Cardeal Burke: A “plenitude do poder” não é poder absoluto

P: Muitas pessoas temem que finalmente o Sínodo utilizará uma linguagem dupla. Certas razões “pastorais” são usadas para mudar de fato a doutrina. Tais temores são justificados? 

R: Sim, são. Com efeito, um dos argumentos mais insidiosos utilizados no Sínodo a fim de promover práticas contrárias à doutrina da Fé é esta aqui: “não tocamos na doutrina, cremos no matrimônio com a Igreja sempre acreditou; realizamos apenas mudanças na disciplina”. Todavia, na Igreja católica isso nunca pode existir, pois, na Igreja católica, a disciplina está sempre ligada diretamente ao ensinamento. Em outras palavras: a disciplina está a serviço da verdade da Fé, da vida em geral na Igreja católica. Logo, você não pode dizer que você muda a disciplina e que isso não tem efeitos sobre a doutrina que ela protege, salvaguarda ou promove.

P: Devemos sempre acreditar que a Bíblia é a autoridade suprema na Igreja e que ela não pode ser manipulada, nem mesmo pelo Papa e os bispos?

R: Absolutamente. A palavra de Jesus é a verdade à qual somos chamados a obedecer e, por primeiro, à qual o Santo Padre deve obedecer. Durante o Sínodo, às vezes foram feitas referências à plenitude do poder do Santo Padre, dando a impressão de que o Santo Padre poderia até, por exemplo, dissolver um casamento válido que foi consumado. E isso não é verdade. A “plenitude do poder” não é poder absoluto. É a “plenitude do poder” de fazer o que Cristo nos pede para fazer, em obediência a Ele. Portanto seguimos Nosso Senhor Jesus Cristo, a começar pelo Santo Padre.

P: Um arcebispo disse recentemente: “Evidentemente seguimos a doutrina da Igreja sobre a família”. E acrescentou: “até que o Papa decida de modo diferente”. O Papa tem o poder de mudar a doutrina?

R: Não, é impossível. Sabemos o que o ensino da Igreja sempre foi. Ele foi expresso, por exemplo, pelo Papa Pio XI, em sua carta encíclica Casti connubii. Ele foi expresso pelo Papa Paulo VI na Humanae vitae. Ele foi expresso de um modo magnífico pelo Papa São João Paulo II na Familiaris Consortio. O ensinamento é imutável. O Santo Padre atribui a função de manter esse ensinamento e apresentá-lo com novidade e frescor, mas não mudá-lo.

(Excerto da entrevista do Cardeal Burke ao LifeNews)

Deus habita em uma família

Após a Solene Celebração do Natal, e ainda nestas festividades, dado que estamos na Oitava (os oito dias que se seguem após a celebração do Natal, como sendo um único e mesmo dia), a Igreja nos convida a celebrar a Festa da Sagrada Família, protótipo para todas as famílias.

Vivemos em uma sociedade que visa desestruturar a família, “Igreja doméstica” (Papa João Paulo II) e de onde brotam todas as vocações. Neste dia, contemplando a condição humana de Jesus, vemos como Ele também quis estar numa família, dando valor à mesma. A família é o núcleo da sociedade. Não há sociedade sem família! Os diversos programas que vemos hoje, sobretudo na questão da sexualidade, como os métodos que visam impedir o nascimento de novos seres humanos, devem ser repudiados pois se põe contra os preceitos evangélicos. A família é dom de Deus e, como tal, deve ser preservada.

Na primeira leitura medita-se o livro do Eclesiástico onde se ressalta o respeito aos pais, o qual todos os filhos devem manifestar. É necessário que os filhos, para constituir uma damília segundo o Evangelho, saibam respeitar os pais. O próprio Jesus, como nos narra São Lucas, respeitava a sua mãe e ao seu pai, José, mesmo sabendo que não era pai biológico: “Jesus desceu, então, com seus pais para Nazaré e era obediente a eles” (Lc 2,51). Também a obediência aos pais faz parte dos mandamentos. E por que? Será tão importante essa obediência que, por meio dela, poder-se-á gerar cidadãos melhores e cristãos melhores. Também para a glória a honra é uma das vias necessárias. Se não honramos como poderemos chegar a glória? Se não honramos nossos pais poderíamos honrar a Deus?

O livro do Eclesiástico ainda afirma: “Deus honra o Pai nos filhos e confirma, sobre eles, a autoridade da mãe. Quem honra o seu pai, alcança o perdão dos pecados; evita cometê-los e será ouvido na oração cotidiana” (3, 3-4).

A honra dada aos pais confirma-se nos filhos. E que retribuição teremos por esta honra atribuída? O perdão dos pecados, além de não mais cometê-los. E mais ainda: será ouvido na oração cotidiana. Para isto basta que respeitemos, amemos, tenhamos paciência, com nossos pais.

Deus não é mais inacessível, mas faz-se homem na pessoa de Jesus. Por isso poderíamos perguntar: como Deus, criador de tudo, submete-se à tutela de Maria e José? Ora, fazendo-se homem Jesus aceita também ser formado como homem, Ele aceita passar por todos os estágios e todas as condições humanas, exceto o pecado.

O amor que Deus tem por nós manifesta-se também no amor dos pais. Não pertencemos a ninguém! Os filhos não pertecem aos pais, mas são confiados por Deus a eles para que cuidem por um tempo. Abramo-nos ao amor de Deus! Deixemos que seu amor possa transormar-nos e fazer de nós pessoas mais convictas da nossa identidade cristã.

Na segunda leitura São Paulo dirige uma mensagem a família, mas também nos une a família trinitária, que é modelo perfeito e inigualável de família.

“Vós sois amados por Deus, sois os seus santos eleitos. Por isso, revesti-vos de sincera misericórdia, bondade, humildade, mansidão e paciência, suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos mutuamente, se um tiver queixa contra o outro. Como o Senhor vos perdoou, assim perdoai vós também” (Cl 3, 12-13).

Este convite de Paulo, não obstante esses dois mil anos, continua a ressoar de forma clara e nos convida a abrirmo-nos ao amor de Deus. Somos chamados à santidade, somos eleitos, mas, para isso, devemos assumir condições que muitas vezes não nos parece fácil. Fomos perdoados pelo Senhor, e em cada confissão que um sacerdote administra é Deus que nos perdoa; é Ele que se volta para nós com olhar de misericórdia e ternura. E assim como por Ele fomos perdoados, perdoemos também nós. Não guardemos mágoas, ressentimentos, mas abramo-nos ao perdão. Se ao menos não amamos o próximo, que o suportemos, como nos recomenda o apóstolo, de certo, há pessoas que são impossíveis de se amar.

Que a palavra de Cristo habite em vós com abundância” (v. 16). Cristo é A Palavra por excelência do Pai. O Verbo, o Logos, faz-se carne para que os homens possam tornar-se divinizados. A condição divina do homem é a contemplação da face de Deus por toda a eternidade. Assim, o homem tornar-se divino não é impossível, mas uma condição escatológica de participação no Reino de Deus. Logo, ao nos convidar a abrimo-nos a palavra de cristo, Paulo nos chama a abrimo-nos a Cristo, Senhor e Juiz da História. As famílias são também convidadas a estarem com Cristo, só assim elas encontrarão força para resistir às tentações e superar as tendências relativistas e pornográficas dos dias de hoje, que tentam infundir novas ideias em seu seio.

Falando às famílias São Paulo diz: “Mulheres, sede submissas a vossos maridos, como convém no Senhor. Maridos, amai vossas esposas e não sejais ásperos com elas. Filhos, obedecei em tudo aos vossos pais, pois isto agrada ao Senhor. Pais, não irriteis vossos filhos, para que eles não desanimem” (v. 18-21).

O respeito e o amor na família fazem falta em muitos lares hoje. São Paulo pede que as mulheres submetam-se aos maridos, como convém, no Senhor. Esta submissão hoje poderíamos afirmar como uma dedicação da esposa para com o esposo. Infelizmente, muitas mulheres hoje já não respeitam seus maridos e não o amam. Aos maridos, que amem suas esposas e não sejam duros com elas. A traição presente entre os casais e que tem se mostrado cada vez mais presente em nossos dias é uma praga que corrói os ambientes familiares e tira o valor e a sacralidade do seio familiar. Assim também é o divórcio, o aborto, etc.

A Santa Mãe Igreja condena todas estas formas de violação da sacralidade familiar, pois ferem o amor de Deus que faz-se presente em cada membro da família. E, como já ficou dito, todos são chamados à santidade.

No Evangelho, vemos a cena da fuga de Jesus, Maria e José para o Egito. Ainda pequeno Jesus já era perseguido por Herodes (que representa o poder do mal). Herodes imaginava que Jesus, Rei dos reis, fosse tomar o seu trono; no entanto, ele não sabia que o Reino de Jesus divergia-se do reino dos homens. Seu reino não é daqui, não é um reino do interesse econômico, mas é o Reino do amor e da paz.

O cerne da narração evangélica é o cumprimento da palavra do profeta: “Do Egito chamei meu filho”. Esta profecia aplicava-se ao povo de Israel, mas encontra pleno cumprimento em Jesus Cristo. Como o povo de Israel atravessou o deserto para que chegassem à Terra prometida, assim também Jesus atravessou o deserto, renovando de forma incomparável o cumprimento da promessa da salvação. Vemos também que assim como o Faraó tratou de matar os meninos hebreus, Herodes mata os filhos de Belém; Aqui nasce a Festa dos Santos Inocentes, que celebraremos no próximo dia 28. Eles doam sua vida pelo Menino-Deus – são os primeiros mártires. Não temem a morte. Jesus, como um novo Moisés, escapa da matança e refaz a peregrinação do povo de Israel para a salvação. Como Moisés foi educado na casa da filha do Faraó, por sua própria Mãe, a Jesus também aprouve ser educado por seus pais.

Que Jesus encontre em nossas famílias uma feliz recepção. E que tenhamos em mente que o Natal sempre se renova, e neste “hoje” do Natal queremos confiar todas as famílias à proteção da Sagrada Família.

Quanto a nós, caminhemos segundo as Escrituras e estejamos seguros nas mãos de Jesus, Maria e José!

A Família: Igreja doméstica

 

Assistimos nos últimos dias o triste cenário, dramatizado em toda a humanidade: a destruição da família, célula-mãe da sociedade. O triste cenário mundial forma-se, sobretudo pela falta de fraternidade entre os povos, que, mesmo com a globalização, não impediu o crescimento de barreiras que destruíssem a fraternidade. Por isso o Santo Padre Bento XVI recordou muito bem: “A sociedade cada vez mais globalizada torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos” (Cart. Enc. Caritas in Veritate, 19). E mediante isto põe-se em evidência que a família, ao contrário da economia, não sobrevive apenas com recursos financeiros, estes são importantes, mas não são o essencial. O essencial, que de forma alguma pode ser “perdido de vista”, é Deus. E podemos constatar que hoje Ele é o que mais falta nas famílias. Não que Ele esteja ausente; mas as famílias ausentaram Deus da sua convivência. Para muitos o essencial é o ter; e aí voltamos à velha questão do egocentrismo, e que por sinal nunca se ausentou da humanidade.

Mas, naturalmente, podeis perguntar-me: como poderemos fazer com que Deus habite em nossa família? É claro que não podemos delimitar espaços a Deus, isso é impossível à natureza humana; mas há um meio muito fácil de fazer com que Ele habite conosco. Que Ele faça da nossa casa a Sua casa. Este meio é a ORAÇÂO. Nós somos chamados a vivermos a oração também em nosso lar. E o lar é onde, desde criança, se ensina os valores cristãos. “A família é a comunidade na qual, desde a infância, se podem assimilar os valores morais, tais como honrar a Deus e usar corretamente a liberdade. A vida em família é iniciação para a vida em sociedade” (Catecismo da Igreja Católica, 2207). E o Papa João Paulo II, de venerada memória, também recorda-nos: “A oração reforça a estabilidade e a solidez espiritual da família, ajudando a fazer com que esta participe da ‘fortaleza’ de Deus. Na solene ‘benção nupcial’ durante o rito do matrimônio, o celebrante invoca deste modo o Senhor: ‘Efunde sobre eles (os recém-casados) a graça do Espírito Santo, a fim de que, em virtude do teu amor derramado nos seus corações, perseverem fiéis na aliança conjugal’. É desta ‘efusão do Espírito Santo’ que dimana a força interior das famílias, bem como o poder susceptível de as unificar no amor e na verdade” (Carta às famílias, 2 de fevereiro de 1994, 4).

A família é chamada a ser instrumento de graça, de amor, de bondade e de oração. De tal forma, entregue a “sorte” da sociedade, a família desintegra-se, principalmente porque não crê, e se crê não professa, e se professa não vive, por conseguinte ela enfraquece suas “bases” e qualquer “tempestade” com ventos indômitos, indubitavelmente irá derrubá-la. Para isto tomemos como exemplo a parábola da casa mal-edificada e feita na areia, e aquela construída na rocha (cf. Mt 7,24-27). A chuva veio e derrubou a casa da areia, mas não derrubou a da rocha, e por quê? Porque enquanto uma estava construída sobre a areia, a outra estava edificada sobre a rocha.

Adaptemos a parábola a realidade hodierna. Se a família buscar apenas o que é efêmero, superficial, aquilo que não lhe sacia, continuará a sofrer com as demasiadas tempestades dos dias de hoje. Porém se ela edifica-se sobre a rocha, buscado a vivência da oração e a entrega constante a Deus, não será, jamais, derrubada por ventos impetuosos.

Para isto tomemos como exemplo a Sagrada Família de Nazaré que jamais cessou na oração, ou que jamais deixou-se levar pelas diversas circunstâncias que afligiam à época.

Em Maria os homens e mulheres são chamados a observar todas as mães de hoje. Mães que lutam, mães que batalham, que sofrem com seus filhos presos aos vícios e ao narcotráfico, mães que trabalham para garantir o sustento da família, abandonadas pelo marido e deixadas a mingua da cruel sociedade.

Em José contemplamos os pais. Estes são chamados a imitá-lo na perseverança de que a família pode ser aquele lar tão desejado, uma família que sempre reze. Pais que trabalham para o sustento familiar. Maridos comprometidos, fiéis, honestos.

Em Jesus queremos agora olhar as crianças. Aquelas que são marginalizadas, as que sofrem por desavença familiar, principalmente por causa de brigas entre pais, as que não tem um teto, um alimento diário.

Na família mais perfeita, a Santíssima Trindade, quero pedir a graça da santidade para as famílias e a santificação dos seus membros; para que, por meio da vivencia fraterna, da solidariedade, do amor, da união, do respeito, da fidelidade e da oração, possam ser cada dia mais instrumento de Deus para a santificação da humanidade.

“A família, como a Igreja, deve ser um lugar onde se transmite o Evangelho e donde o Evangelho irradia. Portanto no interior de uma família consciente desta missão, todos os componentes evangelizam e são evangelizados. Os pais não só comunicam aos filhos o Evangelho, mas podem também receber deles o mesmo Evangelho profundamente vivido. Uma tal família torna-se, então, evangelizadora de muitas outras famílias e do ambiente no qual está inserida” (Paulo VI, Exor. Ap. Evangelii Nuntiandi, 71).

Portanto se você acha que seu casamento não tem mais solução ou sua família não irá mais resistir, busque a oração, busque a Cristo. Ele tem todas as repostas. Não espere que seja como doril (tomou doril a dor sumiu). Você precisa comprometer-se na reconstrução da mesma para que não sejam em vão todas as suas orações. Se você espera uma ação de Cristo tenha também a sua ação. Eu lhe garanto: Jesus é a solução. Busque-O pela oração.

Concluo com as palavras de São Paulo: “Cumpra o marido seu dever conjugal para com a esposa, e a esposa, do mesmo modo, para com o marido. Aos casados ordeno, não eu, mas o Senhor: a mulher não se separe do marido. E o marido não pode despedir a mulher” (Cor. 7, 3.10-11).

Na certeza de que esta carta não foi em vão, peço a Sagrada Família que vos abençoe sempre a vós e vossas famílias.

Dário Meira, 10 de outubro de 2009, Memória de São Daniel Comboni