Acreditar no que se quer ou no que se deve?

Ninguém pode voltar-se para Deus e para o mundanismo ao mesmo tempo.

O ardoroso empenho para o renovamento da Fé na Igreja e nos corações é como chama crepitante que procura iluminar as nações, mesmo aquelas mais distantes, e aproxima-se dos corações, mesmo os mais gélidos. Luz e trevas parecem pairar sobre o nosso mundo hodierno. De um lado uma realidade sombria, que nos cerca pelos crimes atrozes vaticinados contra a vida do homem e sua dignidade; de outro lado temos a luz, daqueles que, conscientes da sua missão, testemunham de forma clarividente o exercício da fé cristã, conformando-se ao que dissera Cristo aos apóstolos: “Vós sois o sal da terra… vós sois a luz do mundo” (Mt 5, 13.14).

Sois sal; sois luz! Pois quisera, Senhor, que todas as pessoas – ao menos aquelas que se comprometeram convosco – fossem sal; quisera que aquelas que dizem Vos ouvir e enchem vosso templo fossem luz. Mas assim não é!

Fosse o mundo mais fiel, que digno de fé; mais amante, que amado; mais humilde, que soberbo. E muitos corações, ainda assim, preferem as glórias do mundo, que são vãs e passageiras, que as glórias eternas e alegres de Deus. A sociedade, com seu rápido avanço tecnológico, está mais centrada em saciar seus bolsos de dinheiro do que saciar seus corações áridos de palavra e amor. Mundo injusto, cruel, cego… Até quando vereis apenas o que quereis, mas não o que deveis? Serás salvo pelo que queres ver ou pelo que ignoras? Dizem os muitos teólogos que o oitavo sacramento é o da ignorância. Como? Sim, e assim quisera Deus que o fosse para cumprir o seu projeto salvífico de salvar o maior número que almas. Esta ignorância, entretanto, distingue-se daquela outra que não edifica, mas destrói. Há, pois, dois tipos de ignorância: A dos que não conhecem porque não querem e a dos que não conhecem porque não podem.

Quanto a primeira está dito no livro da Sabedoria: “Postea non suffecit errasse eos circa Dei scientiam, sed et in magno viventes inscientiae bello, tot et tam magna mala pacem appellant – Como se não bastasse terem errado acerca do conhecimento de Deus, embora passando a vida numa longa luta de ignorância, eles dão o nome de paz a um estado tão infeliz” (14,22). Infeliz do homem que conhece e insiste em viver uma falsa paz, forjada num lapso de felicidade e numa lacuna existencial. O Cristianismo não deve coadunar com essa pacificidade contraditória que subsista na infelicidade do homem, em sua autodestruição, na perfídia do mal que avantaja sobre os pressupostos existências daquela Paz verdadeira, que Cristo porta à humanidade. E aqui cabe à Igreja exortar para que não se enveredem em caminhos tortuosos senão naquela via verdadeira de salvação que consiste no Evangelho.

O grande problema dessa crise existencial dá-se sobretudo por aquilo que foi chamado pelo então Cardeal Ratzinger como “ditadura do relativismo”, o que pretendo tratar num próximo artigo, atendo-me aqui àquilo que foi proposto em nosso tema. Em quem devemos acreditar ou no que acreditar? Naquilo que consiste em uma realidade visível e agradável aos nossos olhos ou naquela em que somos movidos pela fé, pelo ímpeto que nos leva a conhecermos as razões pelas quais cremos? Para isso devemos nos deter agora na segunda ignorância.

Esta consiste naquela que adverte o livro de Eclesiásticos e que é o “oitavo sacramento”, como comumente costuma-se dizer: “Qui prius fui blasphemus et persecutor et contumeliosus; sed misericordiam consecutus sum, quia ignorans feci in incredulitate – a mim que outrora era blasfemo, perseguidor e injuriador. Mas alcancei misericórdia, porque ainda não tinha recebido a fé e o fazia por ignorância” (I Tm 1,13).

A advertência do Apóstolo São Paulo vale também para os tantos a quem o Evangelho permanece ainda anônimo. Sabemos que a estes, não por culpa própria, mas por infortúnio, o evangelho é ainda um enigma a ser desvendado, e, portanto, não o amam e não o testemunham. Esses são aqueles para os quais a Igreja não desvia os olhos misericordiosos, sendo-lhes imputadas as palavras da Lumen Gentium:

“Com efeito, aqueles que, ignorando sem culpa o Evangelho de Cristo, e a Sua Igreja, procuram, contudo, a Deus com coração sincero, e se esforçam, sob o influxo da graça, por cumprir a Sua vontade, manifestada pelo ditame da consciência, também eles podem alcançar a salvação eterna. Nem a divina Providência nega os auxílios necessários à salvação àqueles que, sem culpa, não chegaram ainda ao conhecimento explícito de Deus e se esforçam, não sem o auxílio da graça, por levar uma vida recta. Tudo o que de bom e verdadeiro neles há, é considerado pela Igreja como preparação para receberem o Evangelho, dado por Aquele que ilumina todos os homens, para que possuam finalmente a vida. Mas, muitas vezes, os homens, enganados pelo demónio, desorientam-se em seus pensamentos e trocam a verdade de Deus pela mentira, servindo a criatura de preferência ao Criador (cfr. Rom. 1,21 e 25), ou então, vivendo e morrendo sem Deus neste mundo, se expõem à desesperação final” (n. 16).

Aos seus filhos a Igreja dirige o solícito apelo para que não se cansem de propagar, com a própria vida, o Reino vindouro que prefigura-se na Igreja e concretiza-se no advento definitivo do Senhor, fazendo com que milhares possam gradativamente aderirem ao Reino de amor e paz, edificado sobre a justiça e a verdade.

Meditações sobre o “Ano da Fé” – Const. Dogm. Lumen gentium (Parte I)

Após a introdução sobre o Ano da Fé e suas perspectivas, damos início às meditações a partir dos documentos conciliares, neste período de um ano, para que com mais clareza e profundidade possamos observar os aspectos essenciais que o Concílio nos propusera e continua a propor-nos por meio do Magistério.

Se por um lado a Constituição é uma leitura do Mistério da Igreja, peregrina neste mundo e esperançosa dos mistérios celestiais que Nosso Senhor há de dar-lhe como recompensa pelos seus méritos; por outro é uma manifestação da Igreja triunfante, que após peregrinar em meio a tormentos e procelas, faz-se agora partícipe da gloria salvífica do Seu Fundador, Cristo Jesus, Rei e Senhor do Cosmos.

Assim inicia a Constituição Dogmática Lumen gentium:

“A luz dos povos é Cristo: por isso, este sagrado Concílio, reunido no Espírito Santo, deseja ardentemente iluminar com a Sua luz, que resplandece no rosto da Igreja, todos os homens, anunciando o Evangelho a toda a criatura (cfr. Mc. 16,15). Mas porque a Igreja, em Cristo, é como que o sacramento, ou sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano, pretende ela, na sequência dos anteriores Concílios, pôr de manifesto com maior insistência, aos fiéis e a todo o mundo, a sua natureza e missão universal. E as condições do nosso tempo tornam ainda mais urgentes este dever da Igreja, para que deste modo os homens todos, hoje mais estreitamente ligados uns aos outros, pelos diversos laços sociais, técnicos e culturais, alcancem também a plena unidade em Cristo” (nº1).

As condições teológicas que se seguiram ao Concílio foram mesmo inquietantes para a realidade pastoral e teológica da Igreja; de fato, muitos não quiseram aceitar o contexto e o viés teológico proporcionado pelo mesmo, que não interrompia em nada o anterior, mas era uma continuidade, suscitado pelo Espírito como Dom à Igreja.

O Bem-aventurado João XXIII no discurso de abertura do Concílio ressalta o objetivo principal deste acontecimento: “O que mais importa ao Concílio Ecumênico é o seguinte: que o depósito sagrado da doutrina cristã seja guardado e ensinado de forma mais eficaz” (Papa João XXIII, Discurso de abertura do Concílio Vaticano II). Assim, não tende a outra finalidade senão continuar, como depósito da sã doutrina, a anunciar a Boa Nova como mandara o seu Senhor e a fazer-se porta-voz do consolo de Cristo nas necessidades hodiernas que impetram temor e tremor aos homens.

Em primeiro lugar, a Constituição enfatiza claramente que o Concílio é fruto da ação do Espírito, não uma ação humana, restrita ao âmbito terreno, mas é dom do alto, é força propulsora que faz os homens recobrarem o valor da misericórdia de Deus e a natureza missionária, pela qual a Igreja foi constituída e que era o tema central daquele momento de graça.  

Uma primeira realidade que encontramos logo de início, é a Igreja anunciadora, missionária, que adentra povos e culturas para lhes indicar o kerigma, a novidade do Evangelho. Para anunciar esta novidade, antes, é preciso que ela mesma resplandeça o Cristo, afinal ninguém pode dar aquilo que ainda não possui. Anunciar o Senhor, e anuncia-lo com alegria sempre nova: eis o ideal cristão! O cristão não pode se tornar suscetível às alegrias e tristezas do mundo, mas, se firmado na verdade, sua alegria é inabalável, sua coragem é imutável, sua determinação é inatingível, sua vida torna-se assim testemunho autêntico do projeto do Reino. E iremos encontrá-la sobretudo na expressiva riqueza dos documentos conciliares, que chamam os fiéis não a uma fé fechada, restrita a seus ideais, uma fé triste pelas dificuldades que acarretam o ser cristão; é sim uma conclamação a alegria de Cristo, a mesma alegria que invadiu as mulheres quando, ao contemplarem o Ressuscitado, foram anunciá-lo aos apóstolos. Naquela madrugada, tomadas pelo medo mas também pela alegria, as mulheres foram pressurosas aos apóstolos anunciar aquilo que o anjo mandara: “Não vos assusteis! Procurais Jesus, o nazareno, aquele que foi crucificado? Ele ressuscitou! Não está aqui! Vede o lugar onde o puseram! Mas ide, dizei a seus discípulos e a Pedro: ‘Ele vai à vossa frente para a Galileia, Lá o vereis, como ele vos disse!’” (Mc 16,6b-7).

E precisamente aqui reside o foco primeiro do Concílio: dar um novo caráter pastoral à Igreja. Não visava condenar heresias ou proclamar dogmas, mas reavaliar, fomentar, ilustrar o novo cenário que se despontava e, nesta perspectiva, aggiornar (atualizar) os ensinamentos eclesiásticos mostrando ao mundo o caráter sempre atual do Evangelho. Ainda nesse aspecto o Papa João XXIII afirmara no discurso de abertura: “Uma coisa é a substância do “depositum fidei“, isto é, as verdades contidas na Doutrina da Igreja, e outra é a formulação com que são enunciadas, conservando-lhes, contudo, o mesmo sentido e o mesmo alcance. Será preciso atribuir muita importância a esta forma e, se necessário, insistir com paciência, na sua elaboração; e será necessário usar a maneira de apresentar as coisas que mais corresponda ao magistério, cujo caráter é prevalentemente pastoral”.

Um segundo aspecto é a manifestação da Igreja como Sacramento, emanada do lado aberto de Cristo, representada pelo sangue e pela água que jorraram do seu peito. Da Cruz brota para o mundo a Igreja, fincada no coração do Seu Senhor, ostentada pelo lenho da salvação. E por consequência desta ligação, mesmo com as adversidades constantes, com o cinismo religioso da parte de alguns, com o relativismo, com a descrença, Ela está indissoluvelmente estreitada ao lado de Cristo; desta forma, como nos diz o profeta, ela é receptáculo, beneficiada, por aquelas palavras que nos fazem atentar ao zelo pertinente que os cristãos tiveram nos séculos e que fizeram edificar-se na história: “Haurietis aquas in gaudium... – Haurireis águas com gáudio das fontes do Salvador” (Is 12,3).

O primeiro capítulo, portanto, está dedicado ao Mistério da Igreja e a sua história, desde a prefiguração do Antigo Testamento até a sua presença no contexto histórico-salvífico da humanidade, o qual continuaremos a ver, juntamente com outros documentos, no decorrer deste Ano da Fé.

Na Audiência Geral da Quarta-feira, 14 de Novembro, dando continuidade às suas meditações sobre o Ano da Fé, o Santo Padre Bento XVI, afirmou: “Muitos têm compreensão limitada da fé cristã, porque a identificam como um mero sistema de crença e de valores e não tanto com a verdade de um Deus revelada na história, desejoso de comunicar com o homem face a face, em um relacionamento de amor com Ele”.

Eis aqui o fundamento primeiro: amor! Uma palavra tão desgastada, tanto etimologicamente, quanto sentimentalmente. Transcorridos cinco decênios do Concílio faço insurgir um questionamento: temos sido a religião do amor e do perdão que Cristo tanto anunciou? Temos cumprido a primeira missão do ser cristão que reside convictamente no amor? Questionamentos pertinentes à nossa realidade que convidam-nos a realçarmos o papel primário do amor no âmbito cristão. 

Não desejo fazer uma meditação etimológica, teológica ou filosófica do amor, mas levar a uma realidade sobrepujante: a sua vivência. A realidade do amor é o fundamento do projeto salvífico de Cristo. Deus é o Deus da justiça, do perdão, da misericórdia, mas o é também – e sobretudo! – do amor. O Cristianismo, se esvaziado deste, perde todo o seu sentido, todo o seu significado maior, torna-se apenas um código de moral ou ética, rompe o laço trinitário, desvanece do seu caráter salvífico. Por isso, a Lumen gentium condiciona este caráter a estar arraigada em Cristo (“a Igreja, em Cristo…”), verdadeiro e único Salvador.

E se o amor é plano de fundo da comunhão entre os homens de boa vontade, é propício que também, atado a este, encontre-se outra definição eclesiológica conciliar: “instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano”. De fato, como por nós é sabido, todo instrumento é servido para auxiliar em algo, a alguém. A Igreja, usada pelo próprio Cristo como seu Corpo Místico, ou segundo a expressão paulina, “esposa de Cristo” (Ef 5,22-32), não é dona dos mistérios que lhe foram confiados, mas é uma administradora fiel, prudente e materna, que sapientemente conduz e produz frutos abundantes. Está em todos os lugares e é porta voz de todos os povos. 

Parece-nos que, muitas vezes, temos nos invalidado desta missão de promovermos a unidade; ao contrário, percebemos também que em diversos atos temos sido promotores de discórdias e de lutas, seja com nossos irmãos crentes ou com os que professam outra fé. Cabe a nós fazermos valer este título de promotora da unidade com o gênero humano. Devemos dialogar em comum fitando-nos no mesmo ponto que é Cristo Jesus. Isso não significa aceitarmos os erros teológicos de outrem, mas dialogarmos pela passividade, pelo respeito e pela liberdade, reconhecendo a autonomia religiosa de cada um e fazendo com que o primeiro direito e dom de Deus, a vida, seja defendido em todos os lugares. 

A Igreja também é, antes de tudo, um caráter mistagógico, outrora oculto em Deus, hoje revelado e em parte realizado; é manifestação de Deus aos homens, graça doadora do Pai para que, reconstituindo os laços humanos divididos pelo pecado, pudessem reencontrar um caminho, um farol, para seguirem adiante e não desanimarem no curso histórico.

Sendo mistério de Deus a definimos, por conseguinte, como “mistério humano”, ou ainda melhor diríamos: mistério aos homens. Não obstante ser genuinamente e basicamente projeto divino, ela não poderia desenvolver outro curso senão ao lado da história humana. É sabido que dentre as constituições ontológicas do homem, temos algo que lhe é inerente e, portanto, imutável: a sua passividade a errar. Deus, em sua absoluta grandeza, nunca está sujeito ao erro, uma vez que seria contrário à Sua natureza, e assim sendo, isto nos levaria a questionar a veracidade de Sua divindade; no entanto, sendo Deus o supremo arquiteto da graça e baluarte da salvação, doa aos homens a Igreja como propiciadora de uma feliz reconciliação, reatando os laços que, outrora, foram cortados pelo pecado.

Reafirmando a unicidade do homem com Deus e a impossibilidade de uma existência sadia longe d’Ele, o inimigo perversor semeia a intriga e a discórdia, para que seja a Igreja atacada de forma virulenta e possa desanimar de sua missão profética. Como bem alertara o Venerável Servo de Deus, Papa Pio XII, de imperecível memória, e com o qual findo esta primeira meditação: 

“Certamente, o ódio contra Deus e contra os que legitimamente lhe fazem as vezes é o maior crime que o homem pode cometer, criado como foi este à imagem e semelhança de Deus, destinado a gozar da sua amizade perfeita e eterna no céu; visto que pelo ódio a Deus o homem se afasta o mais possível do sumo Bem, sente-se impelido a repelir de si e do seu próximo tudo quanto vem de Deus, tudo quanto une com Deus, tudo quanto conduz a gozar de Deus, ou seja a verdade, a paz e a justiça” (Cart. Enc. Haurietis Aquas, 68).

A Igreja: ordenamento salvífico do Pai

O mistério salvífico de Cristo, desdobrado na fragilidade humana, culmina como fonte redentora e salvífica para a humanidade que é atormentada pelo pecado. Este mistério não é constituído de uma escolha nossa, mas parte de um desígnio do Pai e da sua vontade, necessitando de uma adesão e abertura na disponibilidade humana. Na sociedade hodierna, temos visto como que uma tentativa de neutralização da atividade eclesiástica, sobretudo no âmbito social. A grande argumentação é que a Igreja não pode se envolver nas questões sociais como o aborto, o uso de contraceptivos, a eutanásia. Mas, desde quando a vida é uma questão de joguete político ou meramente social? Acaso poderia deixar a Igreja de exercer sua atividade missionária no mundo, desobedecendo assim ao mandamento do Mestre e sendo infiel à finalidade para a qual existe?

O confrontamento existencial do homem moderno com o seu próprio “eu”, como dissemos em um dos artigos passados, tem levado muitos a se colocarem ou colocarem um outro fenômeno como principiador ou mantenedor de sua existência. A questão existencial torna-se complexa a partir do ponto de vista em que a analisarmos. Para os materialistas somos apenas constituídos daquilo que é palpável, que pode ser visto e cheirado.

Kierkegaard, pai do existencialismo, apresentava o homem como aquele que é o único responsável em dar significado à sua vida e em vivê-la de maneira sincera e apaixonada, apesar da existência de muitos obstáculos e distrações como o desespero, ansiedade, o absurdo, o tédio e a alienação.

Mas, será realmente que esta visão estaria certa em sua totalidade? Pode o homem exercitar esta certa autonomia que possui e fazer aquilo que quer sem que se sinta prejudicado e sem que sinta ter prejudicado os outros? São Paulo dirá: “Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém” (1 Cor 6, 12). Para o homem pós-moderno o conveniente não mais existe, mas deveria ser substituída pela palavra satisfação. Não se usa mais a razão para discernir entre o necessário e o secundário, mas faz-se uma azáfama, sobretudo com a perda dos valores éticos e morais.

O que é permitido e o que é conveniente? Certamente que nem tudo o que é permitido é também conveniente. Tem-se uma arma na mão, posso atirar, isso me é permitido, pois tenho o objeto em mãos e tenho munições, mas não me é conveniente uma vez que contraria meus princípios morais que se baseiam na eticidade dos mandamentos. Permissão é aquilo que se pode fazer, algo que me é possível; conveniência é aquilo que se deve fazer, o que me traz vantagens, crescimento (mas não um crescimento subjetivo, pois no Reino de Deus o nosso único crescimento deve ser o espiritual).

Ora, o mundo, que contrapõe valores basilares da fé cristã, apresenta uma nova mentalidade, um novo ethos, não mais firmado naquela tradição outrora firmada pelos antigos e pela fé cristã, mas a sua autossuficiência o faz ir além e romper com esses laços sólidos para se unir a laços frágeis, que se rompem com qualquer ventania.

Mas, retornando ao aspecto filosófico, Heidegger, filósofo existencialista, nos propôs a questão do Ser-aí-no-mundo (Dasein), que é um sinônimo do existencialismo do homem. Dirá ele que só o homem, enquanto ser racional, poderá responder à pergunta que ele lançara (Que é ser?). Outros animais que não são constituídos dessa condição não podem criar expectativas quanto a esta resposta porque nem sequer sabem o que é ser, ou o que é pensar. Além do mais ele dirá que somente o ser humano capaz de questionar é um “ente privilegiado”, que possui uma compreensão de si e dos outros.

Nem todo ser humano é capaz de pensar, logo nem todo ser humano é um ser-aí? Para Santo Agostinho, o tempo só se pode ser considerado levando em conta a razão; se o homem possui algum distúrbio mental, logo ele não sabe o que é o tempo e nem mesmo possui a noção de tempo, poderíamos então atribuir isto a este pensamento heideggeriano?

Mas, se o Ser-aí é o homem na medida em que existe na existência cotidiana, do dia-a-dia, junto com os outros homens e em seus afazeres e preocupações. É este contemplar do velamento e do desvelamento da verdade que faz o homem angustiar-se por respostas que possam, ao menos parcialmente, satisfazer às suas indagações que lhe são inerentes.

Na vicissitude dos tempos o homem tem exercitado, com grande vivacidade, o pensamento heideggeriano do ser-aí, esquecendo-se até da sua finalidade primeira: alcançar a perfeição. Ao contrário do que alguns filósofos diziam, o homem é sim um ser perfeito e todo ser é perfeito se exerce a finalidade para a qual foi criado, segundo Tomás de Aquino, sendo os elementos compostos mais perfeitos que os simples, de forma que ao querer a diversidade dos seres Deus quisesse simultaneamente a perfeição em seu conjunto. A natureza é constituída de um ordenamento e todo este ordenamento exerce-se como um grau de perfeição que não lhe é próprio, mas vem de uma força superiora. Sobre estes graus de ordem pode-se olhar a quarta via de Tomás para provar a existência de Deus.

Bem, sobre esta questão poderia ainda lançar uma indagação: Se a natureza é constituída de uma ordem e de uma estética física pode realmente o mundo ter surgido da desordem do Big Bang – uma vez que seria uma explosão? Não quero que me vejam aqui como opositor da física moderna, mas apenas é uma indagação à qual sempre me proponho fazer. E mais: Se surgiu de uma explosão deve ter havido uma realidade ordenadora por trás, pois “do nada nada provém” e de uma caos não pode provir a ordem.

Mas, assim como a natureza é constituída de um ordenamento, a Igreja também o é. A Igreja é esta “revelação” da face trinitária, um dos braços de Deus que é sustentada pelo Espírito Santo e congregada pelo amor de Cristo. Não prega aquilo que lhe agrada, mas aquilo que outrora foi-lhe transmitido pelos apóstolos e pelo próprio Cristo. Também na Igreja todos os seres criados por Deus devem possuir um ordenamento, sem jamais fazer com que um se sobreponha a outro, mas cada um exercite com fidelidade a missão que lhe é confiada pelo próprio Cristo.

Assim, se o mundo incide contra aquilo que pregamos é porque a nossa pregação está realmente transmitindo os valores do Evangelho e bem exercemos nossa missão, e se bem exercemos nossa missão, nossa finalidade cristã, estamos trilhando as vias da perfeição que se encerram em Deus. A constituição moral da humanidade pode alterar-se, mas a constituição evangélica nunca se altera. Um bom cristão vive o evangelho independente do que o governo achar certo ou errado. Quem é cristão verdadeiramente se opõe ao aborto, ainda que o governo ache que o aborto é um meio “moral” de matar.

Claro que quem apoia o aborto dá graças a Deus por não ter sido abortado. Paradoxo? Não! Falta de moral, de caráter, de ética. Precisamos nos destituir de todos os “pré-conceitos” e reavaliamos a nossa mentalidade moderna. E quando digo “nós” afirmo também que entre os cristãos tem aqueles que desonram o Evangelho que leem ao colocarem-se a favor de iniciativas como o aborto, a eutanásia, o divórcio, que são verdadeiras pragas que corroem os ambientes familiares.

A constante busca de Deus deve mover o ser humano para a limpidez espiritual e moral. Ser cristão é mais do que preocupar-se com a sacralidade litúrgica (também é isso, e todos sabem como prezo pela liturgia bem sacralizada), mas é também exercitar a vivência da liturgia em comunhão com o outro, com aquele que clama a nosso auxílio. É estar aberto a todos os que buscam, por Cristo, com Cristo e em Cristo, a unidade com o Seu Corpo Místico, fora do qual ninguém pode salvar-se.

Assunção de Maria: Prefiguração da nossa ressurreição

Assumpta est Maria in caelum: gaudent Angeli, laudantes benedicunt Dominum.

Este, caríssimos, é o clamor que brota das entranhas da Igreja neste feliz e venturoso dia. Dia em que celebramos, com grande júbilo, a Solenidade da Assunção da Bem aventurada Virgem Maria aos Céus, a maior de todas as suas festas.Esta, juntamente com Santa Maria Mãe de Deus e a Imaculada Conceição, constituem as três Solenidades Marianas do ano litúrgico, e estas três juntamente com a Perpétua Virgindade constituem os quatro dogmas marianos.

Celebrar a Virgem, que hoje gloriosamente vai ao encontro de Seu Filho, é celebrar toda a humanidade que, fragilizada pelo pecado mas confiante na Misericórdia de Deus e em sua infinita bondade, ruma à eternidade esperada. Louvar a Deus pelos benefícios realizados em Maria é um dos motivos desta festa. Louvai, ó Igreja! Louvai, ó cristãos! Louvai, povos todos! Pois hoje não contemplamos apenas a gloriosa figura de Maria, no entanto a figura de todos os cristãos que haverão de ressuscitar um dia. “A Assunção da Santíssima Virgem constitui uma participação singular na Ressurreição do seu Filho e uma antecipação da Ressurreição dos demais cristãos” (Catecismo da Igreja Católica, n. 96). Hoje celebramos a “Páscoa” de Maria.

Ela durante toda a sua vida terrena, desempenhou um papel singular entre todas as criaturas humanas. Ela foi agraciada por Deus para ser a Mãe do Salvador, papel este que desempenhou com máxima humildade. Ela é exemplo a ser seguido por todos os homens e mulheres que se empenham com fidelidade ao anúncio do Evangelho. Em Maria a humanidade tem a certeza de que, somente se estiver unida a Cristo, poderá resplandecer e poderá triunfar sobre todo o mal e nisto consiste a nossa esperança, nossa tranquilidade e a nossa paz.

Na primeira leitura, retirada do livro do Apocalipse (Ap 11,19a; 12,1.3-6a.10ab), são-nos apresentadas duas figuras: de um lado o dragão, onde figura Satanás e toda a maldade; de outro “uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas” (v. 1). A mulher dá à luz um Filho, “para governar todas as nações com cetro de ferro” (v. 5). Sabemos que o filho representa a pessoa de Nosso Senhor, porém, quanto a mulher, muitas vezes confunde-se entre Maria e a Igreja. Diria que poderíamos nos referir as duas (apesar de referir-se a Igreja em primeiro plano), pois Maria, prefiguração da Igreja, concebe o Cristo humano, enquanto a Igreja concebe o Cristo eucarístico, que, deveras, só quis tornar-se tal por causa da sua concepção no ventre de Maria.

Satanás, autor e princípio do mal, treme ao ouvir pronunciar o nome da Santíssima Virgem, constatamo-lo sobretudo nos rituais de Exorcismo. Ele não se cansa de tentar atacar a Igreja, de fazê-la tentar curvar-se sobre o peso do fardo dos pecados de seus filhos que durante dois milênios carrega. Só que, apesar deste fardo, a Igreja leva algo muito mais confortador e forte: Jesus Cristo e a sua mensagem salvadora. E quem pode curvar-se ao cansaço quando sua força é o Salvador do mundo, a verdadeira fortaleza do homem?

Na segunda leitura (1Cor 15, 20-27a), o apóstolo escreve: “Como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos reviverão. Porém, cada qual segundo uma ordem determinada: Em primeiro lugar, Cristo, como primícias; depois os que pertencem a Cristo, por ocasião de sua vinda” (vv. 22-23). Sabemos que nenhuma criatura foi “mais” de Cristo do que Maria. Nela a luz de Deus nunca foi ofuscada, pois Ela não foi maculada pelo pecado.Ela é a criatura perfeita criada por Deus, que jamais conheceu a corrupção, e por isso teve o seu corpo santíssimo elevado pelo seu Filho à glória celeste.

Adão, primeiro homem, curvou-se ao pecado pela desobediência, persuadido pela sua companheira. Ora, Jesus, novo Adão, vem aniquilar o pecado, vem restaurar o laços do homem com Deus, rompidos outrora. Se a Jesus cabe a figura do “novo Adão”, a Maria cabe a figura da “nova Eva”, pois como por esta entrou o pecado e a desgraça, por aquela entrou a graça e a salvação. Daí compreendemos o que dirá São Luís Maria de Montfort em seu Tratado da Verdadeira Devoção a Maria, cujos 300 anos estamos para celebrar: “Como por Eva entrou o pecado no mundo, por Maria entrou a salvação”. E ainda: “Por meio de Maria a salvação entrou no mundo e é por meio dela que deverá consumar-se”. Compreende-se aqui o importante papel que Maria tem na história da salvação, e que toda a sua vida, para tal grandeza a que quis elevá-la o Salvador, não poderia ser ferida pelo pecado, para que desta forma ficasse patente a todos os homens: Maria também é parte singular da salvação.

Alguns Padres da Igreja afirmam que Maria não morreu, mas dormiu. Na Igreja Oriental chama-se esta festa Dormição de Maria, pois, de imediato, afirma-se que Ela, para assuntar ao céu, não precisou passar pela experiência da morte, mas apenas repousou em profundo sono. Ora, haveríamos então de indagar-nos, porque Cristo precisou passar pela morte e a Sua Mãe não o necessitou? Levemos em consideração primeiramente o fato de que, passando pela morte quis Ele redimir a humanidade e livrar todos os homens das pernas eternas, abrindo, em sua ascensão, as portas do Reino celeste. Maria já encontrara tais portas abertas, e Seu Filho, já ressuscitado e glorioso, eleva-a, não à sua condição trinitária, mas a uma condição acima de todas as criaturas, até mesmo dos anjos.

De muitos santos conservam-se relíquias; de Maria não há nada a conservar-se, a não ser o testemunho. E por que nada foi-nos deixado? Justamente porque nada era necessário deixar-se senão o exemplo e a fé, que são os maiores de todos os presentes. Ela aceita ser instrumento de Deus e submete-se aos seus salvífico desígnios.

No Santo Evangelho Maria entoa o seu belíssimo poema Magnificat. “Minha alma engrandece o Senhor”. Precisamente por esse engrandecimento foi também Maria engrandecida. Sua glória resplandece em todo o mundo e brilha, como luzeiro, indicando o caminho a ser trilhado: onde imperam as trevas e o cada vez mais constante afastamento de Deus. Esse engrandecimento da alma de Maria deve ser reflexo de cada homem. Todos são chamados a engrandecer o Senhor, a contemplar nEle a verdadeira felicidade. O coração do homem palpita Deus. A hodierna sociedade tem sede de Deus, e sabe que só Ele pode completá-la. O endurecimento do coração a Deus é o afastamento do homem da sua salvação.

Por fim, um último aspecto que gostaria de ressaltar é outro trecho do Evangelho onde Maria afirma: “Todas as gerações me chamarão bem-aventurada” (Lc 1, 48). Infelizmente alguns de nossos irmãos que se dizem “cristãos” não reconhecem a veneração a Maria a ser prestada somente pelo fato de ser Mãe do Salvador. Se não reconhecem apenas por esse motivo que sobrepõe-se a todos os outros, não reconhecerão também sua assunção e suas aparições constantes no mundo. Certamente eles não escutaram este profético anúncio: “todas as gerações”. Não algumas, mas todas. A todos é dado a possibilidade da salvação!Ide a Maria, Mãe de Misericórdia e vereis se, com o coração convertido, não alcançareis a salvação. Reconheçam, pois, todos os povos a grande graça que Deus operou em Maria. Nela contemplamos a verdadeira “Arca da Aliança”, pois nela Deus oferece-nos Jesus, que veio instaurar a “nova e eterna Aliança”, firmada pelo seu sangue.

Hoje nós a invocamos e pedimos: Ó Mãe assunta ao Céu, interceda por nós a vosso Filho. Vós que sois mãe de eterna Misericórdia, onde não há ódio, entretanto só amor. Olhai pelo mundo que sofre e clama por Deus. Manifestai, Mãe santíssima, a ternura que vemos em vossos olhos, o afeto que sentimos nas vossas mãos, o amor que tens em vosso coração, e dai-nos a graça de caminharmos para a felicidade de contemplarmos a face de Cristo, Senhor e Juiz da História. Amém!

Teologia da Libertação X Libertação da Teologia

A Teologia da Libertação, entre os pensamentos propagados, fala do pobre como “veículo de salvação”, isto é, a salvação vem pelos pobres. Sabemos que a Igreja durante o decorrer dos milênios sempre esteve ao lado dos mais desfavorecidos, em consonância com o que narra o próprio evangelista, ao retratar que os cristãos “vendiam suas propriedades e seus bens e repartiam o dinheiro entre todos, conforme a necessidade de cada um” (At 2, 45). Justiça seja feita, esta narração não pode ser levada somente pelo sentido espiritual da fraternidade; deseja também mostrar a atitude de caridade e de partilha que os primeiros cristãos tinham para com o próximo, sobretudo os que estavam à margem da sociedade, atitude que está em falta em nossos dias, nos quais o consumismo, o capitalismo e o imediatismo assumiram posições relevantes, quando, na verdade, deveriam estar a caridade, o amor e a fraternidade. Apesar disso, a Teologia da Libertação não pratica uma atividade semelhante à dos cristãos da Igreja primitiva, pois não apenas restringe a salvação aos pobres, como também deseja uma Igreja que nasça do meio do povo, nega o Jesus da “fé” e apega-se a um Jesus “histórico”.

É irracional, e chega a ser inimaginável, desejar que esta Igreja nasça do povo. É óbvio que na Igreja deve estar o povo, até porque o povo é parte necessária para que se concretize o projeto salvífico de Jesus Cristo em levar o Evangelho ao mundo todo; mas não está ela firmada no povo, e nem poderia. O Senhor comprou a Igreja “com seu sangue” (At 20, 28) e não com o “suor” do povo. Se ela estivesse firmada no povo já teria perecido a muito tempo. Só o fato de manter-se firme em todos os tempos, apesar dos erros de alguns dos seus filhos, já é uma prova concreta de que sua sustentação está em Jesus Cristo, nos Apóstolos, nos mártires, no Magistério, na Tradição, recebidas na Sucessão Apostólica.

Aliás, cabe aqui dizer essa teologia libertadora usa-se dos pobres para poder esconder as suas múltiplas facetas comunistas. E, por estar infiltrada na Igreja, sabendo que a Igreja abomina o comunismo, não podendo mostrar-se prevalecidamente, utiliza-se de “máscaras” para poder agir às escondidas.

A Teologia da Libertação também não percebe que outro erro é que, o que ela ensina, está em total contradição com o nome. Libertar é a mesma coisa que tornar livre, ou seja, algo que não está restrito. Retendo a salvação aos pobres não estaria ela quebrando este sentido de “libertação”, uma falsa libertação, é óbvio, mas uma libertação em que ela se apoia? Jesus Cristo é para todos, não é propriedade exclusiva para os pobres ou para os ricos, para os ocidentais ou orientais, mas é de todos. “Eu vim para que todos tenham vida, e tenham-na em abundância” (Jo 10, 10).

São Paulo também dirá de forma clara: “Verbum Dei non est ligatum – A Palavra de Deus não está amarrada” (2 Tm 2, 10). Sendo servo de todos, Cristo mostra que o serviço é algo que deve estar radicado na vida de todo cristão, de todos aqueles que desejam segui-lo e que desejam abraçar a cruz para morrer e ressuscitar com Ele.

Acho que falta, hoje, a consciência, em muitos teólogos, não obstante os muitos que já o fazem, de uma libertação da teologia que venha combater a Teologia da Libertação. A Teologia não nasceu para estar presa a “amarras” criadas por ideologias daqueles que não pensam em conformidade com os ensinamentos da Igreja. Também não deve estar presa a nenhum pensamento individualista de teólogos que acham-se autossuficientes para dar um “novo” rumo às explicações. “A Igreja – deixou bem claro o Beato João Paulo II – não é uma instituição democrática”.

Sabemos muito bem que o povo não está atrás de novidades criadas pelas mais diversas cabeças que pensam por si só. O povo ama a Tradição! O povo ama a unidade com o Papa, e eles precisam sentir isso. O acima citado Papa se diria aos sacerdotes desta forma: “Vocês são padres, não líderes políticos ou sociais. Não vamos ter a ilusão de que estamos servindo ao Evangelho por causa de um interesse exagerado no amplo campo de problemas terrenos”. Teologia feita sem a sombra da Igreja passa a ser uma arma de destruição. Quem não pensa com a Igreja, sozinho fará besteira. Feliz é Santo Agostinho que reconhecia o grande e necessário valor da unidade, por isso chegou a exclamar: “Prefiro errar com a Igreja do que acertar sem ela”. Para os que querem contribuir com a teologia recomendo que perseverem na comunhão com a Igreja e com o Papa, que é um exemplo de verdadeiro teólogo. Ajudem a propagar os ensinamentos da Igreja; esses sim são ensinamentos de salvação, de amor, de verdade, pois foram deixados pelo próprio Cristo.

A missão da Igreja é anunciar o Evangelho de salvação e não tomar partido em brigas políticas. E, se vocês me disserem: a Igreja precisa tomar parte para a construção de uma sociedade justa, igualitária e que seja de todos, e isso só será possível se ela puser a “mão na massa”. Eu, porém, rebato esta afirmação: Não existem outras possibilidades para que a Igreja lute por uma sociedade mais justa? A primeira delas é o Evangelho: anunciando os mandamentos de Jesus Cristo. Mas estes nem todos desejam anunciar, e aqueles que anunciam, muitas vezes não vivem. Se antes de procurarmos a intelectualidade procurarmos a oração e testemunho certamente pensamentos teológicos serão muito mais frutíferos e serão verdadeiras armas de transformação. Quem reza para entender será sempre feliz em suas colocações. Afinal, o teólogo precisa, antes de tudo, estar inserido nesta “escola de oração”.

Quanto aos fiéis, tenham sempre presente a afirmação de São Paulo ao jovem Bispo Timóteo: “Se alguém transmite uma doutrina diferente e não se atém às palavras salutares de nosso Senhor Jesus Cristo e ao ensino segundo a piedade, é um orgulhoso, um ignorante, alguém doentiamente preocupado com questões fúteis e contendas de palavras” (2 Tm 6, 3-4).

A decadência dos valores em nossos dias

Estando em férias tomei conhecimento da absurdidade cometida por grupos homossexuais, do LGBT, na Parada Gay, na semana passada em São Paulo. Tudo isso para mim não passa de um reflexo que a muito já era premeditado na sociedade, uma realidade que logo apareceria com mais veemência e ganharia mais força. E sabemos que ela ganhou muita força, sobretudo em meio a muitos políticos que, na teoria, defendem os direitos dos cidadãos, mas na prática não passam de interesseiros e ávidos para defenderem seus próprios interesses e lucrarem o suficiente para morrerem “montados na grana”.

Mas realmente chocou-me a cena apresentada pelo Fantástico. Um verdadeiro absurdo! Chega a ser indescritível a falta de respeito com que os homossexuais, que tanto lutam por respeito e dignidade, atacaram a Igreja e os santos. Não deveriam eles reconhecer que a Igreja é a instituição que mais os ama? A Igreja não os vê como outros grupos os veem. Os outros só os veem como animais que devem agir por instinto, desejosos por terem relações sexuais. A Igreja, porém, os vê como filhos de Deus, não como objetos ou seres irracionais, que se atiram em um precipício vitimados pela incoerência e pelo desejo. E sabemos que onde os desejos falam mais alto a racionalidade cai ao extremo.

O tema escolhido para nortear este ato de extrema intolerância é o mesmo tema que o Senhor usa para falar do amor sincero e gratuito que devemos ter pelo próximo. Um amor que vai além de uma aparência corporal que logo cairá em putrefação. “Amai-vos uns aos outros” (Jo 15,12). Frase esta que Jesus dissera na ultima Ceia. Mas a frase não termina aí: “Como eu vos amei” (Idem). Esta é a segunda parte que eles ocultaram para deturpar a frase do Senhor e para justificar estas atitudes inexplicáveis. Ora, o amor de Cristo não é intolerante e não desrespeita, não ofende, não é mentiroso e é doado ao extremo. A Igreja sabe disso e transmite ao mundo este amor, mas, assim como outrora fora Jesus, também ela é crucificada por isso.

A perda de valores, como bem sugeriu o título, está causando um desgaste na sociedade. Ser homossexual virou “moda” e isso é totalmente inaceitável. O corpo não é uma roupa que se troca todos os dias, e também não é moda que progride com o tempo (se bem que hoje, falando-se de moda, não há progressão alguma, parece-me que cada dia mais está a deteriorar-se), São Paulo disse: “O corpo não é para a imoralidade” (I Cor 6,13).

Sabemos que há pessoas que nascem com esta tendência, e a Igreja, sabendo disso, os convida a viverem a castidade como via para chegarem à meta de todos os cristãos: contemplar a face de Deus. Mas infelizmente muitos não vivem esta proposta e procuram esconder-se, até mesmo na Igreja. Quantos padres homossexuais não estão a sujar o nome da Igreja, a desfigura-la e a ferir muitas famílias com essas atitudes incabíveis a um sacerdote e a qualquer outro cidadão de bem?

Sacerdócio e homossexualismo não podem caminhar juntos, não podem dar-se as mãos. Não se deve usar das Sagradas Ordens para esconder a sexualidade que é subjetiva. Antes se aceitavam pessoas com tendência homossexual, mas que não viviam o homossexualismo, hoje o nosso Santo Padre Bento XVI, de feliz reinado, sapientemente decidiu que nem mesmo as pessoas com tendência deveriam ser aceitas, uma vez que, no futuro, poderão vir a causar um eventual desgosto a Igreja, como, por exemplo, um problema de pedofilia. E sei que em muitos lugares esta lei não é cumprida. Romperam o vínculo com o Pastor instituído por Cristo. Alguns Bispos no Brasil, e talvez do mundo, têm “fome” para ordenar sacerdotes e ordenam a qualquer um que vier. Muitas vezes é alguém que tem um distúrbio sexual, ou quer servir a Igreja apenas para ter uma vida estável economicamente. Celebrar Missa e administrar os sacramentos é missão que deve ser assumida com amor, hoje vejo que estamos tendendo a fazer de algo tão importante uma atividade profissional, por falta, sobretudo, de um demasiado cuidado que os Bispos deveriam ter na formação dos futuros sacerdotes.

Mas é bom que os Bispos e os Padres não se esqueçam de que a missão deles é colaborar com o Santo Padre e não criarem “modismos” e “leis” que venham a ser contrárias ao que uma vez foi dito pelo Soberano Pontífice. A Igreja não é lugar para fazermos o que queremos, senão para agirmos na unidade. Quem não quer viver na unidade não é obrigado a permanecer na Igreja.

Sei que em minhas condições de um simples seminarista vocês podem perguntar-se: Como ele pode dizer isso? Será que não tem medo de ser expulso do Seminário? Com ordem de quem ele fala assim?  Tenham certeza de que pensei muitas e muitas vezes antes de afirmar tais coisas, mas não posso calar-me diante do que vejo, pois “não se opor a algum erro, é o mesmo que aprová-lo. Não defender a verdade é o mesmo que suprimi-la” (São Félix III, Papa). Enquanto há louváveis sacerdotes e bispos que prezam pela liturgia, pela unidade com o Papa, por zelarem por suas ovelhas; há outros que por nada prezam, muito menos pela unidade e pelo zelo litúrgico. Tem medo de falar a verdade para não ferir alguém, mas preferem conviver com a mentira que pode fazer perder uma alma.

Quando algum sacerdote manifesta-se em favor do Papa, de seus pensamentos, de sua belíssima ação, é chamado de retrógrado, ultrapassado, que não preza pela unidade porque apoia um Papa que só causa desunião. Vejo que estes que assim atacam os verdadeiros defensores da Igreja são pessoas sem nenhum exemplo de vida, que, por verem-se ameaçadas em seu comodismo preferem atacar aos fieis. Ora, se não estão contentes com as ações do Papa e com o seu modo de pensar, se for para atacar a Igreja, então é melhor que saiam dela, pois pior que um lobo em pele de cordeiro que vem atacar a Igreja, é um lobo em pele de pastor que vem arruiná-la por dentro.

Não dá para calar-me diante do erro! E se o que aqui disse incomoda então tenho certeza de que digo a coisa certa, pois a palavra de Deus é para incomodar-nos e não para acomodar-nos.

Mas a perda de valores vai além e é estimulada sobretudo pelos meios de comunicação. Vemos emissoras que em suas novelas exibem beijos homossexuais, como se já não bastasse em todas as novelas terem um casal gay, relações incestuosas, promiscuidade na juventude, incentivo ao aborto e tantas outras imoralidades. Por que não colocam os jovens que vivem a santidade, que lutam contra o pecado, que acorrem a Igreja, nas tribulações e encontram consolo, cristãos que lutam para seguirem o exemplo de Cristo e dos santos? Tudo isso para terem audiência, sem saber que a primeira audiência que ganham é a do demônio, que age por trás de todas essas coisas.

Estou cansado e desgostoso de ver essas perdas de valores nos vários âmbitos da sociedade. Não podemos desistir de lutar. Conclamemos a todos os cristãos para que levem ao mundo a verdade, sem temerem as perseguições e adversidades; que estejam em união com a Igreja e seus pastores, primeiramente com o Papa e o Colégio Apostólico e que confiem unicamente naquele que pode nos sustentar: Jesus Cristo. Que Maria santíssima, nosso pai são Bento, São Miguel Arcanjo e todos os santos venham em nosso auxílio e intercedam por nós.

Somos sempre chamados ao Reino de Jesus

Chegando ao final de mais um ano litúrgico, a Igreja nos convida a celebrarmos a Solenidade de Jesus Cristo Rei do Universo, instituída pelo Papa Pio XI, em 1925. E seria muito interessante, mesmo já tendo feito em outras oportunidades, que meditássemos sobre o Reino de Deus e o seu advento escatológico.

Uma pergunta que justamente é feita em nossos dias é: Jesus é Rei? Como pode ser Ele rei, se vivemos em um mundo secularizado, anticlerical, que vive como se Deus já não mais existisse, que põe-se contra os valores do Evangelho e os ensinamentos da Igreja? “Cristo Rei, sois dos séculos Príncipe, Soberano e Senhor das nações! Ó Juiz, só a vós é devido julgar mentes, julgar corações”. Assim canta a Igreja neste dia, reconhecendo que, ainda que sejam impetuosas as forças contra o Evangelho, maior é o senhorio de Jesus, que jamais abandona a sua Igreja e os seus filhos.

Tenhamos em mente, por primeiro, que o Reino do qual nosso Senhor fala manifesta-se de forma diferente dos reinos deste mundo. Não é um reino de precipitação e nem deixa-se corromper. Mas, manifesta-se, sobretudo, com características cristãs: “Reino de verdade e de vida, de santidade e de graça, de justiça, de amor e de paz” (Prefácio da Missa de Cristo Rei).

Celebrar a Solenidade de Cristo Rei é celebrar também a realeza da Igreja. Não seria, porém, audaz fazê-lo? Verdadeiramente não! Porque ela é Esposa de Cristo, e é participante perene da sua realeza e dos seus mistérios salvíficos. Por isso, na segunda leitura, no hino cristológico que introduz a carta aos Colossenses, São Paulo afirma: “Ele é a Cabeça do Corpo, isto é, da Igreja” (Cl 1, 18). Cabeça e corpo, eis uma outra definição comumente presente nas cartas paulinas. Jesus é cabeça da Igreja, nada seria feito sem seu consentimento. Ele guia a Igreja como seguidora dos seus mandamentos, e nos torna servos por meio de sua realeza. Porém, esta realeza não é uma imposição, muito menos uma obrigação. Ela parte de uma consciência de estarmos contritos a Deus, unidos a Ele, sabendo que com Ele as dificuldades podem ser suprimidas mais facilmente, e que teremos sempre uma luz a guiar nossos passos.

Jesus Cristo não é um rei de ira. Não é alguém que nos força a segui-lo; mas, amando a todos igualmente, nos faz um convite ao qual nos cabe decidir: segui-Lo para as eternas alegrias, ou precipitarmo-nos no abismo do pecado. O inferno, no entanto, não é para que se imponha medo a quem não segue Cristo, mas é uma conseqüência das nossas ações já neste mundo. Como relata Jesus a Santa Faustina: “Antes de vir como justo Juiz, venho como Rei de Misericórdia” (Diário, 83).

Eis um Rei ao qual todos podem recorrer! Um Rei que é misericórdia, que ama e que perdoa. Um Rei que sabe que os valores espirituais superam os meros bens materiais, ao qual muitas vezes nos apegamos exacerbadamente. Ora, o próprio Cristo dá-nos o exemplo de humildade. O que Ele abraçou? As riquezas? Os poderes reais passageiros? O ouro? O luxo? Em que consiste seu Reino? Em uma suposta satisfação material? Em aparências? Não! O que Cristo abraçou muitos não teriam coragem de fazê-lo. O que Jesus abraçou, com todo o olhar misericordioso e com todo o seu amor, é a cruz. Unicamente a cruz!

Na cruz atinge-se o ápice da manifestação messiânica e real de Jesus. Ali Ele não apenas se mostra como Rei, como também redime o mundo por seu sacrifício, que também e sobretudo é um sacrifício real de Amor. Agora, pois, se perguntarmos: para que tanto apego às riquezas? Para que tanta ganância que consome as pobres almas que agora riem, mas irão padecer nos tormentos? Voltemo-nos para a única riqueza: Jesus Cristo. Submetamo-nos à sua realeza singular e salvífica!

O Evangelho nos apresenta a cena da crucifixão do Senhor. Prometendo o Paraíso ao ladrão arrependido, Jesus mostra que, mesmo diante da imensidão dos nossos pecados, maior é sua misericórdia, e as portas do seu Reino estão abertas para acolher a todos: “Hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23, 43). Por isso, observa Santo Ambrósio:

“Ele pedia ao Senhor para que se recordasse dele, quando estivesse no seu Reino, mas o Senhor respondeu-lhe: Em verdade, em verdade te digo, hoje estarás comigo no Paraíso. A vida é estar com Cristo, porque onde está Cristo ali está o Reino” (Exposição do Evangelho segundo Lucas, 10, 121).

Poderíamos convictamente afirmar que o Reino, no quadro evangélico, foi antecipado ao ladrão, pois não estará com Cristo no fim dos tempos, quando vier o tão esperado Reino; mas já o está hoje, neste momento! Mesmo diante das zombarias para que descesse da cruz, Cristo não cede a essas tentações de manifestação de poder. Parece-nos paradoxal, mas justamente permanecendo na cruz Ele manifesta sua glória. Também a nós é dito: não fujamos da cruz. Não nos deixemos seduzir pelas tentações do prazer e de uma vitória superficial. E, desta forma, poderemos dizer a Deus, como o povo disse a Davi: “Aqui estamos. Somos teus ossos e tua carne” (2Sm 5,1). Conduza-nos e não nos deixes sucumbir perante as tentações de relativização da verdade e de uma conquista meramente material. Faze-nos que sejamos servos de uma realeza eterna e salvadora, a nós confiada pelo Batismo.

Que Maria, nossa mãe, Rainha do Céu e da terra, nos guie ao encontro de Seu Filho, o Rei dos séculos!

 

Perseguida para triunfar

“Conta-se que São Pio X, durante audiência aos membros de um dos colégios eclesiásticos romanos, perguntou aos jovens estudantes:

– Quais são as notas distintivas da verdadeira Igreja de Cristo?

– São quatro, Santo Padre: Una, Santa, Católica e Apostólica – respondeu um deles.

– Não há mais de quatro? – indagou o Papa.

– Ela é também Romana: Una, Santa, Católica, Apostólica e Romana.

– Exatamente, mas não falta mencionar ainda uma característica das mais evidentes? – insistiu o Pontífice.

Após um instante de silêncio, ele próprio respondeu:

– Ela é também perseguida! Esse é o sinal de sermos verdadeiros discípulos de Jesus Cristo”.

(Revista Arautos do Evangelho, nº 107, pag. 9)

Assim, pois, com esta imagem da Igreja perseguida, desejo iniciar a meditação de hoje.

Em mais um ano litúrgico que aproxima-se de seu término, as leituras nos convidam a preparar-nos para a vinda iminente do Senhor (Natal), como também direciona nossos olhares para o Advento definitivo e para a sua Parusia.

A primeira e a segunda leitura de hoje, são, de fato, um convite a uma mudança de vida imediata, uma autêntica conversão que nos ponha em Cristo, em seu coração, e nos faça partícipes do seu Reino no banquete ao qual somos convidados.

Na primeira leitura, o alerta do profeta faz com que também nos sintamos responsáveis pelos nossos atos já agora, enunciado ao mesmo tempo que nós somos responsáveis a nos condenar ou a nos salvar. Não podemos culpar a Deus por nosso fim último, pois somente a nós cabe defini-lo. E por que falo assim? Porque assim nos mostra Malaquias ao falar do vindouro dia, o dia que todos esperam; tanto aqueles que estão cravados nas rochas sepulcrais, como aqueles que neste mundo se dedicam ao Evangelho, ou, pelo contrário, dedicam-se somente a fazerem festas, a comer e a beber, sem, no entanto, fixarem os olhos no julgamento: “Eis que virá o dia, abrasador como fornalha, em que todos os soberbos e ímpios serão como palha; e esse dia vindouro haverá de queimá-los, diz o Senhor dos exércitos, tal que não lhes deixará raiz nem ramo. Para vós, que temeis o meu nome, nascerá o sol da justiça, trazendo salvação em suas asas” (3, 19-20a).

Temamos ao Senhor, portanto! Não um temor que nos faça olhá-Lo como um Deus prepotente, que se afasta de nós, que se fecha nos mais insondáveis Céus. Mas, não obstante a distância que agora nos separa de Deus, nos conforta saber que o temos do nosso lado; e que o temor que devemos ter é salutar e deve nos conduzir à verdadeira salvação que é Ele próprio.

Na segunda leitura São Paulo nos chama a abandonar a ociosidade e toda a preguiça malígna, que nos afasta de Deus e dos diversos meios de missão que a nós são confiados. “Quem não quer trabalhar também não deve comer” (2Ts 3, 7 – 12). O que vem a ser esta máxima de São Paulo? Por que assim dirige-se a comunidade de Colossos? Já pude aludir neste site que o Reino de Deus é constituído também de renúncias, e renúncias às vezes muitos difíceis.

Ora, a carta de São Paulo a Colossos é também uma carta destinada a falar veementemente da Parusia. Trata-se, portanto, de uma organização da Igreja voltada para a escatológia. A Igreja é chamada a ser prefiguradora do Reino do Senhor. Tais palavras do apóstolo são um incentivo à missão, postas, obviamente, em uma figura escatológica. Como podem querer desfrutar do Reino vindouro aqueles que não trabalham, mas sustentam-se, como costumamos dizer, às “custas” dos outros? Por isso é como se fizéssemos uma analogia às palavras de São Paulo: Quem não quer assumir sua idêntidade cristã; quem não quer ser missionário, então que também não seja partícipe do Reino de Deus. Ora, alguns podem perguntar: onde está a misericórdia de Deus? Será que Sua misericórdia só atende aos cristãos? Digo: se Ele não manifestasse sua justiça, não menor que sua misericórdia, então não seria Deus. “Tem Ele, por assim dizer, duas mãos: a da misericórdia e a da justiça. Com a primeira, perdoa e protege; com a segunda, cobra e castiga; De uma dessas mão ninguém escapa” (Mons. João Scognamiglio Clá Dias, Revista Arautos do Evangelho, pag.11-12, Edic.107).

Santo Afonso Maria de Ligório afirma:

“Não merece a misericórdia de Deus quem se serve dela para ofendê-Lo. A misericórdia é para quem teme a Deus, e não para o que dela se serve com o propósito de não temê-Lo. Aquele que ofende a justiça pode recorrer à misericórdia; mas a quem pode recorrer o que ofende a própria misericórdia.”

(Preparação para a morte. Cons. XVII, ponto I)

E eis que chegamos ao Evangelho (Lc 21, 2-19), ao qual gostaria de centrar-me pela sua riqueza.

Ora, Jesus fala aqui do final dos tempos, mas também da perseguição, que a Igreja por muito tempo sofreu e ainda sofre. Por isso iniciei este post com aquela pequena história. Porque, não obstante estes dois mil anos, não cessam as perseguições inutilmente lançadas por Satanás para tentar, de alguma forma, derrubar a Igreja. Pois digo e ainda garanto: Se se levantasse todo o inferno e seus soldados, liderados pelo Príncipe das trevas, para tentar derrubar a Igreja, ainda assim, nunca conseguirão. Pois a nossa Igreja não é fundamentada em ideologias mitológicas e vazias, mas fundamenta-se unicamente em Jesus Cristo, Deus verdadeiro feito homem.

“Algumas pessoas comentavam a respeito do Templo que era enfeitado com belas pedras e com ofertas votivas. Jesus disse: ‘Vós admirais estas coisas? Dias virão em que não ficará pedra sobre pedra. Tudo será destruído’” (vv. 5-6).

O Templo era lugar sagrado para os judeus, e para o próprio Jesus. No entatanto, por que o Senhor dirige palavras tão ásperas àquelas pessoas? Ora, não obstante o templo ser lugar de oração, mas não contemplava-se além de uma mera visão naturalista. Estavam, por conseguinte, cegos para Deus, pois detinham-se na criatura e não no Criador; compreendiam o símbolo, mas não o Simbolizado. Por isso, contundentemente exorta Nosso Senhor.

E esta profecia não tardaria mais de quarenta anos para acontecer. Como escreveu São Beda: “Permitiu a Divina Providência a destruição de toda a cidade e do Templo para que nenhum daqueles que ainda estavam débeis na fé fossem seduzido por suas diversas cerimônias”.

Ainda assim os apóstolos achavam que essa destruição se daria na consumação dos séculos. Mas Jesus faz questão de manifestar-se sobre os dois momentos, para mostrar que não iria tardar acontecer aquilo que, de certa forma, seria jubilar. Destruído o Templo, a Lei deveria então ceder lugar à Graça, manifestada plenamente em Jesus.

Antes, porém, que estas coisas aconteçam, sereis presos e perseguidos; sereis entregues às sinagogas e postos na prisão; sereis levados diante de reis e governadores por causa do meu nome. Esta será a ocasião em que testemunhareis a vossa fé. Fazei o firme propósito de não planejar com antecedência a própria defesa; porque eu vos darei palavras tão acertadas, que nenhum dos inimigos vos poderá resistir ou rebater” (vv. 12-15).

Anunciando aos Apóstolos o que lhes haveria de acontecer, Jesus prenuncia a imagem da Igreja perseguida. Errôneo seria se a Igreja, mediante essa perseguição, se ocultasse de sua missão e se fechasse em si mesma, não completando sua missão de anunciar o Evangelho a todos os povos. Mas é verdade que, sobretudo na perseguição, Nosso Senhor põe-se ao lado dela, para que não pereça nunca, mas, como Ele próprio prometeu, seja invencível (cf. Mt 16, 18) e enfrente as tribulações que se fazem presente neste mundo. E não apenas isto: que ela seja triunfante. Esta é a figura da Igreja escatológica. Aquela que, como retrata o Apocalípse, desceu do céu gloriosa (cf. 21, 9-11a).

De fato, conta-nos a história que Napoleão, após ser excomungado pelo Papa Pio VII, perguntou, petulantemente, ao legado papal, se por causa disso as armas das mãos dos seus soldados iriam cair. Ora, o Conde de Ségur, testemunha ocular, narra: “As armas dos soldados pareciam ser de um peso insuportável para seus braços intumecidos; em suas frequentes quedas, escapavam-lhes das mãos, quebravam-se ou perdiam-se na neve” (Conde de Ségur apud Barón Henrion Historia general de la Iglesia 2ª ed. VIII, pag. 153).

Nas horas de tempestade a Providência Divina nunca faltou à Igreja. Suscitou homens e mulheres firmes e de vida paradigmática. E aí eles testemunharam sua fé, como também nós somos chamados a fazê-lo. Não sejamos ocultos ao mistério que nos foi revelado. Muito menos deixemos que a nossa vida seja afastada de Deus. Só Deus pode fortalecer a caminhada do homem. Só n’Ele os homens podem encontrar uma felicidade que não é interesseira, mas busca elevar a humanidade até Ele.

Com a afirmação em não nos planejar em preparar defesa com antecedência, Nosso Senhor não nos convida à negligência, mas não quer que nos aflinjamos, pois Ele estará conosco. Vale-nos aqui o que diz Santo Inácio: “Rezai como se tudo dependesse de Deus e trabalhai como se tudo dependesse de vós” (catecismo da Igreja Católica, 2834).  E São Gregório Magno escreve: “É como se o Senhor dissesse a seus discípulos: ‘Não vos atemorizemos. Vós ireis ao combate, mas Eu é que combaterei; vós pronunciareis palavras, mas quem falará sou Eu’” (São Gegório Magno apud Revista Arautos do Evangelho, pag. 13, Edic.107).

Que a Virgem Maria ajude a Igreja, e também a nós, a caminharmos ao encontro de Seu Filho. E que, mesmo diante dos conflitos, possamos sempre ter à nosso horizonte a gloriosa Igreja Católica Apostólica Romana de Nosso Senhor Jesus Cristo, que triunfará pelos séculos.

“Meu Reino não é deste mundo”

Deveria ter feito algumas colocações sobre o Reino de Deus nos dois últimos domingos: um do Pai nosso e outro do domingo passado, que retratava a questão da vaidade e da ganância; porém, como não me foi possível fazê-lo, o farei agora, meditando sobre o Reino de Deus, e as três dimensões que o envolvem.

Em primeiro lugar gostaria de meditar sobre o em dimensão cristológica. Isto faremos baseando-nos no livro Jesus de Nazaré, de Sua Santidade o Papa Bento XVI. Essa primeira dimensão caracteriza-se pela pessoa de Jesus, Ele mesmo, em si, já seria o próprio Reino de Deus, como Orígenes definiu: autobasiléia. O próprio Jesus dá-nos a entender: “Mas, se é pelo Espírito de Deus que expulso os demônios, então chegou para vós o Reino de Deus” (Mt 12, 28).

Um segundo conceito seria o Reino de Deus “idealista”, ou seja, “essencialmente situado na interioridade do homem” (Jesus de Nazaré, pág. 60). Tal conceito provém também de Orígines, que, em seu escrito sobre a oração, diz: “quem reza pela chegada do Reino de Deus, reza sem dúvida pelo Reino de Deus que ele já leva em si mesmo, e pede para que este Reino produza frutos e para que chegue à sua plenitude… Por isso, se quisermos que Deus domine em nós, então o pecado não pode de modo nenhum dominar no nosso corpo mortal (Rm 6,12)… Então Deus deve passear em nós como num paraíso espiritual (Gn 3, 8 ) e somente em nós dominar com o seu Cristo” (PG 11, 495s).

E a terceira acepção seria sobre o Reino em sentido eclesiológico: A Igreja como prefiguração do Reino de Deus. “O Reino de Deus e a Igreja são colocados de um modo distinto em uma relação ao outro e mais ou menos aproximados um do outro” (Jesus de Nazaré, pag. 60).

Pois bem! Após tais colocações, desejo combater o sentido de “Reino de Deus” expresso, de modo errôneo, pela Teologia da Libertação. E onde está o erro? Em que contexto? Servirei-me também da Instrução Libertatis Nuntius, da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé.

Sabemos que, desde os primórdios, a Igreja anuncia veementemente a Boa Notícia do Evangelho, dada a conhecer primeira e unicamente aos pequeninos (notemos que pequeninos não são apenas os pobres financeiramente, mas todo aquele que humildemente segue os mandamentos e testemunha com convicção a sua fé, mesmo os ricos se repartem os seus bens e não os põe como centro de suas vidas) (cf. Lc 10, 21). Sabemos que a Igreja olha com amor e dedicação para os pobres, e não somente olha como também é a instituição que mais fez por eles. Mas tal atitude não deve procurar alterar aspectos teológicos da “sã doutrina” que foi-nos transmitida desde os tempos apostólicos.

E uma das ideologias da Teologia da Libertação é esta: o Reino de Deus faz-se presente exclusivamente nos pobres (contrariando os três respectivos ensinamentos vistos anteriormente). “Tende-se, deste modo, a identificar o Reino de Deus e o seu advento com o movimento de libertação humana e a fazer da mesma história o sujeito de seu próprio desenvolvimento como processo da auto-redenção do homem por meio de luta de classes” (Libertatis Nuntius, 3).

Para eles o Reino de Deus dar-se-á à medida que acontecer a libertação humana, por meio da luta de classes seria uma espécie de “auto-redenção”. Onde, pois, estaria o Reino do qual Jesus fala? Será que este seria apenas uma mera libertação do poder opressor social? Cristo então teria morrido por causa, não da redenção humana e salvação da humanidade, mas da luta social e proletariado?

A nova hermenêutica inserida nas “teologias da libertação” conduz a uma releitura essencialmente política da Escritura. É assim que se atribui a máxima importância ao acontecimento do Êxodo, enquanto libertação da escravidão política. Propõe-se igualmente uma leitura política do Magnificat. O erro aqui não está em privilegiar uma dimensão política das narrações bíblicas, mas em fazer desta dimensão a dimensão principal e exclusiva, o que leva a urna leitura redutiva da Escritura” (Libertatis Nuntiuns, 5).

Logo percebemos que nesta Teologia há um grande esvaziamento da doutrina e uma má interpretação da mensagem de Cristo. Por conseguinte deparamo-nos também com uma contradição na afirmação do próprio Senhor que, ao ser interrogado por Pilatos se era Rei, responde: “Regnum meum non est de mundo hoc – O meu Reino não é deste mundo” (Jo 18, 36).

Ora, se o Reino de Cristo (=de Deus) não se reduz a uma realidade terrena, mas é muito mais do que podemos imaginar, uma realidade que vivamente a cada dia somos convidados, que transpõe um simples conceito de mundo e nos faz transcender ao mais alto dos céus, seria impossível que ele se fizesse presente nos pobres e marginalizados da sociedade, como prega a Teologia da Libertação. Se é prefigurado na Igreja, então não pode ser pessoal, individual, senão a Igreja como todo, o sinal visível de salvação e unidade que Cristo deixou para que, perpassados estes 2010 anos, pudesse Sua Palavra chegar a todos os homens de forma inviolável.

Comparar o Reino de Deus a realidades materiais é querer reduzi-lo a uma ação apenas humana, excluindo, assim, o seu verdadeiro sentido que é salvífico.

Chame-se a atenção contra uma politização da existência, que, desconhecendo ao mesmo tempo a especificidade do Reino de Deus e a transcendência da pessoa, acaba sacralizando a política e abusando da religiosidade do povo em proveito de iniciativas revolucionárias” (Libertatis Nuntiuns, 17).

Esta “politização” que deve ser detida. Não se pode politizar o Reino de Deus, e muito menos reduzi-lo, revogando para si direitos inaceitáveis.

Mediante este texto jamais minha intenção foi dizer que devemos esquecer-nos dos pobres, deixá-los à deriva, até por que estaria, eu, indo contra os ensinamentos de Jesus e da Igreja. O que desejo retratar é que não se deve fazer confusões doutrinárias. Praticar a caridade sem alterar a doutrina.

Nós professamos que o Reino de Deus iniciado aqui na Terra, na Igreja de Cristo, não é deste mundo, cuja figura passa, e que seu crescimento próprio não se pode confundir com o progresso da civilização, da ciência ou da técnica humanas, mas consiste em conhecer cada vez mais profundamente as insondáveis riquezas de Cristo, em esperar cada vez mais corajosamente os bens eternos, em responder cada vez mais ardentemente ao amor de Deus e em difundir cada vez mais amplamente a graça e a santidade entre os homens. Mas é este mesmo amor que leva a Igreja a preocupar-se constantemente com o bem temporal dos homens. Não cessando de lembrar a seus filhos que eles não têm aqui na Terra uma morada permanente, anima-os também a contribuir, cada qual segundo a sua vocação e os meios de que dispõem, para o bem de sua cidade terrestre, a promover a justiça, a paz e a fraternidade entre os homens, a prodigalizar-se na ajuda aos irmãos, sobretudo aos mais pobres e mais infelizes. A intensa solicitude da Igreja, esposa de Cristo, pelas necessidades dos homens, suas alegrias e esperanças, seus sofrimentos e seus esforços, nada mais é do que seu grande desejo de lhes estar presente para os iluminar com a luz de Cristo e reuni-los todos nele, seu único Salvador. Esta solicitude não pode, em hipótese alguma, comportar que a própria Igreja se conforme às coisas deste mundo, nem que diminua o ardor da espera pelo seu Senhor e pelo Reino eterno”. (Credo do Povo de Deus)

Que a Virgem Santíssima nos ajude a extirpar os erros da Teologia da Libertação, e nos ajude a apregoar a verdadeira doutrina transmitida pelos apóstolos.

Saudações em Cristo Jesus e Maria Santíssima!

Missão: objetivo da vida cristã

Mesmo viajando, dediquei um tempo a escrever o artigo deste XIV domingo do Tempo Comum. Precisamente porque no Evangelho encontramos uma fonte riquíssima sobre a necessidade do “ser missionário” hoje, especialmente em um mundo conturbado pelos valores anti-evangélicos e uma descristianização da humanidade. Enviando os discípulos para a missão, Jesus que mostrar-nos que o cristão deve estar inserido na missão, e, sobretudo, que este é o objetivo específico da vida cristã: anunciar Jesus a outros que ainda não o conhecem.

“Disse-lhes: Grande é a messe, mas poucos são os operários. Rogai ao Senhor da messe que mande operários para a sua messe” (Lc 10, 2). Em nossos dias, a Igreja tem repetido este mesmo pedido de Jesus. Poucos são os operários. E são poucos não por falta de quem os guie, mas porque são profundamente tomados pela escuridão das trevas. Nosso Senhor não apresenta forma de vida fácil para seus seguidores; pelo contrário, estes terão que sofrer muito, e, se preciso, terão que doar suas vidas pela causa do Reino de Deus. E precisamente aqui se prova a verdadeira capacidade de um discípulo, sua sinceridade e o seu amor incondicional pelo Evangelho. No domingo passado Jesus apresentou os meios pelos quais é possível segui-lo. Agora ele apresenta as conseqüências, mas também os inúmeros milagres que poderão ser operados, em seu nome, para a conversão das almas e para o perdão dos pecados.

A constante necessidade da Igreja para que aumente o número de sacerdotes é justamente porque ela tem esse perene dever de levar Jesus a lugares onde ele ainda é ocultado, às vezes por falta de conhecimento, outras vezes por causa de um sistema político capitalista e comunista, outras vezes, ainda, por causa de conflitos religiosos. E nesta sua missão ela vê se cumprir as palavras de Cristo: “Ide; eis que vos envio como cordeiros entre lobos” (Lc 10, 3). Sim, em uma sociedade tomada por “lobos” que querem impedir a expansão do Evangelho e a sua ação salvífica entre os homens, a Igreja toma para si todas as fadigas que suporta em nome de Cristo, e imperiosamente faz com que a Boa notícia seja anunciada a todos os homens deste mundo.

Jamais a Igreja se calará, pois sua missão não parte deste mundo, mas parte de uma ação de Cristo, de um desejo manifestado pelo Salvador. Nem os grandes imperadores puderam silenciar a Igreja. Nem este mundo poderá silenciar a Igreja, mas a Igreja silenciará o mundo, com todos os seus pecados, as suas omissões no seguimento a Cristo, a sua falta de amor. Ela mostra ao mundo que, só em Cristo, a humanidade poderá falar aquilo que é útil e que produz vida, santidade.

“Jesus disse-lhes: Vi Satanás cair do céu como um raio” (Lc 10, 18). Também nós poderemos contemplar esta visão, de ver cair, não mais Satanás, mas as suas artimanhas, suas ideologias e projetos, sua investidura contra a Santa Fé Católica e contra o Reino de Deus, prefigurado na Igreja.

Verdadeiramente, maior que as investidas do demônio, e mais salutar que seus ensinamentos, é a Cruz de Cristo, penhor da humanidade e salvação dos que crêem.

Peçamos ao Senhor que nos guie e faça de nós pessoas comprometidas com o Evangelho, para que aconteça conosco o que aconteceu com os apóstolos: estejamos com nossos nomes escritos no céu. E isto só poderá acontecer quando, vencendo as batalhas e cumprida a nossa missão, repousarmos em Cristo.

Fraternalmente em Cristo Jesus e Maria Santíssima!