Cardeal Müller: “sutil heresia” separar doutrina e práxis

Trazemos ao estimado leitor a tradução da nossa página do discurso do Cardeal Gerhard Müller na abertura da Sessão Plenária da Comissão Teológica Internacional, em 1º de dezembro passado.

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Esta foi sempre a convicção dos Padres da Igreja: que a teologia inicia e, em certo sentido, nasce e se faz na liturgia, na adoração do mistério de Deus e na contemplação do Verbo feito carne. Começando por São Basílio de Cesaréia que em seu memorável tratado sobre o Espírito Santo vê exatamente na liturgia a ocasião e o lugar propício da autêntica reflexão humana sobre a incompreensível teologia e economia da nossa salvação. Se nós, teólogos e teólogas, todos os dias temos, a serviço dos mistérios da fé, a nossa inteligência, as qualidades próprias e o fatigante trabalho, temos, na verdade, antes de tudo isso, necessidade do seu Espírito, da sua inteligência divina que fortifica as nossas pobres buscas humanas. Na liturgia compreendemos melhor como a teologia é fundamentalmente a contemplação do Deus de amor.

Devemos, porém, tomar consciência da exigência e da responsabilidade da inteligência da fé, que de modo especial é confiada aos teólogos e às teólogas, que trabalham na Igreja, pela Igreja e em nome da Igreja. Na Igreja, com o seu trabalho intelectual, realizam uma vocação bem precisa e uma exigente missão eclesial.

A fé cristã, de fato, não é uma experiência irracional. Somos chamados a acolher o convite e o dever, que exprime Pedro, de estarmos “sempre prontos a dar uma resposta a quem vos pede a razão da vossa esperança” (1Pd 3, 15). A teologia perscruta, em um discurso racional sobre a fé, a harmonia e a coerência intrínseca das várias verdades de fé que surgem do único fundamento da revelação de Deus uno e trino. O mistério imperscrutável de Deus, na economia da salvação e por meio desta economia do Verbo encarnado se oferece também à nossa inteligência. Nós, teólogos, somos os guardiões e promotores desta inteligência da fé.

Na mediação cristológica Deus se oferece à nossa razão também na inteligibilidade da sua auto-revelação. A Comissão, com os seus debates e discussões, por meio dos estudos e das reflexões, é um lugar privilegiado de empenho comunitário no dar razão da nossa esperança.

A especificidade da Comissão Teológica Internacional consiste no fato que ela é chamada a perscrutar as importantes questões teológicas a serviço do Magistério da Igreja, em particular da Congregação para a Doutrina da Fé. Nesta dimensão, penso que podemos extrair uma indicação para o nosso “fazer teologia”. A teologia não é nunca uma pura especulação ou uma teoria isolada da vida dos crentes. Com efeito, na autêntica teologia não existe jamais um isolamento ou uma contraposição entre inteligência da fé e a pastoral ou a práxis vivida da fé. Pode-se afirmar que tudo é pensamento teológico, todas as nossas investigações científicas tem sempre uma profunda dimensão pastoral, seja a dogmática, a moral ou as outras disciplinas teológicas, tem sempre uma dimensão pastoralmente própria. Como ensina o Concílio Vaticano II, todo o conhecimento de Deus é bom se é feito em referência ao fim último do homem, para a sua salvação. A sagrada doutrina não é uma página morta, mas, especialmente na especulação dogmática toca sempre aquilo que é decisivo para o caminho da Igreja, que é o caminho da salvação.

Toda divisão entre a “teoria” e a “práxis” da fé seria, no fundo, o reflexo de uma sutil “heresia” cristológica; seria fruto de uma divisão no mistério do Verbo eterno do Pai que se fez carne; seria a omissão da dinâmica encarnacionista de toda sã teologia e de toda a missão evangelizadora da Igreja. Cristo, que pode ser chamado o primeiro teólogo da Escritura, o teólogo por excelência, nos diz: “eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Não existe verdade sem vida, não existe vida sem verdade. Nele está o caminho para compreender sempre melhor a verdade que se oferece a nós e se faz nossa vida.

Podemos afirmar que o trabalho da Comissão, o seu estilo de trabalhar, é sempre caracterizado por um profundo espírito comunitário, de fraterno respeito e amizade, de uma verdadeira colegialidade nas colaborações, de troca e de diálogo. Da comissão se espera exemplarmente um debate teológico sereno e construtivo, no respeito do carisma do Magistério eclesial e na consciência da alta responsabilidade à qual é redirecionada a vocação dos teólogos e teólogas na Igreja.

Somos chamados a guardar o verdadeiro rosto da teologia católica constituído da mediação cristológica e eclesial da fé. O seu verdadeiro objeto a teologia não pode encontrar em outro lugar senão na fé testemunhada pela Igreja na auto-revelação de Deus na pessoa e na história de Jesus de Nazaré. Esta auto-revelação visa assegurar que “os homens, por meio de Cristo, Verbo encarnado, tenham acesso ao Pai no Espírito Santo e se tornam participantes da natureza divina” (Constituição Dogmática Dei Verbum, 2).

A relação particular da ciência teológica com a Igreja não pode reduzir-se a uma realidade tão somente externa. A teologia deve antes, por sua essência, levar o contributo da problemática especificamente teológica na forma e na mediação eclesial da fé e pressupor, por outro lado, como princípios próprios, os artigos de fé testemunhados pela Igreja.

A incoerência dos brasileiros: Não são por alguns votos, é pela liberdade

Aproximando-se do dia das eleições não poderia deixar de dirigir uma mensagem aos leitores deste blog, mas, sobretudo aos cristãos de boa vontade que se dirigirão no próximo domingo às urnas.

Há um tempo disse aqui sobre aquilo que poderíamos definir como “Revolução dos 20 centavos”. Todos lembram, não é?! Não faz muito tempo… ano passado. Período este em que a população brasileira ia em massa às ruas para gritar contra o governo e contra o Partido que nos governava e ainda governa – quero crer que não por muito tempo! Estes que gritavam contra o governo são os que hoje pretendem dar o seu voto ao mesmo, parecendo-me assim não somente paradoxal como também incoerente.

“Não são só 20 centavos”, escreviam em cartazes e gritavam descomedidamente nas ruas. Enfrentavam a polícia, vandalizavam o patrimônio público e insistiam em repetir: “Não são só 20 centavos”; “O gigante acordou!”… e outras frases taxativamente revolucionárias.

Mas agora vem-me à mente uma pergunta: Pelo que, de fato, era? Não era por 20 centavos, segundo eles. Poderia até não ser por uma quantia tão ínfima, mas pela liberdade, pelo desejo de lutar pelo bem comum e pelo não contentamento com a situação econômica, política e social, também afirmaram na época. Entretanto, quando olhamos o quadro político atual percebemos o que mais se deixa transparecer: não era tanto por descontentamento, mas era, de fato, por 20 míseros centavos.

Sim, se fosse causa de um descontentamento ousaria perguntar agora: Onde estão agora as vozes que gritavam, protestavam, reclamavam direitos? Onde estão os que vandalizavam o patrimônio público em nome dos seus direitos? Agora todos se tornaram capachos do governo? Agora todos resolveram manifestar-se a favor dos mesmos pelos quais protestavam? São meramente vândalos baderneiros que se aviltaram em depredar o bem comum em causa nenhuma?

O gigante, meus caros, pode ter acordado, mas acomodou-se! Acomodou-se com projetos, propostas e números mentirosos. Acomodou-se com aqueles políticos que se reúnem para avaliar o que não fizeram e para planejar o que não vão fazer.

Não tem direito de reclamar! Não tem moral para reclamar aqueles que vendo o Brasil neste estado precário e miserável, anulam-se dizendo não haver saída ou tornam-se coerentes com aqueles que demonstraram que não tem capacidade nenhuma de governar.

Sejamos mais espertos e inteligentes! Não é só por 20 centavos, é pela liberdade que não tem preço; é porque não queremos ser um país sem liberdade de expressão, privado da liberdade de crer em Deus por sermos regimentados por um governo ateísta.  O Comunismo apropria-se da liberdade, forja uma falsa ideia da mesma e faz acreditarmos que estamos nos átrios de uma democracia. Muito cuidado com aquele que semeia a divisão e o engano (diabolus).

A liberdade tem um único valor e no-la vemos escrita na Carta de São Paulo: “Ora, o Senhor é Espírito, e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade” (II Cor 3,17). A verdadeira liberdade é aquela que procede de Cristo e do Espírito Santo. Um País fundamentado em suas próprias convicções e que se abstém de pensar em Deus, está destinado ao fracasso. Também o Brasil vai fracassar – e já o evidenciou bem! – se esquecer de que sua força é exaurida de Deus.

Apelo por isso à consciência dos brasileiros: Nossa fé acaso não vale mais que um voto? Se pudermos mudar a realidade tão catastrófica que aí está, por que não fazê-lo? Todos conhecem o cenário pelo qual somos circundados. Existe, sim, o direito de ser respeitado no caminho da busca da verdade, mas esse direito leva consigo uma obrigação moral de aderir à verdade conhecida e de fazer valer os protestos que não podem suscitar apenas uma ânsia de euforia, mas que precisam ser uma via de mudança. O Beato Cardeal Newman disse: “A consciência tem direitos, porque tem deveres”. Reclamemos os direitos, mas primariamente, cumpramos os deveres. Votemos pela liberdade, pela fé e pela família. Votemos conscientes e digamos não à ditadura esquerdista e manipuladora, que ultraja a nossa fé e nos ataca como lobos vorazes.

Do “Templo de Salomão” à engenhosidade de Satanás

“Está escrito: A minha casa será chamada casa de oração; vós, porém, a fazeis covil de salteadores” (Mt 21,13).

Jesus não hesita em taxar aqueles que comercializavam no templo como “salteadores, ladrões, vendilhões”. No dia 31 de julho foi inaugurado em São Paulo o “Templo de Salomão”, mantido e construído com recursos financeiros da “Igreja” Universal do Reino de Deus. Diversos são os aspectos que chamam a atenção com relação a esta engenhosidade, mas não gostaria apenas de me ater ao espaço físico do templo, com toda a sua grandeza, senão de fazer uma leitura evangélica e histórica com relação a este feito desnecessário.

Jesus fez duras advertências contra aqueles que pretendiam fazer do Templo um local de comércio. Infelizmente esta cena se repete ainda em nossos dias, sem qualquer pudor às palavras de Nosso Senhor, endereçadas contra estes que deturpam a fé cristã. O bem-aventurado Pedro apóstolo já advertira: “Assim como houve entre o povo falsos profetas, assim também haverá entre vós falsos doutores que introduzirão disfarçadamente seitas perniciosas. Eles, renegando assim o Senhor que os resgatou, atrairão sobre si uma ruína repentina. Muitos os seguirão nas suas desordens e serão deste modo a causa de o caminho da verdade ser caluniado. Movidos por cobiça, eles vos hão de explorar por palavras cheias de astúcia. Há muito tempo a condenação os ameaça, e a sua ruína não dorme” (2Pe 2,1-3). 

Estas palavras, não obstante a distância que nos encontramos de quando foram cunhadas, perpassaram o tempo e a história, porque constituída como Palavra de Deus, não cessa de denunciar as heresias e tentativas de destruição da fé verdadeira. É sabido que o senhor Edir Macedo não é um homem que vive para Deus, e tampouco trabalha pelo Reino de Deus. Ele inclui-se entre aqueles que o bem-aventurado apóstolo Paulo denunciara à comunidade de Filipos, pessoas cujo deus é a barriga (cf. Fl 3,18). A única Igreja fundada por Cristo não possui “filiais” e nem trabalha com possibilidades. A fé é certeza (cf. Hb 11,1), e na Igreja de Cristo quem não tem certeza não tem fé verdadeira, pode até ter “opinião” – que de nada lhe valerá! – mas não possui convicção.

Mas este templo, denominado “Templo de Salomão”, não é apenas um sinal de um empreendimento grandioso e de potencial econômico do grupo Macedo. É também um preclaro sinal de confusão religiosa e de desnorteamento da fé cristã. O que é a Igreja Universal do Reino de Deus? Um grupo proselitista que usa o nome de Cristo para propagar a sua doutrina e aumentar consideravelmente sua potencialidade econômica? Ou um grupo de reminiscência judaica que “aderiu” ao cristianismo? Não saberia responder diante de tamanha mistura e confusão causada na cabeça dos fiéis. 

Antes de entrar num viés teológico aguçado, devo ainda fazer uma crítica ao arquiteto da obra. O Templo feito ali não é o de Salomão, mas o Segundo Templo dos Judeus. O primeiro templo, sabemo-lo, foi incendiado pelos babilônios no ano de 587 a.C. Contudo, findado o cativeiro em Babilônia, os judeus reconstruíram o Templo sobre o Monte Moriá, que posteriormente fora embelezado por Herodes, o Grande, com o intuito de agradar a César. Os judeus tomaram isso como uma profanação por parte do rei. Em 70 d.C. todo o edifício veio abaixo com a invasão e o saque de Jerusalém.

Agora, adentremos no aspecto teológico da questão: Qual o símbolo de um Templo de Salomão ou do Templo judeu para o Cristianismo? Embora seja profunda a ligação entre judeus e cristãos, e temo-los em todo respeito, como nossos “irmãos mais velhos”, segundo denominou São João Paulo II, contudo não podemos negar que o verdadeiro e novo Templo é o próprio Cristo, segundo Ele mesmo dissera: “Destruí esse Templo e em três dias eu o reerguerei” (Jo 2,19). Embora isso não descaracterize a necessidade das Igrejas, as mesmas devem associar os homens a Cristo não a Salomão, por Ele a redenção foi concedida. O Segundo Templo é de Deus, é a casa de Deus, o lugar por excelência da oração.

Diante de tantas misturas de ritos, do desrespeito ao Cristianismo, do desrespeito ao judaísmo, podemos nos perguntar: Há alguma seriedade nesse seguimento religioso? São essas doutrinas diabólicas (1 Tm 4,4) que traem a percepção de fé do povo. Se o povo erra em segui-las, vós errais ainda mais, que a estimulais e iludis os que sem instrução aderem a esta mentalidade. O Templo citado é, enfim, um desrespeito, uma obra sem fundamento e que não deve ser vista como vínculo nenhum a realidade cristã ou judaica.

Lembra-te, Macedo, do que o Salmo diz: “Se o Senhor não construir a nossa casa, em vão trabalharão seus construtores” (127,1). A verdadeira construção se fundamenta no Senhor. Ele solidifica as bases daqueles que sobre ele construírem. Não me venha a vossa pessoa dizer que preza por um templo material se o verdadeiro templo para ti não faz diferença: “Vós sois a construção de Deus” (1Cor 3,9). Como um templo majestático de Salomão valerá mais que o templo da vida humana, dom sagrado e inestimável, que você negligencia quando se propõe a apoiar a prática do aborto? 

Por fim, recordo-me do Evangelho de São Marcos, no capítulo 13, que serve de admoestação a este grupo que tenta atraiçoar a verdadeira fé: “E, saindo ele do templo, disse-lhe um dos seus discípulos: Mestre, olha que pedras, e que edifícios! E, respondendo Jesus, disse-lhe: Vês estes grandes edifícios? Dias virão em que não ficará pedra sobre pedra. Tudo será destruído” (vv. 1-2). A mentira, por si, nunca se sustenta! No fim, prevalecerá a verdade!

A crise de fé na existência do homem contemporâneo

“O que vimos e ouvimos nós vos anunciamos” (1Jo 1,3)

Por ocasião do Ano da Fé faço chegar minha saudação cordial aos irmãos e irmãs que com ardoroso empenho se dedicaram de forma corajosa e fiel para o bom êxito deste período de graças abundantes. Tenho dito que o Senhor nos proporcionou prodígios imensos com estes dias benéficos propostos pelo nosso querido Papa emérito Bento XVI e abraçado por toda a Igreja como um convite para renovarmos a nossa fé no “Deus de todas as consolações” (2Cor 1,3).

Agora, tendo chegado à conclusão deste ano de graça, desejamos auspicar os votos provenientes do nosso íntimo para que se possam haurir todos os ensinamentos que usufruímos neste tempo, sejam eles vindos do Magistério, sejam eles vindos da Sagrada Escritura vivenciada no cotidiano. Por isso este artigo procura retratar a necessidade primordial de conservar a fé no coração e na história do homem contemporâneo. Há, indubitavelmente, uma lacuna no que tange ao sensus fidei no seio da humanidade. Temos muitos homens; temos poucos humanos. Perdida a fé se esvai a esperança daquilo que chamo de metanóia da interioridade, ou seja, mudança, conversão de costumes, hábitos e vida. Sem esta caímos na indiferença do grito ecoante dos indefesos e pequenos nos negando à prática da caridade, maior de todas as virtudes.

A crise de fé, entretanto, não vem sozinha. Antes, vem acompanhada de uma crise de grande magnitude: a existencial, que afeta a vida, os direitos, a fé e a dignidade, de modo particular dos que são postos à margem de qualquer posição. É comum (até necessário!) que a sociedade seja abalada por esta crise. Cada homem é chamado a lutar contra si, descobrir-se em meio a tantas propostas e tantas formas de propor; perguntas que caracterizam os percursos da vida humana. Porém, temos percebido que tem ela ganhado uma força aparentemente incontrolável, onde ressaem mais as inconstâncias e preocupações subjetivas do que a fé que une a todos sob um mesmo amor redentor.

Não obstante, no decorrer destes dois milênios a Igreja tem feito com que o homem questione a si mesmo de forma sadia e coerente não para que se torne um agnóstico, alguém descrente, mas para que possa dar razão e sentido à sua fé. Como bem nos recordara o Bem-aventurado Papa João Paulo II na Carta Encíclica Fides et Ratio: “Na base de toda a reflexão feita pela Igreja, está a consciência de ser depositária duma mensagem, que tem a sua origem no próprio Deus (cf. 2Cor 4,1-2). O conhecimento que ela propõe ao homem não provém de uma reflexão sua, nem sequer da mais alta, mas de ter acolhido na fé a palavra de Deus (cf. 1Ts 2,13)” (nº 7).

Propus-me a meditar sobre esta crise de fé, que está intrinsecamente unida a crise existencial, para que este ano não seja um labor em vão mas um momento oportuno onde a palavra outrora pregada por São Paulo ecoe incessantemente no mundo hodierno: “Prega a Palavra, quer agrade, quer desagrade” (2Tim 4,2).

Em uma de suas poesias, Manoel de Barros escreveu: “No que o homem se torne coisal – corrompem-se nele os veios comuns do entendimento”.

Também hoje fazemos nossas as suas palavras. O que significa ser o homem “coisal”? Deveras, é o fato de que este se torne tão somente uma “coisa”, um ser casual, produto da sociedade consumista e exacerbadamente capitalista; perde-se de si, perde-se dos outros; está no mundo sem descobrir-se e sem redescobrir a beleza da vida e a finalidade da sua existência. Este cenário despontou há alguns séculos e torna-se sempre mais costumeiro e insensível à realidade dos sinais propostos pelas concepções filosóficas ou pela religião a respeito de Deus. Gradativamente vai o homem perdendo a esperança com relação a sua fé e ao “por que” das coisas. Neste consiste o imperioso dever de fazermos com que o homem enverede novamente pelo caminho da luz e da razão.

Seria demasiado extenso tratarmos a fundo do problema da crise existencial, além de desfocarmos da centralidade da nossa carta. Por isso, procurarei explanar brevemente o tema limitando-me a enumerar alguns aspectos que incidem de forma pungente em nosso cenário.

O relativismo e as problemáticas diante da fé

O primeiro destes aspectos é o relativismo, denunciado inúmeras vezes pelo Sumo Pontífice o Papa Emérito Bento XVI. Uma das suas mais famosas denúncias deu-se na Santa Missa Pro Eligendo Pontifice, quando ainda era o então Cardeal Ratzinger:

“Ter uma fé clara, segundo o Credo da Igreja, muitas vezes é classificado como fundamentalismo. Enquanto o relativismo, isto é, deixar-se levar ‘aqui e além por qualquer vento de doutrina’, aparece como a única atitude à altura dos tempos hodiernos. Vai-se constituindo uma ditadura do relativismo que nada reconhece como definitivo e que deixa como última medida apenas o próprio eu e as suas vontades”.

Sábias palavras estas! O que é bom torna-se mal; o que é mal torna-se bom. É este o relativismo que devasta a nossa crença e a nossa sociedade nos fazendo homens descrentes, fechados à realidade da fé e da salvação. Se cremos devemos ter consciência de que não cremos individualmente mas em comunidade eclesial.  Crer, portanto, é adesão à base da nossa fé, que é a Trindade, perfeita Comunidade. Se a fé torna-se sinônimo de isolamento não subsiste porque se torna discrepante com o Evangelho e com o modelo de Igreja que nos foi transmitido na vicissitude dos séculos. É necessário que aprendamos a ser individuais sem sermos individualistas. “A fé não é um fato privado, uma concepção individualista, uma opinião subjetiva, mas nasce de uma escuta e destina-se a ser pronunciada e a tornar-se anúncio” (Cart. Enc. Lumen Fidei, 22).

Se por um lado é demasiado perigoso que a fé se torne individualista, o é também que ela assuma uma dimensão comunitária desvirtuada do seu real objetivo e deformada da sua essencialidade quando deixamos de crer com todos para crer com alguns. O relativismo permeia esses dois âmbitos. Evidencia-se desta feita que, para responder às reais razões da problemática existencial do homem e para conduzi-lo à Verdade, devemos fazer a correlação entre e razão. Relembrando o saudoso João Paulo II em sua já citada encíclica, também nós queremos reafirmar que “a razão, privada do contributo da Revelação, percorreu sendas marginais com o risco de perder de vista a sua meta final. A fé, privada da razão, pôs em maior evidência o sentimento e a experiência, correndo o risco de deixar de ser uma proposta universal” (nº 48).

Não prescinde do homem sua fé, mas ela é dom de Deus que se manifesta e que se lê sapientemente com os sinais dos tempos e guiada unicamente para a Verdade. Por isso, restringir a fé de um caráter universal para uma particularidade é também delimitar espaços para a verdade e interpretá-la ao nosso bel prazer, fazendo-nos descrentes com a realidade imperiosa da salvação e tornando-nos crentes com a alucinógena realidade do querer. O teólogo Jean Daniélou bem nos relatou esta realidade em seu livro O futuro no presente da Igreja: “O mistério da fé está, certamente, acima e para além de toda expressão humana; nenhuma definição poderá jamais esgotar todo o seu conteúdo de verdade” (Ed: Paulinas, 1974).

A Verdade primeira consiste na Pessoa Daquele que diz: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”, acrescentando logo em seguida: “Ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14,6). E aqui – embora não nos seja um momento exegético – deveríamos nos perguntar, para assim melhor evidenciarmos o caminho da verdade: Por que diz Cristo “vem” e não “vai” ao Pai? Desejaria ressaltar dois motivos pelos quais a verdade torna-se inacessível se não for trilhado o caminho que Cristo evidencia:

a)      O primeiro refere-se àquela afirmação de caráter salvífico: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30), reafirmado a sua unicidade com Deus e de onde viera: não de outro lugar, senão do seio do Pai. Ele e o Pai são um! Diferença na Pessoa, igualdade na divindade. É um caminho que requer autenticidade e o amor pela verdade e pelo conhecimento. Santo Agostinho bem escrevera: “Onde existe o Amor existe a Trindade: um que ama, um que é amado e uma fonte de amor” (De Trinitate).

b)      A segunda frase é, por assim dizer, um complemento quanto à primeira. Nenhum outro é o caminho para o Pai senão em Cristo. Só Ele é a via de acesso para a salvação do homem, como dissera Paulo: “Unus enim Deus, unus et mediator Dei et hominum, homo – um só Deus e há um só mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo, homem” (I Tim 2,5). Embora muitos sejam os ideais e as formas de buscar o conhecimento, todas resumem a ideia paulina dita em algumas linhas antes desta citação, quando afirma que Deus é Aquele que “deseja que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (v.4). Um caminho é o da verdade e nós podemos adorá-lo porque é também uma Pessoa. Uma vez que “ninguém pode sinceramente ficar indiferente quanto a verdade do seu saber” (Fides et ratio, 25), a Sagrada Escritura fomenta um conhecimento ao homem que – provenha de Deus ou provenha de sua consciência – é via estreita para chegar-se a esta Verdade que Jesus se-nos apresenta. Porém, tendo conhecido o Evangelho, o homem é convidado a refletir sua postura anterior para que, conscientemente avaliadas, sejam aderidas ou não. Tendo aderido torna-se partícipe, mas se ignora então persiste no erro.

O testemunho como essência da fé

Aqui adentramos em um segundo aspecto da crise de fé que vai tentando sorrateiramente corroer as estruturas da verdade na qual cremos: falta de testemunho. Para os que creem o testemunho não é privilégio, mas exigência e necessidade de um autêntico discipulado. O verbo crer é um sinônimo (para o cristão) do verbo testemunhar, e os dois se conjugam na linguagem universal da fé.

A falta de testemunho, sobretudo por parte dos membros, tem impactado muitos fiéis que, com a fé já atormentada pela forma periclitante de questionamentos, se deparam com a incoerência de vida dos que se dizem parte do Corpo Místico de Cristo mas que agem como se nele não estivessem. Por essa razão este ano não nos convidou somente a um renovando modelo de fé, mas a um testemunho convicto e convincente daquela mensagem que nos foi dada e que deve por nós ser testemunhada.

A palavra não é nossa! A mensagem não é da Igreja! Tudo lhe advém por Cristo, Senhor e Juiz da História. Afinal, “quem se abriu ao amor de Deus, acolheu a sua voz e recebeu a sua luz, não pode guardar este dom para si mesmo. Uma vez que é escuta e visão, a fé transmite-se também como palavra e como luz” (Cart. Enc. Lumen Fidei, 37). Aos que conheceram e se abriram à graça da salvação, é outorgada uma necessidade de fé que não acomoda, antes incomoda, inquieta e estimula a transmitir também o que já vem sido anunciado (cf. ICor 15,3).

Por isso é imperioso o nosso dever de advertir para que não se pregue aquilo que não nos convém ou não é de nosso caráter missionário. Devemos sim pregar sobre a necessidade e a essência da nossa missão cristã que consiste naquilo que pertence ao sagrado Depósito da Fé. Quando a religião deixa de pregar sobre Deus e o seu Evangelho e passa a ser transmissora de suas convicções institucionais, ou de convicções pessoais de seus membros, deixa de ser semente de Deus e passa a ser joio do Diabo (cf. Mt 13,39).

O momento decisivo do encontro com Deus não deve estar esperançado somente na expectativa de um mundo vindouro, mas deve sê-lo, já aqui, um preclaro sinal de que Aquele em quem nós acreditamos não nos deixará no vazio, na obscuridade; ao contrário, nos ilumina e revigora, nos dá luzes, mesmo que por vezes as trevas pareçam predominar e o cheiro de morticínio, desprezo e ignomínia se elevem como um clamor versado na desgraça alheia. Neste âmbito Paulo nos conclama a um renovado olhar sobre a ação de Deus no mundo nos pedindo para não desprezar a nossa fé e colocar em dúvida o querer de Deus em meio às adversidades: “Sei em quem pus minha confiança” (II Tim 1,12).

Somos chamados a unir-nos de forma particular aos nossos irmãos que sofrem pelas perseguições por testemunharem sua fé no Cristo Ressuscitado e por isso são injustiçados, humilhados e mortos. O Senhor olha também por estes mártires do novo milênio que segue não menos rigoroso com quantos se põe a serviço do Evangelho.

A concretude da fé na caridade

A verdadeira fé não se faz isolar. Ela nos descerra a um encontro com a verdade centrada no Cristo, contemplada em sua vida e sentida pela sua presença. Santo Tomás de Aquino, exímio em sua sabedoria e humilde em sua vida, fala a respeito de uma oculata fides (uma fé que vê) dos Apóstolos (cf. Summa theologiae, III, q. 55, q. 2, ad 1) (cf Lumen Fidei, 30). Essa “visão” traduz-se na expressão máxima da fé que é a caridade. Por isso, a advertência de São Tiago constitui, ainda mais para a nossa sociedade capitalista e egoísta que não olha a necessidade dos desfavorecidos, uma cartilha de caridade cristã, como o é toda a Escritura Sagrada: “Tu tens a fé, e eu tenho as obras; mostra-me a tua fé sem as tuas obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras” (Tg 2,18).

Quando o homem se fecha para o grito daquele que sofre, fecha-se também ao grito de Cristo que clama e é solícito para com os pequenos do seu Reino. O mundo tem fome de pão e ainda mais esfomeado está pela Palavra viva que produz a fé. Aos que padecem pela fome repetimos o apelo paternal do Servo de Deus Papa Paulo VI: Não basta alimentar os esfomeados: ainda é preciso assegurar a cada homem uma vida conforme a sua dignidade” (Discurso à ONU, 04/10/1965).

Se, por um lado, urge a necessidade de um olhar pelos irmãos necessitados e pelos locais em via de desenvolvimento, mas que sofrem empecilhos por parte daqueles que detém grande parte do poder econômico; por outro faz-se também atenciosa a situação daqueles que faltam à caridade para com o próximo em estado espiritual. Tantos são os que, fechados à comodidade de suas situações estáveis, não atentam ao apelo dos irmãos sofridos e privados do anúncio de Jesus Cristo. Se a fé é dom de Deus não deve ser retida. Podemos reter o que é nosso, mas jamais o que pertence a todos. “A fé torna-se operativa no cristão a partir do dom recebido, a partir do Amor que o atrai para Cristo (cf. Gl 5,6) e torna participante do caminho da Igreja, peregrina na história rumo à perfeição” (Lumen Fidei, 22).

Novamente apelo para a consciência moral dos povos, sobretudo dos governantes, para que escutem o brado dos irmãos que são tratados como aquele da parábola do rico epulão e do pobre Lázaro (cf. Lc 16,19-31), deixado à margem e do qual vinham os cachorros para lamber as suas feridas.  No dia da morte, nada ficará sem que se preste contas a Deus. E então, Lázaro é “levado” para o alto pelos anjos, ao seio de Abraão. Finalmente, o pobre entra na jubilosa comunhão do banquete messiânico; o rico, ao contrário, “foi sepultado… na morada dos mortos, achando-se em tormentos…” (Lc 16, 22-23).

O Santo Padre Bento XVI em sua homilia na Missa dos aposentados alertou que há de ter-se cuidado com três pontos fundamentais em que o dinheiro pode prejudicar a vida do homem e do qual vemos bem frisado no Evangelho:

a)      A riqueza faz definhar a vida do pobre: O Evangelho faz a descrição do homem rico como ornado de ouro, abastardo de alimento, fechado em sua comodidade; ignorava o grito do pobre em sua porta, não tinha compaixão para aquele seu irmão, filho do mesmo Deus, que lá estava atirado. Aqueles desfavorecidos não possuem o capital e os recursos necessários para a sobrevivência, podendo tão somente contar com a ajuda dos que são bem ressarcidos em seu meio de trabalho ou em suas posições sociais. A Igreja se solidariza com estes e lhes faz estreitar com o Cristo sofredor, que não os ignora, mas é presente em suas necessidades cotidianas.

b)      A riqueza faz definhar a vida dos ricos: Neste segundo aspecto retratemos o prejuízo da riqueza para a vida dos ricos. Novamente fazemos ecoar as palavras do Servo de Deus Paulo VI, que duramente exortou os povos a recobrarem o senso caritativo da humanidade: “A solidariedade universal é para nós não apenas um fato e um benefício, mas também um dever” (Carta Enc´. Populorum Progressio, 17). Quando as pessoas de condição social elevada menosprezam o grito de desespero dos povos que padecem pela fome, pela falta de oportunidade, pelo desemprego e tantas outras desgraças a que são lançados, perdem a sua dimensão humanística e cristã. Aliás, é isso que tende o homem soberbo: sua autossuficiência não o faz reconhecer-se filho de Deus e faz desconhecer nos irmãos o sinal complacente do Cristo sofredor. Como nos faz saber o Santo Padre Bento XVI: “À aspiração frustrada dos pobres durante a vida corresponde o desejo dramaticamente negado aos ricos, de acederem ao banquete messiânico: ‘Ai de vós, ricos, porque já dispondes da vossa consolação’ (cf. Lc 6, 25)” (Homilia na Missa para os aposentados).

c)      A riqueza faz definhar a fé dos ricos: Por fim desejamos acender a este terceiro aspecto que se manifesta no que concerne à fé do rico. Deveríamos esclarecer aqui que a riqueza e a pobreza não devem apenas ser vistas num contexto exterior, mas também interior, para que não caiamos numa utopia ou numa concepção ideológica de pobreza e riqueza. De fato, é imperioso que tenhamos cuidado para não valorizarmos o pobre que é soberbo e esquecermo-nos do rico que é pobre. Voltemos mais uma vez à parábola. O rico, já na mansão dos mortos, pede que Abraão mande Lázaro alertar seus familiares para que também eles não caiam no tormento. Mas não lhe é concedido tal, uma vez que – segundo a narração – eles já possuíam a palavra dos profetas. Não necessitamos de mensagens dos mortos para orientarmos a nossa vida nos caminhos do Evangelho; hoje temos a Igreja, os ensinamentos dos santos e diversos meios de combatermos o nosso egoísmo e o amor ao deus-dinheiro. Por isso, se o rico deposita a sua fé mais na riqueza do que em Deus, ouvirá aquelas palavras outrora proferidas por Jesus: “Louco! Ainda esta noite será pedida conta de tua vida; e para quem ficará o que deixastes?” (Lc 12,21). A verdadeira humildade não consiste tão somente na renuncia de bens materiais, mas sobretudo no serviço a Verdade.

Conclusão

Enfim, queremos novamente elevar aos céus nossos singelos e sinceros agradecimentos a Deus pelo dom do Pontificado do Santo Padre Bento XVI que, com o raio da sabedoria divina, nos presenteou com este ano oportuníssimo à nossa fé e comunhão eclesial. Em nossa sociedade que menospreza o crer em Deus como fruto de uma “ilusão” e “se bem que nos encha de amarga dor o ver a fé definhar nos bons, e contemplar como, pelo falaz atrativo dos bens terrenos, lhes decresce nas almas e aos poucos se apaga o fogo da caridade divina, muito mais nos atormentam as maquinações dos ímpios, que, agora mais do que nunca, parecem incitados pelo inimigo infernal no seu ódio implacável contra Deus, contra a Igreja e, sobretudo, contra aquele que representa na terra a pessoa do divino Redentor e a sua caridade para com os homens” (Carta Enc. Haurietis Aquas, 67).

Por isso, em comunhão de caráter universal, queremos que esta iniciativa do Ano da Fé seja um momento de perpétua renovação onde já não mais possam contar as nossas vantagens, mas predomine o serviço renovado e ardente ao evangelho. “Por conseguinte, só acreditando é que a fé cresce e se revigora; não há outra possibilidade de adquirir certeza sobre a própria vida, senão abandonar-se progressivamente nas mãos de um amor que se experimenta cada vez maior porque tem a sua origem em Deus” (Carta Apost. Porta Fidei, 7).

Que nosso crer não seja uma apologia, uma forma de engrandecimento, mas um sinal de que Deus não está restrito a um passado. Ele nos alcança, fala também a nós e nos chama a sermos cristãos de firmes convicções. Não idealizemos a fé, mas a testemunhemos! Se a fé se projeta apenas no passado é uma mera lembrança; se se projeta apenas no presente é inteligível; se se projeta apenas no futuro é utopia. Ela deve albergar essas três realidades: aprender com o passado em um olhar de esperança para o futuro e uma ação no hoje da história.,

Invoquemos a Maria, Mãe da fé, para que junto ao Seu Filho faça crescer nos homens o desejo de procurarem trilhar cotidianamente, a passos vagarosos, mas firmes, os caminhos de Deus. Que todos se abram à graça salvífica e sintam Sua estreita proximidade para conosco, mesmo diante dos tormentos da sociedade contemporânea. Que este ano deixe-nos a certeza de que a vida cristã deve sempre nos ensinar a conjugarmos a fé com a esperança e o amor. Essas são as virtudes basilares para conhecer o Cristo e apresentá-Lo ao mundo. O conhecimento perpassa antes de tudo a experiência do encontro. Só conhece, de fato, quem encontra e quem convive. Nós devemos conviver com Deus!

Em Cristo Jesus, peço sobre vós as saúdes e bênçãos do céu.

Jequié, 9 de novembro – Festa da Dedicação da Basílica de São João de Latrão – do Ano do Senhor de 2013

Ian Farias de Carvalho

Acreditar no que se quer ou no que se deve?

Ninguém pode voltar-se para Deus e para o mundanismo ao mesmo tempo.

O ardoroso empenho para o renovamento da Fé na Igreja e nos corações é como chama crepitante que procura iluminar as nações, mesmo aquelas mais distantes, e aproxima-se dos corações, mesmo os mais gélidos. Luz e trevas parecem pairar sobre o nosso mundo hodierno. De um lado uma realidade sombria, que nos cerca pelos crimes atrozes vaticinados contra a vida do homem e sua dignidade; de outro lado temos a luz, daqueles que, conscientes da sua missão, testemunham de forma clarividente o exercício da fé cristã, conformando-se ao que dissera Cristo aos apóstolos: “Vós sois o sal da terra… vós sois a luz do mundo” (Mt 5, 13.14).

Sois sal; sois luz! Pois quisera, Senhor, que todas as pessoas – ao menos aquelas que se comprometeram convosco – fossem sal; quisera que aquelas que dizem Vos ouvir e enchem vosso templo fossem luz. Mas assim não é!

Fosse o mundo mais fiel, que digno de fé; mais amante, que amado; mais humilde, que soberbo. E muitos corações, ainda assim, preferem as glórias do mundo, que são vãs e passageiras, que as glórias eternas e alegres de Deus. A sociedade, com seu rápido avanço tecnológico, está mais centrada em saciar seus bolsos de dinheiro do que saciar seus corações áridos de palavra e amor. Mundo injusto, cruel, cego… Até quando vereis apenas o que quereis, mas não o que deveis? Serás salvo pelo que queres ver ou pelo que ignoras? Dizem os muitos teólogos que o oitavo sacramento é o da ignorância. Como? Sim, e assim quisera Deus que o fosse para cumprir o seu projeto salvífico de salvar o maior número que almas. Esta ignorância, entretanto, distingue-se daquela outra que não edifica, mas destrói. Há, pois, dois tipos de ignorância: A dos que não conhecem porque não querem e a dos que não conhecem porque não podem.

Quanto a primeira está dito no livro da Sabedoria: “Postea non suffecit errasse eos circa Dei scientiam, sed et in magno viventes inscientiae bello, tot et tam magna mala pacem appellant – Como se não bastasse terem errado acerca do conhecimento de Deus, embora passando a vida numa longa luta de ignorância, eles dão o nome de paz a um estado tão infeliz” (14,22). Infeliz do homem que conhece e insiste em viver uma falsa paz, forjada num lapso de felicidade e numa lacuna existencial. O Cristianismo não deve coadunar com essa pacificidade contraditória que subsista na infelicidade do homem, em sua autodestruição, na perfídia do mal que avantaja sobre os pressupostos existências daquela Paz verdadeira, que Cristo porta à humanidade. E aqui cabe à Igreja exortar para que não se enveredem em caminhos tortuosos senão naquela via verdadeira de salvação que consiste no Evangelho.

O grande problema dessa crise existencial dá-se sobretudo por aquilo que foi chamado pelo então Cardeal Ratzinger como “ditadura do relativismo”, o que pretendo tratar num próximo artigo, atendo-me aqui àquilo que foi proposto em nosso tema. Em quem devemos acreditar ou no que acreditar? Naquilo que consiste em uma realidade visível e agradável aos nossos olhos ou naquela em que somos movidos pela fé, pelo ímpeto que nos leva a conhecermos as razões pelas quais cremos? Para isso devemos nos deter agora na segunda ignorância.

Esta consiste naquela que adverte o livro de Eclesiásticos e que é o “oitavo sacramento”, como comumente costuma-se dizer: “Qui prius fui blasphemus et persecutor et contumeliosus; sed misericordiam consecutus sum, quia ignorans feci in incredulitate – a mim que outrora era blasfemo, perseguidor e injuriador. Mas alcancei misericórdia, porque ainda não tinha recebido a fé e o fazia por ignorância” (I Tm 1,13).

A advertência do Apóstolo São Paulo vale também para os tantos a quem o Evangelho permanece ainda anônimo. Sabemos que a estes, não por culpa própria, mas por infortúnio, o evangelho é ainda um enigma a ser desvendado, e, portanto, não o amam e não o testemunham. Esses são aqueles para os quais a Igreja não desvia os olhos misericordiosos, sendo-lhes imputadas as palavras da Lumen Gentium:

“Com efeito, aqueles que, ignorando sem culpa o Evangelho de Cristo, e a Sua Igreja, procuram, contudo, a Deus com coração sincero, e se esforçam, sob o influxo da graça, por cumprir a Sua vontade, manifestada pelo ditame da consciência, também eles podem alcançar a salvação eterna. Nem a divina Providência nega os auxílios necessários à salvação àqueles que, sem culpa, não chegaram ainda ao conhecimento explícito de Deus e se esforçam, não sem o auxílio da graça, por levar uma vida recta. Tudo o que de bom e verdadeiro neles há, é considerado pela Igreja como preparação para receberem o Evangelho, dado por Aquele que ilumina todos os homens, para que possuam finalmente a vida. Mas, muitas vezes, os homens, enganados pelo demónio, desorientam-se em seus pensamentos e trocam a verdade de Deus pela mentira, servindo a criatura de preferência ao Criador (cfr. Rom. 1,21 e 25), ou então, vivendo e morrendo sem Deus neste mundo, se expõem à desesperação final” (n. 16).

Aos seus filhos a Igreja dirige o solícito apelo para que não se cansem de propagar, com a própria vida, o Reino vindouro que prefigura-se na Igreja e concretiza-se no advento definitivo do Senhor, fazendo com que milhares possam gradativamente aderirem ao Reino de amor e paz, edificado sobre a justiça e a verdade.

Quem está mais próximo do Reino de Deus?

“Há teólogos que, à vista de todas as coisas terríveis que acontecem hoje no mundo, põem em dúvida se Deus não possa ser realmente omnipotente. Diversamente, nós professamos Deus, o Omnipotente, o Criador do céu e da terra. E sentimo-nos felizes e agradecidos por Ele ser omnipotente; mas devemos, ao mesmo tempo, dar-nos conta de que Ele exerce o seu poder de maneira diferente de como costumamos fazer nós, os homens. Ele próprio impôs um limite ao seu poder, ao reconhecer a liberdade das suas criaturas. Sentimo-nos felizes e agradecidos pelo dom da liberdade; mas, quando vemos as coisas tremendas que sucedem por causa dela, assustamo-nos. Mantenhamos a confiança em Deus, cujo poder se manifesta sobretudo na misericórdia e no perdão. E estejamos certos, amados fiéis, de que Deus deseja a salvação do seu povo. Deseja a nossa salvação, a minha salvação, a salvação de cada um. Sempre, mas sobretudo em tempos de perigo e transtorno, Ele está perto de nós, e o seu coração comove-se por nós, inclina-se sobre nós. Para que o poder da sua misericórdia possa tocar os nossos corações, requer-se a abertura a Ele, é necessária a disponibilidade para abandonar livremente o mal, levantar-se da indiferença e dar espaço à sua Palavra. Deus respeita a nossa liberdade; não nos constrange. Ele aguarda o nosso «sim» e, por assim dizer, mendiga-o.”

“No Evangelho, Jesus retoma este tema fundamental da pregação profética. Narra a parábola dos dois filhos que são convidados pelo pai para irem trabalhar na vinha. O primeiro filho respondeu: «“Não quero”. Depois, porém, arrependeu-se e foi» (Mt 21, 29). O outro, ao contrário, disse ao pai: «“Eu vou, senhor.” Mas, de facto, não foi» (Mt 21, 30). À pergunta de Jesus sobre qual dos dois cumprira a vontade do pai, os ouvintes justamente respondem: «O primeiro» (Mt 21, 31). A mensagem da parábola é clara: Não são as palavras que contam, mas o agir, os actos de conversão e de fé. Jesus, como ouvimos, dirige esta mensagem aos sumos sacerdotes e aos anciãos do povo de Israel, isto é, aos peritos de religião do seu povo. Estes começam por dizer «sim» à vontade de Deus; mas a sua religiosidade torna-se rotineira, e Deus já não os inquieta. Por isso sentem a mensagem de João Baptista e a de Jesus como um incómodo. E assim o Senhor conclui a sua parábola com estas palavras drásticas: «Os publicanos e as mulheres de má vida vão antes de vós para o Reino de Deus. João Baptista veio ao vosso encontro pelo caminho que leva à justiça, e não lhe destes crédito, mas os publicanos e as mulheres de má vida acreditaram nele. E vós, que bem o vistes, nem depois vos arrependestes, acreditando nele» (Mt 21, 31-32). Traduzida em linguagem de hoje, a frase poderia soar mais ou menos assim: agnósticos que, por causa da questão de Deus, não encontram paz e pessoas que sofrem por causa dos seus pecados e sentem desejo dum coração puro estão mais perto do Reino de Deus de quanto o estejam os fiéis rotineiros, que na Igreja já só conseguem ver o aparato sem que o seu coração seja tocado por isto: pela fé.

Papa Bento XVI, Homilia na Esplanada do Aeroporto de Freiburg
24 de setembro de 2011

A persistência da fé

 

Sagrado Magistério

Sagrado Magistério

 

Neste domingo somos convidados a persistir, a ter perseverança, uma santa insistência. Foi isto que moveu o coração do poderoso juiz que meditamos no Evangelho. Também o Evangelho tornar-se-á para nós um paradigma, olhando aquela pobre viúva. Em nossos dias a persistência tem se esfacelado e perdido toda a sua consistência. Ter persistência, por conseguinte, é ter esperança. Precisamos de uma esperança que não esmoreça, que não se limite em consistir apenas neste mundo, mas que vá além. Além das nossas expectativas, além do que este mundo possa oferecer, além do que possamos imaginar.

Não costumo fazer meditações dos salmos, mas hoje vemos claramente presente um ato de confiança, de clamor, que parte das entranhas do salmista. “De onde pode vir meu socorro? – Pergunta –. Do Senhor é que me vem o meu socorro, do Senhor que fez o céu e fez a terra!” (Sl 120/121, 1-2). Nas atuais condições da nossa sociedade tais afirmações põem-nos novamente em contato íntimo com Deus. Contato este que só poderá acontecer quando os homens reconhecerem o auxílio que, provindo de Deus, perpetra em cada um o espírito da verdadeira esperança, que não é finita, mas infinita..

Um verdadeiro consolo é manifestado neste salmo. Um Deus que não abandona seu povo, mas está caminhando lado a lado com ele. Na vicissitude dos tempos é-nos possível comprovar os maravilhosos prodígios de Deus na história da humanidade. Somos um povo que para Deus caminha. Esta verdade manifestar-se-á mediante as ações cristãs que praticarmos. “Voltemo-nos para Deus!” É o clamor que leva a Igreja a bradar aos homens de hoje. Tomada por um espírito de individualismo, a sociedade começa a degenerar-se, dissimulando-se de sua missão. E se esta assim progride acaba por fomentar divisões, ódios, guerras. Não obstante as diversas tentativas para manter-se a paz, consequentemente esta não poderá subsistir se as ações contrárias forem maiores.

Mas eis que, quando tudo parece impossível, o salmo mais uma vez vem a recordar-nos: “O Senhor te guardará de todo o mal, ele mesmo vai cuidar da tua vida! Deus te guarda na partida e na chegada. Ele te guarda desde agora e sempre” (120/121, 7-8). Devemos colocar-nos sob o domínio do Senhor, submeter-nos aos seus salvíficos desígnios. Mas perguntemo-nos, então, por que muitos não o fazem? Porque a prepotência e a arrogância parecem falar mais alto a estes pobres corações do que a voz de Deus, que por vezes faz-se ouvir baixinha, quase inaudível.

Dirigindo-se a Timóteo, Paulo alerta para que o discípulo não deixe esmorecer sua fé.

Escreve ele: “Permanece firme naquilo que aprendeste e aceitaste como verdade; tu sabes de quem o aprendeste. Desde a infância conheces as Sagradas Escrituras: elas têm o poder de te comunicar a sabedoria que conduz à salvação pela fé em Cristo Jesus.
Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para ensinar, para argumentar, para corrigir e para educar na justiça,  a fim de que o homem de Deus seja perfeito e qualificado para toda boa obra. Diante de Deus e de Cristo Jesus, que há de vir a julgar os vivos e os mortos, e em virtude da sua manifestação gloriosa e do seu Reino, eu te peço com insistência: proclama a palavra, insiste oportuna ou importunamente, argumenta, repreende, aconselha, com toda a paciência e doutrina” (2 Tm 3, 14 – 4, 2).

Avaliemos bem este rico texto de Paulo. Em primeiro lugar tenhamos em mente que já, desde aqui, se faz presente o Magistério da Igreja, ao qual muitos se recusam a aceitar. Existe uma verdade que muitos podem não aceitar: a posse da verdade só será concedida aos que falam em união com a Igreja e com seus ensinamentos. É preciso que haja uma autêntica interpretação do Magistério da Igreja. Se a Igreja deixa livre a interpretação das Escrituras tende-se a cair no erro de Lutero (Sola Scriptura). Por isso a Escritura deve ser associada ao Magistério e a Tradição.

No versículo 16 fala-se da inspiração das Escrituras. Escritas por homens, por inspiração divina, elas tendem a levar-nos a Deus. Como escreve a Dei Verbum: “Tudo o que os autores inspirados afirmam deve ser tido como afirmado pelo Espírito Santo, de onde se deduz que os livros sagrados ensinam com certeza, fielmente e sem erro, a verdade que Deus, em vista da nossa salvação, quis que fosse consignada nas Escrituras Sagradas” (nº 11). O Papa Leão XIII ainda afirma que elas são “oráculos e palavras divinas, cartas dirigidas pelo Pai celestial e transmitidas pelos autores sagrados ao gênero humano que peregrina longe de sua pátria” (Encíclica Providentissimus Deus).

Outro aspecto que ressaltei no texto é o caráter incisivo de Paulo. Em suas veementes palavras ele pede a Timóteo que pregue a palavra, quer agrade, quer desagrade. Isso significa que jamais deveria silenciar-se mediante as injustiças e uma possível “prepotência” do homem.

Mas como estas palavras toda a Igreja é conclamada a aferir suas ações nestes milênios tão conturbados, não obstante a constante persistência na evangelização. Vivemos momentos difíceis na história da humanidade, como também na história da Igreja. Muitos querem silenciar a Igreja para que não mais propague a verdade unicamente a ela confiada. Diversos inimigos levantaram-se, ainda que inutilmente, contra a Igreja para tentar ferir-lhe a dignidade. Inimigos que muitas vezes surgiram de ações malignas, do pai da mentira, que não fica feliz com o trabalho valoroso dispensado por aquela que é a prefiguração do Reino de Deus. A Igreja não esconde os erros dos seus filhos, mas também sabe reconhecer a má-fé, ou ignorância, que muitos usam para ferir-lhe a dignidade.

A Igreja e os seus valorosos membros não se deixam abater. Mas levantam-se com a espada da justiça para dilacerar toda a mentira e hipocrisia que insurja no mundo, “Todos os imperativos acumulados nestes versículos têm a força das ordens militares e devem ser obedecidas por todo ministro de Cristo em todos os tempos e em todos os países” (Erdmann).

Os padres e bispos na podem ocultar-se, e nenhum cristão está isento da missão. Como dirá São Pio V: “Aquele que conhece a verdade e não a proclama é um covarde miserável e não um cristão”

Por fim, o Evangelho fala de duas parábolas que representam a insistência e perseverança, de um lado uma pobre viúva, do outro um rico juiz. No coração endurecido da humanidade desvela-se a insistência da oração cristã. Na viúva figura o retrato de muitos crentes que veem sua fé abatida em momentos tão delicados. Mais Jesus convida-nos a perseverar. Ainda que sejam fortes os problemas, as graças vindouras serão mais abundantes ainda.

É importante dizermos que o fato de Jesus apresentar um Deus que fará justiça aos pequeninos, não significa que Ele queira apresentar um Deus sem misericórdia, inacessível. Ao contrário: Ele afirma que Deus tornar-se-á mais acessível à medida que os homens tornarem-se mais justos e misericordiosos.

Ao final Ele faz uma pergunta que, na verdade, se transforma em uma exortação à perseverança: “Quando vier o Filho do Homem, será que ainda encontrará fé sobre a terra?” (Lc 18, 8). É precípuo como nunca que os homens guardem a fé, que redescubram a beleza da oração, e nela encontrem sentido para a caminhada.

Maria, Mãe da Fé, nos auxilie nesta caminhada. Aproveito para agradecer a Deus pelos seis novos santos concedidos pelo Santo Padre Bento XVI, hoje, à Igreja. E renovo as minhas orações pelo Sínodo dos Bispos do Oriente Médio, no Vaticano.

Salus et Pax in corde Iesus et Maria

Os leprosos de hoje

No Evangelho deste domingo vemos de maneira significativamente presente uma doença temida na época de Jesus, mas que está carregada de um valor espiritual: a lepra.

Já na primeira leitura o autor nos coloca diante de um fato notável. Em primeiro lugar devemos ressaltar quem era o leproso na época de Cristo. O que ele representava? Como podemos fazer uma analogia com os nossos dias?

Para os antigos o leproso era alguém impuro. Ele devia ser evitado, pois a lepra poderia contagiar-lhes, por isso não viviam nas cidades e povoados, mas fora destes.

Elias manda que Naamã, o sírio, lave-se no Jordão e ele fica purificado (cf. 2 Reis 5, 14). Mas por que o autor usa o termo purificado, e não curado? Por que purificar quer dizer limpar, tornar puro. O rio Jordão constitui o símbolo do renascimento. Nos Evangelhos veremos que Cristo batizou-se no Jordão, transformando-o assim em uma espécie de fonte de vida.

Na segunda leitura o apóstolo São Paulo, mais uma vez, dirigindo-se a Timóteo, seu fiel colaborador, alerta: “Lembra-te de Jesus Cristo, da descendência de Davi, ressuscitado dentre os mortos, segundo o meu evangelho.  Por ele eu estou sofrendo até às algemas, como se eu fosse um malfeitor; mas a palavra de Deus não está algemada.  Por isso suporto qualquer coisa pelos eleitos, para que eles também alcancem a salvação, que está em Cristo Jesus, com a glória eterna.
Merece fé esta palavra: se com ele morremos, com ele viveremos. Se com ele ficamos firmes, com ele reinaremos. Se nós o negamos, também ele nos negará. Se lhe somos infiéis, ele permanece fiel, pois não pode negar-se a si mesmo” (2 Tm 2, 8-13).

Com o termo usado por Paulo percebe-se que ao escrever ao seu discípulo estava ele acorrentado, isto é, preso. Um frase do apóstolo, dentre as tantas, que chamou-me particular atenção é a sua afirmação de que, apesar de estar acorrentado, mas a Palavra de Deus não. Ora, a Palavra de Deus por excelência é Jesus Cristo, Verbo encarnado. Logo, ele afirma que Jesus não está preso, restrito a um grupo. Podem ter prendido Paulo, mas não impedirão que mensagem de Cristo se expanda a todos os povos. Bem oportuna é esta leitura dentro do mês missionário. Ela nos estimula e nos dá consciência de que todos são chamados a anunciar Jesus Cristo, mesmo mediante as dificuldades que impõe-se na sociedade hodierna, levando-nos a um relativismo, a uma exclusão de Deus da sociedade e a falta de fraternidade, comumente presente, sobretudo pela guerra. Com tudo isso, somos chamados a testemunhar, e não apenas a anunciar, o evangelho.

De resto, Paulo convida a Timóteo para que permaneça firme em Cristo. As palavras do apóstolo anunciam de certa forma o Reino vindouro, e a Parusia do Senhor, em Seu Advento definitivo. Aquele que nega sua missão, porém, também soam veemente as palavras apostólicas que nos levam a um juízo sobre o rumo de nossa caminhada existencial. O que faço da minha vida? Perguntemo-nos. Será que estou deixando-me conduzir pelo bom caminho?

Mas uma coisa o apóstolo diz que Deus não pode ser: infiel. Ainda que o neguemos, que sejamos infiéis, mas Ele nunca poderá assumir tal aspecto que seria humano. Diria que a infidelidade não parte de uma ação divina, mas sim dos desejos limitados da nossa frágil humanidade.

Por isso peçamos sempre ao Senhor que nos ensine a sermos fiéis aos seus ensinamentos. Deste modo poderemos contemplar a Onipotência de Deus, que é amor. Um Amor capaz de vencer a mesquinhez e os egoísmos do coração humano.

Por fim o evangelho introduz-nos novamente ao pensamento da lepra. Uma lepra que contamina a nossa sociedade. A cura para esta doença está no perdão, na busca de uma profunda reconciliação com Deus, em vista de um bem comum a todos. Só centralizando-se em Deus e buscando mergulhar no Coração de Jesus, saberemos que o amor não consiste em méritos passageiros, mas no eterno mérito do encontro pessoal com Jesus.

A ingratidão presente no texto mostra-nos a ingratidão nos homens de hoje. Apenas um estrangeiro vem agradecer. “E os outros nove – pergunta o Senhor – onde estão? Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, a não ser este estrangeiro?” E disse-lhe: “Levanta-te e vai! Tua fé te salvou”. (Lc 17, 17-18).

Veja, meus irmãos! O Senhor sente a dureza dos corações desses nove homens. Apenas um voltou. O Senhor poderia ter dito aos que não voltaram: “Agora vou devolver a lepra para vocês”; no entanto não faz isso. E por que não o faz? Porque Ele é misericórdia. Veja que os dez homens pararam a distância, mas quando foram curados apenas um aproximou-se de Jesus. Isso significa que muitos recorrem ao Senhor somente em momentos de tribulação, e quando veem que a tempestade já cessou, sequer vem agradecer-Lhe.

Saibamos ser gratos ao Senhor. Vejamos nEle a Imagem da Misericórdia. Para que não deixemos apagar em nós a chama da fé.

Confio a intercessão de Nossa Senhora o Sínodo dos Bispos do Oriente Médio, que tem início hoje, para que possa a Terra Santa tornar-se lugar de paz e de contemplação dos mistérios da salvação.

Saúdo-vos em Cristo Jesus e Maria Santíssima!

A Fé: ponto de partida

As leituras deste domingo nos convidam a uma reflexão mais profunda sobre a fé. Partindo da primeira leitura vemos o clamor do profeta Habacuc, que, em determinado momento, parece ter sido esquecido por Deus. Parece que seu clamor havia sido ignorado. E onde se achava Deus nesta hora? Por que deixava que seus filhos sofressem, assim como sorem muitos hoje?  A resposta para essas questões encontra-se no mesmo livro, não de uma forma direta, mas que nescessita de uma reflexão à qual deter-me-ei primeiro.

Habacuc vivia no final do século VII, início do século sexto, A.C. Reinava Joaquim, rei iníquo. O povo já não cultivava amor pelo Senhor, vivia-se na impiedade. O clamor feito pelo profeta era um clamor de todo o povo. O Senhor manifesta-se de forma dura. E afirma: “O justo viverá por sua fé” (Hb 2, 4). Estas palavras, associadas ao Evangelho, demostrar-nos-á que a fé é sempre necessária. Não obstante o contexto histórico que vivia o profeta, também para os dias hodiernos podemos associar tais palavras. A fé é capaz de nos retirar do mundo da mesquinhez e do egocêntrismo, e inseri-nos em uma comunidade fraterna, mesmo quando aí parecem surgir várias adversidades.

Quando o homem, ou a sociedade, busca uma autossuficiência afastada de Deus; quando eles já não rezam e curvam-se a Deus; quando já não mais obedecem os desígnios do Senhor e se põe contra os seus mandamentos, então deixam de ter forças, suprime sua fé e lança-se no “fundo do poço”.

Será que a nossa sociedade ainda não percebeu (ou, se percebeu, não quer ver) que sem Deus todos tendemos a um existencialismo vazio, desumano, obscurecido e irracional? Hoje lanço a todos vós um convite: levantai-vos! O Senhor nos chama! Que desperte o Brasil, os plíticos, os sacerdotes, e todo o mundo! Que a Santa Igreja, com sua espada da justiça e misericórdia levante-se contra todas as ameaças que tendem a secularizar mais a sociedade.

Na segunda leitura Paulo faz uma exortação veemente a Timóteo, seu fiel colaborador, para que reavive “a chama do dom de Deus que recebestes por imposição das minhas mãos” (2 Tm 1, 6). Vemos aqui presente um gesto que era usado já pelos apóstolos desde a Igreja primitiva, outrora fora usado também pelos sacerdotes que ofereciam os sacrifícios do cordeiro.

Com o gesto da imposição das mãos a Igreja confirma e ao mesmo tempo dá o direito para que uma pessoa assuma uma função. Vemo-lo principalmente nas ordenações.

“Não te envergonhes do testemunho de nosso Senhor nem de mim, seu prisioneiro, mas sofre comigo pelo Evangelho… Guarda o precioso depósito com a ajuda do Espírito Santo, que habita em nós” (ibid., v. 14). As palavras de Paulo foram zelosamente assumidas pela Igreja no decorrer destes dois milênios. Ainda que tempestades impetuosas pareçam balançar a Nau de Cristo, guiada por Pedro e seus sucessores, mas a certza de que ela nunca naufragará nos dá um alívio e um porto seguro.

Paulo não quer que Timóteo se desanime com relação à pregação. Por isso pede que ele não se envergonhe do testemunho do Evangekho; nem por sua causa (pois estava preso), nem por causa do Senhor. Há! Como as palavras de São Paulo necessitam impetrar um espírito de coragem em muitos católicos. Tantos que ocultam sua fé por motivos políticos. Colocam as ações políticas acima do âmbito religioso. Sobretudo neste dia de eleição deve-se ter consciência de que devemos prezar pelo futuro do país. Não deixar que abortistas e anti-cristãos assumam o governo do país é um dever nosso. Um cristão dá testemunho de sua fé, ainda que seja na política. Ou será que queremos ver o Brasil como uma futura Espanha?

“Bonum depositum custodi per Spiritum Sanctum qui habitat in nobis – Guarda o precioso depósito com a ajuda do Espírito Santo, que habita em nós (idem). O depósito confiado a Igreja há dois mil anos trás permanece com sua originalidade. A Igreja nunca poderá auterá-lo. Muitos me perguntam: por que a Igreja não se moderniza? Respondo: por que no “depósito” que São Paulo mandou guardar não está escrito que a doutrina é feita pela Igreja. Quiçá um dia possam compreendê-lo! Todas as leis e mandamentos que a Igreja guarda, de alguma forma, procedem de Cristo e dos apóstolos.

Por fim, o Evangelho é um exemplo de que a fé é necessária. Jesus diz aos apóstolos que “Se tivésseis fé como um grão de mostarda, poderíeis dizer a esta amoreira: ‘Arranca-te daqui e planta-te no mar’, e ela vos obedeceria” (Lc 17, 6). Com isto Jesus quer nos convidar a fortalecer nossa fé; a não nos preendermos em nada supérfluo e passageiro.

É necessário que estejamos voltados para o alto, para os bens celestiais. A nossa fé é a plena e livre adesão aos ensinamentos do Senhor, e deve ser sinal concreto de testemunho autêntico.

Que Maria, nos ajude a sermos fiéis ao Evangelho de Seu Filho.

Com cordiais saudações em Cristo Jesus e Maria Santíssima!

Salute et Pax!

A Família: Igreja doméstica

 

Assistimos nos últimos dias o triste cenário, dramatizado em toda a humanidade: a destruição da família, célula-mãe da sociedade. O triste cenário mundial forma-se, sobretudo pela falta de fraternidade entre os povos, que, mesmo com a globalização, não impediu o crescimento de barreiras que destruíssem a fraternidade. Por isso o Santo Padre Bento XVI recordou muito bem: “A sociedade cada vez mais globalizada torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos” (Cart. Enc. Caritas in Veritate, 19). E mediante isto põe-se em evidência que a família, ao contrário da economia, não sobrevive apenas com recursos financeiros, estes são importantes, mas não são o essencial. O essencial, que de forma alguma pode ser “perdido de vista”, é Deus. E podemos constatar que hoje Ele é o que mais falta nas famílias. Não que Ele esteja ausente; mas as famílias ausentaram Deus da sua convivência. Para muitos o essencial é o ter; e aí voltamos à velha questão do egocentrismo, e que por sinal nunca se ausentou da humanidade.

Mas, naturalmente, podeis perguntar-me: como poderemos fazer com que Deus habite em nossa família? É claro que não podemos delimitar espaços a Deus, isso é impossível à natureza humana; mas há um meio muito fácil de fazer com que Ele habite conosco. Que Ele faça da nossa casa a Sua casa. Este meio é a ORAÇÂO. Nós somos chamados a vivermos a oração também em nosso lar. E o lar é onde, desde criança, se ensina os valores cristãos. “A família é a comunidade na qual, desde a infância, se podem assimilar os valores morais, tais como honrar a Deus e usar corretamente a liberdade. A vida em família é iniciação para a vida em sociedade” (Catecismo da Igreja Católica, 2207). E o Papa João Paulo II, de venerada memória, também recorda-nos: “A oração reforça a estabilidade e a solidez espiritual da família, ajudando a fazer com que esta participe da ‘fortaleza’ de Deus. Na solene ‘benção nupcial’ durante o rito do matrimônio, o celebrante invoca deste modo o Senhor: ‘Efunde sobre eles (os recém-casados) a graça do Espírito Santo, a fim de que, em virtude do teu amor derramado nos seus corações, perseverem fiéis na aliança conjugal’. É desta ‘efusão do Espírito Santo’ que dimana a força interior das famílias, bem como o poder susceptível de as unificar no amor e na verdade” (Carta às famílias, 2 de fevereiro de 1994, 4).

A família é chamada a ser instrumento de graça, de amor, de bondade e de oração. De tal forma, entregue a “sorte” da sociedade, a família desintegra-se, principalmente porque não crê, e se crê não professa, e se professa não vive, por conseguinte ela enfraquece suas “bases” e qualquer “tempestade” com ventos indômitos, indubitavelmente irá derrubá-la. Para isto tomemos como exemplo a parábola da casa mal-edificada e feita na areia, e aquela construída na rocha (cf. Mt 7,24-27). A chuva veio e derrubou a casa da areia, mas não derrubou a da rocha, e por quê? Porque enquanto uma estava construída sobre a areia, a outra estava edificada sobre a rocha.

Adaptemos a parábola a realidade hodierna. Se a família buscar apenas o que é efêmero, superficial, aquilo que não lhe sacia, continuará a sofrer com as demasiadas tempestades dos dias de hoje. Porém se ela edifica-se sobre a rocha, buscado a vivência da oração e a entrega constante a Deus, não será, jamais, derrubada por ventos impetuosos.

Para isto tomemos como exemplo a Sagrada Família de Nazaré que jamais cessou na oração, ou que jamais deixou-se levar pelas diversas circunstâncias que afligiam à época.

Em Maria os homens e mulheres são chamados a observar todas as mães de hoje. Mães que lutam, mães que batalham, que sofrem com seus filhos presos aos vícios e ao narcotráfico, mães que trabalham para garantir o sustento da família, abandonadas pelo marido e deixadas a mingua da cruel sociedade.

Em José contemplamos os pais. Estes são chamados a imitá-lo na perseverança de que a família pode ser aquele lar tão desejado, uma família que sempre reze. Pais que trabalham para o sustento familiar. Maridos comprometidos, fiéis, honestos.

Em Jesus queremos agora olhar as crianças. Aquelas que são marginalizadas, as que sofrem por desavença familiar, principalmente por causa de brigas entre pais, as que não tem um teto, um alimento diário.

Na família mais perfeita, a Santíssima Trindade, quero pedir a graça da santidade para as famílias e a santificação dos seus membros; para que, por meio da vivencia fraterna, da solidariedade, do amor, da união, do respeito, da fidelidade e da oração, possam ser cada dia mais instrumento de Deus para a santificação da humanidade.

“A família, como a Igreja, deve ser um lugar onde se transmite o Evangelho e donde o Evangelho irradia. Portanto no interior de uma família consciente desta missão, todos os componentes evangelizam e são evangelizados. Os pais não só comunicam aos filhos o Evangelho, mas podem também receber deles o mesmo Evangelho profundamente vivido. Uma tal família torna-se, então, evangelizadora de muitas outras famílias e do ambiente no qual está inserida” (Paulo VI, Exor. Ap. Evangelii Nuntiandi, 71).

Portanto se você acha que seu casamento não tem mais solução ou sua família não irá mais resistir, busque a oração, busque a Cristo. Ele tem todas as repostas. Não espere que seja como doril (tomou doril a dor sumiu). Você precisa comprometer-se na reconstrução da mesma para que não sejam em vão todas as suas orações. Se você espera uma ação de Cristo tenha também a sua ação. Eu lhe garanto: Jesus é a solução. Busque-O pela oração.

Concluo com as palavras de São Paulo: “Cumpra o marido seu dever conjugal para com a esposa, e a esposa, do mesmo modo, para com o marido. Aos casados ordeno, não eu, mas o Senhor: a mulher não se separe do marido. E o marido não pode despedir a mulher” (Cor. 7, 3.10-11).

Na certeza de que esta carta não foi em vão, peço a Sagrada Família que vos abençoe sempre a vós e vossas famílias.

Dário Meira, 10 de outubro de 2009, Memória de São Daniel Comboni