“Meu Reino não é deste mundo”

Deveria ter feito algumas colocações sobre o Reino de Deus nos dois últimos domingos: um do Pai nosso e outro do domingo passado, que retratava a questão da vaidade e da ganância; porém, como não me foi possível fazê-lo, o farei agora, meditando sobre o Reino de Deus, e as três dimensões que o envolvem.

Em primeiro lugar gostaria de meditar sobre o em dimensão cristológica. Isto faremos baseando-nos no livro Jesus de Nazaré, de Sua Santidade o Papa Bento XVI. Essa primeira dimensão caracteriza-se pela pessoa de Jesus, Ele mesmo, em si, já seria o próprio Reino de Deus, como Orígenes definiu: autobasiléia. O próprio Jesus dá-nos a entender: “Mas, se é pelo Espírito de Deus que expulso os demônios, então chegou para vós o Reino de Deus” (Mt 12, 28).

Um segundo conceito seria o Reino de Deus “idealista”, ou seja, “essencialmente situado na interioridade do homem” (Jesus de Nazaré, pág. 60). Tal conceito provém também de Orígines, que, em seu escrito sobre a oração, diz: “quem reza pela chegada do Reino de Deus, reza sem dúvida pelo Reino de Deus que ele já leva em si mesmo, e pede para que este Reino produza frutos e para que chegue à sua plenitude… Por isso, se quisermos que Deus domine em nós, então o pecado não pode de modo nenhum dominar no nosso corpo mortal (Rm 6,12)… Então Deus deve passear em nós como num paraíso espiritual (Gn 3, 8 ) e somente em nós dominar com o seu Cristo” (PG 11, 495s).

E a terceira acepção seria sobre o Reino em sentido eclesiológico: A Igreja como prefiguração do Reino de Deus. “O Reino de Deus e a Igreja são colocados de um modo distinto em uma relação ao outro e mais ou menos aproximados um do outro” (Jesus de Nazaré, pag. 60).

Pois bem! Após tais colocações, desejo combater o sentido de “Reino de Deus” expresso, de modo errôneo, pela Teologia da Libertação. E onde está o erro? Em que contexto? Servirei-me também da Instrução Libertatis Nuntius, da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé.

Sabemos que, desde os primórdios, a Igreja anuncia veementemente a Boa Notícia do Evangelho, dada a conhecer primeira e unicamente aos pequeninos (notemos que pequeninos não são apenas os pobres financeiramente, mas todo aquele que humildemente segue os mandamentos e testemunha com convicção a sua fé, mesmo os ricos se repartem os seus bens e não os põe como centro de suas vidas) (cf. Lc 10, 21). Sabemos que a Igreja olha com amor e dedicação para os pobres, e não somente olha como também é a instituição que mais fez por eles. Mas tal atitude não deve procurar alterar aspectos teológicos da “sã doutrina” que foi-nos transmitida desde os tempos apostólicos.

E uma das ideologias da Teologia da Libertação é esta: o Reino de Deus faz-se presente exclusivamente nos pobres (contrariando os três respectivos ensinamentos vistos anteriormente). “Tende-se, deste modo, a identificar o Reino de Deus e o seu advento com o movimento de libertação humana e a fazer da mesma história o sujeito de seu próprio desenvolvimento como processo da auto-redenção do homem por meio de luta de classes” (Libertatis Nuntius, 3).

Para eles o Reino de Deus dar-se-á à medida que acontecer a libertação humana, por meio da luta de classes seria uma espécie de “auto-redenção”. Onde, pois, estaria o Reino do qual Jesus fala? Será que este seria apenas uma mera libertação do poder opressor social? Cristo então teria morrido por causa, não da redenção humana e salvação da humanidade, mas da luta social e proletariado?

A nova hermenêutica inserida nas “teologias da libertação” conduz a uma releitura essencialmente política da Escritura. É assim que se atribui a máxima importância ao acontecimento do Êxodo, enquanto libertação da escravidão política. Propõe-se igualmente uma leitura política do Magnificat. O erro aqui não está em privilegiar uma dimensão política das narrações bíblicas, mas em fazer desta dimensão a dimensão principal e exclusiva, o que leva a urna leitura redutiva da Escritura” (Libertatis Nuntiuns, 5).

Logo percebemos que nesta Teologia há um grande esvaziamento da doutrina e uma má interpretação da mensagem de Cristo. Por conseguinte deparamo-nos também com uma contradição na afirmação do próprio Senhor que, ao ser interrogado por Pilatos se era Rei, responde: “Regnum meum non est de mundo hoc – O meu Reino não é deste mundo” (Jo 18, 36).

Ora, se o Reino de Cristo (=de Deus) não se reduz a uma realidade terrena, mas é muito mais do que podemos imaginar, uma realidade que vivamente a cada dia somos convidados, que transpõe um simples conceito de mundo e nos faz transcender ao mais alto dos céus, seria impossível que ele se fizesse presente nos pobres e marginalizados da sociedade, como prega a Teologia da Libertação. Se é prefigurado na Igreja, então não pode ser pessoal, individual, senão a Igreja como todo, o sinal visível de salvação e unidade que Cristo deixou para que, perpassados estes 2010 anos, pudesse Sua Palavra chegar a todos os homens de forma inviolável.

Comparar o Reino de Deus a realidades materiais é querer reduzi-lo a uma ação apenas humana, excluindo, assim, o seu verdadeiro sentido que é salvífico.

Chame-se a atenção contra uma politização da existência, que, desconhecendo ao mesmo tempo a especificidade do Reino de Deus e a transcendência da pessoa, acaba sacralizando a política e abusando da religiosidade do povo em proveito de iniciativas revolucionárias” (Libertatis Nuntiuns, 17).

Esta “politização” que deve ser detida. Não se pode politizar o Reino de Deus, e muito menos reduzi-lo, revogando para si direitos inaceitáveis.

Mediante este texto jamais minha intenção foi dizer que devemos esquecer-nos dos pobres, deixá-los à deriva, até por que estaria, eu, indo contra os ensinamentos de Jesus e da Igreja. O que desejo retratar é que não se deve fazer confusões doutrinárias. Praticar a caridade sem alterar a doutrina.

Nós professamos que o Reino de Deus iniciado aqui na Terra, na Igreja de Cristo, não é deste mundo, cuja figura passa, e que seu crescimento próprio não se pode confundir com o progresso da civilização, da ciência ou da técnica humanas, mas consiste em conhecer cada vez mais profundamente as insondáveis riquezas de Cristo, em esperar cada vez mais corajosamente os bens eternos, em responder cada vez mais ardentemente ao amor de Deus e em difundir cada vez mais amplamente a graça e a santidade entre os homens. Mas é este mesmo amor que leva a Igreja a preocupar-se constantemente com o bem temporal dos homens. Não cessando de lembrar a seus filhos que eles não têm aqui na Terra uma morada permanente, anima-os também a contribuir, cada qual segundo a sua vocação e os meios de que dispõem, para o bem de sua cidade terrestre, a promover a justiça, a paz e a fraternidade entre os homens, a prodigalizar-se na ajuda aos irmãos, sobretudo aos mais pobres e mais infelizes. A intensa solicitude da Igreja, esposa de Cristo, pelas necessidades dos homens, suas alegrias e esperanças, seus sofrimentos e seus esforços, nada mais é do que seu grande desejo de lhes estar presente para os iluminar com a luz de Cristo e reuni-los todos nele, seu único Salvador. Esta solicitude não pode, em hipótese alguma, comportar que a própria Igreja se conforme às coisas deste mundo, nem que diminua o ardor da espera pelo seu Senhor e pelo Reino eterno”. (Credo do Povo de Deus)

Que a Virgem Santíssima nos ajude a extirpar os erros da Teologia da Libertação, e nos ajude a apregoar a verdadeira doutrina transmitida pelos apóstolos.

Saudações em Cristo Jesus e Maria Santíssima!