Advento: levar Deus num mundo desesperançado

Ao adentrarmos mais um tempo do Advento queremos agradecer a Deus pelo novo ano litúrgico que se inicia e pedirmos que a sua graça nos ajude sempre a vivenciarmos a fidelidade a Ele. Desejamos igualmente colocar nossos corações abertos à escuta atenta da Palavra que vivifica e renova a vida humana. Esta renovação torna-se ainda muito propícia neste tempo em que cresce em nós a expectativa pela chegada do Filho de Deus, uma espera salvífica, que não nos deixa inquietos, mas nos acalenta o coração.

Por isso, na primeira leitura, o Profeta Isaías escreve: “Assim mesmo, Senhor, tu és nosso pai, nós somos barro; tu, nosso oleiro, e nós todos, obra de tuas mãos” (Is 64,7). Esta narrativa contém em si um claro sinal de confiança e de coração acalentado. Que pode o homem sem Deus? Nada! Deus molda o homem, o seu coração, o seu sentimento. Contudo, este agir de Deus não é invasivo, não tira a nossa liberdade. Ao contrário, Deus é a maior e primeira causa da liberdade. Com Deus o homem possui verdadeira liberdade; mas sem Ele este torna-se prisioneiro dos seus vícios e das suas vontades, colocando-se como centro de todo Cosmos e senhor de si mesmo. Podemos subentender daí que a liberdade que o Criador concede ao homem está além da sua obra criadora. Não basta estarmos livres de alguém ou de algo, mas livres “para” alguém. Liberdade que não se exerce torna-se escrava do ócio, logo, não é liberdade autêntica, porque também priva o homem da sua disponibilidade e subjuga-o a um vício.

Os Padres da Igreja não hesitavam em apontar Deus como o caminho único para uma liberdade cônscia e verdadeira, não deturpada por valores que figuram como nocivos para a reta consciência cristã. Deus é liberdade porque é paz, é a esperança que cintila; em última instância é Ele o mais importante da vida do homem.

Ainda um segundo aspecto a sublinharmos é que sem Deus o homem não possui esperança, mas faz-se detentor do medo. Privar-se de Deus é a verdadeira desesperança pela qual a hodierna sociedade se propôs passar ao afrontar o direito e a prioridade de Deus no mundo e na vida do homem. Por isso caem na desesperança: porque já não mais possuem aquele verdadeiro entusiasmo suscitado pelo novo da Palavra de Deus, da sua presença constante na história. Antes do encontro com Cristo, Paulo lembra aos Efésios que estavam “sem esperança e sem Deus no mundo” (Ef 2,12). Cristo porta consigo a novidade de Deus – ou ainda: Ele é a novidade de Deus – e por isso sua presença não é somente o sinal da sua existência, mas é garantia que Ele fez-se companheiro fidedigno do homem nos rumos da história.

“Por amor de teus servos, das tribos de tua herança, volta atrás. Ah! se rompesses os céus e descesses!” (Is 63, 17b. 19b). Nestes dois versículos dois clamores nos chamam a atenção:

“Volta atrás”, Senhor! Este primeiro não é apenas um clamor do povo na narrativa do exílio babilônica transcrita por Isaías; é também o brado do homem contemporâneo que anseia por Deus, por sua verdade, pela sua esperança. Volvei vosso olhar misericordioso para o povo que sofre e que confia, clamando a Ti. Voltai vossa misericórdia aos que sofrem tribulações, perseguidos e marginalizados pela fé quem em vós depositaram. Voltai vosso olhar àqueles que atentam contra a vida humana, privando o ser, criado à vossa imagem e semelhança, do seu primeiro dom: a vida. Concede aos homens a verdadeira paz que emana de Ti, do teu Sacratíssimo Coração.

O segundo clamor do povo exilado realiza-se plenamente na Encarnação do Filho de Deus: “Ah! se rompesses os céus e descesses!” Sim, Ele rompe os céus, assume nossa condição mortal, submete-se à condição temporal, para assim redimir a humanidade: todos nele são salvos e encontram plena felicidade. Em Deus o homem é capaz de assumir sua verdadeira condição, de reconhecer seus deveres e direitos e de respeitá-los. Ele é fiel! (cf. I Cor 1,9) Fazemos também nós coro à carta paulina para afirmarmos juntos essa fidelidade incessante daquele que não permanece inacessível. Assumir a nossa natureza é também uma prova desta fidelidade que penetra na existência humana, rompe – por assim dizer – a barreira que havia entre o eterno e o temporal, o divino e o humano. Podemos ter certeza que mesmo diante de tantos conflitos existenciais, morais, mas também os armados, Deus não abandonou o homem, mas mantém seus olhos voltados à nós. Sim, precisamente porque Ele é fiel, permanecem os seus olhos abertos para a humanidade.

Peçamos a Maria a sua intercessão, para que nossa vida seja uma adesão ao querer de Deus. Que nossos corações estejam abertos para receber-te, Senhor! Abre nossos corações à humildade, à vigilância e à oração. Em nosso mundo tão minado por guerras e violências ensina-nos o dom da tua paz, paz verdadeira e eterna.  Ajudai-nos a reconhecermos que a paz deve sempre apoiar-se na justiça, de tal forma que não existirá paz verdadeira enquanto não houver verdadeira justiça. Mostrai aos poderosos deste mundo que uma paz injusta é a promessa de uma guerra e que a verdadeira paz não se conquista com armas mas com os corações abertos a Deus. Só assim restituiremos à humanidade a verdadeira esperança que sois Vós.

A esperança cristã reside no Amor

adventoCom a Solenidade de Cristo Rei no Domingo passado, concluímos mais um Ano Litúrgico, nos preparando interiormente para este tempo do Advento que a Igreja nos conclama a celebrarmos.

É neste tempo que, com os corações contritos e esperançosos, aguardamos o jubiloso prenúncio do Salvador, que dirige-se ao nosso encontro e oferece-nos a sua graça salvífica e a possibilidade de uma reconciliação do homem com Deus, rompidas pelos primeiros pais. Neste período recobremos com ânimo a virtude teologal da esperança, que nos é dada do alto e que é imprescindível ao cristão. Assim, com este vigor no coração, somos convidados a olharmos e mantermos a mesma expectativa que nos diz o prefácio: “Revestido da nossa fragilidade, Ele veio a primeira vez para realizar Seu eterno plano de amor e abrir-nos o caminho da salvação” (Prefácio do Advento I). É-nos sabido que este plano de amor concretizou-se plenamente em Cristo Jesus e nesta primeira vinda de um estreitamento de laços do homem com Deus.

Mas, podemos nos perguntar: como mantermos a expectativa cristã em uma realidade tão fugaz? Como estar com os olhos fitos em Cristo se o mundo oferece-nos coisas aparentemente mais atraentes? E aqui acaba o homem por criar um verdadeiro dilema existencial e um lapso no relacionamento consigo e com os demais irmãos. Sim, aquele que se fecha à realidade de Cristo não apenas fecha-se aos outros, mas, por conseguinte, a si mesmo. Isto porque o relacionamento com Cristo requer também um bom relacionamento com o irmão. No outro vemos a face de Cristo; no outro vemos também a nós, criados à imagem e semelhança de Deus. Quem perde este sentido fecha-se no seu eu e cai na desesperança, porque já não mais nutre-se da vida, mas da sua morte interior.

Às indagações anteriores, São Paulo nos responde com extrema brandura e ao mesmo tempo com firmeza espiritual: “O Senhor vos conceda que o amor entre vós e para com todos aumente e transborde sempre mais, a exemplo do amor que temos por vós” (1Ts 3,12). É na realidade do amor – a Deus e ao próximo – que o homem reconhece-se como sujeito único e singular, dotado de inteligência e de vontade livre, mas também composto de uma realidade material. Ele tornar-se, não obstante as dificuldades, um ser de relacionamento e de proximidade, firmando-se sempre mais na perspectiva futura do convívio eterno com o Senhor. E entendemos o porquê Deus torna-se a “peça chave” no nosso relacionamento: Dele, Amor puro e gratuito, há de provir todo o amor que existe entre os homens para que eles não hesitem no reconhecimento da unidade e da autentica liberdade que foi-lhes dada na filiação adotiva.

Por isso, mais que uma promessa e que uma exortação, o pedido de Paulo concretiza-se no autêntico testemunho de vida voltado a todos os homens que desejam colocar-se à disposição de um amor real, que não subsiste na incerteza e nas especulações. De fato, somente aquele que tem o amor como plano de fundo pode configurar sua vida ao projeto real de Cristo, que não se baseia sobre outra coisa primeiramente, senão sobre a comunhão. Portanto, o advento definitivo não evoca uma realidade distante, temerosa, pela qual os homens ingressam sob a ótica radical das palavras evangélicas ou escatológicas, mas é uma realidade de esperança que caracteriza-se pela harmonia das coisas e pela infusão de um amor radicado no senso ontológico do homem.

A exortação feita pelo Apóstolo São Paulo na segunda leitura é fundamentada já em um princípio eclesiológico. De fato, como Paulo, a Santa Igreja não se cansa de exortar a todos os seus filhos para que mantenham-se atentos aos eminentes sinais dos tempos, que se darão quando Nosso Senhor no-los fizer conhecerem. Por isso, neste imperioso dever de orientar os homens, nos seus vinte e um séculos, a Igreja nunca se ab-rogou da sua missão, mesmo que, em alguns momentos, tenha se sentido fragilizada pelo peso que alguns de seus filhos a imputaram. “Meus irmãos, eis o que vos pedimos e exortamos no Senhor Jesus: Aprendestes de nós como deveis viver para agradar a Deus, e já estais vivendo assim. Fazei progressos ainda maiores!” (1Ts 4,1).

À comunidade de Tessalônica se dirigiu esta exortação, mas não menos atual em nossos dias. O povo tessalônico vivia em grande fadiga da caridade, numa fé operosa e isso os fazia manterem-se numa constante expectativa pelo seu Senhor. Neste sentido, o advento torna-se ainda mais profícuo se vivido intensamente, progredindo no bem e na caridade que nos são constantemente exortados. Tornou-se necessário, mediante a hodierna sociedade, progredirmos sempre no Senhor, intensificarmos nossa espiritualidade, reforçar as bases da nossa fé. O primeiro passo para este reforço é a escuta atenta da Palavra, uma vez que “a fé vem pelo ouvir” (Rm 10,17); depois temos o testemunho autêntico daquilo que ouvimos e nisto outros verão, pelas obras, de quem somos testemunhas.

Na óptica deste Tempo do Advento, tenhamos sempre conosco a certeza viva e uma esperança inabalável; a esperança do ser cristão, que reside em Cristo Jesus. Desta forma seremos animados a enfrentarmos os desafios dos tempos pós-modernos e a fazer com que continue viva no mundo a chama da luz de Cristo, para que todos conhecendo-O possam amá-lo e amando-O possam esperá-lo. A Maria, que por nove meses gerou o menino-Deus em seu ventre, queremos elevar nossos agradecimentos e preces, para que Ela nos ensine a gerarmos o Cristo em nós e portá-Lo aos demais irmãos, com caridade e verdade, mostrando que o verdadeiro rosto de Cristo pode ser encontrado no interior de cada homem que por Ele se deixa tocar e transformar.

E continuemos a escutar e seguir atentamente a exortação de Cristo, que diz: “Ficai atentos e orai a todo momento, a fim de terdes força para escapar de tudo o que deve acontecer e para ficardes de pé diante do Filho do Homem” (Lc 21,36). E com toda a Igreja possamos exclamar: Maranathá! Vem, Senhor Jesus!