Epifania: Festa da Luz e da Glória

Epifania_do_SenhorA Igreja convida-nos hoje à celebração da Solenidade da Epifania do Senhor, isto é, a sua manifestação, aparição, ao mundo. A Epifania (Ἐπιφάνει) é antes de tudo o proeminente convite à contemplação do mistério da fragilidade de Belém, mas ainda mais que isto: é ver Deus glorioso, adorá-lo em sua fragilidade, contemplá-lo em sua fortaleza. Ele tendo vindo deitou-se na manjedoura, fez-se um de nós, compartilhou da nossa fraqueza. É esta a glória de Deus para o mundo! Esta é a mensagem da salvação que perpassa dois milênios com renovado vigor: Deus é simples, é terno e humilde. Ainda em nossa sociedade temos contemplado uma potencialização negativa da figura de Deus, ou mesmo uma assumida ignorância do seu mistério. Quando o homem deseja colocar-se no lugar de Deus, quando põe Deus à parte como Autor da sua história, cria um ambiente de arrogância, de distanciamento, de morte.

A Luz que brilhou em toda a noite do Natal hoje manifesta-se ao mundo. O profeta afirma na primeira leitura: “Levanta-te, acende as luzes, Jerusalém, porque chegou a tua luz, apareceu sobre ti a glória do Senhor” (Is 60,1). Muito atual e sugestiva esta leitura como uma continuação da liturgia natalina. A glória do Senhor resplandece sobre a Cidade santa e torna-se um norte para os seus filhos deportados e dispersos, que sofriam arduamente com o exílio. Mas é ao mesmo tempo um convite às nações pagãs, que todas venham à Jerusalém para serem tomados pelo mistério da luz. Na verdade, a manifestação do Senhor e o Seu nascimento estão intrinsecamente unidos. No Oriente hoje celebra-se o Natal do Senhor, como uma certeza de que Aquele que nasce em Belém também já se manifestara ali para o mundo. Para nós, porém, esta festa ganha um sentido ulterior ao nascimento: a vinda dos Magos do Oriente para adorar o Menino é a manifestação de Deus aos povos distantes, que procuravam uma resposta para as suas indagações e que a encontraram deitada no lugar da pastagem dos animais.

“Levanta-te!” é esta a palavra que deve mover os que desejam nortear a sua vida nos caminhos da salvação e da esperança que se acende para o homem. O cristão não pode permanecer inerte mediante as dificuldades que assolam o tempo presente. O profeta evidencia a palavra de ordem: Levantar. Quem entra no mistério da manifestação do Cristo não sai de lá como outrora fora. Isto se dá porque a Epifania assume também um sentido singular para cada um: a conversão, a adesão ao Senhor e ao seu Amor. Só o amor dá as respostas necessárias para a solidão do homem. Quem não silenciar o coração não será apto a ouvir, é impossibilitado de travar um diálogo com o divino e permanece deitado, na comodidade denunciada por Isaias na primeira leitura.

O profeta ainda acrescenta: “Eis que está a terra envolvida em trevas, e nuvens escuras cobrem os povos; mas sobre ti apareceu o Senhor, e sua glória já se manifesta sobre ti” (Is 60,2). Também hoje a realidade não se difere da antiguidade. Quantos permanecem envoltos na escuridão? Não é uma cenário adverso se pensarmos nos que excluem Deus do âmbito social, familiar e até mesmo religioso, ao promoverem as suas capacidades e ideologias e esquecerem daquele no qual a religião e o mundo se fundamentam. A luz se apresenta, mas ainda assim muitos optam por atarem-se aos ardis semblantes das trevas. E que luz é esta? Não é uma luz metafórica, tampouco um simples fenômeno fisiológico, mas assume um rosto, assenta o seu Reino entre nós e a sua glória resplende: “Deus é luz e n’Ele não há trevas” (1 Jo 1, 5). Ele é a luz verdadeira, o Verbo Encarnado, Aquele que é, como professamos em nossa fé, “Luz da Luz”.

Mas, haveríamos ainda de intuir uma pergunta: Qual é a glória de Deus? Como ela se manifesta em nossos dias? Santo Irineu respondeu a esta indagação com uma frase belissimamente teológica, mas sobretudo como um plano de fundo que deve levar todo homem e o homem em seu todo a avaliar-se: “Gloria enim Dei vivens homo, vita autem hominis visio Dei – A glória de Deus é o homem vivo, e a vida do homem é a visão de Deus” (Tratado Contra as Heresias, Lib. 4,20,5-7:Sch 100, 640-642.644-648). Irineu formula o homem como ser necessitado do seu Criador, da beleza majestática de Deus, mas também da sua glória. Esta necessidade não é uma dependência escravizadora, que subjuga o homem a um poder celestial e que o faz desprover-se da sensatez e da razão; ao contrário, o poder de Deus liberta e salva, estimula o homem a fazer uso da razão e o faz conhecer os motivos da sua fé e o sentido pelo qual pôs-se a serviço do Evangelho. Hoje diríamos, até com certa ousadia, que a glória de Deus é o homem: Ele é o ser que ressai em toda a obra da criação e para o qual os anjos põem-se a serviço; é o único criado à imagem e semelhança do seu Criador (cf. Gn 1,26). Contudo, na vicissitude dos tempos, temos podido presenciar a deflagradora forma com que a mentalidade do homem tem se tornado restrita e adversa aos princípios de sua moral e da fé cristã.

Onde o homem se fecha à ação libertadora de Deus e a sua manifestação gloriosa, sempre tende a recair no isolamento, no fechamento em si e de si para os demais. A Epifania é a manifestação da glória e da salvação de Deus ao homem. Próximo a Deus o homem vive, encontra sentido e deixa-se guiar pela estrela que ilumina e irradia o brilho da salvação, a mesma que outrora orientara os desconhecidos, que de terras distantes vieram para curvar-se diante da fragilidade do Menino. Mas longe de Deus vem a ruína, a miséria, a desolação e o desencontro, seja com o Eterno, seja com os irmãos.

Peçamos ao Senhor que nos ilumine com a luz da sua salvação e da sabedoria para que nos abramos à sua graça e à sua ação salvadora. Ajude-nos a reconhecer como brilho verdadeiro aquele que emana de Belém, da humildade que redime o homem e o faz sempre mais estreitar-se ao querer de Deus.

Ecce Magi ab oriente venerunt (cf. Mt 2,1). Os magos que vieram do Oriente são provas marcantes de que Deus age em todos os lugares, ainda naqueles desconhecidos. Provenientes de países distantes, são eles os modelos daquele anúncio paulino que posteriormente seria feito: “os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo, por meio do Evangelho” (Ef 3,6).

Todos em Cristo congregam um só corpo, manifestam uma glória e participam de um único batismo. Certamente eram os magos pessoas instruídas e de uma sabedoria aguçada, sabiam da profecia de Miqueias com relação ao menino que viria e disto foi-lhes dado o sinal por meio da estrela de Belém. Seguem-na com grande curiosidade e esperança de encontraram o Messias, uma inquietação benévola instigava-os a buscarem o Salvador. Mesmo se modesta ao aparecer sobre a terra, projetava-se a estrela para a vertente divina, no céu.

Balaão, chamado a anunciar a maldição sobre a nação eleita de Israel, ao ouvir do próprio Deus que aquele era o povo abençoado (Nm 22,12), anuncia a profecia: “Uma estrela sai de Jacó, e um cetro flamejante surge do seio de Israel” (Nm 24, 17). Cromácio de Aquiléia, no seu Comentário ao Evangelho de Mateus, cria uma relação entre Balaão e os Magos. Escreve ele: “Aquele profetizou que Cristo teria vindo; estes viram-no com os olhos da fé”. E acrescenta uma atenta observação: “A estrela era vista por todos, mas nem todos a receberam” (ibid., 4, 1-2).

O evangelista não nos diz quantos são os magos que vieram seguindo a estrela de Belém, mas fala apenas de “alguns magos do Oriente” (Mt 2,1). E quem eram tais homens? Não sabemos! Apenas a tradição medieval tardia afirma serem três, mas sem qualquer veracidade. O que podemos intuir é que eram homens do estudo, do conhecimento das causas naturais, descobridores dos astros.

Mas um detalhe interessante a notarmos é o que um dos versículos da Palavra proclamada nos diz: “E a estrela, que tinham visto no Oriente, ia adiante deles, até parar sobre o lugar onde estava o menino” (Mt 2,9). AntecedebatAdiante. Esta palavra faz-nos pensar na posição da estrela com relação aos magos. Não ia atrás, como também não ia acima, mas ia adiante. São Pedro Crisólogo faz-nos pensar com relação a esse texto ao escrever: “Quando os Magos andavam, andava a estrela; quando se assentavam, parava; quando dormiam, velava, mas dava um passo mais que eles”.

Cristo é a luz que brilha na dianteira da humanidade, Ele é o caminho que os homens devem percorrer sinalizados pelas estrelas que ainda hoje brilham, mesmo que ofuscadas por outros brilhos fugazes dos prazeres efêmeros e aparentemente atraentes e belos. A verdadeira beleza, no entanto, não se dá pela aparência, mas pela verdade que ela porta consigo. A verdadeira beleza é a verdade, irradiada aos povos distantes que agora congregam-se na única esperança: aquela manifestada pela Luz.

A vida do homem da pós-modernidade anseia por Deus e por sua esperança. Foi ela duramente negligenciada em suas questões elementares por concepções que não transpõem os limites terrenos. Também nós queremos hoje refazer o caminho de Belém, chegarmos ao lugar da morada de Deus, o local do Verbo que assume a forma humana. Para isto nos ajude Maria, mulher da perseverança e do silêncio orante. Nos inspire também José, homem da confiança e da disponibilidade a Deus.

Epifania do Senhor: uma luz para os povos

Celebramos com grande alegria a Solenidade da Epifania do Senhor. Jesus Cristo, feito Homem, manifesta-se aos homens e em nós renova-se o constante convite a reconhecermos o Seu poder e a maravilhosa manifestação do Seu Amor. A esta Festa, celebrada neste dia, a Igreja une sua voz a voz dos anjos e santos para reconhecer que só em Cristo, e somente por meio dEle, os homens encontram sentido para a sua existência, mas ainda mais que isso: podem dar sentido a existência do próximo por meio do testemunho autêntico do Evangelho e do despojamento constante dos interesses e falsos “sentidos” que atribuem a este passageiro período.

No entanto, para que este despojamento aconteça, é necessário que os homens saiam de sua comodidade e estejam necessariamente segundo a verdadeira posição cristã. Como, porém, poderíamos conhecer esta posição? Conhecemo-la antes de tudo pelas palavras do profeta, que escutamos na primeira leitura: “De pé! Deixa-te iluminar! Chegou a tua luz! A glória do Senhor te ilumina. Sim, a escuridão cobre a terra, as trevas cobrem os povos mas sobre ti brilha o Senhor, sobre ti aparece sua glória. ” (60, 1-3).

A posição do cristão é a posição daquele que está pronto para guerrear contra as forças do mal. Estar em pé significa estar em constante vigilância, colocar-se a caminho. Assim, o profeta manifesta o nosso caminhar à Cristo. De certo que este caminho não deve ser visto no âmbito empírico mas é sobretudo uma via espiritual. A constante luta que travamos com os meios ideológicos de libertação e de salvação, de felicidades e de prazer, mostra-nos que todas essas coisas podem cair e desvanecem ao poder de Cristo. Mesmo na Igreja surgiram algumas correntes ideológicas que buscavam fazer com que a libertação que vem de Cristo fosse substituída por uma mera libertação social da opressão econômica. “Nós, segundo nos diz São Paulo, não lutamos contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes”. (Ef 6,12)

A verdadeira libertação vem de Cristo porque só Ele é o Libertador. E a sua libertação não é em causa de uma opressão social, mas do pecado, pelo qual Ele nos redimiu com seu Sangue.

Só estando em pé chegaremos a um segundo momento: a iluminação. Esta é confirmada pelo anuncio da chegada da luz, da luz que vem pela glória do Senhor. A luz de Cristo resplandece no mundo como sinal para todos os povos. Só nesta luz achar-se-á o caminho para a salvação. A manifestação da glória de Deus dá-se no nascimento de Cristo, feito homem, rebaixado a nossa condição para salvar-nos e assim pode a luz pairar sobre todos aqueles que nele acreditam.

Para os Magos do Oriente esta manifestação dá-se, poderíamos dizer, empiricamente. Eles fazem a experiência do encontro pessoal com Cristo de forma literal. Mas quem eram os Magos? Devemos dizer que vinham de uma região distante, de cultura e religião diferentes, exerciam funções sacerdotais pagãs. Em contato com judeus, tiveram conhecimento do messianismo com a profecia de que um astro apareceria ao nascimento do maior rei esperado (cf. Nm 24,17). Para Santo Tomás de Aquino, o mesmo anjo que apareceu aos pastores em forma humana apareceu aos magos em forma de astro, por serem pagãos, desconhecedores de anjos.

São Leão Magno, na noite santa do Natal, nos diz: “Reconhece, cristão, a tua dignidade e, tornado participante da natureza divina, não queira recair à condição miserável de outro tempo com uma conduta indigna. Recorda-te de quem é a tua Cabeça e de qual Corpo és membro. Recorda-te de que, arrancado do poder das trevas, fostes trazido à luz e ao Reino de Deus” (Sermone 1 sul Natale, 3,2: CCL 138,88). Os magos reconhecem o Reino de Deus, eles o veem, o tocam; não se recusam em curvar-se diante do pequeno e do frágil Menino de Belém. Abandonam suas crenças para acreditar no Deus verdadeiro, naquele que contemplavam.

Belém significa Casa do Pão, inicialmente chamada Éfrata, isto é, fértil. O nome está em uma intrínseca relação com aquele que ali nasce. Na Casa do Pão é acolhido o verdadeiro Pão, o Pão da Vida, que fortalece o homem e o reanima para a sua caminhada. Ali o Menino rejeitado por todos encontra um lugar na manjedoura, cercado por animais e por seus pais. Jesus é a árvore fértil que faz com que todos os homens tenham vida. Ele é a Vida, vida verdadeira. A fertilidade que dele provém para o homem, não perece, mas é sinal e garantia de eternidade.

Reconhecendo a pequenez do Menino, os Magos reconhecem também a sua grandeza. Só é grande aquele que se faz pequeno. Só reconhece a Jesus quem antes se fizer simples, sair de seu mundo privado, formado por suas ideologias, e colocar-se a caminho daquele que vem ao nosso encontro.

As trevas, segundo a primeira leitura, tomavam a face da terra. Esta realidade não diverge do contexto em que se encontra a nossa sociedade. O obscurantismo da inteligência humana, que deseja sobrepujar a divina, as formas de cientificismo anticristão, a falta do testemunho evangélico e tantas outras situações, manifestam que o nosso mundo ainda não está totalmente iluminado, mas, do contrário, nos sinalizam para a falta de Deus no mundo e nos dizem que enquanto o homem não curvar a sua prepotência à sabedoria divina, não passará de um ser tomado pela escuridão e toda a sua aparente “inteligência” será produto de sua própria destruição.

A glória do Senhor brilha sobre o homem que se curva a Ele. A estrela brilha e conduz todo o que deseja trilhar pelo reto caminho. Muitas vezes aparecem algumas falsas luzes e estrelas que dizem estarem conduzindo o homem para o verdadeiro caminho, dizem serem deuses, mas não são. Só o Deus que salva e liberta o homem da sua ignorância e da sua arrogância é o verdadeiro Deus. O Deus em que só nEle encontramos salvação.

Peçamos ao Senhor que a Sua luz irradie toda a face da terra, para que reconheçam nEle o Deus vivo e verdadeiro, que guia o caminho dos povos e a todos retira do braço opressor das forças das trevas. Que todas as nações deixem-se guiar pela luz que, ainda que pareça muitas vezes ser ofuscada, nunca poderá ser extinta e sempre brilhará como sinal de esperança para os homens, sobretudo nos nossos turbulentos dias. E desta forma pedimos, por intercessão de Maria Santíssima, que gerou e concebeu esta Luz, que cumpra-se entre nós as palavras do profeta: “As nações caminharão à tua luz, os reis, ao brilho do teu esplendor” (Is 60, 3)

O Senhor dos senhores manifesta-se

Celebramos hoje a Solenidade da Epifania do Senhor. Esta Solenidade originariamente celebra-se a 6 de janeiro, mas a Igreja no Brasil, com autorização da Santa Sé, pôde transferi-la para o Domingo mais próximo, já que permite maior participação dos fiéis. No Oriente celebra-se no dia da epifania o Natal do Senhor, por isso desejo saudar aos nossos irmãos de outros continentes do mundo oriental. Que o Menino Deus possa nascer em vossos corações!

[In the East is celebrated on the day of epiphany Christmas, so I want to welcome our brothers from other continents of the Eastern world. May the Christ Child be born in your hearts.]

A Epifania assume um importante significado na vida cristã. O termo grego Ἐπιφάνεια significa aparição/manifestação; um fenômeno miraculoso. Verdadeiramente esta festa é a manifestação do Filho de Deus. Pela visita dos Magos Jesus é apresentado ao mundo. No dia de Natal a mensagem litúrgica é uma novidade que faz-se ressoar por todo o mundo: “Hodie descendit lux magna super terram – Hoje uma grande luz desce sobre a terra” (Missal Romano). Agora esta mesma luz que desceu faz-se manifestar a todos os homens por meio da estrela de Belém. Jesus é luz! N’Ele impera o brilho resplandecente da vitória sobre o pecado. Mesmo na fragilidade daquele menino de Belém, Deus faz imperar glorioso o Seu poder, e manifesta Jesus Cristo ao mundo. A luz de Cristo primeiro atinge a Virgem Maria e São José, que contemplaram e adoraram o mistério ali escondido. Depois atingiu também aos pastores que vão às pressas a Belém para ali encontrar o sinal prenunciado do menino envolto em panos e repousando numa manjedoura. Estes constituem os pequenos, o “resto” de Nazaré aos quais Deus se manifestou primeiramente. Por fim envolve também os Magos do Oriente, que representam todos os povos pagãos, aqueles que ainda não conheciam Cristo, apenas ouviam as profecias, são maravilhados por adorarem o Senhor vivo em nosso meio. Permanecem na penumbra, porém, o Palácio de Jerusalém, onde a notícia de que teria nascido o Messias é levada pelos Magos a Herodes, que, só depois, avisados pelo anjo, souberam do seu plano de matar o Menino, e por isso voltaram por outro caminho. Tal notícia não é portadora de alegria para o rei, mas traz um temor e uma reação adversa.

Para Herodes, Jesus viria tomar seu trono. O Salvador, o Rei que tudo governa, iria lhe destituir do seu poder. Muitos acham que esta seria a libertação que o Messias traria: uma libertação social, onde já não mais haveria injustiças; uma libertação onde a salvação seria promovida atravéz dos pobres. Não é de se surpreender que este seja também um dos pensamentos de Judas Iscariotes, como ele deixou claro várias vezes nas Escrituras. Porém deve-se admitir que ainda hoje dentro da Igreja tal pensamento tenha se infiltrado e dado outro sentido à verdadeira libertação. Sim! Cristo é um libertador! Mas não é um “libertador social”, como nós concebemos, que veio para aquebrantar o poder de opressão dos romanos ou dos reis. Não é um libertador que veio exterminar a pobreza. Mas a sua libertação está acima de tudo isso. Sua libertação consisti na doação de Seu sangue na cruz e na vitória sobre o pecado.

Por isso, Ele traz em Si a luz. Ele é a luz! Uma luz que não se deixa ofuscar pelas trevas, mas devasta, por assim dizer, com a força da sua claridade toda a escuridão do mundo.

Na primeira leitura o profeta Isaias já prenunciava esta manifestação da luz. “De pé! Deixa-te iluminar! Chegou a tua luz! A glória do Senhor te ilumina. Sim, a escuridão cobre a terra, as trevas cobrem os povos mas sobre ti brilha o Senhor, sobre ti aparece a sua glória” (60, 1-2).

Estar de pé é uma posição daqueles que estão prontos, preparados para caminharem, para irem em direção de algo, ou mesmo para receber alguém. Ora, eis que nos chega a Luz! Eis que Ele vem em direção a nós, e nós devemos ir ao seu encontro! A glória de Deus é manifestada em Seu Filho. Quando toda a terra era coberta pela escuridão e os homens já não mais se preocupavam com o futuro de suas vidas e com o futuro de Deus, cumpre-se a promessa do Salmo: “Do céu o Senhor se inclina sobre os homens” (Sl 14, 2). E não apenas se inclina como também vem até nós. Vindo a luz os homens preferem as trevas. São João revelará isto muito bem ao afirmar: “Veio para os seus, mas os seus não o acolheram” (Jo 1,11).

Todos são chamados à salvação pela unidade em Cristo Jesus. São Paulo expressa isso de maneira significativa na segunda leitura. Certamente poderemos fazer uma alusão aos Magos do Oriente que, mesmo sendo de uma cultura diferente, encontram o único e verdadeiro Deus em uma pobre gruta, fria e cercada pelo silêncio das altas horas da noite.

Mas, quem eram os Magos? Eram uma tribo sacerdotal da Pérsia que se dedicava a astrologia. No entanto, naquela noite uma estrela assumiu diferente brilho. Eles percebem que tal resplandecer não era comparado a nenhum outro astro. Aquela estrela não era apenas mais um astro a brilhar, mas era o próprio Deus, e eles sabiam que seguindo-a encontrariam o verdadeiro Astro, o Senhor do Cosmos. Mas, certamente, não ser-lhes-ia suficiente a estrela se eles não se abrissem à verdade.

A melhor descrição dos magos foi feita por São Beda, o Venerável (673-735), que no seu tratado “Excerpta et Colletanea” assim relata: “Melquior era velho de setenta anos, de cabelos e barbas brancas, tendo partido de Ur, terra dos Caldeus. Gaspar era moço, de vinte anos, robusto e partira de uma distante região montanhosa, perto do Mar Cáspio. E Baltasar era mouro, de barba cerrada e com quarenta anos, partira do Golfo Pérsico, na Arábia Feliz”.

Quanto aos seus nomes, Gaspar significa “Aquele que vai inspecionar”, Melquior quer dizer: “Meu Rei é Luz”, e Baltasar se traduz por “Deus manifesta o Rei”.

Obviamente que os nomes podem ter sido dados durante a escrita do Evangelho pelo autor. Mas o que aqui sobressai é que cada um em seu nome carrega a sua missão. Todos eles tinham uma missão: ir ao encontro do Salvador. E todos nós temos uma missão: fazer com que a nossa humanidade tomada pelo peso dos pecados vá ao encontro daquele que poderá aliviá-la.

Se não caminhamos com Jesus Cristo permaneceremos na escuridão. Somente estando com aquele que é luz veremos o despontar de um novo dia. Um dia onde já não mais imperarão as trevas, senão reinará a única estrela que deve brilhar no céu dos nossos lares.

Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo” (Mt 2,2). Estas palavras nos chamam a atenção ao sabermos que os Magos prostaram-se em adoração diante de um frágil bebê, nos braços de sua mãe (cf. Mt 2,11). O rei Herodes estava centrado nas suas riquezas e poderes; já eles quando encontraram o Menino comportaram-se como os pastores. Sabiam que aquele que ali estava era mais que um bebê, era um Deus encarnado.

Como aqueles três homens em busca da Verdade encarnada, vamos também nós ao encontro d’Aquele que é a única verdade, e d’Aquele que pode nos dar a salvação eterna. Caminhemos para o presépio. Lá adoremos ao mistério encarnado e nos coloquemos na atitude dos pastores. E do nosso coração brote um incessante clamor: Senhor! Que os homens conheçam tua verdade. Que os homens Te conheçam, pois só em Ti há Verdade. Que sejamos homens e mulheres sedentos da tua Palavra e praticantes da Tua vontade. Que todos Te conheçam! Que todos Te adorem! E que na Tua fragilidade seja reconhecido o poder que quebra todo o pecado e transforma os corações dos homens. Maria, olha por nós! Acalente-nos em nossas provações, e ame-nos com Teu amor materno e misericordioso.