E você, quem diz que eu sou?

O Evangelho deste domingo põe-nos em profundo contato com a profissão de fé de Pedro e um riquíssimo sentido da vida cristã, que jamais pode ser ab-rogado da nossa caminhada.

Tendo como ponto de partida a afirmação de Pedro, desejo dar inicio à nossa reflexão dominical. Em primeiro lugar é necessário ressaltar o que diz o evangelista ao afirmar que o Senhor se encontrava em oração, e logo em seguida interroga seus discípulos sobre o que falavam dele. Ora, Jesus antes de tomar tal decisão, e de por os seus discípulos “à prova”, por assim dizer, pôs-se em oração. Antes de qualquer atitude importante Jesus colocava-se em oração. Mesmo sendo Filho de Deus, e sendo Deus, ele não se absteve de orar incessantemente. Muitas vezes, no entanto, nós queremos nos sobrepor com nossas ações e ideologias e nos esquecemos que somos frágeis e constantemente devemos recorrer à oração. Esta não é um esvaziamento da realidade, não busca tornar os problemas invisíveis; no entanto, coloca-nos em profundo contato com Deus, nos une a Ele e nos dá coragem para enfrentarmos todas as dificuldades. Bem recordou o Santo Padre o Papa Bento XVI: “Orar não significa sair da história e retirar-se para o canto privado da própria felicidade. O modo correto de rezar é um processo de purificação interior que nos torna aptos para Deus e, precisamente desta forma, aptos também para os homens” (Spe Salvi, 33).

Jesus pergunta aos apóstolos: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Pedro respondeu: “O Cristo de Deus” (Lc 9, 20). Eis uma afirmação que quer persuadir-nos da verdadeira missão de Cristo, vivificada constantemente pelos sacerdotes, alter Christus. Cristo (ungido) são também os sacerdotes que assumem esta grande responsabilidade, e que, esquecidos pela mídia que focaliza apenas os maus sacerdotes, não mostram a grande maioria que doam suas vidas pelo Reino de Deus. E você, quem diz que eu sou? Pergunta também Jesus a nós hoje. Pergunta a mídia e aos que constantemente atacam a Igreja. “Acaso ignorais que vivo hoje por meio dos sacerdotes?”, poderia indagar-lhes Jesus. Infelizmente vemos que Cristo está sendo novamente crucificado, e O crucificam por que não creem nas palavras da Igreja, por que não querem enxergar nos sacerdotes a imagem viva de Cristo.

A Igreja poderia contemplar apenas um Cristo vitorioso, se nos momentos de tribulação ela não tivesse que contemplar o Cristo crucificado. Pois se excluíssimos o Cristo sofredor das nossas vida não saberíamos o caminho da ressurreição: passar pela cruz.

Mas adiante Jesus chama seus discípulos e expõe-lhes sua missão. Ele não era um Cristo que queria ser engrandecido. Nós O engrandecemos, e é o mínimo que poderíamos fazê-lo, mas Ele não queria ser o “centro das atenções”, o “maioral”. Quão grande foi a surpresa dos discípulos ao ouvirem: “O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da Lei, deve ser morto e ressuscitar no terceiro dia” (v. 22).

Mas como? Será mesmo que Jesus não poderia redimir o mundo de outra forma? Somente derramando o seu sangue Jesus poderia lavar os pecados da humanidade, destruir Satanás e dar novo sentido à nossa existência humana: Pela redenção de Cristo foram-nos abertas as portas da misericórdia e a esperança duradoura da nossa ressurreição no mundo vindouro. Assim, Jesus, com seu lado aberto, não só realiza a profecia – Olharão para aquele que transpassaram (Zc 12,10) –, como também faz com que desse lado brotem abundantemente sangue e água, prefiguração dos sacramentos da Igreja.

Somente se pode alcançar a verdadeira ressurreição depois que passarmos pela morte. Só se chegará à alegria verdadeira depois que superarmos as tribulações. E o primeiro e principal método para superá-las é por meio da oração. Sendo que um cristão que não se põe em atitude de oração não saberá qual é o caminho certo a trilhar.

Enfim, Jesus propõe algo que todos nós devemos assumir, mesmo que pareça paradoxal ou radical: “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia, e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, esse a salvará” (v. 23-24).

Tomar a cruz talvez seja para o mundo de hoje algo impensável. Muitos podem indagar-se como em uma sociedade com tantos prazeres desnecessários e efêmeros, mas que satisfazem, mesmo que apenas no âmbito da vida terrena, pode o homem pensar em caminhar levando uma pesada cruz, dos fardos cotidianos, dos desafios, das pedras que dificultam o caminho cristão? Mas para quem está com Cristo a tristeza maior é estar sem Ele. A dificuldade maior é perdê-lo, o medo maior é não encontrá-lo.

Será realmente que teríamos coragem de perder nossas vidas por causa do nome de Jesus e de tudo o que Ele ensinou e fez? A felicidade duradoura e verdadeira só pode ser encontrada quando pudermos estar face a face com Deus. Quando nos pusermos em atitude de serviço e soubermos que, mesmo onde o perigo é constante, a fidelidade e o amor a Deus se fazem maior.

Só nós poderemos responder a uma pergunta de Jesus que, perpassados estes dois mil anos, continua a ecoar em nossos ouvidos: “E você, quem diz que eu sou?”

Fraternalmente em Cristo Jesus e Maria Santíssima!

A Paz e a Misericórdia: sinais do cristão

Neste domingo somos convidados a centrarmo-nos em duas grandes Festas propostas pela Igreja. Junto com o domingo “in albis” (Segundo da Páscoa), celebramos também a Festa da Divina Misericórdia.

Após o Seu doloroso e salvífico sofrimento e a sua gloriosa Ressurreição – fundamento da nossa fé cristã –, Jesus aparece ressuscitado aos discípulos e manifesta àqueles que não acreditaram que Ele não morre mais. Por meio da Sua morte, da sua Cruz, somos salvos e libertos.

Estavam os discípulos reunidos no primeiro dia da semana, isto é domingo, com as portas fechadas, por medo dos judeus, e devo aqui dizer que depois que eles receberam o Espírito Santo eles não mais reuniam-se com as portas fechadas, mas agora já não tinham medo de testemunhar o grande mistério da Fé Cristã.

Jesus entra e põe-se no meio deles: “Pax Vobis – A Paz esteja convosco” (Jo 20, 19). Com esta saudação do Mestre os apóstolos contemplam, com os olhos fitos e trêmulos, o Senhor que reinou sobre a morte.

Paz! Esta palavra que se traduz em diversas formas, mas que carrega em seu bojo um só significado é um precioso dom que os homens almejam profundamente. Mas muitos não querem que ela chegue à plena consumação. A Paz que Jesus deseja àqueles galileus, homens iletrados, no entanto mais sábios do que nós, é a paz que Ele deseja também a nós, homens que, atravessando estes dois mil e dez anos, buscamos incessantemente a Paz. Não uma falsa paz, edificada sobre interesses materiais e finitos. Mas uma Paz que acompanhar-nos-á, mesmo após a nossa passagem à Glória celeste.

A eles Jesus se dirige dizendo: “Como o Pai me enviou, também eu vos envio” (20, 21). Sim, enviado do Pai! Este Jesus que antes da sua morte proclamou-se Filho de Deus, e manifestou que tal afirmação não era falsa, após a sua Ressurreição ratifica o que antes havia dito e feito. Ele é o Enviado do Pai. Os apóstolos, por Ele, foram enviados. E nós hoje somos também enviados. Eis a missão do cristão: proclamar a boa nova do Reino que manifesta-se como enviados do Senhor.

E este anúncio da Boa Nova não está excluído do anúncio da Misericórdia. Neste dia, dia da misericórdia, instituído pelo Venerável João Paulo II, a pedido do próprio Cristo, somos chamados a mergulhar nesta misteriosa fonte de graças.

Na sua aparição à Santa Faustina Kowalska, Jesus lhe diz:

“Nenhuma alma terá justificação, enquanto não se dirigir, com confiança, à Minha misericórdia. E é por isso que o primeiro domingo depois da Páscoa deve ser a Festa da Misericórdia” (Diário, 570).

Neste dia, estão abertas as entranhas da Minha misericórdia. Derramo todo um mar de graças sobre as almas que se aproximam da fonte da Minha misericórdia;   a alma que se confessar e  comungar alcançará o perdão total das culpas e castigos; nesse dia estão abertas  todas as comportas Divinas, pelas quais fluem as  graças;

“Que nenhuma alma tenha medo de se aproximar de mim, ainda que seus pecados sejam como escarlate. A minha misericórdia é tão grande que por toda a eternidade não a aprofundará nenhuma mente, nem humana, nem angélica. Tudo que existe saiu das entranhas da minha misericórdia” (Diário, 699).

Dize à humanidade que sofre que se aproxime do meu coração misericordioso, e eu a cumularei de paz (Diário 1074)

Que grande graça, amados irmãos. Por maior que seja nosso pecado Jesus está sempre disposto a acolher-nos em sua infinita misericórdia. Ele não faz distinção, Ele deseja que todos recorram a sua incessante e infinita misericórdia.

Quantas vezes em minha humilde ignorância, tomada por fracassos, já duvidei da Misericórdia de Jesus? Quantas vezes já tentei sobrepor meu pecado ao infinito Amor de Deus? Não tenhamos vergonha de reconhecer isso. Jesus quer que nós possamos buscá-Lo de todas as formas em que sua misericórdia possa irradiar sua Luz e lavar, com o Sangue e Água, os nossos pecados, e a nossa débil condição de seres humanos.

Deixarmo-nos purificar e abrir-nos à Misericórdia, significa que devo também ser misericordioso com o outro. Que devo agir como Jesus agiu comigo. Que devo reconhecer que o meu pecado não é menor que o do outro, mais que, assim como eu, ele também pode abrir-se a este infinito mar de graças.

Sabe quando teremos uma humanidade verdadeiramente humana? No dia em que todos abrirem-se à Misericórdia e mergulharem profundamente em sua fonte inexaurível de graças.

Ouçamos o que Jesus disse à Santa Faustina. Aproveitemos o tempo oportuno: “Antes de vir como justo Juiz, venho como Rei da Misericórdia… agora prolongo-lhes o tempo da Misericórdia, mas ai deles, se não reconhecerem o tempo da Minha visita…” (Diário 83, 1160).

Paz e bem!