A crise de fé na existência do homem contemporâneo

“O que vimos e ouvimos nós vos anunciamos” (1Jo 1,3)

Por ocasião do Ano da Fé faço chegar minha saudação cordial aos irmãos e irmãs que com ardoroso empenho se dedicaram de forma corajosa e fiel para o bom êxito deste período de graças abundantes. Tenho dito que o Senhor nos proporcionou prodígios imensos com estes dias benéficos propostos pelo nosso querido Papa emérito Bento XVI e abraçado por toda a Igreja como um convite para renovarmos a nossa fé no “Deus de todas as consolações” (2Cor 1,3).

Agora, tendo chegado à conclusão deste ano de graça, desejamos auspicar os votos provenientes do nosso íntimo para que se possam haurir todos os ensinamentos que usufruímos neste tempo, sejam eles vindos do Magistério, sejam eles vindos da Sagrada Escritura vivenciada no cotidiano. Por isso este artigo procura retratar a necessidade primordial de conservar a fé no coração e na história do homem contemporâneo. Há, indubitavelmente, uma lacuna no que tange ao sensus fidei no seio da humanidade. Temos muitos homens; temos poucos humanos. Perdida a fé se esvai a esperança daquilo que chamo de metanóia da interioridade, ou seja, mudança, conversão de costumes, hábitos e vida. Sem esta caímos na indiferença do grito ecoante dos indefesos e pequenos nos negando à prática da caridade, maior de todas as virtudes.

A crise de fé, entretanto, não vem sozinha. Antes, vem acompanhada de uma crise de grande magnitude: a existencial, que afeta a vida, os direitos, a fé e a dignidade, de modo particular dos que são postos à margem de qualquer posição. É comum (até necessário!) que a sociedade seja abalada por esta crise. Cada homem é chamado a lutar contra si, descobrir-se em meio a tantas propostas e tantas formas de propor; perguntas que caracterizam os percursos da vida humana. Porém, temos percebido que tem ela ganhado uma força aparentemente incontrolável, onde ressaem mais as inconstâncias e preocupações subjetivas do que a fé que une a todos sob um mesmo amor redentor.

Não obstante, no decorrer destes dois milênios a Igreja tem feito com que o homem questione a si mesmo de forma sadia e coerente não para que se torne um agnóstico, alguém descrente, mas para que possa dar razão e sentido à sua fé. Como bem nos recordara o Bem-aventurado Papa João Paulo II na Carta Encíclica Fides et Ratio: “Na base de toda a reflexão feita pela Igreja, está a consciência de ser depositária duma mensagem, que tem a sua origem no próprio Deus (cf. 2Cor 4,1-2). O conhecimento que ela propõe ao homem não provém de uma reflexão sua, nem sequer da mais alta, mas de ter acolhido na fé a palavra de Deus (cf. 1Ts 2,13)” (nº 7).

Propus-me a meditar sobre esta crise de fé, que está intrinsecamente unida a crise existencial, para que este ano não seja um labor em vão mas um momento oportuno onde a palavra outrora pregada por São Paulo ecoe incessantemente no mundo hodierno: “Prega a Palavra, quer agrade, quer desagrade” (2Tim 4,2).

Em uma de suas poesias, Manoel de Barros escreveu: “No que o homem se torne coisal – corrompem-se nele os veios comuns do entendimento”.

Também hoje fazemos nossas as suas palavras. O que significa ser o homem “coisal”? Deveras, é o fato de que este se torne tão somente uma “coisa”, um ser casual, produto da sociedade consumista e exacerbadamente capitalista; perde-se de si, perde-se dos outros; está no mundo sem descobrir-se e sem redescobrir a beleza da vida e a finalidade da sua existência. Este cenário despontou há alguns séculos e torna-se sempre mais costumeiro e insensível à realidade dos sinais propostos pelas concepções filosóficas ou pela religião a respeito de Deus. Gradativamente vai o homem perdendo a esperança com relação a sua fé e ao “por que” das coisas. Neste consiste o imperioso dever de fazermos com que o homem enverede novamente pelo caminho da luz e da razão.

Seria demasiado extenso tratarmos a fundo do problema da crise existencial, além de desfocarmos da centralidade da nossa carta. Por isso, procurarei explanar brevemente o tema limitando-me a enumerar alguns aspectos que incidem de forma pungente em nosso cenário.

O relativismo e as problemáticas diante da fé

O primeiro destes aspectos é o relativismo, denunciado inúmeras vezes pelo Sumo Pontífice o Papa Emérito Bento XVI. Uma das suas mais famosas denúncias deu-se na Santa Missa Pro Eligendo Pontifice, quando ainda era o então Cardeal Ratzinger:

“Ter uma fé clara, segundo o Credo da Igreja, muitas vezes é classificado como fundamentalismo. Enquanto o relativismo, isto é, deixar-se levar ‘aqui e além por qualquer vento de doutrina’, aparece como a única atitude à altura dos tempos hodiernos. Vai-se constituindo uma ditadura do relativismo que nada reconhece como definitivo e que deixa como última medida apenas o próprio eu e as suas vontades”.

Sábias palavras estas! O que é bom torna-se mal; o que é mal torna-se bom. É este o relativismo que devasta a nossa crença e a nossa sociedade nos fazendo homens descrentes, fechados à realidade da fé e da salvação. Se cremos devemos ter consciência de que não cremos individualmente mas em comunidade eclesial.  Crer, portanto, é adesão à base da nossa fé, que é a Trindade, perfeita Comunidade. Se a fé torna-se sinônimo de isolamento não subsiste porque se torna discrepante com o Evangelho e com o modelo de Igreja que nos foi transmitido na vicissitude dos séculos. É necessário que aprendamos a ser individuais sem sermos individualistas. “A fé não é um fato privado, uma concepção individualista, uma opinião subjetiva, mas nasce de uma escuta e destina-se a ser pronunciada e a tornar-se anúncio” (Cart. Enc. Lumen Fidei, 22).

Se por um lado é demasiado perigoso que a fé se torne individualista, o é também que ela assuma uma dimensão comunitária desvirtuada do seu real objetivo e deformada da sua essencialidade quando deixamos de crer com todos para crer com alguns. O relativismo permeia esses dois âmbitos. Evidencia-se desta feita que, para responder às reais razões da problemática existencial do homem e para conduzi-lo à Verdade, devemos fazer a correlação entre e razão. Relembrando o saudoso João Paulo II em sua já citada encíclica, também nós queremos reafirmar que “a razão, privada do contributo da Revelação, percorreu sendas marginais com o risco de perder de vista a sua meta final. A fé, privada da razão, pôs em maior evidência o sentimento e a experiência, correndo o risco de deixar de ser uma proposta universal” (nº 48).

Não prescinde do homem sua fé, mas ela é dom de Deus que se manifesta e que se lê sapientemente com os sinais dos tempos e guiada unicamente para a Verdade. Por isso, restringir a fé de um caráter universal para uma particularidade é também delimitar espaços para a verdade e interpretá-la ao nosso bel prazer, fazendo-nos descrentes com a realidade imperiosa da salvação e tornando-nos crentes com a alucinógena realidade do querer. O teólogo Jean Daniélou bem nos relatou esta realidade em seu livro O futuro no presente da Igreja: “O mistério da fé está, certamente, acima e para além de toda expressão humana; nenhuma definição poderá jamais esgotar todo o seu conteúdo de verdade” (Ed: Paulinas, 1974).

A Verdade primeira consiste na Pessoa Daquele que diz: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”, acrescentando logo em seguida: “Ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14,6). E aqui – embora não nos seja um momento exegético – deveríamos nos perguntar, para assim melhor evidenciarmos o caminho da verdade: Por que diz Cristo “vem” e não “vai” ao Pai? Desejaria ressaltar dois motivos pelos quais a verdade torna-se inacessível se não for trilhado o caminho que Cristo evidencia:

a)      O primeiro refere-se àquela afirmação de caráter salvífico: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30), reafirmado a sua unicidade com Deus e de onde viera: não de outro lugar, senão do seio do Pai. Ele e o Pai são um! Diferença na Pessoa, igualdade na divindade. É um caminho que requer autenticidade e o amor pela verdade e pelo conhecimento. Santo Agostinho bem escrevera: “Onde existe o Amor existe a Trindade: um que ama, um que é amado e uma fonte de amor” (De Trinitate).

b)      A segunda frase é, por assim dizer, um complemento quanto à primeira. Nenhum outro é o caminho para o Pai senão em Cristo. Só Ele é a via de acesso para a salvação do homem, como dissera Paulo: “Unus enim Deus, unus et mediator Dei et hominum, homo – um só Deus e há um só mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo, homem” (I Tim 2,5). Embora muitos sejam os ideais e as formas de buscar o conhecimento, todas resumem a ideia paulina dita em algumas linhas antes desta citação, quando afirma que Deus é Aquele que “deseja que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (v.4). Um caminho é o da verdade e nós podemos adorá-lo porque é também uma Pessoa. Uma vez que “ninguém pode sinceramente ficar indiferente quanto a verdade do seu saber” (Fides et ratio, 25), a Sagrada Escritura fomenta um conhecimento ao homem que – provenha de Deus ou provenha de sua consciência – é via estreita para chegar-se a esta Verdade que Jesus se-nos apresenta. Porém, tendo conhecido o Evangelho, o homem é convidado a refletir sua postura anterior para que, conscientemente avaliadas, sejam aderidas ou não. Tendo aderido torna-se partícipe, mas se ignora então persiste no erro.

O testemunho como essência da fé

Aqui adentramos em um segundo aspecto da crise de fé que vai tentando sorrateiramente corroer as estruturas da verdade na qual cremos: falta de testemunho. Para os que creem o testemunho não é privilégio, mas exigência e necessidade de um autêntico discipulado. O verbo crer é um sinônimo (para o cristão) do verbo testemunhar, e os dois se conjugam na linguagem universal da fé.

A falta de testemunho, sobretudo por parte dos membros, tem impactado muitos fiéis que, com a fé já atormentada pela forma periclitante de questionamentos, se deparam com a incoerência de vida dos que se dizem parte do Corpo Místico de Cristo mas que agem como se nele não estivessem. Por essa razão este ano não nos convidou somente a um renovando modelo de fé, mas a um testemunho convicto e convincente daquela mensagem que nos foi dada e que deve por nós ser testemunhada.

A palavra não é nossa! A mensagem não é da Igreja! Tudo lhe advém por Cristo, Senhor e Juiz da História. Afinal, “quem se abriu ao amor de Deus, acolheu a sua voz e recebeu a sua luz, não pode guardar este dom para si mesmo. Uma vez que é escuta e visão, a fé transmite-se também como palavra e como luz” (Cart. Enc. Lumen Fidei, 37). Aos que conheceram e se abriram à graça da salvação, é outorgada uma necessidade de fé que não acomoda, antes incomoda, inquieta e estimula a transmitir também o que já vem sido anunciado (cf. ICor 15,3).

Por isso é imperioso o nosso dever de advertir para que não se pregue aquilo que não nos convém ou não é de nosso caráter missionário. Devemos sim pregar sobre a necessidade e a essência da nossa missão cristã que consiste naquilo que pertence ao sagrado Depósito da Fé. Quando a religião deixa de pregar sobre Deus e o seu Evangelho e passa a ser transmissora de suas convicções institucionais, ou de convicções pessoais de seus membros, deixa de ser semente de Deus e passa a ser joio do Diabo (cf. Mt 13,39).

O momento decisivo do encontro com Deus não deve estar esperançado somente na expectativa de um mundo vindouro, mas deve sê-lo, já aqui, um preclaro sinal de que Aquele em quem nós acreditamos não nos deixará no vazio, na obscuridade; ao contrário, nos ilumina e revigora, nos dá luzes, mesmo que por vezes as trevas pareçam predominar e o cheiro de morticínio, desprezo e ignomínia se elevem como um clamor versado na desgraça alheia. Neste âmbito Paulo nos conclama a um renovado olhar sobre a ação de Deus no mundo nos pedindo para não desprezar a nossa fé e colocar em dúvida o querer de Deus em meio às adversidades: “Sei em quem pus minha confiança” (II Tim 1,12).

Somos chamados a unir-nos de forma particular aos nossos irmãos que sofrem pelas perseguições por testemunharem sua fé no Cristo Ressuscitado e por isso são injustiçados, humilhados e mortos. O Senhor olha também por estes mártires do novo milênio que segue não menos rigoroso com quantos se põe a serviço do Evangelho.

A concretude da fé na caridade

A verdadeira fé não se faz isolar. Ela nos descerra a um encontro com a verdade centrada no Cristo, contemplada em sua vida e sentida pela sua presença. Santo Tomás de Aquino, exímio em sua sabedoria e humilde em sua vida, fala a respeito de uma oculata fides (uma fé que vê) dos Apóstolos (cf. Summa theologiae, III, q. 55, q. 2, ad 1) (cf Lumen Fidei, 30). Essa “visão” traduz-se na expressão máxima da fé que é a caridade. Por isso, a advertência de São Tiago constitui, ainda mais para a nossa sociedade capitalista e egoísta que não olha a necessidade dos desfavorecidos, uma cartilha de caridade cristã, como o é toda a Escritura Sagrada: “Tu tens a fé, e eu tenho as obras; mostra-me a tua fé sem as tuas obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras” (Tg 2,18).

Quando o homem se fecha para o grito daquele que sofre, fecha-se também ao grito de Cristo que clama e é solícito para com os pequenos do seu Reino. O mundo tem fome de pão e ainda mais esfomeado está pela Palavra viva que produz a fé. Aos que padecem pela fome repetimos o apelo paternal do Servo de Deus Papa Paulo VI: Não basta alimentar os esfomeados: ainda é preciso assegurar a cada homem uma vida conforme a sua dignidade” (Discurso à ONU, 04/10/1965).

Se, por um lado, urge a necessidade de um olhar pelos irmãos necessitados e pelos locais em via de desenvolvimento, mas que sofrem empecilhos por parte daqueles que detém grande parte do poder econômico; por outro faz-se também atenciosa a situação daqueles que faltam à caridade para com o próximo em estado espiritual. Tantos são os que, fechados à comodidade de suas situações estáveis, não atentam ao apelo dos irmãos sofridos e privados do anúncio de Jesus Cristo. Se a fé é dom de Deus não deve ser retida. Podemos reter o que é nosso, mas jamais o que pertence a todos. “A fé torna-se operativa no cristão a partir do dom recebido, a partir do Amor que o atrai para Cristo (cf. Gl 5,6) e torna participante do caminho da Igreja, peregrina na história rumo à perfeição” (Lumen Fidei, 22).

Novamente apelo para a consciência moral dos povos, sobretudo dos governantes, para que escutem o brado dos irmãos que são tratados como aquele da parábola do rico epulão e do pobre Lázaro (cf. Lc 16,19-31), deixado à margem e do qual vinham os cachorros para lamber as suas feridas.  No dia da morte, nada ficará sem que se preste contas a Deus. E então, Lázaro é “levado” para o alto pelos anjos, ao seio de Abraão. Finalmente, o pobre entra na jubilosa comunhão do banquete messiânico; o rico, ao contrário, “foi sepultado… na morada dos mortos, achando-se em tormentos…” (Lc 16, 22-23).

O Santo Padre Bento XVI em sua homilia na Missa dos aposentados alertou que há de ter-se cuidado com três pontos fundamentais em que o dinheiro pode prejudicar a vida do homem e do qual vemos bem frisado no Evangelho:

a)      A riqueza faz definhar a vida do pobre: O Evangelho faz a descrição do homem rico como ornado de ouro, abastardo de alimento, fechado em sua comodidade; ignorava o grito do pobre em sua porta, não tinha compaixão para aquele seu irmão, filho do mesmo Deus, que lá estava atirado. Aqueles desfavorecidos não possuem o capital e os recursos necessários para a sobrevivência, podendo tão somente contar com a ajuda dos que são bem ressarcidos em seu meio de trabalho ou em suas posições sociais. A Igreja se solidariza com estes e lhes faz estreitar com o Cristo sofredor, que não os ignora, mas é presente em suas necessidades cotidianas.

b)      A riqueza faz definhar a vida dos ricos: Neste segundo aspecto retratemos o prejuízo da riqueza para a vida dos ricos. Novamente fazemos ecoar as palavras do Servo de Deus Paulo VI, que duramente exortou os povos a recobrarem o senso caritativo da humanidade: “A solidariedade universal é para nós não apenas um fato e um benefício, mas também um dever” (Carta Enc´. Populorum Progressio, 17). Quando as pessoas de condição social elevada menosprezam o grito de desespero dos povos que padecem pela fome, pela falta de oportunidade, pelo desemprego e tantas outras desgraças a que são lançados, perdem a sua dimensão humanística e cristã. Aliás, é isso que tende o homem soberbo: sua autossuficiência não o faz reconhecer-se filho de Deus e faz desconhecer nos irmãos o sinal complacente do Cristo sofredor. Como nos faz saber o Santo Padre Bento XVI: “À aspiração frustrada dos pobres durante a vida corresponde o desejo dramaticamente negado aos ricos, de acederem ao banquete messiânico: ‘Ai de vós, ricos, porque já dispondes da vossa consolação’ (cf. Lc 6, 25)” (Homilia na Missa para os aposentados).

c)      A riqueza faz definhar a fé dos ricos: Por fim desejamos acender a este terceiro aspecto que se manifesta no que concerne à fé do rico. Deveríamos esclarecer aqui que a riqueza e a pobreza não devem apenas ser vistas num contexto exterior, mas também interior, para que não caiamos numa utopia ou numa concepção ideológica de pobreza e riqueza. De fato, é imperioso que tenhamos cuidado para não valorizarmos o pobre que é soberbo e esquecermo-nos do rico que é pobre. Voltemos mais uma vez à parábola. O rico, já na mansão dos mortos, pede que Abraão mande Lázaro alertar seus familiares para que também eles não caiam no tormento. Mas não lhe é concedido tal, uma vez que – segundo a narração – eles já possuíam a palavra dos profetas. Não necessitamos de mensagens dos mortos para orientarmos a nossa vida nos caminhos do Evangelho; hoje temos a Igreja, os ensinamentos dos santos e diversos meios de combatermos o nosso egoísmo e o amor ao deus-dinheiro. Por isso, se o rico deposita a sua fé mais na riqueza do que em Deus, ouvirá aquelas palavras outrora proferidas por Jesus: “Louco! Ainda esta noite será pedida conta de tua vida; e para quem ficará o que deixastes?” (Lc 12,21). A verdadeira humildade não consiste tão somente na renuncia de bens materiais, mas sobretudo no serviço a Verdade.

Conclusão

Enfim, queremos novamente elevar aos céus nossos singelos e sinceros agradecimentos a Deus pelo dom do Pontificado do Santo Padre Bento XVI que, com o raio da sabedoria divina, nos presenteou com este ano oportuníssimo à nossa fé e comunhão eclesial. Em nossa sociedade que menospreza o crer em Deus como fruto de uma “ilusão” e “se bem que nos encha de amarga dor o ver a fé definhar nos bons, e contemplar como, pelo falaz atrativo dos bens terrenos, lhes decresce nas almas e aos poucos se apaga o fogo da caridade divina, muito mais nos atormentam as maquinações dos ímpios, que, agora mais do que nunca, parecem incitados pelo inimigo infernal no seu ódio implacável contra Deus, contra a Igreja e, sobretudo, contra aquele que representa na terra a pessoa do divino Redentor e a sua caridade para com os homens” (Carta Enc. Haurietis Aquas, 67).

Por isso, em comunhão de caráter universal, queremos que esta iniciativa do Ano da Fé seja um momento de perpétua renovação onde já não mais possam contar as nossas vantagens, mas predomine o serviço renovado e ardente ao evangelho. “Por conseguinte, só acreditando é que a fé cresce e se revigora; não há outra possibilidade de adquirir certeza sobre a própria vida, senão abandonar-se progressivamente nas mãos de um amor que se experimenta cada vez maior porque tem a sua origem em Deus” (Carta Apost. Porta Fidei, 7).

Que nosso crer não seja uma apologia, uma forma de engrandecimento, mas um sinal de que Deus não está restrito a um passado. Ele nos alcança, fala também a nós e nos chama a sermos cristãos de firmes convicções. Não idealizemos a fé, mas a testemunhemos! Se a fé se projeta apenas no passado é uma mera lembrança; se se projeta apenas no presente é inteligível; se se projeta apenas no futuro é utopia. Ela deve albergar essas três realidades: aprender com o passado em um olhar de esperança para o futuro e uma ação no hoje da história.,

Invoquemos a Maria, Mãe da fé, para que junto ao Seu Filho faça crescer nos homens o desejo de procurarem trilhar cotidianamente, a passos vagarosos, mas firmes, os caminhos de Deus. Que todos se abram à graça salvífica e sintam Sua estreita proximidade para conosco, mesmo diante dos tormentos da sociedade contemporânea. Que este ano deixe-nos a certeza de que a vida cristã deve sempre nos ensinar a conjugarmos a fé com a esperança e o amor. Essas são as virtudes basilares para conhecer o Cristo e apresentá-Lo ao mundo. O conhecimento perpassa antes de tudo a experiência do encontro. Só conhece, de fato, quem encontra e quem convive. Nós devemos conviver com Deus!

Em Cristo Jesus, peço sobre vós as saúdes e bênçãos do céu.

Jequié, 9 de novembro – Festa da Dedicação da Basílica de São João de Latrão – do Ano do Senhor de 2013

Ian Farias de Carvalho

Quem é o homem?

Segue aqui um artigo meu publicado originalmente no blog Reflexões Franciscanas, fruto dos anos de filosofia na vida seminarística.

À pergunta antropológica O que é o homem? diversos pensadores conseguiram albergar alguma característica, embora nem toda a característica fosse bem colocada. Tivemos desde a visão de homem econômico, com Marx, passando pelo homem instintivo com Freud, o homem angustiado com Kierkegaard, homem utópico com Bloch, homem existente com Heidegger, homem cultural com Gehlen e homem religioso com Luckmann, apenas alguns dos principais conceitos aqui citados. Mas ainda assim, após tantas investigações, podemos observar a lacuna que parece nunca ceder completar-se com tais interpretações. O homem é apenas fruto de um capitalismo exacerbado, que visa o lucro antes de toda a dignidade humana e que tende a fazer com que este mesmo torne-se um servo dos prazeres do dinheiro? Ou poderíamos dizer que o homem é apenas um ser cultural, ainda que seja realmente difícil acreditar que tenhamos algum valor cultural com essa mentalidade de sociedade? Poderíamos dizer que o homem é constituído apenas de sua religiosidade, ainda que para os fanáticos isso seja aparentemente possível? Ou ainda será o homem apenas um ser angustiado, ainda que a depressão seja tida como a doença do século, embora a angústia que Kierkegaard expressa seja uma angústia da sede de buscar e não de um vazio subjetivo? Ou será que o homem é um sujeito sempre desejante em busca de um objeto de desejo e que sempre carregará consigo uma falta? Todos esses pensamentos são válidos a partir do ponto de vista e do modo como associamos o homem a cada uma dessas indagações.

O questionamento antropológico sempre esteve no cerne das discursões religiosas, econômicas, políticas, culturais, há sempre um foco: o homem. No entanto, cabe-nos ir além e perguntarmos se há uma saciedade já neste mundo mediante tantas características para se afirmar o valor do homem. Onde está então o valor do homem (e falemos aqui não apenas de uma perspectiva religiosa, mas também antropológica)? A constituição da pessoa humana, corpo e alma, são realmente basilares em se tratando do constitutivo da pessoa?

Sim, o homem tem sede de transcendência! Mesmo aqueles que não acreditam na salvação podem pressupor que há uma metafísica a ser revelada e que por enquanto nos parece oculta. Hoje, ao escutar a primeira leitura, ainda que com um pouco de sono, coloquei-me a meditar nas palavras de São Paulo aos areopagitas: “Homens atenienses, em tudo eu vejo que vós sois extremamente religiosos. Com efeito, passando e observando os vossos lugares de culto, encontrei também um altar com esta inscrição: ‘Ao Deus desconhecido’” (At 17, 22-23). Imediatamente recordei-me daqueles que ainda hoje não conhecem a Cristo por não terem chegado a eles a Boa Nova do Reino; mas recordei-me daqueles que conhecem a Cristo, mas o ignoram. E quantos hoje continuam como os gregos a edificarem o altar a um deus, mas nele cultuam outra coisa ou cultuam ao nada?

Diz-nos o provérbio antigo: In nihil ab nihilo quam cito recidimus – No nada, do nada, quão cedo recaímos. A falta de esperança e o vazio existencial têm sido um dos grandes problemas dos homens hodiernos. O que procura quem nada tem no horizonte? Nas “Atenas” da vida defrontamo-nos com uma realidade pior que a dos atenienses. Se eles adoravam a um deus desconhecido hoje adora-se aos deuses do dinheiro, do poder, do hedonismo, mas esquece-se do verdadeiro Deus, capaz de responder a todos os anseios dos homens, doador da verdadeira felicidade.

Como poderemos exaltar os valores culturais do homem quando vemos despontar um cenário de horror, que já não mais valoriza essa expressão particular de um povo, mas que deturpa e impõe pensamentos que desfavorecem a educação? Como podemos falar dos valores econômicos se o homem transformou-se em um escravo, capaz de submeter-se ao poderio do dinheiro? Como poderemos falar de existência se grande parte da sociedade perdeu por completo o sentido do por que vivo? Hoje aquilo que seria um a quem buscamos transformou-se em o que buscamos. Não buscamos alguém, buscamos alguma coisa.

Ex nihilo nihil fit – Do nada, nada provém”. Este princípio metafísico dito outrora pelos gregos manifesta que em tudo houve um princípio e haverá um fim. Só Deus, que está além do tempo, não teve início e não terá fim, mas toda criatura Sua há de findar-se um dia. Nossa vida não está pautada no aquém do mundo, mas tem a sua fonte revigoradora em Deus. Também não está pautada nos detalhes, embora estes possam colaborar com uma melhor vivência da centralidade da fé. Tenho percebido que muitas brigas formaram-se nos últimos anos sobre alguns aspectos do melhor modo de vivermos a liturgia. Creio eu que tudo o que o Santo Padre tem feito pela Liturgia não está sendo em vão, mas busca nos levar a uma melhor vivência do mistério celebrado. Devemos, no entanto, recordar-nos que a Liturgia gira em prol de Cristo, e só n’Ele está o sentido verdadeiro do que se celebra. Portanto, caros Padres, se vocês celebrarem corretamente a Missa (como nos pede a Santa Igreja) pode-se evitar certos conflitos e certas discussões sobre os aspectos litúrgicos e assim poderíamos testemunhar mais e brigar menos.

Voltando, porém, a questão moral, vou instigar o governo a pensar um pouco: Senhores políticos, não seria mais fácil evitarmos a divulgação promíscua dos anticoncepcionais como uma das formas de diminuir a prostituição? Quanto mais camisinhas e pílulas mais prostituição e promiscuidade. Por que ao invés de estimular o uso desses métodos não se estimula a valorização da castidade? Será que vocês não se envergonham de lucrarem em cima da dignidade humana? Será que os políticos perderam tanto os seus valores? Aliás, só pode se perder aquilo que se teve. Creio que os gastos com a divulgação da vivência da castidade seriam muito menores do que os investimentos na área dos anticoncepcionais e a verba destinada para esse fim poderia ser enviada à saúde, à educação ou até mesmo às urgentes necessidades, como a seca que agora tem devastado o Nordeste.

O povo não é animal para fazer sexo instintivo. Todos são racionais e sabem que a sacralidade do sexo é tão grande que ele só deveria ser usufruído no casamento. Quem quer usufruir de tudo acaba de nada usufruindo bem. Por isso, ainda hoje vale o conselho de São Paulo: Examinai tudo, guardai o que for bom (1 Ts 5, 21).