão do Reino de Cristo que Nós esperamos do poder do santo Rosário um socorro mais eficaz. O intento que Nós agora com mais vivo desejo nos prefixamos, como muitas vezes temos dito, é a reconciliação dos povos separados da Igreja; declarando, ao mesmo tempo, que o êxito devemos esperá-lo sobretudo das fervorosas preces dirigidas à onipotência divina. Isto Nós também recentemente afirmamos, por ocasião da solenidade de Pentecostes, recomendando fossem dirigidas, nesta intenção, preces especiais ao Espírito Santo. E sabemos que o nosso convite foi correspondido em toda parte com grande solicitude.

Mas, dada a importância da difícil empresa, e a necessidade de perseverar em toda santa ousadia, vem aqui muito a propósito o conselho do Apóstolo: “Perseverai na oração” (Col. 4, 2); tanto mais quanto os felizes inícios da obra são de incitamento a esta perseverança na oração. Portanto, ó Veneráveis Irmãos, fareis a coisa mais útil para este fim, e para Nós mais grata, se, durante todo o próximo Outubro, vós e os vossos fiéis invocardes conosco devotissimamente a Virgem Mãe, com a recitação do santo Rosário nas formas prescritas. Poderosos motivos impelem-nos a, com absoluta confiança, confiar à sua proteção os Nossos projetos e os Nossos votos.

Maria no Cenáculo mestra dos apóstolos

3. O mistério do imenso amor de Cristo a nós teve, “entre outras, uma luminosa manifestação quando Ele, perto de morrer, quis confiar ao seu discípulo João aquela mãe, sua própria Mãe, com aquele solene testamento: “Eis aí teu filho!”. Ora, na pessoa de João, segundo o pensamento constante da Igreja, Cristo quis indicar o gênero humano, e, particularmente, todos aqueles que a Ele adeririam pela fé. E é justamente neste sentido que S. Anselmo de Cantuária exclama: “Ó Virgem, que privilégio pode ser tido em maior consideração do que esse pelo qual és a mãe daqueles para os quais Cristo se digna de ser pai e irmão?” (S. Anselmo de Cantuária., Oratio 47).

Por sua parte, Maria generosamente aceitou e tem cumprido essa singular e pesada missão, cujo início foi consagrado no Cenáculo. Desde então ela ajudou admiravelmente os primeiros fiéis com a santidade do seu exemplo, com a autoridade dos seus conselhos, com a doçura dos seus incentivos, com a eficácia das Suas orações, tornando-se assim verdadeiramente mãe da Igreja e mestra e rainha dos Apóstolos, aos quais comunicou também aqueles divinos oráculos que ela “conservava ciosamente no seu coração”.

Do Céu, Maria vela sobre a Igreja

4. Impossível seria, pois, dizer que amplitude e que eficácia hajam adquirido os seus socorros, quando ela foi levada para junto de seu divino Filho, àquele fastígio de glória que convinha à sua dignidade e ao esplendor dos méritos. Com efeito, de lá do alto, consoante os desígnios de Deus, ela começou a velar sobre a Igreja, a assistir-nos e a proteger-nos como uma mãe; de modo que, depois de ter sido a cooperadora da redenção humana, tornou-se também, pelo poder quase ilimitado que lhe foi conferido, a dispensadora da graça que em todos os tempos jorra dessa redenção.

Por isto, com bem razão as almas cristãs, obedecendo como que a um instinto natural, sentem-se arrastadas para Maria, para lhe comunicarem com toda confiança os seus projetos e as suas obras, as suas angústias e as suas alegrias; para recomendarem com filial abandono suas pessoas e suas coisas à bondade e solicitude d’Ela. Por este justíssimo motivo, todos os povos e todos os ritos têm-lhe tributado louvores, que têm vindo sempre crescendo com o sufrágio dos séculos. Donde os títulos a ela dados de “Mãe nossa, nossa Mediadora” (S. Bernardo, Sermo II in Advento Domini, n. 5), “Reparadora do mundo inteiro” (S. Tharasius, Oratio in Praesentatione Deiparae), “Dispensadora dos dons celestes” (In Off. Graec., 8 dec., post oden 9).

Maria e a difusão do Evangelho

5. Ora, já que a fé é o fundamento e princípio dos dons divinos pelos quais o homem é elevado, acima da ordem da natureza, aos bens eternos, com toda a razão se celebra a mística influência de Maria para fazer adquirir e frutificar a fé. Maria, com efeito, é aquela que gerou o “autor da fé”, e que, em razão da sua fé, foi saudada “Bem-aventurada” “Ninguém, ó Virgem, tem pleno conhecimento de Deus senão por ti; ninguém se salva senão por ti, ó Mãe de Deus; ninguém, senão por ti, recebe dons da misericórdia divina” (S. Germano Constantinopolitano, Oratio II in Dormitione B. M. V.). E, certamente, não poderá parecer exagerada a afirmação de que especialmente pela sua guia e pelo seu auxílio foi que, mesmo entre enormes obstáculos e adversidades, a sabedoria e as ordenações evangélicas se difundiram tão rapidamente em todo o mundo, instaurando por toda parte uma nova ordem de justiça e de paz.

Consideração esta que sem dúvida devia estar presente ao ânimo de S. Cirilo de Alexandria quando, dirigindo-se à Virgem, lhe dizia: “Por ti os Apóstolos pregaram aos povos a doutrina da salvação; por ti a santa Cruz é louvada e adorada no mundo inteiro; por ti os demônios são afugentados e o homem chamado de novo ao céu; por ti toda criatura, detida pelos erros da idolatria, é reconduzida ao conhecimento da verdade; por ti os fiéis chegaram ao batismo, e em toda parte do mundo foram fundadas as Igrejas” (S. Cirilo de Alexandria, Homilia contra Nestorium).

Maria, cetro da verdadeira fé

6. Além disto, consoante o louvor do mesmo Doutor, ela foi vigorosíssimo “cetro da verdadeira fé” (S. Cirilo de Alexandria, Homilia contra Nestorium), pelo contínuo cuidado que teve de manter firme, intacta e fecunda, entre os povos, a fé católica. E disto existem provas numerosíssimas e assaz conhecidas, confirmadas às vezes por acontecimentos prodigiosos. Sobretudo nas épocas e nas regiões em que se houve de deplorar a fé esmorecida por causa da indiferença, ou atacada pelo pernicioso contágio dos erros, foi que o clemente socorro da Virgem se fez particularmente sentir.

Foi então que, graças ao seu impulso e ao seu apoio, surgiram homens, eminentes por santidade e por zelo apostólico, prontos a repelir os ataques dos perversos, a reconduzir as almas à prática e ao fervor da vida cristã. Sozinho, mas poderoso como muitos juntos, Domingos de Gusmão consagrou-se a esta dupla tarefa, tendo posto com êxito a sua confiança no Rosário de Maria.

E ninguém poderá pôr em dúvida que grande parte tenha a Mãe de Deus nos serviços prestados pelos veneráveis Padres e Doutores da Igreja, que tão notavelmente trabalharam em defender e ilustrar a doutrina católica. De fato, é a ela, sede da divina sabedoria, que eles atribuem com gratidão a fecunda inspiração dos seus escritos; foi por obra da Virgem Santíssima, e não pelo mérito deles, conforme eles mesmos atestam, que a malícia dos erros foi debelada.

Enfim, príncipes e Pontífices Romanos, guardas e defensores da fé tiveram o costume de recorrer sempre ao nome da divina Mãe: uns na direção das suas guerras sagradas, outros na promulgação dos seus solenes decretos; e sempre lhe experimentaram o poder e a proteção.

7. Por isto a Igreja e os Padres dirigem a Maria estas expressões não menos verdadeiras do que esplêndidas: “Ave, ó boca sempre eloqüente dos Apóstolos; ó sólido fundamento da fé; ó rocha inabalável da Igreja” (Do hino dos Gregos Theotokion). “Ave: por ti nós fomos computados entre os cidadãos da Igreja, una, santa, católica e apostólica” (S. João Damasceno, Oratio in Annunciatione Dei Genitricis, n. 9). “Ave, ó divina fonte da qual os rios da eterna sabedoria, correndo com as puríssimas e limpidíssimas águas da ortodoxia, prostram a multidão dos erros” (S. Germano Constantinopolitano, Oratione in Dei Praesentatione, n. 4). “Alegra-te, já que só tu conseguiste destruir todas as heresias no mundo inteiro!” (no Ofício da B. V. M.).

Maria e a unidade da fé

8. Esta parte tão importante que a Santíssima Virgem teve e tem no curso de expansão, nos combates, nos triunfos da fé católica, torna mais luminoso o plano divino a seu respeito, e deve despertar em todos os bons uma grande esperança para a consecução de todas as finalidades que estão hoje nos anseios de cada um.

9. É preciso confiar em Maria; é preciso invocar Maria! Oh! Quão eficaz será o seu poder para a solícita realização do novo e tão desejado triunfo da religião, isto é, que no meio dos povos cristãos uma única profissão de fé deva manter unidas as mentes, e um único vínculo de perfeita caridade estreite os corações! Que não estará ela disposta a fazer para que todas as nações caminhem unidas “na maravilhosa luz de Deus”, quando com tanta insistência o seu Unigênito pediu ao Pai a união delas, e, por meio do batismo, as chamou a participar “da herança da salvação”, adquirida com imenso preço? Poderá ela deixar de demonstrar a sua amorosa providência, quer para aliviar os longos trabalhos que para tal fim a Igreja, Esposa de Cristo, enfrenta, quer para realizar na família cristã esse dom da união que é o fruto precioso da sua maternidade?

A antiga unidade e o culto de Maria

http://catedraldemaceio.org.br/images/padres/leaoxiii.jpg10. E um sinal de que o augúrio não está tão longe de verificar-se está na opinião e na confiança, tão ardentes nas almas piedosas, de que Maria será o feliz laço que, com a sua força, unirá todos aqueles que amam a Cristo, onde quer que estejam, formando deles um só povo de irmãos, prontos a obedecer, como a um pai comum, ao Vigário de Cristo na terra, o Pontífice Romano.

Aqui o pensamento reporta-se espontaneamente, através dos fastos da Igreja, aos magníficos exemplos da primitiva unidade, e com mais gosto se detém na recordação do grande Concílio de Éfeso. Porquanto a plena concórdia da fé, a participação nos mesmos sacramentos, que então unia o Oriente e o Ocidente, aqui parece realmente afirmar-se com singular firmeza e brilhar de nova glória, quando os padres do Concílio anunciaram autorizadamente o dogma da divina Maternidade de Maria: a notícia de tal acontecimento, promanando daquela religiosíssima cidade exultante, encheu o mundo católico da mesma incontida alegria.

A oração pelos dissidentes, agradável a Maria

11. Todas estas razões, que sustentam e aumentam a confiança de ser ouvido pelo poder e pela bondade da Virgem, devem ser, para os católicos, outros tantos incitamentos para a rogarem – como Nós vivamente recomendamos -com fervoroso empenho. Reflitam os fiéis em quanto é para eles decoroso e útil, e ao mesmo tempo quão aceito e grato para a Virgem Santíssima, este empenho.

De feito, possuindo eles a unidade da fé, dessarte manifestam que justamente têm grandíssimo apreço o valor deste benefício, e que querem guardá-lo com todo escrúpulo. Nem podem eles manifestar de melhor forma o seu amor fraterno para com os separados, do que ajudando-os eficazmente de modo que possam reencontrar o maior de todos os bens. Tal afeto fraterno, verdadeiramente cristão, sempre operoso em toda a história da Igreja, achou sempre a sua força principal na Mãe de Deus, excelente fautora de paz e de unidade. S. Germano de Constantinopla assim a invocava: “Lembra-te dos cristãos, que são teus servos; ah! Recomenda as orações de todos; conforta as esperanças de todos; reforça a fé; estreita as igrejas na unidade!” (S. Germano Constantinopolitano, Oratio Hist. in Dormitione Deiparae).

O culto de Maria entre os Orientais

12. E ainda hoje os Gregos lhe dirigem esta oração: “Ó Virgem toda pura, que podes sem temor aproximar-te de teu Filho, roga-o, ó toda santa, para que Ele dê a paz ao mundo e inspire um mesmo sentimento a todas as igrejas; e todos nós te aclamaremos!” (Men., 5 maii, post oden 9 de S. Ireneu V. M). E aqui se junta aos outros um motivo especial pelo qual é lícito esperar que a Santíssima Virgem escutará com maior benignidade as nossas preces em favor dos povos dissidentes, e esse motivo é o dos insignes méritos que eles – mas especialmente os orientais adquiriram para com ela. Porque é a eles que muito se deve se a sua devoção tanto se difundiu e cresceu.

Entre eles surgiram grandes apologistas e defensores da sua dignidade; panegiristas célebres pelo fogo e pela delicadeza da sua eloquência; “imperatrizes diletíssimas a Deus” (S. Cirilo de Alexandria, De Fide ad Pulcheriam et Sorores Reginas) que imitaram os exemplos da puríssima Virgem e lhe tributaram homenagens com a sua munificência; e, por último, igrejas e basílicas erguidas em sua honra com esplendor régio.

As imagens de Maria do Oriente ao Ocidente

13. A esta altura apraz-nos aditar uma consideração que, enquanto não é estranha ao assunto, ao mesmo tempo redunda em glória da santíssima Mãe de Deus. É esta: todos sabem que muitíssimas das suas augustas imagens, em diversas épocas, foram trazidas do Oriente para o Ocidente, e, especialmente na Itália e em Roma, foram acolhidas com suma piedade e honradas com magnificência pelos nossos avós, e veneradas depois pelos seus descendentes com não menor transporte.

Ora, Nós gostamos de verificar neste fato unia disposição e um benefício da amorosíssima Mãe, já que isso parece querer significar que essas imagens são, junto a nós, como que, palpitantes monumentos de outros tempos, em que a família cristã vivia unida em toda parte do mundo; e como que preciosos penhores de uma comum herança. Por isto, ao contemplá-las, como que por inspiração da própria Virgem devem as almas piedosamente lembrar-se daqueles que a Igreja Católica chama com amorosa solicitude à antiga concórdia e à alegria que já provaram no seu seio.

O Rosário, oração eficaz para os dissidentes

14. Assim, um grande auxílio em vantagem da unidade da Igreja é-nos por Deus oferecido em Maria. E, conquanto este auxílio de muitos modos, possa ser merecido, Nós cremos que o melhor e o mais eficaz é o do Rosário já de outras vezes fizemos observar que não última entre as vantagens do santo Rosário é fornecer ao cristão um meio prático e fácil para alimentar a sua fé e preservá-la da ignorância e do perigo do erro; como manifestamente nos demonstram as suas próprias origens.

Ora, não é menos claro o quanto toca de perto a Maria esta fé, que se exercita quer com a repetida oração vocal, quer com a meditação dos mistérios. Porquanto, toda vez que nos pomos em oração diante dela e recitamos com devoção a santa Coroa segundo o rito prescrito, nós recordamos a obra maravilhosa da nossa redenção, de modo a contemplarmos, como se se desenrolassem agora todos aqueles fatos que sucessivamente concorrem para torná-la ao mesmo tempo Mãe de Deus e Mãe nossa.

A excelência desta dupla dignidade e o fruto deste duplo ministério mostram-se-nos sob uma vivíssima luz, se piedosamente considerarmos a Virgem Maria ao lado de seu divino Filho nos mistérios gozosos, dolorosos e gloriosos. Daí resulta sentir-se a alma inflamada de um vivo sentimento de gratidão para com ela; e, desdenhando todas as coisas deste mundo, esforçar-se com firme propósito por se tornar digna de tal Mãe e dos seus benefícios.

Aliás, já que Maria, a mais amorosa de todas as mães, não pode deixar de se enternecer e de se mover à compaixão para com os homens por esta freqüente e piedosa recordação de tais mistérios, o santo Rosário será, como temos dito, a oração mais oportuna para advogar junto a ela a causa de nossos irmãos dissidentes. Isto entra em cheio na missão da sua maternidade espiritual.

De fato, aqueles que pertencem a Cristo, não os gerou Nossa Senhora, nem podia gerá-los, senão na unidade da fé e do amor a Ele. “Acaso Cristo foi feito em pedaços?” (1 Cor. 1, 13). Por isto, todos nós devemos viver juntos a vida de Cristo, de modo a podermos “colher frutos para Deus” (Rom. 7, 4), num só e idêntico corpo. Necessário é, pois, que todos aqueles que a maldade dos acontecimentos separou desta unidade sejam de novo, por assim dizer, gerados para Cristo, desta mesma Mãe que Deus tornou perenemente fecunda de santa prole.

Ela, por sua parte, nenhuma outra coisa deseja mais ardentemente; e, se nós lhe oferecermos coroas tecidas desta oração a ela tão cara, Alaria lhes obterá em abundância os auxílios do “Espírito vivificados”. Praza a Deus que eles não recusem secundar os desejos desta sua misericordiosíssima Mãe; e que, lembrados da sua eterna salvação, escutem este amoroso convite: “Ó filhos, por quem de novo sinto as dores do parto, até que Cristo seja formado em vós” (Gal. 4, 19).

O Rosário difundido na Igreja do Oriente

15. Havendo observado o grande poder do santo Rosário em tal terreno, alguns dos Nossos Predecessores procuraram por todos os meios difundi-lo nos países orientais. Primeiro entre todos, Eugênio IV com a sua Constituição Apostólica “Advesperascente“, de 1139; depois Inocêncio XII e Clemente XI, que com a sua autoridade concederam, para este fim, largos privilégios à Ordem dos Frades Pregadores.

E os frutos não se fizeram esperar longamente, graças ao zelo e à atividade dos religiosos dessa Ordem, como está provado por inúmeros e claros documentos; se bem que aos progressos de tal obra fizesse não pouco dano a prolongada contrariedade dos tempos. Mas, nos nossos. dias, naquelas regiões tem voltado a reflorir em muitos corações o mesmo entusiasmo pela devoção ao santo Rosário, que louvamos no principio desta Carta. E esperamos que este fato, tão condizente com os Nossos desígnios, seja utilíssimo à realização dos Nossos votos.

Novo templo à Virgem do Rosário em Patras

16. A esta esperança se junta um fato consolados, que diz respeito tanto ao Oriente quanto ao Ocidente, e que é plenamente conforme aos Nossos desejos. Queremos referir-nos ao propósito, expresso no célebre Congresso Eucarístico de Jerusalém, de erigir-se um templo em honra da Rainha do Santíssimo Rosário em Patras, na Acácia, não longe daqueles lugares nos quais a proteção de Maria fez brilhar as glórias do nome cristão.

Já muitos de vós, exortados pela Comissão, surgida com a Nossa aprovação, pressurosamente contribuístes para essa obra com subscrições, juntando-lhes também a promessa de um constante interesse até que a coisa esteja realizada. E, com isto, já se proveu a quanto basta para iniciar, sem mais, os trabalhos com a grandiosidade que convém a esta obra; e Nós já autorizamos lançar-se solenemente, o mais breve possível, a primeira pedra desse edifício. O templo surgirá em nome do povo cristão, qual monumento de perene gratidão à nossa Auxiliadora e Mãe celeste. Lá ela será invocada incessantemente em rito latino e grego, a fim de que, com sempre mais benévola assistência, se digne de ajuntar aos antigos novos favores.

Mostra-te Mãe!

17. E agora, ó Veneráveis Irmãos, a Nossa exortação volta ao ponto do qual partiu. Eia, pois! Que todos, pastores e rebanhos, especialmente no próximo mês, se coloquem, cheios de confiança, sob a proteção da augusta Virgem. Em público e em particular não cessem, com cantos, orações e votos, de invocar e suplicar concordemente a Mãe de Deus e Mãe nossa: “Ah! mostra-te Mãe!”. Que a sua clemência maternal queira preservar de todo perigo sua família inteira: que a conduza a uma verdadeira prosperidade, e sobretudo a estabeleça na santa unidade. Guarde ela com benevolência os católicos de todas as nações, e, unindo-os pelos vínculos da caridade, torne-os mais ativos e mais constantes em sustentar a honra da religião, da qual promanam, mesmo para os povos, os bens mais preciosos.

Guarde, depois, com suma benevolência também os dissidentes: essas grandes e ilustres nações, essas almas eleitas, que sentem a dignidade cristã. Suscite nelas salutares desejos, e depois os alimente e os leve a cumprimento. Redundem em vantagem dos dissidentes orientais a ardente devoção que eles professam para com Nossa Senhora, e os numerosos feitos realizados pelos seus antepassados para a glória dela. Depois, em vantagem dos dissidentes ocidentais redunde a lembrança do salutar patrocínio com que ela teve como cara e recompensou a extraordinária piedade que todas as classes sociais lhe professaram por muitas gerações.

Para estes dissidentes e para todos os outros, onde quer que se achem valha a voz unânime e suplicante de todos os povos católicos, e valha a Nossa voz, que até o último alento invocará: “Mostra-te Mãe!”.

Entrementes, como auspício dos dons celestes e em atestado da Nossa benevolência, de todo coração concedemos a cada um de vós, ao vosso clero e ao vosso povo a Nossa Bênção Apostólica.

Dado em Roma, junto a S. Pedro, a 5 de Setembro de 1895, no décimo oitavo ano do Nosso Pontificado.

LEÃO XIII PAPA

Diálogo ecumênico com o espiritismo?

http://www.casajosecoltro.com.br/images/kardec2.jpg[Extraído do livro "Espiritismo - orientação para católicos", do Frei Boaventura Kloppenburg; disponível para download aqui]

O Vaticano II nos explica que por “movimento ecumênico” se entendem iniciativas e atividades que visam à união dos cristãos (Unitatis Redintegratio, n. 4b). Um verdadeiro movimento ou diálogo ecumênico só é possível com aquelas Igrejas ou comunidades cristãs separadas da comunhão católica que efetivamente dão esperanças positivas de chegar outra vez à comunhão plena. Mas o espiritismo não é uma Igreja separada, nem mesmo pretende ser Igreja. Não somente não há nenhuma esperança de conseguir algum dia “comunhão plena” com os reencarnacionistas, mas semelhante comunhão não é nem sequer pensável. (…) o reencarnacionismo não é cristão e (…) seus postulados fundamentais se opõem total e absolutamente à soteriologia cristã. E mesmo que se proclamassem cristãos, seria necessário dizer-lhes que em verdade não o são.

Em sua declaração oficial de 2 de janeiro de 1978, a Federação Espírita Brasileira, que é kardecista, fez saber que “é imprópria, ilegítima e abusiva a designação de espíritas adotada por pessoas, tendas, núcleos, terreiros, centros, grupos, associações e outras entidades que, mesmo quando legalmente autorizados a usar o título, não praticam a doutrina espírita”, isto é, “o conjunto de princípios básicos codificados por Allan Kardec”. Pela mesma lógica se pode afirmar também que é imprópria, ilegítima e abusiva a designação de cristãos adotada por pessoas, centros, terreiros ou outras entidades que, mesmo quando legalmente autorizados a usar o título, não praticam a doutrina cristã.

Colocados pastoralmente diante dos movimentos espíritas (ou outros, que não faltam entre nós), é necessário que nos perguntemos honradamente qual é nosso objetivo. Temos dois campos bem diferentes: de um lado estão os sectários com seus métodos proselitistas, procurando penetrar no ambiente católico; de outro lado temos os próprios católicos mais ou menos facilmente vítimas desta propaganda sectária. A quem queremos dirigir-nos pastoralmente: aos propagadores da evocação e da reencarnação ou aos fiéis cat6licos vítimas deste assalto? Do objetivo dependerá nosso método. Se não definimos previamente e com clareza a meta, ou se pretendemos alcançar uns e outros, animados com a benévola atitude de compreensão, de abertura e de diálogo com relação aos agressores, teremos uma ação pastoral híbrida, que produzirá nos fautores do erro grande alegria (pois lhes deixamos abertas todas as portas e ainda abrimos outras) e nos católicos um estado de confusão, desorientação e perplexidade ainda maior.

Desde o Concílio se insistiu muito no diálogo com os não-cat6licos. Esta disposição de diálogo com os responsáveis do movimento espírita não deve jamais olvidar que sua ativa presença entre nossos fiéis tem um objetivo claro e definido, que certamente não é o de ajudar-nos a conseguir que sejam melhores cristãos católicos. O Documento de Puebla constata que “muitas seitas se têm mostrado clara e pertinazmente não só anti-católicas, mas até injustas contra a Igreja, e têm procurado minar seus membros menos esclarecidos. Devemos confessar com humildade que, em grande parte, até em determinados setores da Igreja, uma falsa interpretação do pluralismo religioso permitiu a propagação de doutrinas errôneas e discutíveis” (n. 80).

Por estes motivos nossa atitude pastoral há de dirigir-se em primeiro lugar diretamente às vítimas da propaganda espírita. Não podemos esquecer o grave fato da presença ativa, com claros propósitos proselitistas, daquilo que o Senhor chamou “falsos profetas”. Tem-se a impressão de que entre os mesmos pastores católicos já não há ambiente para recordar palavras como estas de Jesus: “Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos ferozes. Pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7,15-16). Ou estas: “Então, se alguém vos disser: ‘Olha o Messias aqui’, ou ‘ali’, não creiais. Pois hão de surgir falsos messias e falsos profetas, que apresentarão grandes sinais e prodígios, de modo a enganar até mesmo os eleitos, se possível. Eis que vo-lo predisse” (Mt 24,23-25). Daí a posterior advertência do Apóstolo: “Sede solícitos por vós mesmos e por todo o rebanho… Eu sei que, depois de minha partida, introduzir-se-ão entre vós lobos cruéis que não pouparão o rebanho, e que no meio de vós surgirão homens que farão discursos perversos com a finalidade de arrastar discípulos atrás de si” (At 20,28-30; ci. 2Ts 2,3-4; 2Pd 2,1-3 e todo o capo 13 do Ap). “Quem não entra pela porta do redil das ovelhas, mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante” (10 10,1).

Não nego o alcance e o valor positivo do diálogo. Haverá situações concretas e objetivos pastorais que pedem dar absoluta preferência ao método e à atitude do diálogo: no verdadeiro ecumenismo, quando há esperanças positivas de chegar a uma plena comunhão, o diálogo será a via indispensável. Mas pode haver também situações concretas de defesa e de apologética: é precisamente o estado dos católicos indefesos, não suficientemente instruídos e preparados, constantemente molestados por importunos e falsos profetas disfarçados como cristãos. O binômio apologética-diálogo não deve ser proposto em forma disjuntiva, “ou apologética ou diálogo”, mas na forma conjuntiva, “e apologética e diálogo”. Apologética será a atitude pastoral com os crentes vítimas da invasão das seitas; diálogo será a atitude pastoral com os não-católicos desejosos de encontrar a unidade perdida mandada pelo Senhor. Quando a situação do agressivo proselitismo sectário nos obriga a recorrer ao método apologético ou defensivo, será também inevitável a polêmica: diante da necessária atitude de defesa, o sectário reaciona; e esta reação pede muitas vezes resposta esclarecedora ou retificadora. Temos então a polêmica. Encontramo-la em Cristo, nos Apóstolos e nos melhores Santos Padres e Doutores da Igreja. “Este serviço dos pastores inclui o direito e o dever de corrigir e decidir, com a clareza e a firmeza que sejam necessários” (Puebla n. 249). “Em algumas ocasiões, falta a oportuna intervenção magisterial e profética do bispo, bem como maior coerência colegial” (ib. n. 678). O silêncio e a atitude de tolerância, por vezes, pode ser um pecado de omissão e ter como conseqüência uma grei desatendida e dispersa. Devemos ser pastores. Pastores vigilantes. “O bom pastor dá a sua vida por suas ovelhas. O mercenário que não é pastor, a quem não pertencem as ovelhas, vê o lobo aproximar-se, abandona as ovelhas e foge, e o lobo as ataca e dispersa” (10 10,11-12). No Apocalipse 2,13-16 diz o Senhor ao responsável da comunidade de Pérgamo: “Sei onde moras: é onde está o trono de Satanás. Tu, porém, seguras firmemente o meu nome, pois não renegaste a minha fé, nem mesmo nos dias de Antipas, minha testemunha fiel, que foi morto junto a vós, onde Satanás habita. Tenho, contudo, algumas reprovações a fazer: tens aí pessoas que seguem a doutrina de Balaão, o qual ensinava Balaq a lançar uma pedra de tropeço aos filhos de Israel, para que comessem das carnes sacrificadas aos ídolos e se prostituíssem. Do mesmo modo tens, também tu, pessoas que seguem a doutrina dos nicolaítas. Converte-te, pois! Do contrário, virei logo contra ti para combatê-los com a espada de minha boca“.

É certo que no Brasil o espiritismo não é nosso único problema religioso. Infelizmente. Mas continua válida a constatação feita pelos bispos em 1953: que, no momento, o espiritismo ainda é o desvio doutrinário “mais perigoso”, já que “nega não apenas uma ou outra verdade de nossa santa fé, mas todas elas, tendo, no entanto, a cautela de dizer-se cristão, de modo a deixar, a católicos menos avisados, a impressão erradíssima de ser possível conciliar catolicismo com espiritismo“.

No Documento de Puebla os bispos latino-americanos sabem da existência, entre nós, de movimentos para-religiosos que aceitam uma realidade superior (“espíritos”) com a qual pretendem comunicar-se para obter ajuda e normas de vida (n. 1105), procurando entrar em ‘contato pessoal com aquele mundo da transcendência e do espiritual a fim de receber respostas para as necessidades concretas do homem (n. 1112). Pedem então os bispos que as comunidades católicas recebam informação e orientação sobre estes movimentos, particularmente acerca das “distorções que eles contêm para a vivência da fé cristã” (n. 1124).

Como ontem, também hoje é necessário oferecer aos fiéis os subsídios de que precisam para que possam cumprir aquele dever que o Concílio lhes recordava de defender com coragem a fé contra os erros que ameaçam inverter profundamente a vida cristã. Numerosos bispos, padres e leigos em apostolado me pediram esta ajuda. Não seria tão difícil: já escrevera tanto sobre o assunto. E como tudo está esgotado, sinto-me desimpedido para escolher e retomar o que me parece mais conveniente para a situação atual.

Com total desembaraço retomo antigos textos meus sem colocá-los entre aspas nem indicar sua origem. No Brasil de 1986, o espiritismo é exatamente igual que em 1960, quando publiquei a primeira edição de O espiritismo no Brasil. Refiro-me ao espiritismo de Kardec, porque no de umbanda houve complicações. A Federação Espírita Brasileira, tutora do kardecismo, lança hoje as mesmas obras de ontem, tendo-se tomado apenas mais intransigente com relação à umbanda. É, como diria Roger Bastide, um exemplo típico de religião em conserva. Entrementes, na França, donde nos veio o kardecismo no século passado, houve mudanças essenciais, com um desfeche inesperado: em 1976 a Revue Spirite, fundada por Allan Kardec em 1858, mudou o título para Renaitre 2000. E a “Union Spirite Française” passou a ser “Union des Sociétés francophones pour I’investigation psychique et I’étude de Ia survivance” (USFIPES). Como se vê, a pr6pria palavra “espírita” foi banida. A inconcussa convicção de Allan Kardec acerca da sobrevivência se transformou em problema a ser ainda investigado. Eles lá, hoje, não concordam com a orientação que o espiritismo tomou no Brasil: “Inteiramente estagnado”, preocupado “com o aspecto extraordinário dos fenômenos espíritas” e “com a moral evangélica e a caridade”. Eles lá pretendem continuar a obra “como queria Allan Kardec”, isto é: desvinculada de Cristo e da religião, para fazer apenas pesquisas psíquicas e estudar se de fato há sobrevivência. Começam agora por onde Allan Kardec deveria ter iniciado em 1855.