Renunciar para ganhar

“Renunciar”! Por vezes esta palavra soa como algo forte e difícil, mesmo se se tratando em âmbito evangélico. No entanto, realmente tal medida não é algo simplório, mas exige uma grande dedicação, digamos de forma demasiada. É necessário que nos doemos totalmente a Cristo e que nada reservemos a nós.  E isto a primeira leitura narra de forma clara e ao mesmo tempo em sentido implícito para que compreendamos o sentido de uma renúncia. “Qual é o homem que pode conhecer os desígnios de Deus? Ou quem pode imaginar o desígnio do Senhor?” (Sb 9, 13). Deveras nenhum homem pode sondar a Deus. E quem poderá? São Paulo no-lo responderá que somente o Espírito “sonda tudo, mesmo as profundezas de Deus” (I Cor 2, 10). Somente o Espírito pode conhecer os insondáveis desígnios do Senhor. E quanto a nós? Perguntar-vos-ei. O mesmo livro da Sabedoria responde: “Acaso alguém teria conhecido o teu desígnio, sem que lhe desses Sabedoria e do alto lhe enviasses teu santo espírito?” (Sb 9, 17). É preciso termos em nós o Espírito. E este só poderá estar conosco se assim o quisermos, manifestando sua presença, sobretudo, pelas nossas atitudes. E, se aceitarmos, demonstraremos estar de acordo com o Evangelho, que não é um conjunto de ideologias, mas um modo de pelo qual alcançaremos a salvação.

Na segunda leitura o apóstolo Paulo já estava com certa idade quando a escreveu, e estava na prisão. Na verdade não é uma carta para instruir uma comunidade, como habitualmente vemos, senão um bilhete dirigido a Filemon, sobre o seu escravo Onésimo, ao qual Paulo havia criado grande estima.

No Evangelho Lucas nos diz que Jesus era seguido por uma grande multidão. Mas, eis que estava indo para Jerusalém, e aqui gostaria de acrescentar que o fato de Jesus estar indo para lá significa que também caminhava ao encontro da cruz e da glória. Em Jerusalém ele abraçou a cruz e por nós fez a maior doação e o maior de todos os sacrifícios. Em determinado momento Jesus para, volta-se para eles, e afirma: “Se alguém vem a mim, mas não se desapega de seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs e até da sua própria vida, não pode ser meu discípulo. Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo” (Lc 14, 26-27).

Estas palavras de Jesus chamam-nos a atenção para a nossa caminhada cristã, que deve sempre mais estar radicada nos ensinamentos. Mas, se por um lado somos chamados a renúncia, por outro somos chamados a ganharmos algo muito maio. Quem renúncia tudo para seguir a Jesus nada perde, mas ganha muito mais do que lhe fora concedido. Jesus não obriga ninguém a segui-lo; mas aos que quiserem Ele impõe uma condição: “tome sua cruz e me siga”.

Fico a imaginar quantas pessoas não deixaram Jesus naquele momento, ficando apenas um número reduzido e os apóstolos (que mais tarde, no suplício da cruz, o abandonariam, ficando apenas João). A condição de seguimento é, de certa forma, dolorida, no entanto é salvífica. Não pode seguir Jesus quem apenas almeja pelas bem-aventuranças, pelas glórias, no entanto não quer passar pela experiência do sofrimento. Como disse outras vezes: o único caminho para se chegar a glória é plo sofrimento.

Mas notemos que Jesus diz: “quem não carrega a sua cruz e vem atrás de mim”. Ora, por que atrás e não do lado? Porque o discípulo está atrás do Mestre. Ele deve submeter-se aos ensinamentos daquele que lhe guia. Não está ao lado para ensinar com, e nem na frente, pois não sabe mais, mas está atrás para aprender com. E só depois que aprende poderá também ele ensinar. Mas nada ensinará senão aquilo que aprendeu do Mestre.

Nossa sociedade está esquecendo-se de Deus. Vive-se hoje como se Deus não existisse. E neste Evangelho Jesus vem nos lembrar: “Deus é insubstituível. Só Ele é fonte de toda a vida e felicidade humana”. Nem mesmo a família, os filhos, a esposa, o esposo, devem estar em primeiro lugar, senão Deus, e somente Ele. A família deve ser valorizada em sua posição [exercendo um papel fundamental na Igreja e na sociedade] ela é um presente concedido a nós, mas o doador deste presente é Deus. Por isso o sacerdote a tudo renuncia para amar livremente a Deus, e mostrar-nos que Ele é tão necessário quanto os prazeres, e as futilidades deste mundo. Pois o que está neste mundo tem um fim, mas Deus é eterno.

Peçamos que a Virgem Maria nos ajude a tornarmo-nos fiéis discípulos do Seu Filho.

Ut in omnibus glorificetur Deus!

Manifestou-se a graça de Deus

Neste dia Santo do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo, a Igreja volta seu olhar, juntamente com todos os cristãos, há dois mil anos atrás, para aquele pobre estábulo, mas volta-se alegre porque naquela noite santa apareceria o Salvador que veio para dissipar as trevas do mundo. Ele vem pobre, assume nossa condição humana e se torna igual a nós, para que assim se desse a redenção do gênero humano.

O Canto de abertura, ou Antífona, da Missa da Noite é muito propício para este dia: “Dominus dixit ad me: Filius meus es tu, ergo hódie genui te” (Sl 2,7). O Senhor diz “tu és meu Filho”, referindo-se assim, de certo modo, a Cristo. É Deus que vem até nós. Ele se “rebaixa” tornando-se um de nós para que assim realize-se o seu plano salvífico de amor. E esta noite santa, este dia de Natal, foi agraciado com tão grande privilégio. Por isso Santo Agostinho, sobre guardar este dia solene e santamente, fala-nos:
        “Se chama dia do Nascimento do Senhor a data em que a sabedoria de Deus se manifesta como Menino e a Palavra de Deus, sem palavras, emitiu a voz da carne. A divindade oculta foi anunciada aos pastores pela voz dos anjos e indica aos magos pelo testemunho do firmamento. Com esta festividade anual celebramos, pois, o dia em que se cumpriu a profecia: ‘A verdade brotou da terra e a justiça contemplou o céu’ (Sl 84,12). A Verdade que mora no seio do Pai, brotou da terra para estar também no seio de uma mãe. A verdade que contém o mundo, brotou da terra para ser carregada por mãos de mulher. A verdade, que alimenta de forma incorruptível a bem-aventurança dos anjos, brotou da terra para ser colocada em um presépio. Para o bem de quem, veio com tanta humildade e tão excelsa grandeza? Certamente, não veio para o seu bem, senão para o nosso, para a condição por nós criada. Desperta, homem; por ti, Deus fez-se homem! (…) Por ti, repito, Deus se fez homem. Estarias morto para a eternidade se Ele não houvesse vindo. Celebramos com alegria a chagada de nossa salvação e redenção”(Sermão 185).
Assim São Paulo nos apresenta esta verdade na segunda leitura: “Appáruit grátia Dei Salvatóris nostri omnibus homínibus – Manifestou-se a graça de Deus, Salvador nosso, a todos os homens” (Tt 2,11). Esta graça, como recorda o mesmo apóstolo, superabundou onde, outrora, havia abundado o pecado. Jesus vem para destruir o laço do pecado no mundo. Ele vem trazer a salvação.
Maria, com toda a sua humildade, não é menos importante neste projeto salvífico. Ela também tem grande contribuição. Com seu “fiat” a salvação pode assumir forma humana, o Eterno Verbo de Deus, o Logos, entra no mundo. Por isso olhemos também para ela, que com São José aquece o Menino-Deus, e neles contemplemos a prefiguração de uma nova humanidade, limpa da mancha do pecado que é gerada naquele presépio.
Mas, se em Maria contemplamos a figura de serva, devemos voltar-nos agora ao nosso interior. Quantas vezes deixamos de sermos servos para vivenciarmos o egoísmo, o egocentrismo, a arrogância, a ganância? Sim, irmãos, ainda no Natal, infelizmente – não obstante as pregações da Igreja nestes dois mil anos, os exemplos dos santos e o próprio testemunho de vida de Jesus – há pessoas que deixam-se instigar por tais meios de vida cômodos e insensíveis às verdadeiras necessidades humanas, que não se restringem somente ao material. Verdadeiros corações inaptos à receber o Cristo que nos é doado pelo Pai. Ele não vem na opulência, senão na humildade; manifesta-se Rei não no poder, mas nos seus simples e penetrantes ensinamentos.
“Olhai a grandeza do Senhor que entra no mundo – escreve São Bernardo –, o Filho do Altíssimo (…), e feito carne é colocado em um pobre presépio (…) E amai a humildade, que é o fundamento e a guardiã de todas as virtudes (…) Vendo a Deus tão pequeno haverá algo mais indigno do que a pretensão do homem de engrandecer-se a si mesmo sobre a terra?” (Sermão do Natal do Senhor, 1,1). No seu humilde nascimento poderemos contemplar, mais tarde, a sua imensa glória, como reza-se na Missa da Vigília do Natal: “Hoje sabereis que o Senhor vem e nos salva; amanhã vereis sua glória” (Antífona de Entrada).
Aquele que – como diz Sedúlio – “quis salvar a carne pela carne”, manifesta-se para reacender nos homens a esperança, já que as suas estavam ofuscadas. Ele vem para dizer que não está tudo acabado. Tenham coragem! A salvação não falha. Cristo hoje quer manifestar sua luz. Ele pede abrigo nos corações.
Apraz-me aqui citar São Leão Magno, que diz: “O Natal do Senhor é também o Natal da Paz”. E aqui gostaria de recordar as famílias e nações que vivem na guerra. O Senhor hoje vem, mas espera encontrar a paz. Busquemos a fraternidade e o vínculo com os nossos irmãos e abaixemos as armas da guerra para, apenas com palavras e o testemunho, fazermos que este Natal seja o Natal da paz. Como clamaram os anjos de Belém na noite santa: “Paz na terra aos homens por ele amados” (Lc 2,14).
Sabemos que a estamos diante de uma sociedade que vive uma forte cultura consumista e capitalista e tende a fazer desaparecer os símbolos e valores do Natal cristão, somos convidados a fomentar uma maior percepção de que o Natal sem Jesus não é Natal. Só sabe o verdadeiro valor do Natal aquele que está ao redor do presépio.
Neste mistério inefável contemplamos o incomensurável amor de Deus por nós que o fez vir de forma inusitada, despojemo-nos do velho homem e acolhamos o novo: “Por ele, realiza-se hoje o maravilhoso encontro que nos dá vida nova em plenitude. No momento que vosso Filho assume nossa fraqueza, a natureza humana recebe uma incomparável dignidade: ao tornar-se ele um de nós, nós nos tornamos eternos” (Prefácio do Natal III).
“Deus se fez homem para que o homem se tornasse Deus. Para que o homem comesse o pão dos anjos, o Senhor dos anjos se fez homem” (Santo Agostinho). O homem está incluso no plano de amor de Deus. Sua vinda como um de nós não diminui sua dignidade como Deus. Ele é todo homem e todo Deus.
Rememoremos aquela santa noite em que ressurge a luz. Peçamos que este Natal seja um momento de reavivarmos a nossa fé, para assim termos saúde, paz, amor, felicidade e esperança.
Com estes auspícios, de um Natal voltado para a manjedoura, desejo-vos um Santo e Feliz Natal com as bênçãos de Deus e da Virgem Mãe.