A crise de fé na existência do homem contemporâneo

“O que vimos e ouvimos nós vos anunciamos” (1Jo 1,3)

Por ocasião do Ano da Fé faço chegar minha saudação cordial aos irmãos e irmãs que com ardoroso empenho se dedicaram de forma corajosa e fiel para o bom êxito deste período de graças abundantes. Tenho dito que o Senhor nos proporcionou prodígios imensos com estes dias benéficos propostos pelo nosso querido Papa emérito Bento XVI e abraçado por toda a Igreja como um convite para renovarmos a nossa fé no “Deus de todas as consolações” (2Cor 1,3).

Agora, tendo chegado à conclusão deste ano de graça, desejamos auspicar os votos provenientes do nosso íntimo para que se possam haurir todos os ensinamentos que usufruímos neste tempo, sejam eles vindos do Magistério, sejam eles vindos da Sagrada Escritura vivenciada no cotidiano. Por isso este artigo procura retratar a necessidade primordial de conservar a fé no coração e na história do homem contemporâneo. Há, indubitavelmente, uma lacuna no que tange ao sensus fidei no seio da humanidade. Temos muitos homens; temos poucos humanos. Perdida a fé se esvai a esperança daquilo que chamo de metanóia da interioridade, ou seja, mudança, conversão de costumes, hábitos e vida. Sem esta caímos na indiferença do grito ecoante dos indefesos e pequenos nos negando à prática da caridade, maior de todas as virtudes.

A crise de fé, entretanto, não vem sozinha. Antes, vem acompanhada de uma crise de grande magnitude: a existencial, que afeta a vida, os direitos, a fé e a dignidade, de modo particular dos que são postos à margem de qualquer posição. É comum (até necessário!) que a sociedade seja abalada por esta crise. Cada homem é chamado a lutar contra si, descobrir-se em meio a tantas propostas e tantas formas de propor; perguntas que caracterizam os percursos da vida humana. Porém, temos percebido que tem ela ganhado uma força aparentemente incontrolável, onde ressaem mais as inconstâncias e preocupações subjetivas do que a fé que une a todos sob um mesmo amor redentor.

Não obstante, no decorrer destes dois milênios a Igreja tem feito com que o homem questione a si mesmo de forma sadia e coerente não para que se torne um agnóstico, alguém descrente, mas para que possa dar razão e sentido à sua fé. Como bem nos recordara o Bem-aventurado Papa João Paulo II na Carta Encíclica Fides et Ratio: “Na base de toda a reflexão feita pela Igreja, está a consciência de ser depositária duma mensagem, que tem a sua origem no próprio Deus (cf. 2Cor 4,1-2). O conhecimento que ela propõe ao homem não provém de uma reflexão sua, nem sequer da mais alta, mas de ter acolhido na fé a palavra de Deus (cf. 1Ts 2,13)” (nº 7).

Propus-me a meditar sobre esta crise de fé, que está intrinsecamente unida a crise existencial, para que este ano não seja um labor em vão mas um momento oportuno onde a palavra outrora pregada por São Paulo ecoe incessantemente no mundo hodierno: “Prega a Palavra, quer agrade, quer desagrade” (2Tim 4,2).

Em uma de suas poesias, Manoel de Barros escreveu: “No que o homem se torne coisal – corrompem-se nele os veios comuns do entendimento”.

Também hoje fazemos nossas as suas palavras. O que significa ser o homem “coisal”? Deveras, é o fato de que este se torne tão somente uma “coisa”, um ser casual, produto da sociedade consumista e exacerbadamente capitalista; perde-se de si, perde-se dos outros; está no mundo sem descobrir-se e sem redescobrir a beleza da vida e a finalidade da sua existência. Este cenário despontou há alguns séculos e torna-se sempre mais costumeiro e insensível à realidade dos sinais propostos pelas concepções filosóficas ou pela religião a respeito de Deus. Gradativamente vai o homem perdendo a esperança com relação a sua fé e ao “por que” das coisas. Neste consiste o imperioso dever de fazermos com que o homem enverede novamente pelo caminho da luz e da razão.

Seria demasiado extenso tratarmos a fundo do problema da crise existencial, além de desfocarmos da centralidade da nossa carta. Por isso, procurarei explanar brevemente o tema limitando-me a enumerar alguns aspectos que incidem de forma pungente em nosso cenário.

O relativismo e as problemáticas diante da fé

O primeiro destes aspectos é o relativismo, denunciado inúmeras vezes pelo Sumo Pontífice o Papa Emérito Bento XVI. Uma das suas mais famosas denúncias deu-se na Santa Missa Pro Eligendo Pontifice, quando ainda era o então Cardeal Ratzinger:

“Ter uma fé clara, segundo o Credo da Igreja, muitas vezes é classificado como fundamentalismo. Enquanto o relativismo, isto é, deixar-se levar ‘aqui e além por qualquer vento de doutrina’, aparece como a única atitude à altura dos tempos hodiernos. Vai-se constituindo uma ditadura do relativismo que nada reconhece como definitivo e que deixa como última medida apenas o próprio eu e as suas vontades”.

Sábias palavras estas! O que é bom torna-se mal; o que é mal torna-se bom. É este o relativismo que devasta a nossa crença e a nossa sociedade nos fazendo homens descrentes, fechados à realidade da fé e da salvação. Se cremos devemos ter consciência de que não cremos individualmente mas em comunidade eclesial.  Crer, portanto, é adesão à base da nossa fé, que é a Trindade, perfeita Comunidade. Se a fé torna-se sinônimo de isolamento não subsiste porque se torna discrepante com o Evangelho e com o modelo de Igreja que nos foi transmitido na vicissitude dos séculos. É necessário que aprendamos a ser individuais sem sermos individualistas. “A fé não é um fato privado, uma concepção individualista, uma opinião subjetiva, mas nasce de uma escuta e destina-se a ser pronunciada e a tornar-se anúncio” (Cart. Enc. Lumen Fidei, 22).

Se por um lado é demasiado perigoso que a fé se torne individualista, o é também que ela assuma uma dimensão comunitária desvirtuada do seu real objetivo e deformada da sua essencialidade quando deixamos de crer com todos para crer com alguns. O relativismo permeia esses dois âmbitos. Evidencia-se desta feita que, para responder às reais razões da problemática existencial do homem e para conduzi-lo à Verdade, devemos fazer a correlação entre e razão. Relembrando o saudoso João Paulo II em sua já citada encíclica, também nós queremos reafirmar que “a razão, privada do contributo da Revelação, percorreu sendas marginais com o risco de perder de vista a sua meta final. A fé, privada da razão, pôs em maior evidência o sentimento e a experiência, correndo o risco de deixar de ser uma proposta universal” (nº 48).

Não prescinde do homem sua fé, mas ela é dom de Deus que se manifesta e que se lê sapientemente com os sinais dos tempos e guiada unicamente para a Verdade. Por isso, restringir a fé de um caráter universal para uma particularidade é também delimitar espaços para a verdade e interpretá-la ao nosso bel prazer, fazendo-nos descrentes com a realidade imperiosa da salvação e tornando-nos crentes com a alucinógena realidade do querer. O teólogo Jean Daniélou bem nos relatou esta realidade em seu livro O futuro no presente da Igreja: “O mistério da fé está, certamente, acima e para além de toda expressão humana; nenhuma definição poderá jamais esgotar todo o seu conteúdo de verdade” (Ed: Paulinas, 1974).

A Verdade primeira consiste na Pessoa Daquele que diz: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”, acrescentando logo em seguida: “Ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14,6). E aqui – embora não nos seja um momento exegético – deveríamos nos perguntar, para assim melhor evidenciarmos o caminho da verdade: Por que diz Cristo “vem” e não “vai” ao Pai? Desejaria ressaltar dois motivos pelos quais a verdade torna-se inacessível se não for trilhado o caminho que Cristo evidencia:

a)      O primeiro refere-se àquela afirmação de caráter salvífico: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30), reafirmado a sua unicidade com Deus e de onde viera: não de outro lugar, senão do seio do Pai. Ele e o Pai são um! Diferença na Pessoa, igualdade na divindade. É um caminho que requer autenticidade e o amor pela verdade e pelo conhecimento. Santo Agostinho bem escrevera: “Onde existe o Amor existe a Trindade: um que ama, um que é amado e uma fonte de amor” (De Trinitate).

b)      A segunda frase é, por assim dizer, um complemento quanto à primeira. Nenhum outro é o caminho para o Pai senão em Cristo. Só Ele é a via de acesso para a salvação do homem, como dissera Paulo: “Unus enim Deus, unus et mediator Dei et hominum, homo – um só Deus e há um só mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo, homem” (I Tim 2,5). Embora muitos sejam os ideais e as formas de buscar o conhecimento, todas resumem a ideia paulina dita em algumas linhas antes desta citação, quando afirma que Deus é Aquele que “deseja que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (v.4). Um caminho é o da verdade e nós podemos adorá-lo porque é também uma Pessoa. Uma vez que “ninguém pode sinceramente ficar indiferente quanto a verdade do seu saber” (Fides et ratio, 25), a Sagrada Escritura fomenta um conhecimento ao homem que – provenha de Deus ou provenha de sua consciência – é via estreita para chegar-se a esta Verdade que Jesus se-nos apresenta. Porém, tendo conhecido o Evangelho, o homem é convidado a refletir sua postura anterior para que, conscientemente avaliadas, sejam aderidas ou não. Tendo aderido torna-se partícipe, mas se ignora então persiste no erro.

O testemunho como essência da fé

Aqui adentramos em um segundo aspecto da crise de fé que vai tentando sorrateiramente corroer as estruturas da verdade na qual cremos: falta de testemunho. Para os que creem o testemunho não é privilégio, mas exigência e necessidade de um autêntico discipulado. O verbo crer é um sinônimo (para o cristão) do verbo testemunhar, e os dois se conjugam na linguagem universal da fé.

A falta de testemunho, sobretudo por parte dos membros, tem impactado muitos fiéis que, com a fé já atormentada pela forma periclitante de questionamentos, se deparam com a incoerência de vida dos que se dizem parte do Corpo Místico de Cristo mas que agem como se nele não estivessem. Por essa razão este ano não nos convidou somente a um renovando modelo de fé, mas a um testemunho convicto e convincente daquela mensagem que nos foi dada e que deve por nós ser testemunhada.

A palavra não é nossa! A mensagem não é da Igreja! Tudo lhe advém por Cristo, Senhor e Juiz da História. Afinal, “quem se abriu ao amor de Deus, acolheu a sua voz e recebeu a sua luz, não pode guardar este dom para si mesmo. Uma vez que é escuta e visão, a fé transmite-se também como palavra e como luz” (Cart. Enc. Lumen Fidei, 37). Aos que conheceram e se abriram à graça da salvação, é outorgada uma necessidade de fé que não acomoda, antes incomoda, inquieta e estimula a transmitir também o que já vem sido anunciado (cf. ICor 15,3).

Por isso é imperioso o nosso dever de advertir para que não se pregue aquilo que não nos convém ou não é de nosso caráter missionário. Devemos sim pregar sobre a necessidade e a essência da nossa missão cristã que consiste naquilo que pertence ao sagrado Depósito da Fé. Quando a religião deixa de pregar sobre Deus e o seu Evangelho e passa a ser transmissora de suas convicções institucionais, ou de convicções pessoais de seus membros, deixa de ser semente de Deus e passa a ser joio do Diabo (cf. Mt 13,39).

O momento decisivo do encontro com Deus não deve estar esperançado somente na expectativa de um mundo vindouro, mas deve sê-lo, já aqui, um preclaro sinal de que Aquele em quem nós acreditamos não nos deixará no vazio, na obscuridade; ao contrário, nos ilumina e revigora, nos dá luzes, mesmo que por vezes as trevas pareçam predominar e o cheiro de morticínio, desprezo e ignomínia se elevem como um clamor versado na desgraça alheia. Neste âmbito Paulo nos conclama a um renovado olhar sobre a ação de Deus no mundo nos pedindo para não desprezar a nossa fé e colocar em dúvida o querer de Deus em meio às adversidades: “Sei em quem pus minha confiança” (II Tim 1,12).

Somos chamados a unir-nos de forma particular aos nossos irmãos que sofrem pelas perseguições por testemunharem sua fé no Cristo Ressuscitado e por isso são injustiçados, humilhados e mortos. O Senhor olha também por estes mártires do novo milênio que segue não menos rigoroso com quantos se põe a serviço do Evangelho.

A concretude da fé na caridade

A verdadeira fé não se faz isolar. Ela nos descerra a um encontro com a verdade centrada no Cristo, contemplada em sua vida e sentida pela sua presença. Santo Tomás de Aquino, exímio em sua sabedoria e humilde em sua vida, fala a respeito de uma oculata fides (uma fé que vê) dos Apóstolos (cf. Summa theologiae, III, q. 55, q. 2, ad 1) (cf Lumen Fidei, 30). Essa “visão” traduz-se na expressão máxima da fé que é a caridade. Por isso, a advertência de São Tiago constitui, ainda mais para a nossa sociedade capitalista e egoísta que não olha a necessidade dos desfavorecidos, uma cartilha de caridade cristã, como o é toda a Escritura Sagrada: “Tu tens a fé, e eu tenho as obras; mostra-me a tua fé sem as tuas obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras” (Tg 2,18).

Quando o homem se fecha para o grito daquele que sofre, fecha-se também ao grito de Cristo que clama e é solícito para com os pequenos do seu Reino. O mundo tem fome de pão e ainda mais esfomeado está pela Palavra viva que produz a fé. Aos que padecem pela fome repetimos o apelo paternal do Servo de Deus Papa Paulo VI: Não basta alimentar os esfomeados: ainda é preciso assegurar a cada homem uma vida conforme a sua dignidade” (Discurso à ONU, 04/10/1965).

Se, por um lado, urge a necessidade de um olhar pelos irmãos necessitados e pelos locais em via de desenvolvimento, mas que sofrem empecilhos por parte daqueles que detém grande parte do poder econômico; por outro faz-se também atenciosa a situação daqueles que faltam à caridade para com o próximo em estado espiritual. Tantos são os que, fechados à comodidade de suas situações estáveis, não atentam ao apelo dos irmãos sofridos e privados do anúncio de Jesus Cristo. Se a fé é dom de Deus não deve ser retida. Podemos reter o que é nosso, mas jamais o que pertence a todos. “A fé torna-se operativa no cristão a partir do dom recebido, a partir do Amor que o atrai para Cristo (cf. Gl 5,6) e torna participante do caminho da Igreja, peregrina na história rumo à perfeição” (Lumen Fidei, 22).

Novamente apelo para a consciência moral dos povos, sobretudo dos governantes, para que escutem o brado dos irmãos que são tratados como aquele da parábola do rico epulão e do pobre Lázaro (cf. Lc 16,19-31), deixado à margem e do qual vinham os cachorros para lamber as suas feridas.  No dia da morte, nada ficará sem que se preste contas a Deus. E então, Lázaro é “levado” para o alto pelos anjos, ao seio de Abraão. Finalmente, o pobre entra na jubilosa comunhão do banquete messiânico; o rico, ao contrário, “foi sepultado… na morada dos mortos, achando-se em tormentos…” (Lc 16, 22-23).

O Santo Padre Bento XVI em sua homilia na Missa dos aposentados alertou que há de ter-se cuidado com três pontos fundamentais em que o dinheiro pode prejudicar a vida do homem e do qual vemos bem frisado no Evangelho:

a)      A riqueza faz definhar a vida do pobre: O Evangelho faz a descrição do homem rico como ornado de ouro, abastardo de alimento, fechado em sua comodidade; ignorava o grito do pobre em sua porta, não tinha compaixão para aquele seu irmão, filho do mesmo Deus, que lá estava atirado. Aqueles desfavorecidos não possuem o capital e os recursos necessários para a sobrevivência, podendo tão somente contar com a ajuda dos que são bem ressarcidos em seu meio de trabalho ou em suas posições sociais. A Igreja se solidariza com estes e lhes faz estreitar com o Cristo sofredor, que não os ignora, mas é presente em suas necessidades cotidianas.

b)      A riqueza faz definhar a vida dos ricos: Neste segundo aspecto retratemos o prejuízo da riqueza para a vida dos ricos. Novamente fazemos ecoar as palavras do Servo de Deus Paulo VI, que duramente exortou os povos a recobrarem o senso caritativo da humanidade: “A solidariedade universal é para nós não apenas um fato e um benefício, mas também um dever” (Carta Enc´. Populorum Progressio, 17). Quando as pessoas de condição social elevada menosprezam o grito de desespero dos povos que padecem pela fome, pela falta de oportunidade, pelo desemprego e tantas outras desgraças a que são lançados, perdem a sua dimensão humanística e cristã. Aliás, é isso que tende o homem soberbo: sua autossuficiência não o faz reconhecer-se filho de Deus e faz desconhecer nos irmãos o sinal complacente do Cristo sofredor. Como nos faz saber o Santo Padre Bento XVI: “À aspiração frustrada dos pobres durante a vida corresponde o desejo dramaticamente negado aos ricos, de acederem ao banquete messiânico: ‘Ai de vós, ricos, porque já dispondes da vossa consolação’ (cf. Lc 6, 25)” (Homilia na Missa para os aposentados).

c)      A riqueza faz definhar a fé dos ricos: Por fim desejamos acender a este terceiro aspecto que se manifesta no que concerne à fé do rico. Deveríamos esclarecer aqui que a riqueza e a pobreza não devem apenas ser vistas num contexto exterior, mas também interior, para que não caiamos numa utopia ou numa concepção ideológica de pobreza e riqueza. De fato, é imperioso que tenhamos cuidado para não valorizarmos o pobre que é soberbo e esquecermo-nos do rico que é pobre. Voltemos mais uma vez à parábola. O rico, já na mansão dos mortos, pede que Abraão mande Lázaro alertar seus familiares para que também eles não caiam no tormento. Mas não lhe é concedido tal, uma vez que – segundo a narração – eles já possuíam a palavra dos profetas. Não necessitamos de mensagens dos mortos para orientarmos a nossa vida nos caminhos do Evangelho; hoje temos a Igreja, os ensinamentos dos santos e diversos meios de combatermos o nosso egoísmo e o amor ao deus-dinheiro. Por isso, se o rico deposita a sua fé mais na riqueza do que em Deus, ouvirá aquelas palavras outrora proferidas por Jesus: “Louco! Ainda esta noite será pedida conta de tua vida; e para quem ficará o que deixastes?” (Lc 12,21). A verdadeira humildade não consiste tão somente na renuncia de bens materiais, mas sobretudo no serviço a Verdade.

Conclusão

Enfim, queremos novamente elevar aos céus nossos singelos e sinceros agradecimentos a Deus pelo dom do Pontificado do Santo Padre Bento XVI que, com o raio da sabedoria divina, nos presenteou com este ano oportuníssimo à nossa fé e comunhão eclesial. Em nossa sociedade que menospreza o crer em Deus como fruto de uma “ilusão” e “se bem que nos encha de amarga dor o ver a fé definhar nos bons, e contemplar como, pelo falaz atrativo dos bens terrenos, lhes decresce nas almas e aos poucos se apaga o fogo da caridade divina, muito mais nos atormentam as maquinações dos ímpios, que, agora mais do que nunca, parecem incitados pelo inimigo infernal no seu ódio implacável contra Deus, contra a Igreja e, sobretudo, contra aquele que representa na terra a pessoa do divino Redentor e a sua caridade para com os homens” (Carta Enc. Haurietis Aquas, 67).

Por isso, em comunhão de caráter universal, queremos que esta iniciativa do Ano da Fé seja um momento de perpétua renovação onde já não mais possam contar as nossas vantagens, mas predomine o serviço renovado e ardente ao evangelho. “Por conseguinte, só acreditando é que a fé cresce e se revigora; não há outra possibilidade de adquirir certeza sobre a própria vida, senão abandonar-se progressivamente nas mãos de um amor que se experimenta cada vez maior porque tem a sua origem em Deus” (Carta Apost. Porta Fidei, 7).

Que nosso crer não seja uma apologia, uma forma de engrandecimento, mas um sinal de que Deus não está restrito a um passado. Ele nos alcança, fala também a nós e nos chama a sermos cristãos de firmes convicções. Não idealizemos a fé, mas a testemunhemos! Se a fé se projeta apenas no passado é uma mera lembrança; se se projeta apenas no presente é inteligível; se se projeta apenas no futuro é utopia. Ela deve albergar essas três realidades: aprender com o passado em um olhar de esperança para o futuro e uma ação no hoje da história.,

Invoquemos a Maria, Mãe da fé, para que junto ao Seu Filho faça crescer nos homens o desejo de procurarem trilhar cotidianamente, a passos vagarosos, mas firmes, os caminhos de Deus. Que todos se abram à graça salvífica e sintam Sua estreita proximidade para conosco, mesmo diante dos tormentos da sociedade contemporânea. Que este ano deixe-nos a certeza de que a vida cristã deve sempre nos ensinar a conjugarmos a fé com a esperança e o amor. Essas são as virtudes basilares para conhecer o Cristo e apresentá-Lo ao mundo. O conhecimento perpassa antes de tudo a experiência do encontro. Só conhece, de fato, quem encontra e quem convive. Nós devemos conviver com Deus!

Em Cristo Jesus, peço sobre vós as saúdes e bênçãos do céu.

Jequié, 9 de novembro – Festa da Dedicação da Basílica de São João de Latrão – do Ano do Senhor de 2013

Ian Farias de Carvalho

Acreditar no que se quer ou no que se deve?

Ninguém pode voltar-se para Deus e para o mundanismo ao mesmo tempo.

O ardoroso empenho para o renovamento da Fé na Igreja e nos corações é como chama crepitante que procura iluminar as nações, mesmo aquelas mais distantes, e aproxima-se dos corações, mesmo os mais gélidos. Luz e trevas parecem pairar sobre o nosso mundo hodierno. De um lado uma realidade sombria, que nos cerca pelos crimes atrozes vaticinados contra a vida do homem e sua dignidade; de outro lado temos a luz, daqueles que, conscientes da sua missão, testemunham de forma clarividente o exercício da fé cristã, conformando-se ao que dissera Cristo aos apóstolos: “Vós sois o sal da terra… vós sois a luz do mundo” (Mt 5, 13.14).

Sois sal; sois luz! Pois quisera, Senhor, que todas as pessoas – ao menos aquelas que se comprometeram convosco – fossem sal; quisera que aquelas que dizem Vos ouvir e enchem vosso templo fossem luz. Mas assim não é!

Fosse o mundo mais fiel, que digno de fé; mais amante, que amado; mais humilde, que soberbo. E muitos corações, ainda assim, preferem as glórias do mundo, que são vãs e passageiras, que as glórias eternas e alegres de Deus. A sociedade, com seu rápido avanço tecnológico, está mais centrada em saciar seus bolsos de dinheiro do que saciar seus corações áridos de palavra e amor. Mundo injusto, cruel, cego… Até quando vereis apenas o que quereis, mas não o que deveis? Serás salvo pelo que queres ver ou pelo que ignoras? Dizem os muitos teólogos que o oitavo sacramento é o da ignorância. Como? Sim, e assim quisera Deus que o fosse para cumprir o seu projeto salvífico de salvar o maior número que almas. Esta ignorância, entretanto, distingue-se daquela outra que não edifica, mas destrói. Há, pois, dois tipos de ignorância: A dos que não conhecem porque não querem e a dos que não conhecem porque não podem.

Quanto a primeira está dito no livro da Sabedoria: “Postea non suffecit errasse eos circa Dei scientiam, sed et in magno viventes inscientiae bello, tot et tam magna mala pacem appellant – Como se não bastasse terem errado acerca do conhecimento de Deus, embora passando a vida numa longa luta de ignorância, eles dão o nome de paz a um estado tão infeliz” (14,22). Infeliz do homem que conhece e insiste em viver uma falsa paz, forjada num lapso de felicidade e numa lacuna existencial. O Cristianismo não deve coadunar com essa pacificidade contraditória que subsista na infelicidade do homem, em sua autodestruição, na perfídia do mal que avantaja sobre os pressupostos existências daquela Paz verdadeira, que Cristo porta à humanidade. E aqui cabe à Igreja exortar para que não se enveredem em caminhos tortuosos senão naquela via verdadeira de salvação que consiste no Evangelho.

O grande problema dessa crise existencial dá-se sobretudo por aquilo que foi chamado pelo então Cardeal Ratzinger como “ditadura do relativismo”, o que pretendo tratar num próximo artigo, atendo-me aqui àquilo que foi proposto em nosso tema. Em quem devemos acreditar ou no que acreditar? Naquilo que consiste em uma realidade visível e agradável aos nossos olhos ou naquela em que somos movidos pela fé, pelo ímpeto que nos leva a conhecermos as razões pelas quais cremos? Para isso devemos nos deter agora na segunda ignorância.

Esta consiste naquela que adverte o livro de Eclesiásticos e que é o “oitavo sacramento”, como comumente costuma-se dizer: “Qui prius fui blasphemus et persecutor et contumeliosus; sed misericordiam consecutus sum, quia ignorans feci in incredulitate – a mim que outrora era blasfemo, perseguidor e injuriador. Mas alcancei misericórdia, porque ainda não tinha recebido a fé e o fazia por ignorância” (I Tm 1,13).

A advertência do Apóstolo São Paulo vale também para os tantos a quem o Evangelho permanece ainda anônimo. Sabemos que a estes, não por culpa própria, mas por infortúnio, o evangelho é ainda um enigma a ser desvendado, e, portanto, não o amam e não o testemunham. Esses são aqueles para os quais a Igreja não desvia os olhos misericordiosos, sendo-lhes imputadas as palavras da Lumen Gentium:

“Com efeito, aqueles que, ignorando sem culpa o Evangelho de Cristo, e a Sua Igreja, procuram, contudo, a Deus com coração sincero, e se esforçam, sob o influxo da graça, por cumprir a Sua vontade, manifestada pelo ditame da consciência, também eles podem alcançar a salvação eterna. Nem a divina Providência nega os auxílios necessários à salvação àqueles que, sem culpa, não chegaram ainda ao conhecimento explícito de Deus e se esforçam, não sem o auxílio da graça, por levar uma vida recta. Tudo o que de bom e verdadeiro neles há, é considerado pela Igreja como preparação para receberem o Evangelho, dado por Aquele que ilumina todos os homens, para que possuam finalmente a vida. Mas, muitas vezes, os homens, enganados pelo demónio, desorientam-se em seus pensamentos e trocam a verdade de Deus pela mentira, servindo a criatura de preferência ao Criador (cfr. Rom. 1,21 e 25), ou então, vivendo e morrendo sem Deus neste mundo, se expõem à desesperação final” (n. 16).

Aos seus filhos a Igreja dirige o solícito apelo para que não se cansem de propagar, com a própria vida, o Reino vindouro que prefigura-se na Igreja e concretiza-se no advento definitivo do Senhor, fazendo com que milhares possam gradativamente aderirem ao Reino de amor e paz, edificado sobre a justiça e a verdade.

Missão: objetivo da vida cristã

Mesmo viajando, dediquei um tempo a escrever o artigo deste XIV domingo do Tempo Comum. Precisamente porque no Evangelho encontramos uma fonte riquíssima sobre a necessidade do “ser missionário” hoje, especialmente em um mundo conturbado pelos valores anti-evangélicos e uma descristianização da humanidade. Enviando os discípulos para a missão, Jesus que mostrar-nos que o cristão deve estar inserido na missão, e, sobretudo, que este é o objetivo específico da vida cristã: anunciar Jesus a outros que ainda não o conhecem.

“Disse-lhes: Grande é a messe, mas poucos são os operários. Rogai ao Senhor da messe que mande operários para a sua messe” (Lc 10, 2). Em nossos dias, a Igreja tem repetido este mesmo pedido de Jesus. Poucos são os operários. E são poucos não por falta de quem os guie, mas porque são profundamente tomados pela escuridão das trevas. Nosso Senhor não apresenta forma de vida fácil para seus seguidores; pelo contrário, estes terão que sofrer muito, e, se preciso, terão que doar suas vidas pela causa do Reino de Deus. E precisamente aqui se prova a verdadeira capacidade de um discípulo, sua sinceridade e o seu amor incondicional pelo Evangelho. No domingo passado Jesus apresentou os meios pelos quais é possível segui-lo. Agora ele apresenta as conseqüências, mas também os inúmeros milagres que poderão ser operados, em seu nome, para a conversão das almas e para o perdão dos pecados.

A constante necessidade da Igreja para que aumente o número de sacerdotes é justamente porque ela tem esse perene dever de levar Jesus a lugares onde ele ainda é ocultado, às vezes por falta de conhecimento, outras vezes por causa de um sistema político capitalista e comunista, outras vezes, ainda, por causa de conflitos religiosos. E nesta sua missão ela vê se cumprir as palavras de Cristo: “Ide; eis que vos envio como cordeiros entre lobos” (Lc 10, 3). Sim, em uma sociedade tomada por “lobos” que querem impedir a expansão do Evangelho e a sua ação salvífica entre os homens, a Igreja toma para si todas as fadigas que suporta em nome de Cristo, e imperiosamente faz com que a Boa notícia seja anunciada a todos os homens deste mundo.

Jamais a Igreja se calará, pois sua missão não parte deste mundo, mas parte de uma ação de Cristo, de um desejo manifestado pelo Salvador. Nem os grandes imperadores puderam silenciar a Igreja. Nem este mundo poderá silenciar a Igreja, mas a Igreja silenciará o mundo, com todos os seus pecados, as suas omissões no seguimento a Cristo, a sua falta de amor. Ela mostra ao mundo que, só em Cristo, a humanidade poderá falar aquilo que é útil e que produz vida, santidade.

“Jesus disse-lhes: Vi Satanás cair do céu como um raio” (Lc 10, 18). Também nós poderemos contemplar esta visão, de ver cair, não mais Satanás, mas as suas artimanhas, suas ideologias e projetos, sua investidura contra a Santa Fé Católica e contra o Reino de Deus, prefigurado na Igreja.

Verdadeiramente, maior que as investidas do demônio, e mais salutar que seus ensinamentos, é a Cruz de Cristo, penhor da humanidade e salvação dos que crêem.

Peçamos ao Senhor que nos guie e faça de nós pessoas comprometidas com o Evangelho, para que aconteça conosco o que aconteceu com os apóstolos: estejamos com nossos nomes escritos no céu. E isto só poderá acontecer quando, vencendo as batalhas e cumprida a nossa missão, repousarmos em Cristo.

Fraternalmente em Cristo Jesus e Maria Santíssima!