Vigilantes sempre!

Neste domingo o Santo Evangelho exorta-nos a guardamos a vigilância e a prudência. E quão grandes são esses valorosos conselhos no contexto da atual sociedade com que nos deparamos. Em um mundo relativista, que mostra resistência em ceder aos conselhos da Palavra de Deus, Jesus nos exorta veementemente a buscarmos um tesouro no céu: “Vendei vossos bens e dai esmola. Fazei bolsas que não se estraguem, um tesouro no céu que não se acabe; ali o ladrão não chega nem a traça corrói. Porque, onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” (Lc 12, 33-34).

Como as palavras de Jesus caracterizam profundamente o horizonte do mundo que temos à nossa frente. Uma sede de poder, uma ganância demasiada, um desejo exacerbado de possuir mais e mais, um consumismo desenfreado. Com isso, deixam-se cativar pelos “consolos” que esta vida pode oferecer, abandonado a Deus, buscam uma autoconfiança que os fazem transcender não para Deus, mas para este mundo, e esta transcendência logo perderá fôlego e vigor se o homem voltar-se para Cristo e nEle ver o único essencial e o único centro da vida humana.

Onde está o nosso tesouro? Indagam-se muitos no mundo hodierno. E eu iria mais a fundo: Onde temos feito os nossos tesouros? No mundo secularizado, que tende a sufocar os valores cristãos, éticos e morais; ou no Céu, no coração de Deus, onde os homens sequiosos são convidados para lá nutrirem forças na caminhada?

Não cabe somente a mim dar esta resposta. Só você poderá dá-la. O Senhor interroga a cada um de nós, e espera de nós uma resposta convicta, que verdadeiramente confirme um caráter de compromisso, como o “sim” de Maria.

Há! Como são felizes os mártires, que desapegaram-se de tudo, até mesmo das suas vidas! Como são felizes os sacerdotes, que desapegaram-se de uma feliz realização material para darem-se totalmente a Jesus Cristo! Isto porque a verdadeira felicidade não consiste em bens materiais, mas consiste em alguém: Jesus Cristo. Só Ele pode satisfazer todos os nossos anseios. Só nEle encontramos a verdadeira paz, a verdadeira felicidade.

Mais a diante o Senhor chama-nos a atenção para a vigilância: “Que vossos rins estejam cingidos e as lâmpadas acesas. Sede como homens que estão esperando seu senhor voltar de uma festa de casamento, para lhe abrirem, imediatamente, a porta, logo que ele chegar e bater” (Lc 12, 35-36). Vigiar tornou-se, nos dias de hoje, uma necessidade maior ainda para o cristão. Em uma sociedade que vulgariza os homens e mulheres, e que vive em espírito pecaminoso e de promiscuidade, as palavras de Jesus vêm tirar-nos da inércia espiritual, à qual muitos se rendem por não encontrarem forças para combater.

Estejam preparados! Que ecoe para todo o mundo estas palavras. Que ela possa alcançar todo o vasto campo de missão confiado a Igreja.

São Cipriano expõe muito bem o sentido deste Evangelho:

“Ninguém se preocupa com as coisas que hão de vir, ninguém pensa no dia do Senhor, na ira de Deus, nos futuros suplícios dos incrédulos, nos eternos tormentos destinados aos pérfidos… Quem acredita se acautela, quem se acautela se salva” (Sobre a Unidade da Igreja, XXVI).

A nós se dirigem as sábias e proféticas palavras de São Cipriano, tão incidentes na sociedade hodierna. Há meus irmãos! Se os homens soubessem a importância da vigilância! Eis que muitos não têm coragem de vigiar, assim como Pedro, Tiago e João não suportaram e curvaram-se ao sono.

A estes valem as fortes palavras de São Cipriano:

“Despertemos, irmãos diletíssimos, quebremos o sono da inércia rotineira e, por quanto for possível, sejamos vigilantes em guardar e cumprir os preceitos do Senhor… É necessário que estejamos cingidos, a fim de que, quando vier o dia da partida, não sejamos surpreendidos cheios de impedimentos e de embaraços. Fique sempre viva a nossa luz e brilhe em boas obras, para nos guiar da noite deste mundo aos esplendores da claridade eterna. Sempre solícitos e cautos, fiquemos à espera da chegada repentina do Senhor. Quando ele bater, encontre a nossa fé vigilante de forma que mereça receber o prêmio do Senhor. Se forem observados esses mandamentos, se forem postas em prática essas exortações, não acontecerá que sejamos vencidos – no sono – pela falácia do demônio, mas, como servos bons e vigilantes, reinaremos com Cristo glorioso” (idem).

“A quem muito foi dado, muito será pedido; a quem muito foi confiado, muito mais será exigido!” (Lc 12, 18). Não é porque somos cristãos que seremos poupados. As palavras do Senhor confirmam que árduo é o trabalho, mas será também grande a recompensa. Seremos cobrados por nossas ações e pelo que fizemos em prol do anúncio do Evangelho neste mundo. Àqueles que não querem guardar as palavras de Cristo, confiemos-lhes a misericórdia divina. E peçamos para nós o dom da vigilância, estar em prontidão, para que o Senhor nos convide ao seu eterno banquete.

A Virgem Santíssima nos auxilie nesta caminhada.

Ut in omnibus glorificetur Deus!

«A medida usardes com os outros será usada convosco»

Tendo aprendido pela Escritura o que é o temor do Senhor e o que é a Sua bondade e o Seu amor, convertamo-nos a Ele de todo o coração. […] Guardemos os seus mandamentos; amemo-nos uns aos outros com todo o coração. Chamemos irmãos mesmo àqueles que nos odeiam e detestam, a fim de que o nome do Senhor seja glorificado e manifestado em toda a sua alegria. Nós, que nos suportamos uns aos outros, perdoemo-nos mutuamente. […] Não tenhamos inveja dos outros e, se estamos permeáveis ao ciúme, não nos tornemos ferozes. Mostremo-nos antes cheios de compaixão uns para com os outros, e pela nossa humildade curemo-nos uns aos outros. Não maldigamos nem trocemos, porque somos membros uns dos outros.

Amando-nos uns aos outros, seremos amados por Deus; sejamos pacientes uns com os outros e Ele mostrar-se-á paciente com os nossos pecados. Não paguemos o mal com o mal e não receberemos o que merecemos pelos nossos pecados. Porque obteremos o perdão dos nossos pecados perdoando aos nossos irmãos, e a misericórdia de Deus está escondida na misericórdia para com o próximo. […] Vede, o Senhor deu-nos o meio de nos salvarmos e dá-nos o poder celeste de nos tornarmos filhos de Deus.  

São Máximo, o Confessor